{"id":330164,"date":"2020-09-02T06:49:28","date_gmt":"2020-09-02T09:49:28","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=330164"},"modified":"2020-09-02T06:49:28","modified_gmt":"2020-09-02T09:49:28","slug":"o-ouro-que-roubaram-de-joao-do-pulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-ouro-que-roubaram-de-joao-do-pulo\/","title":{"rendered":"O ouro que roubaram de Jo\u00e3o do Pulo"},"content":{"rendered":"<article class=\"articulo articulo--nointro \">\n<div id=\"articulo_interior\" class=\"articulo__interior\">\n<div class=\"articulo__apertura\">\n<header id=\"articulo-encabezado\" class=\"articulo-encabezado \">\n<div class=\"articulo-encabezado-texto\">\n<div class=\"articulo-antetitulo \" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div id=\"articulo-titulares\" class=\"articulo-titulares\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"articulo-subtitulos\">\n<h2 class=\"articulo-subtitulo\">A final ol\u00edmpica do salto triplo disputada em 25 de julho de 1980 em Moscou ficou marcada pela arma\u00e7\u00e3o dos \u00e1rbitros em favor do pa\u00eds anfitri\u00e3o<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"firma \" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"autor\">\n<div class=\"autor-texto\"><span class=\"autor-nombre\"><a title=\"Ver todas as not\u00edcias de Carlos Arribas\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/carlos_arribas\/a\/\">Carlos Arribas<\/a><\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure class=\"foto superior foto_w980\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527743_noticia_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527743_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527743_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527743_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Jo\u00e3o Carlos de Oliveira, o Jo\u00e3o do Pulo, durante sua participa\u00e7\u00e3o na Olimp\u00edada de Moscou-1980. O \u00e1rbitro sentado \u00e0 sua direita \u00e9 Robert Zotko.\" width=\"980\" height=\"705\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Jo\u00e3o Carlos de Oliveira, o Jo\u00e3o do Pulo, durante sua participa\u00e7\u00e3o na Olimp\u00edada de Moscou-1980. O \u00e1rbitro sentado \u00e0 sua direita \u00e9 Robert Zotko.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div id=\"articulo_contenedor\" class=\"articulo__contenedor\">\n<div id=\"cuerpo_noticia\" class=\"articulo-cuerpo\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Esse epis\u00f3dio arruinou um atleta formid\u00e1vel e levou um t\u00e9cnico sovi\u00e9tico a passar o resto da vida remoendo o fato de ter tra\u00eddo o esporte por sua obedi\u00eancia ao Estado.<\/p>\n<p>\u201cO fado foi feito para voc\u00ea, Roberto\u201d, dizia-lhe o ex-atleta espanhol Ram\u00f3n Cid, e Robert Zotko assentia. Zotko era melanc\u00f3lico e sentimental, e \u00e0s vezes alegre; vivia em Lisboa e adorava Portugal e o salto triplo, mas n\u00e3o era portugu\u00eas, e sim russo, e certa vez, numa das visitas que fez ao seu amigo em San Sebasti\u00e1n, a cidade basca onde gostaria de ter nascido, lhe segredou algo mais: \u201cNa \u00e9poca dos\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/08\/05\/deportes\/1470422767_589290.html\">Jogos de Moscou<\/a>\u00a0eu fui ao inferno, Ram\u00f3n. Estive no inferno, e vou lhe dizer, \u00e9 muito dif\u00edcil sair de l\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Em 1980, Zotko tinha tra\u00eddo o que mais amava e n\u00e3o deixava de se mortificar por isso. Traiu a si mesmo. Vivia sua vida como uma expia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O salto triplo \u00e9 arte, poesia e ritmo, dizia Zotko, um esteta, n\u00f4made em miss\u00e3o. E a hist\u00f3ria do salto triplo \u2014inventado pelos irlandeses, fecundado pelos japoneses, desprezado pelos norte-americanos, transformado em ci\u00eancia pelos poloneses, em a\u00e7o pelos sovi\u00e9ticos e em m\u00fasica pelos brasileiros\u2014 n\u00e3o o contrariava.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_1\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527848_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527848_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527848_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527848_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Abertura dos Jogos Ol\u00edmpicos de Moscou, em 1980, no est\u00e1dio L\u00eanin.\" width=\"980\" height=\"653\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">Abertura dos Jogos Ol\u00edmpicos de Moscou, em 1980, no est\u00e1dio L\u00eanin.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Adhemar Ferreira da Silva, filho de um ferrovi\u00e1rio e uma lavadeira da periferia paulistana, virou atleta porque se apaixonou pelo som da palavra atleta na primeira vez que a ouviu, e, mesmo sem saber o que era, decidiu que queria ser um, e assim foi ser triplista porque era a especialidade mais harmoniosa, a que lhe permitia ter um corpo esbelto, cl\u00e1ssico \u2014o mesmo f\u00edsico que manteve at\u00e9 o final da vida. Morreu em janeiro de 2001, apenas dois meses depois de Emil Z\u00e1topek, de quem era amigo desde que os dois sa\u00edram coroados dos Jogos de Helsinque-1952, o tcheco como triplo medalhista de ouro (5.000 metros, 10.000 metros e maratona, algo \u00fanico) e o brasileiro como campe\u00e3o do triplo e recordista mundial (16,22 metros). Entre infind\u00e1veis s\u00e9ries de saltos em um s\u00f3 p\u00e9 e saltos m\u00faltiplos, fumava um ma\u00e7o de cigarros por dia. Em Melbourne-1956, ganhou um segundo ouro ol\u00edmpico, acrob\u00e1tico como um bailarino a quem a gra\u00e7a nunca abandona, e depois foi tamb\u00e9m ator e interpretou o papel da morte em\u00a0<em>Orfeu Negro<\/em>, o filme de Marcel Camus em que o carnaval vibrava.<\/p>\n<p>O triplo e a arte se condensaram novamente no Brasil duas d\u00e9cadas mais tarde no corpo esbelto, muito alto, el\u00e1stico, veloz, \u00e1gil e flex\u00edvel de Jo\u00e3o Carlos de Oliveira, a perfei\u00e7\u00e3o. Quando saltava, os olhos grandes bem abertos, admirados talvez do que seu corpo era capaz de fazer, a l\u00edngua se introduzia entre seus dentes, sulcava-se, e n\u00e3o havia m\u00fasculo de seu corpo que n\u00e3o estivesse a pleno funcionamento. A beleza. O carisma de algu\u00e9m que ilumina a vida ao aparecer, um atleta que em 1975, aos 21 anos, salta 17,89 metros e bate o recorde mundial de Saneyev por 45 cent\u00edmetros, a dentada mais gorda da hist\u00f3ria. Naquele dia desapareceu Jo\u00e3o Carlos de Oliveira e nasceu Jo\u00e3o do Pulo, o nome pelo qual ficaria conhecido para sempre. O recorde durou 10 anos, at\u00e9 que Willie Banks o bateu por oito cent\u00edmetros. Nos \u00faltimos 40 anos, s\u00f3 11 triplistas conseguiram voar mais longe.<\/p>\n<p>Em Montreal-1976, Oliveira saltou lesionado (e, al\u00e9m do triplo, decidiu disputar o salto em dist\u00e2ncia) e foi bronze (16,90 metros) na competi\u00e7\u00e3o em que Viktor Saneyev obteve seu terceiro ouro consecutivo. Cid esteve com Jo\u00e3o do Pulo pouco depois e conversou com ele pela primeira vez. \u201cGostei muito dele, um menino de rua que tinha sido lavador de carros, um rapaz de Pindamonhangaba, uma cidade do Estado de S\u00e3o Paulo, muito humilde, muito agrad\u00e1vel e expressivo\u201d, recorda o triplista espanhol. \u201cE anos mais tarde, em Moscou, me deu uma bronca por fumar no est\u00e1dio, mas deu essa bronca tranquilo, sem se exaltar.\u201d<\/p>\n<p>Cid saiu chateado de Moscou porque ficou a uma posi\u00e7\u00e3o de passar \u00e0 final. J\u00e1 Jo\u00e3o do Pulo foi chorando no trajeto de volta do est\u00e1dio L\u00eanin \u00e0 vila ol\u00edmpica, com uma medalha de bronze pendurada no peito e seu treinador, Pedro Henrique Toledo, o Pedr\u00e3o, lhe oferecendo o ombro. Era 25 de julho de 1980; j\u00e1 anoitecera.<\/p>\n<p>Seis dias antes, \u00e0s 16h pela hora moscovita, a fanfarra imponente e ir\u00f4nica da Abertura Festiva de Shostakovich anunciava o in\u00edcio da cerim\u00f4nia de abertura de uma Olimp\u00edada celebrada, sem nenhum sinal de ironia, sob o lema: \u201cAh, esporte, voc\u00ea \u00e9 a paz\u201d. Depois do desfile e dos discursos, Viktor Saneyev, camiseta branca com as faixas do arco-\u00edris no peito, pisou na pista do est\u00e1dio L\u00eanin sob o olhar severo de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/08\/20\/internacional\/1534787849_950903.html\">Leonid Brejnev<\/a>, resguardado por suas imponentes sobrancelhas-viseira e ostentando seu terno cinza-a\u00e7o, acompanhado na tribuna presidencial pela c\u00fapula do Soviete Supremo, pelo ent\u00e3o presidente do Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional (COI), Lorde Killanin, em vias de deixar o cargo, e pelo chefe de protocolo dos Jogos e j\u00e1 presidente-eleito do COI, Juan Antonio Samaranch. N\u00e3o desfilaram a bandeira nem a equipe dos Estados Unidos, nem de outros 30 pa\u00edses, que, por iniciativa de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/jimmy-carter\/\">Jimmy Carter<\/a>, o presidente da grande pot\u00eancia ocidental, tinham decidido boicotar os Jogos para protestar contra a invas\u00e3o sovi\u00e9tica do Afeganist\u00e3o. Era a grande ocasi\u00e3o, no crep\u00fasculo de sua vida, de demonstrar a superioridade do sistema sovi\u00e9tico, e Saneyev, tricampe\u00e3o ol\u00edmpico de salto triplo, era seu s\u00edmbolo, e por isso foi o atleta escolhido para entrar com a tocha ol\u00edmpica no est\u00e1dio. Tudo estava preparado para que Saneyev sa\u00edsse dos Jogos com sua quarta medalha de ouro, igualando o recorde detido exclusivamente pelo norte\u00ad-americano Al Oerter, campe\u00e3o ol\u00edmpico do lan\u00e7amento de disco em Melbourne-56, Roma-60, T\u00f3quio-64 e M\u00e9xico-68.<\/p>\n<p>\u201cEm Moscou n\u00e3o se viam nem crian\u00e7as nem cachorros\u201d, recorda Cid, po\u00e9tico. Em Moscou s\u00f3 se viam soldados e agentes da KGB, recordam os cronistas esportivos da \u00e9poca.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_3\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598528000_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598528000_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598528000_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598528000_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"O sovi\u00e9tico Saneyev durante os Jogos de Moscou.\" width=\"980\" height=\"734\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">O sovi\u00e9tico Saneyev durante os Jogos de Moscou.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>\u201cRoubaram o meu ouro, roubaram o meu ouro\u201d, lamentava-se Oliveira no \u00f4nibus depois da final do triplo, e Pedr\u00e3o lhe dava a raz\u00e3o. \u201cNunca o tinha visto chorar na minha vida\u201d, declarou Pedr\u00e3o depois. Ram\u00f3n Cid, tamb\u00e9m no \u00f4nibus, observava e lamentava. \u201cComo n\u00e3o me classifiquei para a final, vi a competi\u00e7\u00e3o da arquibancada, e vi muito claramente um salto gigantesco do Oliveira. Saltou 18 metros, ou 17,90 no m\u00ednimo, recorde mundial, e certamente era v\u00e1lido, mas o juiz da passada intermedi\u00e1ria, depois de hesitar um pouco e de comprovar que era longu\u00edssimo, levantou a bandeira vermelha para anul\u00e1-lo. E ordenou em seguida apagar as marcas da areia para que n\u00e3o pudesse reclamar. Jo\u00e3o ergueu os bra\u00e7os aos c\u00e9us, o olhar incr\u00e9dulo, como que clamando por uma justi\u00e7a que n\u00e3o chegou. Ningu\u00e9m o ouviu. E o mesmo fizeram com Ian Campbell, um australiano, de quem anularam uma tentativa v\u00e1lida de 17,50. Foram anulados por haver raspado o p\u00e9 livre, o esquerdo, no segundo impulso de salto (ou\u00a0<em>step<\/em>), algo sobre o que n\u00e3o podia haver prova, por ser uma quest\u00e3o de aprecia\u00e7\u00e3o, at\u00e9 que em 1990 a IAAF apagou essa regra do seu regulamento. S\u00e3o nulos decididos no grito, indemonstr\u00e1veis, uma possibilidade maravilhosa de sacanear algu\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>As marcas dos saltos erroneamente anulados teriam dado o ouro a Jo\u00e3o do Pulo, que teve validadas apenas duas de seis tentativas na final, uma delas de 17,22 metros, suficiente para a medalha de bronze. A prata ficou para Campbell, que s\u00f3 teve um salto validado, o quinto, com 16,72 metros. O ouro, entretanto, n\u00e3o foi para o atleta designado, Saneyev, que estava abatido e s\u00f3 conseguiu chegar a 17,24 metros, ainda assim na sexta tentativa, mas para seu compatriota Jaak Uudm\u00e4e, estoniano, que surpreendeu a todos com um salto de 17,35 metros. Foi uma vit\u00f3ria sovi\u00e9tica e uma derrota do sistema.<\/p>\n<p>Uudm\u00e4e n\u00e3o tardou a voltar ao anonimato de uma carreira em que seus \u00fanicos \u00eaxitos tinham sido algumas medalhas em campeonatos europeus. \u201cTudo estava preparado para que ganhasse Saneyev, mas saltou lesionado e n\u00e3o conseguiu me bater\u201d, disse Uudm\u00e4e numa entrevista, tempos depois. \u201cInclusive durante os Jogos estavam rodando um filme relatando a vida e as vit\u00f3rias de Saneyev, desde seu nascimento na capital da Abkh\u00e1sia georgiana, Sukhumi\u201d.<\/p>\n<p>V\u00edktor Saneyev nunca alcan\u00e7aria os quatro ouros de Oerter, tampouco protagonizaria um filme heroico.<\/p>\n<p>Harry Seinberg, o treinador de Uudm\u00e4e, s\u00f3 teve a oportunidade de conversar com Jo\u00e3o do Pulo em 1992, quando o mundo j\u00e1 era outro, e o campe\u00e3o brasileiro se preparava para participar dos Jogos Paral\u00edmpicos de Barcelona. \u201cTudo foi uma fraude, roubaram voc\u00ea com falsos saltos nulos\u201d, desculpou-se Seinberg a Oliveira, e falou tamb\u00e9m com um rep\u00f3rter do\u00a0<em>Jornal do Brasil<\/em>. \u201cS\u00f3 com a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/04\/01\/cultura\/1459516339_893184.html\">queda da Cortina de Ferro<\/a>\u00a0pudemos dizer a verdade: Jo\u00e3o tinha chegado aos 18 metros. Na \u00e9poca pensei em denunciar ao COI, mas recuei. Agora estou aliviado, pelo menos posso pedir desculpas em meu nome, no de Uudm\u00e4e e no do povo da Est\u00f4nia.\u201d \u201cEu j\u00e1 sabia\u201d, respondeu Jo\u00e3o. \u201cJ\u00e1 sabia que eu tinha vencido na prova e, provavelmente, alcan\u00e7ado um novo recorde mundial. N\u00e3o acreditei que tivesse sido nulo, e por essa injusti\u00e7a chorei pela primeira vez na vida.\u201d<\/p>\n<p>Um ano e meio depois de Moscou, a poucos dias do Natal de 1981, a vida continuou lhe dando motivos para chorar. E a Pedr\u00e3o, para tomar uma decis\u00e3o que preferia nunca ter tomado.<\/p>\n<p>\u201cPedr\u00e3o, n\u00e3o tem outro jeito, \u00e9 a perna ou a vida\u2019, me disse o m\u00e9dico no hospital\u201d, contou anos depois o treinador, sabedor de que se tratava de um falso dilema. A perna ou a vida? Nada disso, era a perna e era a vida. Quando lhe amputassem a perna direita, Jo\u00e3o do Pulo morreria, embora Jo\u00e3o Carlos de Oliveira continuasse respirando e seu cora\u00e7\u00e3o batesse. \u201cSeu mundo caiu, e o nosso. Tudo o que o fazia ser Jo\u00e3o do Pulo era a perna. Para ele foi o fim, n\u00e9?\u201d, disse sua irm\u00e3 Ana Maria, para quem tamb\u00e9m o mundo afundou na noite de 21 de dezembro de 1981. Jo\u00e3o conduzia seu Passat por uma rodovia paulista quando um motorista b\u00eabado, perseguido pela pol\u00edcia, bateu de frente com ele. Oliveira entrou em coma no hospital. O boletim apontava fratura craniana, duas fraturas abertas na perna direita, a p\u00e9lvis destro\u00e7ada e a mand\u00edbula fraturada. A perna gangrenou e foi amputada acima do joelho. Tinha 27 anos. Morreu 18 anos mais tarde, alcoolizado e sozinho.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_2\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527951_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527951_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527951_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598527951_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"O sovi\u00e9tico Uudm\u00e4e durante os Jogos de Moscou.\" width=\"980\" height=\"671\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">O sovi\u00e9tico Uudm\u00e4e durante os Jogos de Moscou.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>As reportagens que falam de Sukhumi em 2020 descrevem uma cidade-fantasma, ru\u00edna sobre ru\u00edna, capital de uma rep\u00fablica-fantasma, a Abkh\u00e1sia, um territ\u00f3rio aut\u00f4nomo na costa do mar Negro, n\u00e3o muito longe de Sochi, pertencente \u00e0 Ge\u00f3rgia. Arqueologia da guerra em uma cidade que em 1989, quando a visitou, Ram\u00f3n Cid achou t\u00e3o bela como os vales e os bosques do seu Pa\u00eds Basco natal. \u201cNa \u00e9poca era o centro do atletismo sovi\u00e9tico, que ali organizava concentra\u00e7\u00f5es de tr\u00eas meses com os melhores atletas e os melhores t\u00e9cnicos, s\u00f3 a elite\u201d, conta o treinador espanhol, ent\u00e3o respons\u00e1vel pela equipe nacional de saltos. \u201cSaneyev tinha nascido em Sukhumi e l\u00e1 o conheci, em uma viagem com v\u00e1rios outros t\u00e9cnicos espanh\u00f3is. Os russos queriam treinar na Espanha com vistas a Barcelona-92, e em troca nos permitiram ver seus t\u00e9cnicos e seus sistemas de prepara\u00e7\u00e3o. E l\u00e1 me encontrei tamb\u00e9m com Robert Zotko, que era o diretor t\u00e9cnico nacional de saltos. Saneyev, que era homenageado em um festival atl\u00e9tico, her\u00f3i nacional 10 anos antes, t\u00edmido e meio ruborizado, nos pediu trabalho. Zotko, que tinha aprendido espanhol em Cuba, simplesmente nos disse: \u201cFui com a cara de voc\u00eas\u201d, e se entregou a n\u00f3s. Ordenou aos grandes t\u00e9cnicos, Vitaly Petrov e companhia, que se pusessem \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o pelo tempo que precis\u00e1ssemos. N\u00f3s os interrog\u00e1vamos e Zotko atuava como int\u00e9rprete. De noite bebia duas vodcas e, melanc\u00f3lico, nos recitava poesias russas que nos traduzia ao castelhano\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/12\/19\/internacional\/1545228653_659406.html\">URSS<\/a>\u00a0chegaram a glasnost, a perestroika, Gorbachov, depois Yeltsin, os conflitos armados e o desmembramento. Saneyev, carregado de medalhas \u2014a Ordem de L\u00eanin, a Ordem da Bandeira Vermelha, os ouros ol\u00edmpicos, a Ordem da Amizade entre os Povos\u2014, mas sem um rublo no bolso, emigrou para a Austr\u00e1lia com sua esposa e o filho de 15 anos. Em Melbourne entregou pizzas, passou fome e esteve a ponto de vender suas medalhas. Finalmente encontrou trabalho como professor de gin\u00e1stica. Vive em uma casa com jardim onde crescem frondosos p\u00e9s de lima e rom\u00e3, gra\u00e7as \u00e0 sua m\u00e3o boa para plantas e a seus conhecimentos de engenheiro agr\u00edcola pela Universidade de Tiblisi.<\/p>\n<p>Yeltsin n\u00e3o era dos que acreditavam que os \u00eaxitos esportivos refletissem o poder de um pa\u00eds, e assim milhares de t\u00e9cnicos perderam seu trabalho como funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Zotko encarou a di\u00e1spora como um peregrino que leva a semente do salto triplo em sua mochila. \u201cPensamos em convid\u00e1-lo para vir \u00e0 Espanha, mas a It\u00e1lia se antecipou e o levou a Formia\u201d, diz Cid. \u201cN\u00f3s o visitamos algumas vezes. Um dia nos levou a Pompeia e fez as fun\u00e7\u00f5es de cicerone. At\u00e9 nos mostrou durante o Mundial, zanzando, recantos de Sevilha que nem conhec\u00edamos\u2026 A\u00ed numa dessas apareceram os portugueses e o Jos\u00e9 Barros o levou para Lisboa.\u201d<\/p>\n<p>Na capital portuguesa, aonde chegou em 2000 como respons\u00e1vel por saltos na diretoria t\u00e9cnica encabe\u00e7ada por Barros, Zotko estabeleceu as bases da revolu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica do atletismo portugu\u00eas. Ensinou treinadores e atletas. Proferiu cursos e semin\u00e1rios. Semeou tudo o que sabia. No quarto lisboeta onde morava, algumas noites cozinhava uma sopa de beterraba, bem vermelha, \u201ca sopa comunista\u201d como a chamavam, depois tomavam um trago e conversavam. \u201cEra um momento importante. Era quase sagrado quando ele convidava voc\u00ea para ir ao quarto dele compartilhar a sopa, conversar e beber\u201d, recorda Barros. Esses papos \u00e0s vezes se transformavam em am\u00e1veis interrogat\u00f3rios nos quais o portugu\u00eas tentava, com prud\u00eancia e tato, se aprofundar na vida do russo que tanto o fascinava. \u201cAtletismo \u00e9 movimento\u201d, explicava ele a Barros. \u201cO treino tem que ser antes de tudo uma escola de movimento, e o triplo tem que ser poesia, magia. M\u00fasica. Tem que ser limpo, limpo. N\u00e3o julgo os saltadores pela marca, mas sim pela est\u00e9tica, pelo movimento de seus p\u00e9s, suas pegadas. S\u00f3 a est\u00e9tica importa. E eu tra\u00ed tudo nos Jogos de Moscou. Eu fui ao inferno, e n\u00e3o voltei.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEssas explos\u00f5es\u201d, recorda Barros, \u201cocorreram no m\u00e1ximo duas, tr\u00eas vezes. N\u00e3o acrescentava mais. Era algo t\u00f3xico que o estava matando. N\u00e3o era alco\u00f3latra. Bebia muito, mas sabia quando parar. Precisava esquecer. Sem dizer o motivo. Ele sabia que eu sabia. Levei seu corpo a Moscou quando morreu, e seu filho me reconheceu isso: \u2018Voc\u00ea foi uma das pessoas mais importantes na vida do meu pai\u2019. Foi um dos momentos mais duros da minha vida.\u201d Zotko morreu em 12 de fevereiro de 2004, aos 67 anos.<\/p>\n<p>Barros ligou para Cid dando a not\u00edcia, e este imediatamente soube que sentiria saudade dos telefonemas a qualquer hora da madrugada, invariavelmente de um Zotko emocionado e impaciente por lhe contar algo, e que ele fingia que o irritava. Tamb\u00e9m se lembrou, sobretudo, de uma noite jantando em Madri com Zotko. \u201cQuando j\u00e1 est\u00e1vamos no caf\u00e9, Roberto tirou uma foto velha da carteira, j\u00e1 enrugada, e nos mostrou. Era ele com 20 anos menos, camisa clara de \u00e1rbitro de atletismo, sentado em uma cadeira junto a uma pista e levantando uma bandeirola vermelha para anular um salto durante os Jogos de Moscou. A seu lado, uma cadeira vazia, e come\u00e7ou a nos explicar por que sempre carregava um v\u00e9u de tristeza, um fado que n\u00e3o era melancolia, e sim arrependimento. \u2018Fui eu quem anulei os saltos de Oliveira na final dos Jogos. Eu impedi que ganhasse. Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o triplo s\u00f3 podia ser ganho por um sovi\u00e9tico, de prefer\u00eancia Saneyev\u2019. Acho que ele levava a foto na carteira como quem leva um cil\u00edcio, para se mortificar, para dizer-se constantemente, \u2018Sou um sacana\u2019. E me deixa perdido ver o verdugo sofrendo. Vejo-o como v\u00edtima e verdugo. O pai de Zotko era um professor ucraniano, e tinha sofrido as deporta\u00e7\u00f5es de St\u00e1lin, por isso, em seu interior, guardava rancor por um sistema que desprezava a cultura e as pessoas que a propagavam. E, entretanto, fez toda a sua carreira protegido pelo sistema. Foi obrigado a se convencer. O ladr\u00e3o foi uma pessoa maravilhosa.\u201d<\/p>\n<section id=\"sumario_4|foto\" class=\"sumario_foto centro\"><a name=\"sumario_4\"><\/a><\/p>\n<div class=\"sumario__interior\">\n<figure class=\"foto foto_w980\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598528052_sumario_normal.jpg\" srcset=\"\/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598528052_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598528052_sumario_normal_recorte2.jpg 720w, \/\/ep01.epimg.net\/elpais\/imagenes\/2020\/08\/27\/eps\/1598525636_433644_1598528052_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"O portugu\u00eas Nelson \u00c9vora compete em 2017 nos Campeonatos Europeus de Atletismo de Belgrado.\" width=\"980\" height=\"511\" \/><figcaption class=\"foto-pie\"><span class=\"foto-texto\">O portugu\u00eas Nelson \u00c9vora compete em 2017 nos Campeonatos Europeus de Atletismo de Belgrado.<\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sumario-texto\"><\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Apenas quatro dias depois da morte de Zotko, Nelson \u00c9vora, um adolescente portugu\u00eas que ainda n\u00e3o chegara aos 20 anos, compete em Moscou. Salta 16,85 metros. Supera a marca que o classifica para os Jogos de Atenas. Seu treinador, Jo\u00e3o Gan\u00e7o, pede que o locutor da competi\u00e7\u00e3o anuncie pelos alto-falantes do gin\u00e1sio que eles dedicam o resultado a Robert Zotko, mestre e amigo.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sou muito especial. Sou muito trabalhador, sei o que valho, tenho minha forma de saltar, minha magia, mas n\u00e3o sou um supertalento. N\u00e3o tenho qualidades muito especiais. Esse n\u00e3o sou eu, e, entretanto, j\u00e1 em 2002, com 17 anos, Zotko me disse que depois de analisar todos os jovens europeus s\u00f3 tinha visto duas esperan\u00e7as para ser algo grande, e que eu era uma delas\u201d, conta \u00c9vora, a quem ainda lhe custa entender o que Zotko enxergou nele, um rapaz de uma fam\u00edlia de Cabo Verde, nascido na Costa do Marfim, filho de um capataz que emigrou para Portugal quando ele tinha seis anos e s\u00f3 sabia falar franc\u00eas. \u201cN\u00e3o entendia por que disse isso, mas me caiu muito bem. Obrigou-me a trabalhar para demonstrar a ele que n\u00e3o se enganou. Lutei muito. Eu gostava muito dele. Gostava de como me falava, e quando me dizia que eu era bom porque entendia de primeira o que queria me dizer, assimilava e punha em pr\u00e1tica. E eu achava muitas vezes que n\u00e3o entendia o que ele me dizia.\u201d Em 2007, \u00c9vora se sagrou campe\u00e3o mundial do salto triplo em Osaka, e no ano seguinte foi campe\u00e3o ol\u00edmpico em Pequim. O russo que privou um brasileiro de um ouro ol\u00edmpico tinha lan\u00e7ado as bases para que um portugu\u00eas o conseguisse 28 anos mais tarde. \u201cToda a\u00e7\u00e3o na vida tem um pre\u00e7o que \u00e9 preciso pagar\u201d, dizia Zotko a Barros, e quem sabe se o ouro de \u00c9vora, a gl\u00f3ria do garoto de Odivelas, lhe teria parecido um pagamento pela d\u00edvida que contraiu em Moscou. Sua reden\u00e7\u00e3o. O ponto final de suas buscas. \u201cMas n\u00e3o \u00e9 o ponto final de tudo\u201d, esclarece Cid. \u201cEste s\u00f3 chegar\u00e1 quando o COI devolver a Oliveira o ouro que lhe roubaram.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<section id=\"articulo-tags\" class=\"articulo-tags\">\n<div id=\"articulo-tags__interior\" class=\"articulo-tags__interior\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A final ol\u00edmpica do salto triplo disputada em 25 de julho de 1980 em Moscou ficou marcada pela arma\u00e7\u00e3o dos \u00e1rbitros em favor do pa\u00eds anfitri\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":330165,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-330164","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/salto.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330164","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=330164"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330164\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/330165"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=330164"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=330164"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=330164"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}