{"id":329171,"date":"2020-08-22T20:08:44","date_gmt":"2020-08-22T23:08:44","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=329171"},"modified":"2020-08-22T20:08:44","modified_gmt":"2020-08-22T23:08:44","slug":"o-alimento-supernutritivo-que-se-adaptou-a-todas-as-culturas-e-mudou-o-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-alimento-supernutritivo-que-se-adaptou-a-todas-as-culturas-e-mudou-o-mundo\/","title":{"rendered":"O alimento supernutritivo que se adaptou a todas as culturas e &#8216;mudou o mundo&#8217;"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Diego Arguedas Ortiz<\/span><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/10569\/production\/_113912966_whatsubject.jpg\" alt=\"As comunidades ind\u00edgenas nos Andes ainda mant\u00eam uma forte rela\u00e7\u00e3o com a batata\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>As comunidades ind\u00edgenas nos Andes ainda mant\u00eam uma forte rela\u00e7\u00e3o com a batata<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">No livro\u00a0<i>Mitologias<\/i>, de 1957, o fil\u00f3sofo franc\u00eas Roland Barthes chamou a batata frita (<i>la frite<\/i>) de &#8220;patri\u00f3tica&#8221; e s\u00edmbolo da \u201cfrancesidade&#8221;.<\/p>\n<p>Apenas um s\u00e9culo antes, uma praga havia destru\u00eddo as planta\u00e7\u00f5es de batata da Irlanda, levando \u00e0 chamada Grande Fome, que em poucos anos reduziu pela metade a popula\u00e7\u00e3o local, produzindo um efeito em cascata de d\u00e9cadas de turbul\u00eancia econ\u00f4mica e social.<\/p>\n<p>E, atualmente, os principais produtores mundiais de batata s\u00e3o China, \u00cdndia, R\u00fassia e Ucr\u00e2nia, respectivamente.<\/p>\n<p>Mas, apesar das rela\u00e7\u00f5es profundas e complexas que essas na\u00e7\u00f5es t\u00eam com a batata, e do qu\u00e3o interligadas suas sociedades e economias est\u00e3o com tub\u00e9rculo, nenhuma delas pode chamar as batatas de \u201cnativa\u201d.<\/p>\n<p>A batata come\u00e7ou a ser cultivada na Cordilheira dos Andes, na Am\u00e9rica do Sul, h\u00e1 cerca de 8 mil anos e s\u00f3 foi levada para a Europa em meados de 1500, de onde se espalhou para o resto do mundo.<\/p>\n<p>&#8220;Apesar de ser nativa dos Andes, \u00e9 um alimento global incrivelmente bem-sucedido&#8221;, diz a historiadora de alimentos Rebecca Earle, que est\u00e1 tra\u00e7ando a jornada planet\u00e1ria da batata no livro\u00a0<i>Feeding the People: The Politics of the Potato\u00a0<\/i>(\u201cAlimentando o Povo: a Pol\u00edtica da Batata\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<div class=\"teads-inread sm-screen\">\n<div class=\"teads-ui-components-credits\"><\/div>\n<\/div>\n<p>&#8220;\u00c9 cultivada praticamente no mundo todo, e em praticamente todos os lugares, as pessoas a consideram um alimento regional.\u201d<\/p>\n<p>Para o resto do mundo al\u00e9m dos Andes, a batata pode n\u00e3o ser nativa, mas parece local. Earle chama o tub\u00e9rculo de &#8220;o imigrante mais bem-sucedido do mundo&#8221;, uma vez que sua origem se tornou irreconhec\u00edvel para produtores e consumidores de toda parte.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12C79\/production\/_113912967_whatsubject.jpg\" alt=\"Ren\u00e9 G\u00f3mez mostra diferentes variedades do tub\u00e9rculo no Centro Internacional da Batata, em Lima\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Ren\u00e9 G\u00f3mez mostra diferentes variedades do tub\u00e9rculo no Centro Internacional da Batata, em Lima<\/figure>\n<p>Agricultores americanos e italianos apaixonados por nhoque reivindicam a batata tanto quanto qualquer peruano, porque sua hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apenas a de um pa\u00eds ou regi\u00e3o, mas um testemunho de como o homem transformou sua rela\u00e7\u00e3o com a terra e os alimentos em poucas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A batata \u00e9 a quarta safra mais importante do mundo, depois do arroz, trigo e milho, e a primeira entre os chamados n\u00e3o-gr\u00e3os. Como um tub\u00e9rculo andino poderia convencer o mundo, em apenas alguns s\u00e9culos, a adot\u00e1-lo t\u00e3o amplamente?<\/p>\n<p>O que tornou a batata t\u00e3o irresist\u00edvel foi seu valor nutricional incompar\u00e1vel, sua relativa facilidade de cultivo em compara\u00e7\u00e3o com alguns cereais, sua habilidade de sobreviver a guerras e driblar cobradores de imposto devido ao seu talento para se esconder embaixo do solo e, em particular, \u00e0 sua camaradagem com os camponeses.<\/p>\n<p>Um bom lugar para entender suas origens \u00e9 o Centro Internacional da Batata (CIP, na sigla em espanhol), um instituto de pesquisa e desenvolvimento que estuda e promove tudo relacionado ao tub\u00e9rculo. Localizado em Lima, capital peruana, o centro abriga uma cole\u00e7\u00e3o de milhares de amostras de batata de todo o continente.<\/p>\n<p>&#8220;Nos Andes, \u00e9 onde est\u00e1 a maior diversidade gen\u00e9tica, mas voc\u00ea pode encontrar batatas do Chile aos Estados Unidos&#8221;, diz Ren\u00e9 G\u00f3mez, curador do banco de germoplasma do CIP.<\/p>\n<p>Segundo ele, as batatas foram domesticadas (ou seja, passaram a ser plantadas e colhidas pelo homem) no alto dos Andes, perto do Lago Titicaca, a quase 1.000 km a sudeste de Lima.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s serem domesticadas, as primeiras planta\u00e7\u00f5es do tub\u00e9rculo se espalharam pela cordilheira e se tornaram um suprimento alimentar crucial para as comunidades ind\u00edgenas, incluindo os incas \u2013 sobretudo por meio do chu\u00f1o, alimento \u00e0 base de batata liofilizada que pode durar anos ou at\u00e9 d\u00e9cadas.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15389\/production\/_113912968_whatsubject.jpg\" alt=\"O Centro Internacional da Batata criou um mapa para mostrar o movimento global da batata desde que foi domesticada nos Andes\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O Centro Internacional da Batata criou um mapa para mostrar o movimento global da batata desde que foi domesticada nos Andes<\/figure>\n<p><strong>Fora das Am\u00e9ricas<\/strong><\/p>\n<p>Em 1532, a invas\u00e3o espanhola p\u00f4s fim ao Imp\u00e9rio Inca, mas n\u00e3o ao cultivo de batatas.<\/p>\n<p>Os conquistadores cruzaram o Atl\u00e2ntico de volta \u00e0 Europa levando os tub\u00e9rculos, como fizeram com outras culturas, como de tomate, abacate e milho. E, pela primeira vez na hist\u00f3ria, a batata se aventurou al\u00e9m das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>As primeiras variedades andinas de batata tiveram dificuldade para se adaptar \u00e0 Espanha e outras partes da Europa continental.<\/p>\n<p>Na regi\u00e3o equatorial, onde as batatas foram domesticadas, a dura\u00e7\u00e3o do dia \u00e9 basicamente a mesma ao longo do ano \u2013 ent\u00e3o aquela esp\u00e9cie estava acostumada com 12 horas de luz solar diariamente, explica o geneticista evolucionista Hernan A Burbano Roa.<\/p>\n<p>Os longos dias de ver\u00e3o na Europa confundiram os p\u00e9s de batata, e os tub\u00e9rculos n\u00e3o cresceram durante os meses mais quentes, considerados mais prop\u00edcios; em vez disso, prosperaram no outono, mas perto demais do inverno para sobreviver. E assim as primeiras d\u00e9cadas de plantio no Velho Continente n\u00e3o foram bem-sucedidas.<\/p>\n<p>Mas as batatas encontraram melhores condi\u00e7\u00f5es na Irlanda, onde um outono frio, mas sem gelo, deu \u00e0 colheita tempo suficiente para se desenvolver ap\u00f3s ser trazida da Espanha na d\u00e9cada de 1580.<\/p>\n<p>Um s\u00e9culo de sele\u00e7\u00f5es feitas por agricultores produziu uma variedade que estabeleceu o plantio dos tub\u00e9rculos no in\u00edcio do ver\u00e3o, e a batata passou a ser o cultivo b\u00e1sico dos camponeses.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1EF1\/production\/_113912970_foto4.jpg\" alt=\"Batatas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>As 151 esp\u00e9cies conhecidas de batata selvagem s\u00e3o ancestrais da batata de hoje<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O humilde tub\u00e9rculo<\/h2>\n<p>Os camponeses valorizavam as batatas porque proporcionavam uma produ\u00e7\u00e3o incompar\u00e1vel por hectare. Na Irlanda, em particular, eles arrendavam as terras que cultivavam, e \u00e0 medida que os donos das propriedades aumentavam as taxas, eles eram for\u00e7ados a produzir o m\u00e1ximo de alimento poss\u00edvel dentro da menor \u00e1rea poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8220;Nenhuma lavoura produzia mais alimento por hectare, exigia menos cultivo e era t\u00e3o f\u00e1cil de armazenar quanto a batata&#8221;, escreveu o soci\u00f3logo James Lang em seu livro\u00a0<i>Notes of a Potato Watcher<\/i>.<\/p>\n<p>As batatas cont\u00eam quase todas as vitaminas e nutrientes importantes, exceto as vitaminas A e D, o que faz com que suas propriedades para a sa\u00fade n\u00e3o se compare a de qualquer outra lavoura. Coma a batata com casca e adicione alguns latic\u00ednios, que fornecem as duas vitaminas que faltam, e voc\u00ea ter\u00e1 uma dieta saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>Voc\u00ea ainda tem 2g de prote\u00edna para cada 100g de batata; e, se acreditarmos em algumas estimativas de consumo de meados do s\u00e9culo 17 na Irlanda, um adulto consumia 5,5 quilos por dia.<\/p>\n<p>Para os camponeses sem terra dos s\u00e9culos 17 e 18 na Irlanda, um \u00fanico hectare cultivado com batatas e uma vaca leiteira era em termos nutricionais suficiente para alimentar uma fam\u00edlia de seis a oito pessoas. Nenhum cereal poderia igualar essa proeza.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/6D11\/production\/_113912972_foto5.jpg\" alt=\"Batatas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>No Tajiquist\u00e3o, as comunidades locais tamb\u00e9m adotaram a batata como um dos seus alimentos regionais<\/figure>\n<p>Assim, come\u00e7ou o fasc\u00ednio de camponeses irlandeses e brit\u00e2nicos com a batata, uma rela\u00e7\u00e3o constru\u00edda a partir da escassez e terras arrendadas.<\/p>\n<p>Das Ilhas Brit\u00e2nicas, as batatas se espalharam em dire\u00e7\u00e3o ao leste cruzando os campos de cultivo no norte da Europa, diz Lang: elas chegaram aos Pa\u00edses Baixos em 1650; na Alemanha, Pr\u00fassia e Pol\u00f4nia em 1740; e na R\u00fassia na d\u00e9cada de 1840.<\/p>\n<p>Depois que os agricultores filtraram as variedades e os genes menos aptos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas locais, o tub\u00e9rculo prosperou.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/ADFD\/production\/_113914544_foto6.jpg\" alt=\"Batatas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A primeira evid\u00eancia do cultivo de batata no Canad\u00e1 \u00e9 de 1623<\/figure>\n<p>Os camponeses das plan\u00edcies europeias devastadas pela guerra, por conflitos como a Guerra da Sucess\u00e3o Austr\u00edaca e a Guerra dos Sete Anos, descobriram rapidamente outra vantagem do plantio de batatas: elas eram muito dif\u00edceis de serem tributadas e saqueadas.<\/p>\n<p>&#8220;Se voc\u00ea tem um campo de trigo, est\u00e1 totalmente a mostra. Voc\u00ea n\u00e3o pode esconder\u201d, afirma Earle, explicando que os cobradores de impostos podem medir visualmente o tamanho da planta\u00e7\u00e3o e retornar a tempo da colheita.<\/p>\n<p>Mas as batatas est\u00e3o bem escondidas embaixo da terra, e voc\u00ea pode desenterr\u00e1-las uma a uma, conforme necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8220;Essa colheita a conta-gotas ocultou a colheita dos cobradores de impostos e protegeu o suprimento de comida dos camponeses em tempos de guerra&#8221;, conta Lang em seu livro.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/FC1D\/production\/_113914546_foto7.jpg\" alt=\"Batatas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>A Grande Fome da Irlanda, que reduziu pela metade a popula\u00e7\u00e3o local, aconteceu em decorr\u00eancia de uma praga que devastou as planta\u00e7\u00f5es de batata<\/figure>\n<p>\u201cSoldados saqueadores destru\u00edram planta\u00e7\u00f5es e invadiram armaz\u00e9ns de gr\u00e3os. Eles raramente paravam para desenterrar um acre de batatas.\u201d<\/p>\n<p>As elites e os estrategistas militares da \u00e9poca perceberam isso. N\u00e3o foi \u00e0 toa que o rei da Pr\u00fassia, Frederico, o Grande, ordenou que seu governo distribu\u00edsse instru\u00e7\u00f5es sobre como plantar batatas, esperando que os camponeses tivessem comida no caso de uma invas\u00e3o das tropas inimigas durante a Guerra da Sucess\u00e3o Austr\u00edaca em 1740.<\/p>\n<p>Outras na\u00e7\u00f5es seguiram o mesmo exemplo e, na \u00e9poca das guerras napole\u00f4nicas, no in\u00edcio de 1800, a batata havia se tornado a reserva alimentar da Europa, de acordo com um relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO, na sigla em ingl\u00eas).<\/p>\n<p>Na verdade, os tub\u00e9rculos se tornaram uma lavoura t\u00e3o valorizada durante os tempos de guerra que &#8220;toda campanha militar em solo europeu ap\u00f3s 1560 aproximadamente resultou em um aumento na \u00e1rea cultivada de batata, inclusive na Segunda Guerra Mundial&#8221;, escreveu o historiador William McNeill em seu ensaio\u00a0<i>How the Potato Changed the World&#8217;s History<\/i>\u00a0(\u201cComo a batata mudou a hist\u00f3ria do mundo\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre), de 1999.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Nutri\u00e7\u00e3o e poder<\/h2>\n<p>Em quest\u00e3o de s\u00e9culos, as batatas entraram para as economias europeia e global como uma lavoura b\u00e1sica.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, historiadores da alimentos atribu\u00edram essa dissemina\u00e7\u00e3o a s\u00e1bios iluministas obcecados pelas propriedades nutricionais do tub\u00e9rculo, que conseguiram convencer uma popula\u00e7\u00e3o relutante e conservadora a adotar o alimento.<\/p>\n<p>Mas Earle tem suas d\u00favidas. Foram os camponeses que adaptaram a batata \u00e0 Europa, ela argumenta, portanto n\u00e3o precisavam ser convencidos.<\/p>\n<p>As elites n\u00e3o descobriram uma nova lavoura, mas come\u00e7aram a se atentar para o conceito de comida saud\u00e1vel. Em vez de introduzir um \u201csuperalimento\u201d na dieta europeia, perceberam que a nutri\u00e7\u00e3o precisava assumir um papel mais central e come\u00e7aram a buscar alimentos que poderiam atender a esse prop\u00f3sito.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/14A3D\/production\/_113914548_foto8.jpg\" alt=\"Batatas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O governo do Peru est\u00e1 trabalhando com comunidades ind\u00edgenas para proteger a heran\u00e7a gen\u00e9tica da batata<\/figure>\n<p>O humilde tub\u00e9rculo j\u00e1 estava l\u00e1.<\/p>\n<p>Discuss\u00f5es iluministas sobre &#8220;popula\u00e7\u00e3o&#8221;, e o que sua sa\u00fade significava para o poder do Estado, mudaram as estrat\u00e9gias pol\u00edticas durante o s\u00e9culo 18, e tamb\u00e9m o destino da batata.<\/p>\n<p>Se uma popula\u00e7\u00e3o numerosa e forte era crucial para a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e o poderio militar, o Estado precisava entender e gerenciar os nutrientes que as pessoas estavam comendo.<\/p>\n<p>Comida abundante e saud\u00e1vel se tornou crucial para a constru\u00e7\u00e3o de um Imp\u00e9rio, escreveu Earle no artigo\u00a0<i>Promoting Potatoes in Eighteenth-Century Europe\u00a0<\/i>(\u201cPromovendo as batatas na Europa no s\u00e9culo 18\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o livre), de 2018.<\/p>\n<p>Assim, ela argumenta, o fasc\u00ednio pelas batatas n\u00e3o vem do surgimento de uma nova lavoura, mas dos novos conceitos europeus a respeito da rela\u00e7\u00e3o entre comida e Estado.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/15A5\/production\/_113914550_foto9.jpg\" alt=\"Grandes chefs, como Virgilio Martinez, est\u00e3o apresentando diferentes variedades de batata em suas cria\u00e7\u00f5es\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Grandes chefs, como Virgilio Martinez, est\u00e3o apresentando diferentes variedades de batata em suas cria\u00e7\u00f5es<\/figure>\n<p>E, neste quesito, a batata era imbat\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8220;A comida produzida por um campo de batata \u00e9 muito superior \u00e0 que \u00e9 produzida por um campo de trigo&#8221;, escreveu Adam Smith em\u00a0<i>A Riqueza das Na\u00e7\u00f5es<\/i>.<\/p>\n<p>&#8220;Nenhum alimento pode oferecer uma prova mais decisiva de sua qualidade nutritiva ou de ser peculiarmente adequado \u00e0 sa\u00fade da constitui\u00e7\u00e3o humana.&#8221;<\/p>\n<p>Mas, embora Adam Smith estivesse certo ao destacar as virtudes da batata, foram os camponeses, e n\u00e3o as elites, que fizeram da batata um elemento presente nos campos e fazendas europeias.<\/p>\n<p>Mas como pensadores como Smith e seus contempor\u00e2neos compararam o valor nutricional da batata? Earle lembra que, no s\u00e9culo 18, os cientistas ainda n\u00e3o haviam estabelecido uma linguagem para vitaminas, prote\u00ednas e minerais.<\/p>\n<p>\u201cO que eles fizeram foi dizer: \u2018Olhe para as pessoas que comem batata. S\u00e3o mais robustas, mais fortes t\u00eam mais energia do que aquelas que comem outras coisas\u2019&#8221;, afirma Earle, que chefia o Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade de Warwick, no Reino Unido.<\/p>\n<p>Mas, como ela argumenta, as batatas atenderam a esse objetivo de constru\u00e7\u00e3o do Estado n\u00e3o apenas por causa de seu valor nutricional, mas porque j\u00e1 haviam sido plantadas em campos de todo o continente. Seus admiradores enalteceram suas virtudes.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/63C5\/production\/_113914552_foto10.jpg\" alt=\"Batatas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Nos restaurantes de Virgilio Martinez, os clientes podem experimentar algumas das quase 5 mil esp\u00e9cies de batatas do Peru<\/figure>\n<p>Eles n\u00e3o estavam errados. Um artigo de economia amplamente citado analisou informa\u00e7\u00f5es de registros militares de soldados franceses nascidos ap\u00f3s 1700 e mostrou que comer batata deixava as pessoas um pouco mais altas.<\/p>\n<p>De acordo com a revista acad\u00eamica The Quarterly Journal of Economics, em vilarejos que eram totalmente voltados ao cultivo de batata, a introdu\u00e7\u00e3o do tub\u00e9rculo aumentou a altura m\u00e9dia dos adultos em aproximadamente meia polegada.<\/p>\n<p>O mesmo artigo apresenta uma afirma\u00e7\u00e3o ainda mais contundente: de que a popula\u00e7\u00e3o na Europa e na \u00c1sia explodiu ap\u00f3s a dissemina\u00e7\u00e3o da batata.<\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, a introdu\u00e7\u00e3o do tub\u00e9rculo \u00e9 respons\u00e1vel por quase um quarto do crescimento da popula\u00e7\u00e3o e da urbaniza\u00e7\u00e3o do Velho Mundo entre 1700 e 1900.<\/p>\n<p>&#8220;As batatas, ao alimentar a popula\u00e7\u00e3o em r\u00e1pido crescimento, permitiram que um punhado de pa\u00edses europeus impusesse seu dom\u00ednio sobre a maior parte do mundo entre 1750 e 1950&#8221;, escreveu McNeill.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">De volta aos Andes<\/h2>\n<p>O frenesi em torno da batata continuou at\u00e9 que uma praga abriu caminho para a Grande Fome na Irlanda de 1845 a 1849.<\/p>\n<p>O fracasso da colheita, agravado pela resposta totalmente inadequada do governo brit\u00e2nico em Londres (que decidiu contra o socorro, e apostou nas for\u00e7as do mercado), levou \u00e0 morte de um milh\u00e3o de habitantes. E provocou a emigra\u00e7\u00e3o de mais 3 milh\u00f5es de pessoas, sendo um milh\u00e3o para os EUA.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o da Irlanda foi reduzida pela metade em quest\u00e3o de d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A Grande Fome chamou a aten\u00e7\u00e3o para o fato de a batata ter fornecido 80% do consumo cal\u00f3rico no pa\u00eds, com apenas um punhado de variedades de lavoura dispon\u00edveis.<\/p>\n<p>Um bloco alimentar t\u00e3o homog\u00eaneo tornou a batata suscet\u00edvel a pragas, uma vez que sua diversidade gen\u00e9tica desapareceu com a domestica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para ser honesto, alguma mistura de variedades j\u00e1 havia ocorrido na Europa por volta da d\u00e9cada de 1750. Burbano fez parte de uma equipe que analisou os genes das batatas europeias para estudar seus ancestrais \u2013 e concluiu que variedades andinas antigas misturadas com tub\u00e9rculos mais tarde trazidos das plan\u00edcies do centro-sul do Chile, como a ilha de Chilo\u00e9, foram naturalmente domesticadas pelos longos dias do hemisf\u00e9rio sul.<\/p>\n<p>Essa primeira mistura fornece apenas algumas caracter\u00edsticas \u00fateis, mas n\u00e3o possui profundidade gen\u00e9tica suficiente; portanto, os programas de reprodu\u00e7\u00e3o ao longo dos anos t\u00eam buscado maneiras de melhorar a seguran\u00e7a alimentar para os produtores de batata.<\/p>\n<p>\u201cUma das maneiras pelas quais os produtores costumavam criar resist\u00eancia era olhando para as batatas selvagens\u201d, explicou Burbano, se referindo a primos comest\u00edveis da batata que ainda sobrevivem nos Andes e no restante do seu habitat natural.<\/p>\n<p>H\u00e1 151 esp\u00e9cies conhecidas, e elas s\u00e3o os ancestrais das batatas de hoje, que perderam a diversidade gen\u00e9tica ap\u00f3s s\u00e9culos servindo seres humanos.<\/p>\n<p>Nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo 20, os cientistas come\u00e7aram a combinar genes da batata convencional, na esperan\u00e7a de manter suas caracter\u00edsticas domesticadas, com genes da batata selvagem, no intuito de obter sua resist\u00eancia a pragas.<\/p>\n<p>A maioria dos tub\u00e9rculos cultivados hoje \u00e9 resultado de testes como esse.<\/p>\n<p>Essas esp\u00e9cies selvagens tamb\u00e9m podem ser uma resposta para outra quest\u00e3o premente: as mudan\u00e7as de temperatura e nas condi\u00e7\u00f5es de chuva devido \u00e0 crise clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Um estudo recente mostrou que o aumento das emiss\u00f5es pode causar uma redu\u00e7\u00e3o de at\u00e9 26% na produ\u00e7\u00e3o global de tub\u00e9rculos at\u00e9 2085. E os recursos gen\u00e9ticos dessas esp\u00e9cies podem fornecer caracter\u00edsticas desej\u00e1veis, como toler\u00e2ncia \u00e0 geada, seca ou aumento de temperatura.<\/p>\n<p>Os produtores na Europa e nos Estados Unidos, e mais recentemente na \u00c1sia, v\u00eam desenvolvendo essas variedades mais resistentes h\u00e1 anos, abrindo caminho para que as batatas se tornassem uma safra verdadeiramente global no s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>Na China, o governo est\u00e1 promovendo agressivamente a batata entre sua popula\u00e7\u00e3o, esperando que ela possa se tornar uma nova safra nacional e alimento b\u00e1sico no pa\u00eds.<\/p>\n<p>As autoridades locais est\u00e3o seguindo t\u00e1ticas semelhantes \u00e0s da Europa do s\u00e9culo 18, propagando a ideia por meio da imprensa estatal, figuras populares e livros cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Na \u00cdndia, as batatas s\u00e3o preparadas de centenas de maneiras diferentes \u2013 e \u00e9 dif\u00edcil convencer os agricultores de que elas n\u00e3o s\u00e3o de l\u00e1.<\/p>\n<p>Do outro lado do mundo, a batata reacendeu antigas rivalidades entre Peru e Chile sobre quem pode reivindicar o tub\u00e9rculo como seu, al\u00e9m de ter inspirado os principais chefs de Lima e dos Andes \u2013 como Virgilio Martinez, que abriu o restaurante Mil em 2019.<\/p>\n<p>Enquanto os peruanos insistem que as batatas foram domesticadas em seu territ\u00f3rio atual (e em partes da vizinha Bol\u00edvia), uma ministra chilena contra-argumentou em 2008 que a grande maioria dos tub\u00e9rculos no mundo \u00e9 de origem chilena.<\/p>\n<p>Mas o debate n\u00e3o \u00e9 necessariamente apenas sobre hist\u00f3ria \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m sobre orgulho nacional.<\/p>\n<p>&#8220;O disparate \u00e9 que a hist\u00f3ria da batata come\u00e7ou mil\u00eanios antes da exist\u00eancia do conceito de Estado-na\u00e7\u00e3o&#8221;, declarou Charles Crissman, pesquisador do International Potato Center, em reportagem publicada pelo jornal americano New York Times em 2008.<\/p>\n<p>&#8220;Mas, sim, as primeiras batatas vieram do que \u00e9 hoje o Peru.&#8221;<\/p>\n<p>A disputa com o Chile sobre a origem da batata irritou os peruanos porque aconteceu justamente durante o Ano Internacional da Batata em 2008, promovido pela FAO, que tamb\u00e9m reconhece o Peru como ber\u00e7o do tub\u00e9rculo.<\/p>\n<p>O pa\u00eds criou o Centro Internacional de Batata em 1971 e trabalhou com comunidades ind\u00edgenas nos picos das montanhas para proteger a heran\u00e7a gen\u00e9tica dos tub\u00e9rculos.<\/p>\n<p>O Parque da Batata, um pequeno parque agr\u00edcola em Cusco, abriga um museu \u201cvivo\u201d do tub\u00e9rculo, em seu ambiente natural, um lembrete de onde a batata vem, mas tamb\u00e9m um indicador de onde ela pode chegar: o material gen\u00e9tico proveniente de batatas menos domesticadas pode abrir um novo caminho para a safra, \u00e0 medida que surgem novas amea\u00e7as, como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e press\u00f5es no setor agr\u00edcola.<\/p>\n<p>A duas horas de carro a leste de Cusco, voc\u00ea encontra o restaurante Mil, uma vers\u00e3o ambiciosa da culin\u00e1ria tradicional peruana, localizado a 3,6 mil metros de altura, em meio \u00e0s nuvens das montanhas andinas. Gra\u00e7as aos seus renomados chefs, aqui voc\u00ea pode experimentar algumas das quase 5 mil esp\u00e9cies de batatas do Peru.<\/p>\n<p>Mas que outros pratos tradicionais cultuam a batata mundo afora? O curry indiano? O fish and chips brit\u00e2nico? Os mexilh\u00f5es com batata frita belga?<\/p>\n<p>Com a versatilidade global das batatas, as possibilidades s\u00e3o infinitas.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do outro lado do mundo, a batata reacendeu antigas rivalidades entre Peru e Chile sobre quem pode reivindicar o tub\u00e9rculo como seu, al\u00e9m de ter inspirado os principais chefs de Lima e dos Andes \u2013 como Virgilio Martinez, que abriu o restaurante Mil em 2019.<\/p>\n<p>Enquanto os peruanos insistem que as ba<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":329172,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1175,6],"tags":[],"class_list":["post-329171","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/antigo-povo.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/329171","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=329171"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/329171\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/329172"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=329171"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=329171"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=329171"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}