{"id":329999,"date":"2020-08-31T08:41:09","date_gmt":"2020-08-31T11:41:09","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=329999"},"modified":"2020-08-31T08:41:09","modified_gmt":"2020-08-31T11:41:09","slug":"os-3-dias-em-que-alfredo-di-stefano-entao-melhor-jogador-do-mundo-ficou-sequestrado-na-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-3-dias-em-que-alfredo-di-stefano-entao-melhor-jogador-do-mundo-ficou-sequestrado-na-venezuela\/","title":{"rendered":"Os 3 dias em que Alfredo di St\u00e9fano, ent\u00e3o &#8216;melhor jogador do mundo&#8217; ficou sequestrado na Venezuela\u00a0"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><strong><span class=\"byline__name\">Margarita Rodr\u00edguez<\/span><\/strong><\/div>\n<div class=\"with-extracted-share-icons\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share\">\n<div class=\"story-body__mini-info-list-and-share-row\">\n<div class=\"share-tools--no-event-tag\">\n<div id=\"comp-pattern-library\" class=\"distinct-component-group container-twite\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/DF12\/production\/_114060175_gettyimages-451803678.jpg\" alt=\"Alfredo Di St\u00e9fano\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Alfredo Di St\u00e9fano, um dos maiores jogadores de futebol da hist\u00f3ria, em foto de 1956<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">Eram 6h da manh\u00e3 de 24 de agosto de\u00a0<a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/topics\/cnq68qw6d4jt\">1963<\/a>\u00a0quando tocou o telefone do quarto 216 do Hotel Potomac, em Caracas, capital da Venezuela.<\/p>\n<p>&#8211; Al\u00f4.<\/p>\n<p>&#8211; Senhor Di St\u00e9fano?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, fale.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 policiais aqui que querem fazer algumas perguntas ao senhor e pedem que o senhor des\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Se eles querem falar comigo, deixe-os subir.<\/p>\n<p>E desligou.<\/p>\n<ul class=\"story-body__unordered-list\">\n<li class=\"story-body__list-item\"><a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-53686439\">Como a d\u00edvida do Corinthians com a Odebrecht est\u00e1 prestes a virar p\u00f3<\/a><\/li>\n<li class=\"story-body__list-item\"><a class=\"story-body__link\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-53870486\">\u00c9 verdade que nevou em S\u00e3o Paulo em 1918?<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>O argentino Alfredo Di St\u00e9fano, considerado o melhor jogador de futebol da \u00e9poca, achou que fosse um trote de seus companheiros do Real Madrid, diz Alfredo Rela\u00f1o, presidente honor\u00e1rio do jornal esportivo espanhol AS e co-autor de\u00a0<i>Gracias, vieja<\/i>, o livro de mem\u00f3rias de Di St\u00e9fano.<\/p>\n<p>Em alguns minutos, Di St\u00e9fano ouviria uma batida na porta de seu quarto. Quando o jogador de futebol a abriu, se deparou com um funcion\u00e1rio do hotel e tr\u00eas homens que se identificaram como policiais. Eles lhe explicaram que queriam fazer algumas perguntas e pediram para que ele os acompanhasse.<\/p>\n<p>Seu companheiro de time Jos\u00e9 Emilio Santamar\u00eda, que estava no quarto ao lado, ouviu o que estava acontecendo e entrou por uma porta que dividia os dois ambientes.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/46BA\/production\/_114060181_gettyimages-57564712.jpg\" alt=\"Alfredo Di St\u00e9fano\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Di St\u00e9fano morreu aos 88 anos em Madri, na Espanha, em 7 de julho de 2014<\/figure>\n<p>&#8220;Ele disse: &#8216;Espere. Vamos avisar algu\u00e9m do clube antes de voc\u00ea descer&#8217;. Mas Di St\u00e9fano disse que n\u00e3o e preferiu descer&#8221;, lembra o jornalista espanhol.<\/p>\n<p>Santamar\u00eda os observou partir. Os homens colocaram Di St\u00e9fano em um carro e o informaram se tratar de um sequestro.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Espanha em suspense<\/h2>\n<p>&#8220;Eles o vendaram. Disseram-lhe para ficar calmo, que n\u00e3o ia acontecer nada com ele. A partir daquele momento, eles o levaram a lugares diferentes: primeiro a um apartamento, depois a uma casa de campo, por fim a um outro apartamento, j\u00e1 no centro da cidade. Ele, vendado, n\u00e3o conseguiu identificar as rotas&#8221;, escreveu Rela\u00f1o em 2013, em um artigo no jornal espanhol El Pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s 13h, um porta-voz da organiza\u00e7\u00e3o subversiva For\u00e7as Armadas de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (FALN) ligou para o hotel&#8221; e informou: &#8220;Di St\u00e9fano est\u00e1 bem, que n\u00e3o sofrer\u00e1 nenhuma agress\u00e3o e que o libertar\u00e3o assim que o sequestro obtiver publicidade suficiente&#8221;.<\/p>\n<p>Rela\u00f1o tinha 12 anos quando ocorreu o sequestro. &#8220;Lembro que meu pai trabalhava \u00e0 noite no hotel Palace em Madrid e quando chegou de manh\u00e3 me contou sobre o ocorrido&#8221;, diz ele.<\/p>\n<p>&#8220;Me impressionou muito. Por tr\u00eas dias, toda a Espanha ficou em suspense&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>&#8220;Ele foi o jogador de futebol mais famoso do mundo. Esteve na capa da revista americana Time. J\u00e1 havia ganhado cinco Copas da Europa, de 1956 a 1960.&#8221;<\/p>\n<p>O Real Madrid, um dos clubes mais importantes do mundo, estava na Venezuela para disputar um amistoso de grande prest\u00edgio. Era a chamada &#8220;Pequena Ta\u00e7a do Mundo&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17B52\/production\/_114060179_gettyimages-1242105.jpg\" alt=\"Alfredo Di St\u00e9fano\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Di St\u00e9fano era muito popular no fim dos anos 1950 e in\u00edcio dos anos 1960<\/figure>\n<p>Di St\u00e9fano, estrela da sele\u00e7\u00e3o espanhola, havia passado pelo River Plate e Hurac\u00e1n, da Argentina, e Millonarios, da Col\u00f4mbia. Era considerado um \u00eddolo na regi\u00e3o.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Ningu\u00e9m pode entrar ou sair&#8217;<\/h2>\n<p>O jornalista venezuelano Alex Candal n\u00e3o era nascido quando ocorreu o sequestro, mas, quando fala desse epis\u00f3dio, d\u00e1 tantos detalhes que parece que viveu naquela \u00e9poca em Caracas.<\/p>\n<p>Ele descreve o hotel (&#8220;com o interior em estilo\u00a0<i>art d\u00e9co<\/i>&#8220;), o sal\u00e3o de beleza que ficava no t\u00e9rreo (&#8220;muito famoso e gigantesco&#8221;), o bairro (San Bernardino), a padaria que ficava nas proximidades e, mais ainda, as emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E \u00e9 f\u00e1cil descobrir por que Candal tem essas mem\u00f3rias. O jornalista, que trabalha no canal de TV DirecTV Sport, \u00e9 filho do famoso comentarista de futebol espanhol L\u00e1zaro Candal, que atuou por d\u00e9cadas na Venezuela.<\/p>\n<p>Quando ocorreu o sequestro, L\u00e1zaro era correspondente do di\u00e1rio esportivo espanhol Marca na Venezuela e tamb\u00e9m escrevia para o jornal venezuelano El Mundo.<\/p>\n<p>A mulher de L\u00e1zaro, m\u00e3e de Candal, trabalhava no sal\u00e3o de beleza do Hotel Potomac e seu tio (um irm\u00e3o dela), em uma padaria pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o incidente, as autoridades ordenaram o fechamento do sal\u00e3o de beleza. &#8220;Minha m\u00e3e descobriu o que aconteceu quando disseram a ela: &#8216;Ningu\u00e9m pode entrar ou sair porque acabaram de sequestrar um jogador de futebol chamado Di St\u00e9fano'&#8221;, diz Candal.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12D32\/production\/_114060177_gettyimages-85699864.jpg\" alt=\"Alfredo Di St\u00e9fano\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Di St\u00e9fano era um dos jogadores mais prol\u00edficos do Real Madrid<\/figure>\n<p>&#8220;Ainda em p\u00e2nico, ela imediatamente ligou para meu pai e meu irm\u00e3o e contou a eles sobre o ocorrido. &#8216;Estou apavorada, porque eles n\u00e3o me deixam sair do sal\u00e3o. A pol\u00edcia est\u00e1 aqui&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ou seja, meu pai conseguiu dar o furo sobre a not\u00edcia, porque minha m\u00e3e lhe contou. Ele pediu para ela se acalmar: &#8216;Vou pra a\u00ed.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Mas, primeiro, ele ligou para a reda\u00e7\u00e3o do Marca em Madri e disse: &#8216;Acabaram de sequestrar para Di St\u00e9fano em Caracas'&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo Candal, o jornal venezuelano El Mundo estampou naquela mesma tarde a not\u00edcia em sua primeira p\u00e1gina. Seu pai estava na reda\u00e7\u00e3o no momento do telefonema de sua m\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8220;Quando minha m\u00e3e contou para meu tio, ele contou para seu colega de trabalho, que respondeu: &#8216;Foi Paulito.&#8217;<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Paulito&#8217;<\/h2>\n<p>N\u00e3o que o colega do tio de Candal soubesse do plano. Na verdade, seu tom era de lamento. Era mais uma intui\u00e7\u00e3o, um medo.<\/p>\n<p>&#8220;Paulito&#8221;, a que se referia o colega de trabalho do tio de Candal, era seu pr\u00f3prio filho: Pa\u00fal del R\u00edo, que havia ingressado na luta revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Del R\u00edo foi o guerrilheiro, conhecido pelo pseud\u00f4nimo M\u00e1ximo Canales, que liderou o sequestro de Di St\u00e9fano. &#8220;Naquela \u00e9poca ele era um menino, tinha cerca de 19 anos e j\u00e1 havia ingressado na luta armada&#8221;, conta Candal.<\/p>\n<p>Ao deixar a Espanha, seus pais foram para Cuba, onde ele nasceu, e depois para a Venezuela. Seu pai foi &#8220;um anarquista que teve que deixar seu pa\u00eds no ex\u00edlio&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Pa\u00fal cresceu imbu\u00eddo de ideias de esquerda. A queda da ditadura e o triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana fizeram dele um prot\u00f3tipo do Bom Revolucion\u00e1rio&#8221;, escreveu Candal em\u00a0<i>Disculpen las molestias, es F\u00fatbol a mi manera<\/i>\u00a0(&#8220;Desculpem o transtorno, \u00e9 futebol do meu jeito&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre para o portugu\u00eas).<\/p>\n<p>Na verdade, Rela\u00f1o reflete sobre as semelhan\u00e7as entre o sequestro de Di St\u00e9fano e o do melhor piloto de F\u00f3rmula 1 da \u00e9poca: Juan Manuel Fangio, em 1958, em Havana, pelo grupo revolucion\u00e1rio Movimento 26 de Julho.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de Candal e a do sequestrador de Di St\u00e9fano se conheciam h\u00e1 anos, como membros da comunidade espanhola. &#8220;A surpresa quando meus pais voltaram para casa \u00e9 que eles sabiam quem foi, o que acrescentou mais drama \u00e0 hist\u00f3ria. Eles disseram: &#8216;Mas meu Deus, como esse garoto entrou nisso se seu pai \u00e9 um homem de bem? Esse menino pode ser meu filho e est\u00e1 se envolvendo com coisas revolucion\u00e1rias&#8221;, diz o jornalista venezuelano.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">&#8216;Que susto&#8217;<\/h2>\n<p>A promessa de os sequestradores de tratar bem Di St\u00e9fano foi mantida em todos os momentos.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/F6D2\/production\/_114168136_5e701604-eeea-4076-b41e-7f3475d5831d.jpg\" alt=\"L\u00e1zaro Candal e Alfredo Di St\u00e9fano\" width=\"1600\" height=\"1350\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>L\u00e1zaro Candal, um dos mais queridos comentaristas de futebol da Venezuela, e Alfredo Di St\u00e9fano, em foto de 1982<\/figure>\n<p>&#8220;Di St\u00e9fano diz que quando a venda foi retirada, a primeira coisa que viu foram muitos quadros. Ele percebeu que estava em um apartamento cheio de quadros&#8221; , diz Candal. Era a casa de Del R\u00edo, e essas eram suas obras. Ele era um pintor.<\/p>\n<p>O jornalista venezuelano diz que os sequestradores colocaram telas nas janelas para que Di St\u00e9fano n\u00e3o pudesse olhar para fora e ver onde estava.<\/p>\n<p>Anos depois, em outra coincid\u00eancia, Candal e Di St\u00e9fano se encontrariam de novo, porque juntos cobriram as Copas 78 e 82 para uma emissora venezuelana.<\/p>\n<p>&#8220;O meu pai era o narrador dos jogos e o Di St\u00e9fano, o comentarista. Estabeleceram uma grande amizade, e o meu pai lhe disse que conhecia o pai de Pa\u00fal e Pa\u00fal desde pequeno.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E o Di St\u00e9fano lhe respondeu: &#8216;Que susto ele me deu. Abri a porta do quarto porque ele me disse que era policial. Vi tr\u00eas rapazes. Puseram-me no carro. Mas trataram-me bem, alimentaram-me muito bem: alguns sandu\u00edches realmente bons e, depois, jogamos xadrez. &#8221;<\/p>\n<p>Mas Di St\u00e9fano nunca negou que foi uma experi\u00eancia traum\u00e1tica. &#8220;Ele disse ao meu pai que ficou totalmente apavorado, porque nunca imaginou que isso pudesse acontecer com ele&#8221;, conta Candal.<\/p>\n<p>O craque tamb\u00e9m confidenciou a Rela\u00f1o: &#8220;Passei muito mal&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Para fazer com que o libertassem, Di St\u00e9fano disse aos sequestradores que seus pais tinham problemas de cora\u00e7\u00e3o e que poderiam morrer por causa do que estava acontecendo.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Seu principal temor era que a pol\u00edcia chegasse e houvesse troca de tiros e ele se ferisse ou morresse&#8221;, diz Candal.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Cachorros-quentes e paella<\/h2>\n<p>Seus sequestradores, especialmente Del R\u00edo, reiteraram a Di St\u00e9fano que nada lhe aconteceria, que s\u00f3 queriam chamar a aten\u00e7\u00e3o para sua causa.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/9E4B\/production\/_114132504_51eda9c2-8811-49c1-8d68-3ef747991e53.jpg\" alt=\"Alfredo Rela\u00f1o, jornalista esportivo, junto com Di St\u00e9fano\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Alfredo Rela\u00f1o, jornalista esportivo, junto com Di St\u00e9fano<\/figure>\n<p>&#8220;Durante o dia, o apartamento era frequentado pelos mandantes (do sequestro) e alguns intelectuais de esquerda, e, \u00e0 noite, alguns moleques com grandes metralhadoras&#8221;, diz Rela\u00f1o.<\/p>\n<p>Houve tempo para jogar cartas e domin\u00f3: &#8220;Apostaram at\u00e9 em cavalos de corrida porque Di St\u00e9fano gostava de cavalos&#8221;.<\/p>\n<p>Deixaram-no ouvir o jogo entre Real Madrid e Porto no r\u00e1dio. Di St\u00e9fano comeu cachorro quente e &#8220;at\u00e9 uma\u00a0<i>paella<\/i>&#8220;.<\/p>\n<p>Mas nada parecia tranquiliz\u00e1-lo. At\u00e9 pensou em fugir, como o pr\u00f3prio Di St\u00e9fano contou no document\u00e1rio\u00a0<i>El secuestro de la Saeta\u00a0<\/i>(apelido pelo qual era conhecido, La Saeta Rubia, ou A Flecha Loira), da emissora ESPN.<\/p>\n<p>&#8220;Estava em um quarto, em um pequeno apartamento em Caracas, que era uma quitinete. N\u00e3o tirei os sapatos nem a roupa. Estava vendo se conseguia escapar. Felizmente, n\u00e3o. Mas tive a inten\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>Mas Di St\u00e9fano temia que, se tentasse fugir, poderia ser morto.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/90F2\/production\/_114060173_gettyimages-515820778.jpg\" alt=\"Di St\u00e9fano\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Not\u00edcia de sequestro foi duro golpe para fam\u00edlia de Di St\u00e9fano na Espanha e na Argentina<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Liberta\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Depois de tr\u00eas dias, ele foi informado que seria libertado. &#8220;Eles trocaram as roupas que ele vestia, tentaram raspar seu cabelo, para ficar menos reconhec\u00edvel, mas Di St\u00e9fano os dissuadiu (&#8220;se eu quase n\u00e3o tenho cabelo, ainda mais loiro!&#8221;), Eles mudaram de ideia e colocaram um chap\u00e9u nele&#8221;, escreveu Rela\u00f1o em seu artigo.<\/p>\n<p>O jornalista conta que Di St\u00e9fano at\u00e9 pediu uma pistola para o caso de um tiroteio. &#8220;N\u00e3o quero morrer como um coelho&#8221;, disse ele. Mas eles n\u00e3o lhe deram nada e o vendaram novamente.<\/p>\n<p>Di St\u00e9fano foi colocado em um ve\u00edculo. Depois de algum tempo, os sequestradores pararam e abriram a porta em uma avenida no centro de Caracas. &#8220;Ele desceu, correu e foi para tr\u00e1s de uma \u00e1rvore. Estava com muito medo. N\u00e3o sabia se iam mat\u00e1-lo&#8221;, diz Rela\u00f1o.<\/p>\n<p>Ele pegou um t\u00e1xi e conseguiu chegar \u00e0 embaixada espanhola. &#8220;Quando ele chegou, viu a placa que dizia: &#8216;Aberta das 10h \u00e0s 14h&#8217;. Ele olhou para o rel\u00f3gio, e eram 14h10. E come\u00e7ou a tocar a campainha sem parar e s\u00f3 parou quando abriraram a porta&#8221;, diz Rela\u00f1o.<\/p>\n<p>Ele foi reconhecido imediatamente e levado para dentro. Rela\u00f1o conta que telefonaram para o hotel e para a fam\u00edlia de Di St\u00e9fano na Espanha e na Argentina.<\/p>\n<p>A boa nova se espalhou. Mais uma vez, uma not\u00edcia relacionada \u00e0 estrela do futebol correu o mundo.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/13835\/production\/_114052997_gettyimages-106505755.jpg\" alt=\"Alfredo Di St\u00e9fano com fam\u00edlia\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>Chegada de Di St\u00e9fano Madrid. Sua esposa, Sara, e seus tr\u00eas filhos estavam esperando por ele<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">A partida<\/h2>\n<p>Di St\u00e9fano deu uma entrevista coletiva a jornalistas na qual parecia muito tenso. Posteriormente, explicou por qu\u00ea: &#8220;Entre os policiais que viu ali, reconheceu dois dos sequestradores. Eles estavam infiltrados dentro da pol\u00edcia&#8221;, diz Rela\u00f1o. Ningu\u00e9m foi preso.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o sequestro, Santiago Bernab\u00e9u, presidente do Real Madrid, pediu-lhe para jogar a pr\u00f3xima partida, que seria contra o S\u00e3o Paulo. Em 28 de agosto, Saeta entrou em campo e foi aplaudido de p\u00e9. &#8220;Ele jogou o primeiro tempo, embora estivesse muito nervoso&#8221;, diz Rela\u00f1o.<\/p>\n<p>O S\u00e3o Paulo se sagrou campe\u00e3o, e o Real Madrid deixou a Venezuela. No aeroporto da capital espanhola, Di St\u00e9fano n\u00e3o foi apenas aguardado com ansiedade pela mulher Sara e os filhos, mas tamb\u00e9m por uma multid\u00e3o de f\u00e3s.<\/p>\n<p>Em 1982, conta Candal, sua fam\u00edlia aceitou o convite para passar alguns dias na casa do craque, em Madri. &#8220;Pa\u00fal del R\u00edo presenteou Di St\u00e9fano com seus quadros anos depois&#8221;, conta o jornalista.<\/p>\n<p>&#8220;Mas n\u00e3o foi para pedir perd\u00e3o. Era um sinal de que sua inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o era prejudic\u00e1-lo, que se tratou de uma a\u00e7\u00e3o para fazer barulho&#8221;, disse Del R\u00edo a Candal quando este o entrevistou muitos anos depois e falaram sobre o sequestro e seu &#8220;idealismo&#8221; daqueles anos.<\/p>\n<p>O ex-guerrilheiro se dedicou \u00e0 pintura e \u00e0 arte. D\u00e9cadas depois, por ocasi\u00e3o de um filme do pr\u00f3prio Real Madrid sobre o sequestro, os dois foram convidados para a estreia.<\/p>\n<p>&#8220;(Os idealizadores) queriam um aperto de m\u00e3o como uma esp\u00e9cie de elemento publicit\u00e1rio para o filme, mas Di St\u00e9fano n\u00e3o quis porque se lembrou do medo pelo qual passou e tamb\u00e9m experimentado por seus pais e familiares&#8221;, lembra Rela\u00f1o.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O que estava acontecendo na Venezuela?<\/h2>\n<p>Rela\u00f1o lembra que, em uma partida anterior ao sequestro, jogadores do Real Madrid ouviram tiros e tumultos fora do est\u00e1dio. &#8220;O intervalo durou 40 minutos enquanto a pol\u00edcia controlava a situa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz ele.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/040A\/production\/_113043010_6_uslar.jpg\" alt=\"R\u00f3mulo Betancourt\" width=\"624\" height=\"351\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span><\/figure>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\">R\u00f3mulo Betancourt \u00e9 considerado um dos pais da democracia venezuelana<\/figure>\n<p>Agust\u00edn Blanco Mu\u00f1oz, professor do Centro de Estudos de Hist\u00f3ria Atual da Universidade Central da Venezuela, explica que, para entender o sequestro de Di St\u00e9fano, \u00e9 importante lembrar que de 1959 a 1963, o pa\u00eds viveu um per\u00edodo de grande viol\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos em pleno processo do que se chamou de luta armada, que teve um componente fundamental: uma viol\u00eancia governamental muito bem estruturada, tanto no aparelho pol\u00edtico quanto no militar. E, por outro lado, as chamadas for\u00e7as revolucion\u00e1rias que foram concebidas pela improvisa\u00e7\u00e3o e por pr\u00e1ticas que n\u00e3o surtiram efeito nem na luta armada urbana nem rural.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo o historiador, o confronto come\u00e7ou quando o ent\u00e3o presidente R\u00f3mulo Betancourt declarou, em sua posse, em 1959, que o Partido Comunista (PCV, na sigla em espanhol) era inimigo da democracia e, portanto, estava banido da pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O PCV, de fato, lutou ao lado das principais for\u00e7as pol\u00edticas na Venezuela e desempenhou um papel importante na derrubada da ditadura do general Marcos P\u00e9rez Jim\u00e9nez em 1958. Mas, com a decis\u00e3o de Betancourt, essa organiza\u00e7\u00e3o &#8220;se desesperou&#8221; e optou pela viol\u00eancia em 1961, explica Mu\u00f1oz.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/7553\/production\/_114053003_gettyimages-105217947.jpg\" alt=\"Manifesta\u00e7\u00e3o em Caracas\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>In\u00edcio da d\u00e9cada de 1960 na Venezuela viu surgir movimentos de esquerda, alguns inspirados na Revolu\u00e7\u00e3o Cubana<\/figure>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Os guerrilheiros urbanos<\/h2>\n<p>Antes, em 1960, surgiu o Movimento de Esquerda Revolucion\u00e1ria, que emergiu do partido governista A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica (AD). O PCV uniu for\u00e7as com este novo movimento.<\/p>\n<p>A esquerda da \u00e9poca tamb\u00e9m queria um golpe militar, gra\u00e7as aos seus v\u00ednculos com as for\u00e7as castristas, assinala Mu\u00f1oz. Duas tentativas fracassaram em 1962, ano em que surge o slogan: &#8220;Nuevo gobierno ya&#8221; (&#8220;Novo governo j\u00e1&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>Mas a guerrilha urbana e rural n\u00e3o avan\u00e7ou o suficiente, e, no final de 1962, foi proclamada a longa e prolongada luta, que durou at\u00e9 1963, ano eleitoral.<\/p>\n<p>&#8220;A esquerda precisava mostrar que ainda tinha for\u00e7a, apesar de estar muito fragilizada pela repress\u00e3o e pelos fracassos militares&#8221;, afirma Mu\u00f1oz.<\/p>\n<p>&#8220;Agora diziam que o inimigo fundamental n\u00e3o era o governo de Betancourt, mas o imperialismo que impedia o avan\u00e7o para estabelecer o socialismo&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Foi assim que, em 1963, a\u00e7\u00f5es como sequestros de figuras p\u00fablicas se intensificaram. Foram v\u00e1rios, mas o de Di St\u00e9fano foi o que mais repercutiu internacionalmente.<\/p>\n<p>Candal reflete: &#8220;Di St\u00e9fano seria atualmente o equivalente a Messi. Imagine que Messi est\u00e1 na Venezuela e \u00e9 sequestrado. A repercuss\u00e3o seria surreal. Di St\u00e9fano foi o melhor jogador do mundo, disputado pelos grandes times, foi um \u00eddolo, uma estrela&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o por menos, em 7 de julho de 2014, no dia de sua morte, aos 88 anos, o Real Madrid o descreveu como &#8220;o melhor jogador de todos os tempos&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption body-width\"><\/figure>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi assim que, em 1963, a\u00e7\u00f5es como sequestros de figuras p\u00fablicas se intensificaram. 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