{"id":328198,"date":"2020-08-13T10:45:19","date_gmt":"2020-08-13T13:45:19","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=328198"},"modified":"2020-08-13T10:45:48","modified_gmt":"2020-08-13T13:45:48","slug":"machado-de-assis-advogado-por-jose-paulo-cavalcanti-filho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/machado-de-assis-advogado-por-jose-paulo-cavalcanti-filho\/","title":{"rendered":"\u201cMachado de Assis, advogado?\u201d, por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho"},"content":{"rendered":"<div class=\"entry-header\">\n<h1 class=\"jeg_post_title\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"jeg_post_subtitle\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Meu maior desejo \u00e9 que, no futuro, algu\u00e9m me fa\u00e7a justi\u00e7a. Algum advogado, talvez, que o perceba. Isso me causaria grande alegria. E, se assim for, serei sempre grato a ele.&#8221;<\/h2>\n<div class=\"jeg_meta_container\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"jeg_post_meta jeg_post_meta_1\">\n<div class=\"meta_left\"><\/div>\n<div class=\"meta_right\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"entry-content no-share\">\n<div class=\"jeg_share_button share-float jeg_sticky_share clearfix share-monocrhome\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"jegStickyHolder\">\n<div class=\"theiaStickySidebar\">\n<div class=\"jeg_share_float_container\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"content-inner \">\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*Por Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1908. Meu querido Nabuco. Espero que os ares de Hamilton, nessa fria Mass., estejam lhe fazendo bem. Junto com minha carta de 1\u00ba de agosto, mandei um exemplar do romance\u00a0<em>Memorial de Aires<\/em>. Ser\u00e1 meu derradeiro livro. M\u00e1rio de Alencar fez a fineza de ler, para mim, todas as cartas que trocamos. Ele \u00e9 meu filho (uma das lendas, sobre Machado, \u00e9 que M\u00e1rio seria filho n\u00e3o do amigo e escritor Jos\u00e9 de Alencar. Mas dele, Machado). Assim o considero. Tuas, contei, foram 21. Minhas, 31. Esta, que escrevo por m\u00e3os dele, ser\u00e1 minha \u00faltima. Estou morrendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproveito e fa\u00e7o, agora, um pequeno invent\u00e1rio \u00edntimo. Come\u00e7o por reconhecer que a Academia Brasileira de Letras, que ajudei a criar e onde agora vou t\u00e3o pouco, s\u00f3 me deu alegrias. Ter sido seu primeiro presidente foi, sobretudo, um enorme prazer. Tenho saudades da nossa Panelinha (a\u00a0express\u00e3o\u00a0<em>panelinha\u00a0<\/em>vem da\u00ed. Intelectuais se reuniam com frequ\u00eancia, a partir de 1901, sempre em torno de Machado.\u00a0 Os almo\u00e7os eram servidos em uma pequena panela de prata que acabou dando nome ao grupo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dos fatos que me v\u00eam, lembro especialmente de um.\u00a0 Por volta de 1855, deixei de ir, nos finais da tarde, \u00e0 Livraria Garnier. Amigos descobriram que, nessa hora, frequentava certa casa. Muitos imaginavam tratar-se de algum amor secreto. Ou viam algum outro mist\u00e9rio, nessas aus\u00eancias. N\u00e3o sabiam \u00e9 que ia s\u00f3 contemplar um quadro admir\u00e1vel do Roberto Fontana, que tem como t\u00edtulo\u00a0<em>La Donna che Legge<\/em>. Infelizmente, caro demais para minhas posses. E qual n\u00e3o foi minha surpresa quando o recebi, pouco depois, doado por sete amigos no\u00a0<em>Soneto Circular<\/em>, Machado cita seus nomes. Pela ordem, nos versos: \u201cHor\u00e1cio, Heitor, Cibr\u00e3o, Miranda, C. Pinto, X. Silveira, F. Ara\u00fajo\u201d. O soneto come\u00e7a assim: \u201cA bela dama ruiva e descansada,\/ De olhos longos, macios e perdidos\u201d. E encerra com esse terceto: \u201cMandam-me aqui para viver contigo.\/ \u00d3 bela dama, a ordens tais n\u00e3o fujo.\/ Que bons amigos s\u00e3o!. Fica comigo\u201d. Serei sempre grato a todos por tanto afeto.<\/p>\n<figure id=\"attachment_35655\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"text-align: justify;\" aria-describedby=\"caption-attachment-35655\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-35655 size-full\" src=\"https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/cartas.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" srcset=\"https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/cartas.jpg 1000w, https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/cartas-300x180.jpg 300w, https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/cartas-768x461.jpg 768w, https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/cartas-750x450.jpg 750w\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"600\" data-pin-no-hover=\"true\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-35655\" class=\"wp-caption-text\">Tudo come\u00e7a pelo fato de que recebo, todos os dias, muitas cartas.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escusas para narrar um epis\u00f3dio curioso. De poderes a mim atribu\u00eddos que n\u00e3o tenho. Tudo come\u00e7a pelo fato de que recebo, todos os dias, muitas cartas. Quase todas sem import\u00e2ncia. Por n\u00e3o ver sentido em guard\u00e1-las, nem desejar que caiam em m\u00e3os alheias, uma vez por semana as queimo em um caldeir\u00e3o de bronze (o caldeir\u00e3o, e o quadro, est\u00e3o hoje na Academia Brasileira de Letras). Por conta disso a vizinhan\u00e7a come\u00e7ou a me chamar de bruxo. Nada a ver com vivissec\u00e7\u00e3o de ratos ou sair voando por janelas (o coment\u00e1rio decorre de um poema de Drummond,\u00a0<em>A um Bruxo com Amor<\/em>: \u201cE ficas mirando o ratinho meio cad\u00e1ver\/ Com a polida, minuciosa curiosidade de quem saboreia por tabela\/ O prazer de Fortunato, vivisseccionista amador\u2026\/ E qual novo Ariel, sem mais resposta,\/ Sais pela janela, dissolves-te no ar\u201d), claro. A essa designa\u00e7\u00e3o, logo agregaram o nome da rua em que vim morar (Rua Cosme Velho 18, Rio), depois que deixamos o Catete.\u00a0 Passei a ser, ent\u00e3o, o\u00a0<em>Bruxo do Cosme Velho<\/em>. Acho divertida essa hist\u00f3ria. E gosto de ser chamado como tal. Deixe-se ficar, ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas os tempos bons se foram. E tudo, hoje, vai de mal a pior. A epilepsia me causa cada vez mais problemas. Nunca referi essa doen\u00e7a para qualquer pessoa. Nem escrevi sobre ela, salvo pequena passagem na primeira edi\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas.<\/em>\u00a0J\u00e1 na segunda, onde estava \u201crolar pelo ch\u00e3o, epil\u00e9tica\u201d, pus \u201crolar pelo ch\u00e3o, convulsa\u201d. Espero que a cr\u00edtica n\u00e3o note isso. Fosse pouco, e ando \u00e0s voltas\u00a0com uma\u00a0\u00falcera cancerosa na boca. Esfor\u00e7o-me por n\u00e3o deixar os mais pr\u00f3ximos perceber o quanto d\u00f3i essa mol\u00e9stia. Minha casa, nos \u00faltimos tempos, se converteu num vel\u00f3rio a c\u00e9u aberto. Com amigos, muitos. Mas tamb\u00e9m<strong>\u00a0<\/strong>desconhecidos que aqui v\u00eam, por mera curiosidade m\u00f3rbida, s\u00f3\u00a0para\u00a0ver onde morei. Um horror. Em sua \u00faltima carta, voc\u00ea me deu bela li\u00e7\u00e3o de vida: \u201cN\u00e3o se lembre dos 70 e ter\u00e1 40\u201d. Mas \u00e9 tarde, para mim. Tarde demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois que minha mulher faleceu, por pessoas pr\u00f3ximas soube que dizia preferir ver-me morrer primeiro.\u00a0 Mesmo sendo cinco anos mais velha que eu. Apenas por saber da falta que me faria. A realidade foi talvez mais penosa do que ela pensava. Sua falta \u00e9 absoluta. J\u00e1 n\u00e3o tenho quem me leia jornais e livros. Ou me ampare. Ou apenas fique a meu lado. A solid\u00e3o \u00e9 opressiva. Melhor heran\u00e7a \u00e9 Graziela, uma pequena cadela Tenerife que adotamos \u2013 j\u00e1 que n\u00e3o nos foi dado ter filhos. Todos os domingos vamos, juntos, ao t\u00famulo de minha t\u00e3o querida Carolina, no Cemit\u00e9rio de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. \u00c9 onde espero ser enterrado. A seu lado (assim se deu). E se tudo acontecer como pressinto, parto amanh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7o a pensar no destino de minhas obras, caro Joaquim Aur\u00e9lio Barreto Nabuco de Ara\u00fajo. Esta semana, alguns amigos que me v\u00eam sempre consolar fizeram entrar, no meu quarto, um rapazinho que nem 18 anos tinha. N\u00e3o disse nada. Apenas ajoelhou-se ao p\u00e9 da cama, tomou minha m\u00e3o e deu-lhe um beijo. Ap\u00f3s o que, sem sequer me dirigir um olhar, foi-se embora. Fiquei emocionado pela rever\u00eancia. E pedi ao Jos\u00e9 Ver\u00edssimo para saber quem era. Chamava-se Astrogildo Pereira (que, mais tarde, seria um importante jornalista). Levarei esse nome comigo. Gestos assim me fazem acreditar que, considerando tudo quanto escrevi, n\u00e3o serei esquecido por algum tempo. Quanto?, n\u00e3o sei. O futuro dir\u00e1.<\/p>\n<figure id=\"attachment_35656\" class=\"wp-caption alignnone\" style=\"text-align: justify;\" aria-describedby=\"caption-attachment-35656\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-35656 size-full\" src=\"https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/joaquimnabuco_machadodeassis.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" srcset=\"https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/joaquimnabuco_machadodeassis.jpg 1000w, https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/joaquimnabuco_machadodeassis-300x180.jpg 300w, https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/joaquimnabuco_machadodeassis-768x461.jpg 768w, https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/joaquimnabuco_machadodeassis-750x450.jpg 750w\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"600\" data-pin-no-hover=\"true\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-35656\" class=\"wp-caption-text\">Come\u00e7o a pensar no destino de minhas obras, caro Joaquim Aur\u00e9lio Barreto Nabuco de Ara\u00fajo.<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que penso ningu\u00e9m sabe \u00e9 que, por muitos anos, estudei as leis. Todas as noites. Apaixonadamente. A ponto de, imagino, estar habilitado a tornar-me advogado. Por essa raz\u00e3o, em minhas obras, empreguei numeros\u00edssimas express\u00f5es jur\u00eddicas. No conto\u00a0<em>O Programa<\/em>\u00a0um personagem, Romualdo, at\u00e9 antecipa essa vontade ao sonhar \u201cque seria citado algum dia entre os Nabucos, os Zacarias, os Teixeiras de Freitas, etc. Jurisconsultos\u201d.<strong>\u00a0<\/strong>Era de mim que falava.<strong>\u00a0<\/strong>Meu maior desejo \u00e9 que, no futuro, algu\u00e9m me fa\u00e7a justi\u00e7a. Algum advogado, talvez, que o perceba. Isso me causaria grande alegria. E, se assim<strong>\u00a0<\/strong>for, serei sempre grato a ele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tudo. Voc\u00ea \u00e9 meu maior e mais \u00edntimo amigo, por favor creia nisso. Agora, estou cansado. A perda de C. foi um desastre. Como estou \u00e0 beira do eterno aposento, n\u00e3o gastarei tempo em record\u00e1-la. Irei v\u00ea-la, breve (Machado, nascido em 21\/06\/1839, morreria no dia seguinte ao que escreveu, em 29\/09\/1908). E, diferentemente das outras cartas, me despe\u00e7o agora de maneira diferente. Adeus. Am\u00ba do C. Machado de Assis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-32802\" src=\"https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/ajos%C3%A9-paulo-150x150.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" srcset=\"https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/ajos\u00e9-paulo-150x150.jpg 150w, https:\/\/ricardoantunes.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/ajos\u00e9-paulo-75x75.jpg 75w\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" data-pin-no-hover=\"true\" \/>__________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>*Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho<\/strong>\u00a0\u00e9 advogado, jurista, e foi secret\u00e1rio-geral do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e Ministro interino da Justi\u00e7a.<\/p>\n<div class=\"jeg_post_tags\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Meu maior desejo \u00e9 que, no futuro, algu\u00e9m me fa\u00e7a justi\u00e7a. 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