{"id":329167,"date":"2020-08-22T19:58:04","date_gmt":"2020-08-22T22:58:04","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=329167"},"modified":"2020-08-22T19:58:04","modified_gmt":"2020-08-22T22:58:04","slug":"o-homem-que-nao-queria-ser-gabriel-garcia-marquez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-homem-que-nao-queria-ser-gabriel-garcia-marquez\/","title":{"rendered":"O homem que n\u00e3o queria ser Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez"},"content":{"rendered":"<header class=\"a_h | col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<div id=\"article_header\" class=\"a_hg basic | \">\n<h1 class=\"a_t | font_secondary color_gray_ultra_dark \"><\/h1>\n<h2 class=\"a_st font_secondary color_gray_dark \">O jornalista e escritor Eligio Garc\u00eda, irm\u00e3o do Nobel colombiano, passou a vida escondendo publicamente seu la\u00e7o familiar. S\u00f3 queria ser ele mesmo, sem viver \u00e0 sombra do irm\u00e3o famoso<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"lead_art |  \"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/PwHyyM7OjRetrI0gv6nH9C_ZK6I=\/1500x0\/filters:focal(562x333:572x343)\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/XIAKA2R7MVHGZIECIEZ5XB5BZA.jpg\" alt=\"O jornalista Eligio Garc\u00eda M\u00e1rquez.\" \/><figcaption class=\"f_c | color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\">O jornalista Eligio Garc\u00eda M\u00e1rquez.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">ARCHIVO DE MYRIAM GARZ\u00d3N<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sb | width_full border_bottom border_5\">\n<div class=\"sb_w | border_bottom border_1 padding_bottom flex\n          justify_space_between relative\"><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal  \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"a_by | margin_bottom_lg  \">\n<div class=\"a_auts flex flex_wrap \"><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center margin_right\"><a class=\"a_aut_n | color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Juan Cruz\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/juan-cruz\/\">JUAN CRUZ<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"\">\n<div class=\"a_pt | uppercase color_gray_medium_lighter \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"a_w | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\">Quando, aos nove anos, o professor perguntou a Eligio Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez (Col\u00f4mbia, 1947-2001) se gostaria de se tornar escritor como seu irm\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/gabriel-garcia-marquez\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Gabo<\/a>, o menino respondeu: \u201cN\u00e3o, porque eu<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/06\/cultura\/1551888378_718292.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0n\u00e3o gosto de contar mentiras<\/a>\u201d. Eligio foi batizado como Gabriel porque o pai dos Garc\u00eda M\u00e1rquez queria essa duplicidade em sua fam\u00edlia, mas ao longo dos anos, at\u00e9 2001, quando Eligio morreu em Bogot\u00e1, na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/colombia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Col\u00f4mbia<\/a>, esse descendente que levava tamb\u00e9m o nome do Nobel fez o poss\u00edvel para que o segundo nome \u2015e principalmente o parentesco imediato\u2015 nunca fosse revelado em p\u00fablico.<\/p>\n<p class=\"\">Eligio, que terminou contando mentiras, pois \u00e9 autor de alguns romances ficcionais e foi um importante jornalista em seu pa\u00eds, assinava Eligio Garc\u00eda. Assim se apresentava aos entrevistados (fez grandes entrevista liter\u00e1rias, como as contidas em\u00a0<i>Son As\u00ed \u2015Reportaje a Nueve Escritores Latinoamericano<\/i>s, editora La Oveja Negra, 1982; El \u00c1ncora Editores, 2002) e, dessa maneira, passou \u00e0 hist\u00f3ria do jornalismo e da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/literatura-espanola\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">literatura na l\u00edngua espanhola<\/a>.<\/p>\n<div class=\"teads-inread\">\n<div><\/div>\n<\/div>\n<section class=\"more_info | border_1 border_top pull_right\">&nbsp;<\/p>\n<\/section>\n<p class=\"\">At\u00e9 mesmo a reportagem inclu\u00edda nesse livro sobre a figura privada e p\u00fablica de seu irm\u00e3o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/10\/05\/cultura\/1507184845_983357.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">ganhador do Nobel\u00a0<\/a>foi publicada na imprensa sem assinatura. A identidade do autor s\u00f3 foi revelada para a publica\u00e7\u00e3o desse volume que hoje pode ser lido, em muitos aspectos, como uma novidade sobre um fen\u00f4meno que ele viveu de perto, sem nenhuma estrid\u00eancia al\u00e9m da que seu trabalho podia desatar.<\/p>\n<p class=\"\">Seu amigo Gustavo Tatis, escritor que acompanhou sua vida e sua obra at\u00e9 o final \u2015e que escreveu um livro j\u00e1 c\u00e9lebre sobre Gabo e sua fam\u00edlia,\u00a0<i>La Flor Amarilla del Prestidigitador\u00a0<\/i>(Navona 2019)\u2015, contava da Col\u00f4mbia: \u201cEligio lutou para ser ele mesmo. N\u00e3o queria viver da fama de seu irm\u00e3o mais velho. Em alguns casos, como [Mario]\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/mario-vargas-llosa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Vargas Llosa<\/a>, com quem esteve em Caracas quando Gabo recebeu o pr\u00eamio R\u00f3mulo Gallegos, n\u00e3o tinha como dissimular, mas perante outros, como Guillermo Cabrera Infante e Alejo Carpentier, apresentava-se como Eligio Garc\u00eda, e como Eligio Garc\u00eda assinava depois essas reportagens\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">No livro \u2015que \u00e9 hoje uma raridade sobre o\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/boom\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>boom<\/i><\/a>\u00a0de escritores latino-americanos visto por dentro, quando daquela explos\u00e3o s\u00f3 resta um sobrevivente, Vargas Llosa\u2015, Eligio narra a estranha situa\u00e7\u00e3o criada com o autor de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.portaldaliteratura.com\/livros.php?livro=6749\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>A Sagra\u00e7\u00e3o da Primavera<\/i><\/a>. Alejo Carpentier, que na \u00e9poca estava no auge da sua fama como antip\u00e1tico, concedeu a Eligio uma entrevista que nunca chegava a acontecer, por diferentes indisposi\u00e7\u00f5es do g\u00eanio cubano. E assim Eligio Garc\u00eda andou em peregrina\u00e7\u00e3o, sobretudo por Paris, sem que a reportagem desse certo, at\u00e9 que, nessa cidade, parecia que as coisas se encaixariam. Falso alarme, porque novamente aquele homem, muito mais \u00e1spero que sua literatura, lhe deu com a cara na porta, ainda que tenha querido presente\u00e1-lo com um livro autografado. \u201cComo voc\u00ea se chama?\u201d Eligio lhe disse seu nome, e Carpentier pediu que fosse mais espec\u00edfico. At\u00e9 que terminou por lhe dizer seus dois sobrenomes. \u201cE por que n\u00e3o me disse isso antes?!\u201d \u201cNunca dizia a ningu\u00e9m\u201d, conta Tatis.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/s1lBSGP4bFshXR8sYzSjUd9G8Uo=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/LTHINGGQERAX3JTF5OGZAQGVMY.jpg\" alt=\"Os irm\u00e3os Eligio e Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Os irm\u00e3os Eligio e Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez.<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Era, prossegue Tatis, \u201cde uma simplicidade impressionante\u201d. E acrescenta: \u201cAjudou escritores jovens a se sentirem pr\u00f3ximos de Gabo, estudou F\u00edsica para n\u00e3o se aproximar da literatura, ou talvez para se aproximar de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/10\/29\/cultura\/1414605613_125376.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Ernesto S\u00e1bato<\/a>, que foi seu amigo [e \u00e9 um dos grandes retratos do livro], e acabou escrevendo um dos livros-chaves sobre a escrita de seu irm\u00e3o,\u00a0<i>Tras las Claves de Melqu\u00edades<\/i>, al\u00e9m de\u00a0<i>La Tercera Muerte de Santiago Nasar<\/i>, sobre o romance que Gabo ambientou em Sucre, o lugar de nascimento de Eligio\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Sua paix\u00e3o por fazer\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/periodismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">jornalismo<\/a>\u00a0\u201ccomo os norte-americanos\u201d est\u00e1 presente sobretudo no texto que dedica ao seu irm\u00e3o em Caracas, naquela ocasi\u00e3o do pr\u00eamio R\u00f3mulo Galegos. Possu\u00eddo por aquela aspira\u00e7\u00e3o de totalidade que tinham os contempor\u00e2neos de Norman Mailer e Truman Capote,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2015\/04\/16\/cultura\/1429209581_454020.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">e o pr\u00f3prio lado jornal\u00edstico de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez<\/a>, Eligio terminava esse retrato com um mon\u00f3logo que poderia ser entendido como uma busca psicol\u00f3gica pelas origens liter\u00e1rias do autor de\u00a0<i>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/i>. \u201cEnt\u00e3o, a\u00ed est\u00e1 ele, o autor, como se n\u00e3o o fosse, como se fosse outro e n\u00e3o ele, seu dubl\u00ea, sabendo pela boca de Carmen Balcells aquelas not\u00edcias, recordando possivelmente como ela essas lembran\u00e7as, como o tempo passa, minha m\u00e3e, Bendici\u00f3n Alvarado, sabendo tamb\u00e9m pela boca do poeta \u00c1lvaro Mutis, que ontem \u00e0 noite ligou para ele do M\u00e9xico e lhe gritou vociferante \u2018durma tranquilo, meu general, porque hoje \u00e9 uma data hist\u00f3rica&#8217;, essa obra sacana me deixou sem f\u00f4lego, sabendo como os leitores devoravam o livro com muit\u00edssimo mais furiosa ansiedade do que foram devorados vivos Leticia Mercedes Mar\u00eda Nazareno e seu min\u00fasculo general de divis\u00e3o pelos sessenta c\u00e3es iguais das minhas desventuras\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Essa reportagem de Eligio, que inclui outros textos de \u00e9pocas concomitantes, tem esta nota de rodap\u00e9: \u201cEste texto foi publicado na revista\u00a0<i>Flash<\/i>, de Bogot\u00e1, em fevereiro de 1971, sem assinatura e com o t\u00edtulo de \u2018<i>Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez se afunda na solid\u00e3o da gl\u00f3ria<\/i>\u2019, e assim tamb\u00e9m foi reproduzida no Chile e na Venezuela. Esta \u00e9, portanto, a primeira vez que meu nome aparece vinculado a este texto\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">De semelhante envergadura, como estudo liter\u00e1rio de um jornalista que faz a li\u00e7\u00e3o de casa antes de perguntar, \u00e9 o trabalho que fez Eligio com o escritor cubano\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/guillermo-cabrera-infante\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Guillermo Cabrera Infante<\/a>\u00a0em Londres no final dos anos setenta. O autor de\u00a0<i>Tr\u00eas Tristes Tigres\u00a0<\/i>ainda estava se recuperando de um colapso nervoso, j\u00e1 era um exilado incomodado perigosamente pela ditadura cubana, e o jovem Garc\u00eda foi \u00e0 sua casa e conseguiu dele tal quantidade de detalhes extremamente liter\u00e1rios que da\u00ed surge um dos mais formosos retratos de Cabrera como escritor. Naturalmente, em algum lugar aparece o\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/noticias\/boom\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>boom<\/i><\/a>\u00a0da literatura latino-americana do qual o cubano foi escanteado.<\/p>\n<p class=\"\">Falando da origem do termo e tamb\u00e9m de seus integrantes, Cabrera Infante diz a Eligio: \u201c<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/05\/23\/cultura\/1464013100_740794.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">A palavra\u00a0<i>boom<\/i>\u00a0aplicada \u00e0 literatura e n\u00e3o \u00e0 economia<\/a>\u00a0foi uma inven\u00e7\u00e3o argentina. Concretamente, de uma revista de Buenos Aires: da\u00ed a atribui\u00e7\u00e3o do seu in\u00edcio\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2014\/02\/11\/cultura\/1392141836_920724.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00e0 publica\u00e7\u00e3o de\u00a0<i>O Jogo da Amarelinha<\/i><\/a>\u00a0[d<i>e\u00a0<\/i>Julio Cort\u00e1zar]. Acredito que se comete uma injusti\u00e7a com Vargas Llosa. Foi\u00a0<i>A Cidade e os C\u00e3es<\/i>, que ganhou o pr\u00eamio Biblioteca Breve e disputou o Formentor em 1962, o romance que fez o p\u00fablico na Espanha e na Am\u00e9rica Latina se interessar por uma literatura de fic\u00e7\u00e3o escrita em espanhol. Mas nesse mesmo ano, n\u00e3o se deve esquecer,\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/jorge-luis-borges\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Jorge Luis Borges\u00a0<\/a>ganhou ex-aequo com Beckett o pr\u00eamio Formentor, que o transformou em uma figura liter\u00e1ria internacional, levando a literatura escrita em espanhol mais longe que Vargas Llosa\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">O peruano, naturalmente, \u00e9 tema dos retratos de Eligio. E n\u00e3o, a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/07\/06\/cultura\/1499366796_414985.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">famosa briga entre Vargas Llosa e Gabo<\/a>\u00a0n\u00e3o aparece aqui. A reportagem se intitula\u00a0<i>O bom, o mau e o feio<\/i>, foi publicada em 1967 depois da passagem do jovem Vargas Llosa por Bogot\u00e1 e \u00e9, outra vez, um retrato veloz, mas profundo, de uma das personalidades-chaves do\u00a0<i>boom<\/i>. \u201cTrabalhador incans\u00e1vel, pe\u00e3o da literatura, como ele mesmo se qualifica, Vargas Llosa n\u00e3o parou quieto um s\u00f3 instante (\u2026). Teve tempo para investigar todas as refer\u00eancias \u00e0 obra de Garc\u00eda M\u00e1rquez anterior a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/03\/15\/cultura\/1552681746_926411.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/i><\/a>, um livro que gostaria muito de ter escrito ele mesmo, como admitiu publicamente em uma reportagem. E tamb\u00e9m reservadamente seus elogios ao colombiano foram ainda maiores e mais entusiasmados, j\u00e1 que segundo, Vargas Llosa, esse romance faz de Garc\u00eda M\u00e1rquez uma esp\u00e9cie de\u00a0<a href=\"https:\/\/librotea.elpais.com\/libros\/amadis-de-gaula-i\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Amadis de Gaula<\/a>\u00a0das Am\u00e9ricas, o autor de um desses romances de cavalaria que tanto agradam ao escritor peruano\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Eligio acompanha o futuro Nobel ao cinema, onde os irm\u00e3os veem um filme de Clint Eastwood. \u201cOuvem-se murm\u00farios na sala, algu\u00e9m tenta aplaudir, outro assobio. Mas um assobio mais potente o abafa: vem da tela. \u00c9 a m\u00fasica do filme que se inicia: \u00e9 Clint Eastwood, em companhia de outros dois foragidos, em busca de um punhado de d\u00f3lares.\u201d\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-07-06\/compositor-ennio-morricone-morre-aos-91-anos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Ennio Morricone\u00a0<\/a>pondo sil\u00eancio na sala.<\/p>\n<p class=\"\">Este tesouro do novo jornalismo hispano-americano, compadre de<i>\u00a0Los Nuestros<\/i>, de Luis Harss, cont\u00e9m outras del\u00edcias, como a conversa com Jorge Luis Borges, o retrato de Cort\u00e1zar, o desenho nu de Carlos Fuentes e o relato \u00edmpar de suas horas com<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/juan-carlos-onetti\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0Juan Carlos Onetti\u00a0<\/a>no apartamento que o uruguaio teve na Avenida de Am\u00e9rica, em Madri. Em nenhuma dessas avenidas pelas quais transitou Eligio Garc\u00eda deixou rastro de que falava de uma tribo, de um nome ou de um sobrenome que tornasse sua voz mais poderosa que as de qualquer outro. Era o homem que s\u00f3 quis ser Eligio Garc\u00eda, um escritor, um jornalista. O livro teria que ser ensinado nas escolas dos que querem aprender a fazer perguntas aos escritores.<\/p>\n<p class=\"\">Uma vez concorreu a um pr\u00eamio liter\u00e1rio. \u201cSe n\u00e3o for bom, n\u00e3o o premiem\u201d, disse seu irm\u00e3o. N\u00e3o o premiaram. Quando descobriu o tumor que acabaria com sua vida, Gabo lhe ofereceu toda a sua ajuda. \u201cEle o amava\u201d, diz o amigo Tatis, \u201ce n\u00e3o queria ser ele\u201d. Em todo caso foi, conta seu amigo, \u201cuma ponte para ele\u201d.<\/p>\n<h3 class=\"font_secondary color_gray_ultra_dark\">\u201cUm bando de loucos\u201d<\/h3>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/ZMiFMCdDwkaT-B4hClz_d35tCgQ=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/MU3UNE4HK6SR3BZ3SLHP6EFATQ.jpg\" alt=\"Gabo e a esposa Mercedes Barcha, quando receberam a not\u00edcia do Nobel de Literatura, em 1982. \" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Gabo e a esposa Mercedes Barcha, quando receberam a not\u00edcia do Nobel de Literatura, em 1982.\u00a0<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">\u00c1LBUM FAMILIAR DE MERCEDES BARCHA \/ GABO PERIODISTA \/ FNPI) \/ EL PA\u00cdS<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Uma irm\u00e3 de Gabo certa vez recriminou a rec\u00e9m-falecida mulher do escritor pelos entraves que ela impunha a qualquer aproxima\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os do Nobel, mesmo que por telefone.<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-08-17\/morre-mercedes-barcha-a-mulher-que-tornou-possivel-o-sucesso-de-garcia-marquez.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0Mercedes Barcha, que morreu nesta semana no M\u00e9xico<\/a>, a mulher que p\u00f4s a vida em ordem para que o autor de\u00a0<i>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/i>\u00a0se dedicasse apenas \u00e0 literatura, lhe disse: \u201c\u00c9 que voc\u00eas s\u00e3o um bando de loucos\u201d. \u201cMas voc\u00ea levou o mais louco de todos!\u201d, replicou sua cunhada.<\/p>\n<p class=\"\">O di\u00e1logo foi lembrado por outro irm\u00e3o do escritor que em 2008, j\u00e1 se sabendo que este vinha perdendo a mem\u00f3ria, anunciou publicamente que n\u00e3o sairiam novos livros de Gabo.\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/12\/12\/cultura\/1513102189_486543.html?rel=listapoyo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">A inconfid\u00eancia, como outras, pareceu impr\u00f3pria a Mercedes<\/a>. Conta Tatis que ela apaziguou \u201co temperamento dos numerosos irm\u00e3os de Gabo, que encarnavam com<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2017\/06\/04\/cultura\/1496600143_627064.html?rel=listapoyo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00a0certas semelhan\u00e7as os Aurelianos e os Buend\u00eda de Macondo<\/a>, todos eles narradores orais, ingovern\u00e1veis, vulc\u00e2nicos e apraz\u00edveis, mas com matizes excepcionais, como a serena sabedoria de Aida, a amorosa obstina\u00e7\u00e3o religiosa de Ligia, a abnega\u00e7\u00e3o de Margot, a tranquilidade de Rita\u201d. Em meio a esse universo de loucos e cordatos, \u201cMercedes protegia Gabo de ataques \u00e0 privacidade e \u00e0s inconfid\u00eancias\u201d dos pr\u00f3ximos. Mas \u201csua rela\u00e7\u00e3o com todos eles foi uma curiosa mistura de hermetismo amoroso e afetivo, sabedoria, prud\u00eancia e cordialidade\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Gabo, que n\u00e3o mexia com dinheiro, era administrado em tudo por\u00a0<i>La Gaba<\/i>. Deu casa de presente ao irm\u00e3o que n\u00e3o a tivesse, foi deferente com todos e sempre teve a seguran\u00e7a de que Mercedes administrava tamb\u00e9m \u201co departamento de rancores\u201d, no qual, por outro lado, n\u00e3o tinha tantos afazeres.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma irm\u00e3 de Gabo certa vez recriminou a rec\u00e9m-falecida mulher do escritor pelos entraves que ela impunha a qualquer aproxima\u00e7\u00e3o dos irm\u00e3os do Nobel, mesmo que por telefone.\u00a0Mercedes Barcha, que morreu nesta semana no M\u00e9xico, a mulher que p\u00f4s a vida em ordem para qu<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":329168,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-329167","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/garcia-marques.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/329167","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=329167"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/329167\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/329168"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=329167"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=329167"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=329167"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}