{"id":330371,"date":"2020-09-04T07:50:07","date_gmt":"2020-09-04T10:50:07","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=330371"},"modified":"2020-09-04T07:50:07","modified_gmt":"2020-09-04T10:50:07","slug":"como-a-ciencia-explica-o-enxame-de-terremotos-na-bahia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/como-a-ciencia-explica-o-enxame-de-terremotos-na-bahia\/","title":{"rendered":"Como a Ci\u00eancia explica o &#8216;enxame de terremotos&#8217; na Bahia"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"story-body__h1\"><\/h1>\n<div class=\"byline\"><span class=\"byline__name\">Victor Uch\u00f4a<\/span><\/div>\n<div class=\"story-body__inner\">\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width lead\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/660\/cpsprodpb\/175CB\/production\/_114219659_vistoria5.jpg\" alt=\"Telhado quebrado em casa em Amargosa, Bahia\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"660\" \/><\/span>Casas da cidade de Amargosa, na Bahia, ficaram danificadas ap\u00f3s terremotos seguidos<\/figure>\n<p class=\"story-body__introduction\">De domingo at\u00e9 a manh\u00e3 da ter\u00e7a-feira (01\/09), a Bahia registrou 14 terremotos, todos na cidade de Amargosa, Rec\u00f4ncavo do Estado, de acordo com a Rede Sismogr\u00e1fica Brasileira (RSBR).<\/p>\n<p>As imagens de im\u00f3veis danificados e prateleiras de um mercado sendo chacoalhadas pelo abalo mais forte, que atingiu a magnitude de 4.6 na Escala Richter, logo correram as redes sociais. Muita gente achava se tratar de um fen\u00f4meno in\u00e9dito, mas n\u00e3o era.<\/p>\n<p>&#8220;Esses abalos na regi\u00e3o ocorrem com frequ\u00eancia e h\u00e1 muito tempo. Temos registros de eventos pelo menos nos \u00faltimos 100 anos. Mas hoje temos melhores instrumentos de registro e, com a expans\u00e3o urbana e o aumento da densidade populacional, as pessoas tamb\u00e9m sentem. Se onde hoje tem uma casa h\u00e1 alguns anos era uma \u00e1rea verde, ningu\u00e9m estava ali pra sentir o tremor&#8221;, observa a ge\u00f3loga Simone Cruz, professora do Instituto de Geoci\u00eancias da Universidade Federal da Bahia (Igeo\/Ufba) e presidente da Sociedade Brasileira de Geologia (SBG).<\/p>\n<p>Junto com mais cinco pesquisadores do Igeo, Simone integra uma comiss\u00e3o que acaba de ser criada pela diretoria do Instituto, justamente com o objetivo de estudar o caso de Amargosa.<\/p>\n<p>&#8220;Sabemos que este fen\u00f4meno \u00e9 causado pela din\u00e2mica interna do planeta, com a movimenta\u00e7\u00e3o de placas gerando libera\u00e7\u00e3o de energia e resultando no terremoto. Mas apontar uma causa espec\u00edfica para essa sequ\u00eancia de tremores ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Agora \u00e9 o momento de pesquisar.&#8221;<\/p>\n<p><strong>&#8216;<\/strong><strong>Enxame s\u00edsmico<\/strong><strong>&#8216;<\/strong><\/p>\n<p>A sequ\u00eancia a que a pesquisadora se refere \u00e9 chamada de &#8220;enxame s\u00edsmico&#8221;. Este \u00e9 um fen\u00f4meno que se configura quando um terremoto n\u00e3o ocorre de forma isolada. Ao contr\u00e1rio, s\u00e3o diversos abalos que surgem de maneira associada. Um tremor inicia o processo e, como que ecoando o primeiro, v\u00e3o ocorrendo v\u00e1rias r\u00e9plicas &#8211; ou terremotos secund\u00e1rios.<\/p>\n<p>Carlos Uch\u00f4a, professor de Geologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs\/BA), diz que, cientificamente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber quando a terra ter\u00e1 liberado toda a energia e voltar\u00e1 a &#8220;adormecer&#8221;.<\/p>\n<p>Na mesma regi\u00e3o do Rec\u00f4ncavo Baiano, ele lembra, uma sequ\u00eancia de tremores durou tr\u00eas dias em 2002. Na cidade de Jo\u00e3o C\u00e2mara (RN), entretanto, um enxame de abalos s\u00edsmicos levou tr\u00eas anos para se dissipar, de 1987 a 1989.<\/p>\n<p>Acontece que tanto Amargosa quanto Jo\u00e3o C\u00e2mara est\u00e3o situadas em zonas chamadas de sismog\u00eanicas, ou seja, aquelas onde a propens\u00e3o a terremotos \u00e9 maior.<\/p>\n<p>No Brasil, as zonas mais ativas est\u00e3o no Nordeste, com destaque para a Bacia do Rec\u00f4ncavo, a regi\u00e3o de Jo\u00e3o C\u00e2mara e a \u00e1rea da cidade de Palhano (CE), onde em 1980 um terremoto alcan\u00e7ou a magnitude de 5.2 e chegou a causar danos na capital, Fortaleza, distante cerca de 150 quil\u00f4metros.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/4133\/production\/_114219661_vistoria6.jpg\" alt=\"Casa danificada\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>De domingo a ter\u00e7a, a Bahia registrou 14 terremotos, todos na cidade de Amargosa; casas ficaram danificadas<\/figure>\n<p>&#8220;A libera\u00e7\u00e3o da energia ocorre no deslocamento entre falhas geol\u00f3gicas. Da\u00ed surgem as ondas s\u00edsmicas. Essas ondas v\u00e3o viajando e perdendo gradativamente a for\u00e7a. Por isso que no epicentro do tremor se sente muito mais, mas o abalo pode ser sentido a muitos quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia&#8221;, explica Uch\u00f4a.<\/p>\n<p>No domingo, moradores de diversos bairros de Salvador relataram ter sentido os efeitos do terremoto, mesmo com os cerca de 160 quil\u00f4metros que separam a capital baiana de Amargosa. O tremor tamb\u00e9m foi sentido em cidades como Feira de Santana e Santo Ant\u00f4nio de Jesus.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">O Brasil tem terremoto<\/h2>\n<p>&#8220;No senso comum, costuma-se dizer que o Brasil n\u00e3o tem terremoto, mas tem sim. O que o Brasil n\u00e3o tem, ou ainda n\u00e3o teve, s\u00e3o terremotos de grande magnitude, como ocorre com frequ\u00eancia no Chile ou no Jap\u00e3o. Um desse de 4.6 ocorre umas 20 vezes por semana no Chile&#8221;, afirma o geof\u00edsico S\u00e9rgio Fontes, coordenador da RSBR.<\/p>\n<p>Ele explica que o Brasil est\u00e1 localizado sobre uma &#8220;\u00e1rea est\u00e1vel&#8221;, diferentemente de pa\u00edses que est\u00e3o bem nas bordas das placas tect\u00f4nicas, onde a movimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 mais frequente &#8211; e a consequente libera\u00e7\u00e3o de energia mais forte, gerando terremotos com mais poder destrutivo.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer, no entanto, que est\u00e1 tudo quieto sob os nossos p\u00e9s. &#8220;Estamos no meio da placa, na superf\u00edcie n\u00e3o se v\u00ea nada, mas esses peda\u00e7os se movimentam e acumulam tens\u00e3o. Uma hora essa tens\u00e3o precisa ser liberada e \u00e9 da\u00ed que vem o tremor&#8221;, comenta Fontes.<\/p>\n<p>Seu racioc\u00ednio \u00e9 corroborado pela pesquisadora Simone Cruz. Ela aponta que a Bacia do Rec\u00f4ncavo \u00e9 formada por rochas muito antigas, cristalinas, formadas quando o Brasil se separou da \u00c1frica, a cerca de 120 milh\u00f5es de anos. H\u00e1, no entanto, fraturas que s\u00e3o tensionadas por outras estruturas geol\u00f3gicas, como a Cordilheira dos Andes, de um lado, e a Dorsal Atl\u00e2ntica, do outro.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o d\u00e1 nem pra afirmar que n\u00e3o existe risco de um terremoto mais forte. Estamos numa \u00e1rea mais est\u00e1vel, mas seria equivocado dizer que nunca teremos um abalo t\u00e3o intenso quanto vemos em outros locais&#8221;, alerta Cruz.<\/p>\n<p>S\u00e9rgio Fontes completa: &#8220;Se houver um abalo mais forte aqui, o estrago ser\u00e1 bem grande, porque nossas cidades, nossas edifica\u00e7\u00f5es, n\u00e3o est\u00e3o preparadas pra este tipo de fen\u00f4meno&#8221;.<\/p>\n<h2 class=\"story-body__crosshead\">Rede de informa\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<figure class=\"media-landscape has-caption full-width\"><span class=\"image-and-copyright-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"responsive-image__img js-image-replace\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/12B93\/production\/_114219667_vistoria9.jpg\" alt=\"Casa danificada\" width=\"976\" height=\"549\" data-highest-encountered-width=\"624\" \/><\/span>O abalo mais forte registrado na cidade de Amargosa ocorreu no s\u00e1bado. Ele atingiu 4.6 na Escala Richter<\/figure>\n<p>A Rede Sismogr\u00e1fica Brasileira, hoje coordenada por Fontes, re\u00fane e analisa dados produzidos por 92 esta\u00e7\u00f5es instaladas por todo o pa\u00eds, registrando tudo que ocorre embaixo da superf\u00edcie terrestre.<\/p>\n<p>Esta rede come\u00e7ou a ser criada no final da d\u00e9cada de 2000 e alcan\u00e7ou a estrutura atual em 2015, ap\u00f3s anos de investimento p\u00fablico. Com os dados produzidos pela rede, os estudiosos conseguem fazer an\u00e1lises mais precisas da situa\u00e7\u00e3o sismol\u00f3gica brasileira sem depender de informa\u00e7\u00f5es internacionais, o que ajuda em diagn\u00f3sticos e eventuais a\u00e7\u00f5es preventivas.<\/p>\n<p>Hoje, as institui\u00e7\u00f5es que integram a RSBR s\u00e3o a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), Universidade de Bras\u00edlia (UnB) e o Observat\u00f3rio Nacional, vinculado ao Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia e Tecnologia.<\/p>\n<p>&#8220;Antes dessa estrutura de esta\u00e7\u00f5es, fic\u00e1vamos no escuro. Hoje a gente produz informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas inestim\u00e1veis e n\u00e3o podemos retroceder&#8221;, afirma Fontes, lamentando os sucessivos cortes de recursos que v\u00eam atingindo a entidade.<\/p>\n<p>Simone Cruz tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia do investimento na produ\u00e7\u00e3o de dados. &#8220;Somente com acompanhamento sistem\u00e1tico a gente vai conseguir chegar ao ponto de indicar, por exemplo, que uma \u00e1rea est\u00e1 sob risco e precisa ser evacuada antecipadamente&#8221;.<\/p>\n<p>Ela enfatiza ainda que os \u00f3rg\u00e3os de Defesa Civil estaduais e municipais precisam ter capacita\u00e7\u00e3o para criar protocolos e orientar a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A falta de informa\u00e7\u00e3o, diga-se, que foi o que ampliou o temor da professora Naira Marambaia, que se mudou para Amargosa com a fam\u00edlia h\u00e1 apenas 15 dias e n\u00e3o conhecia o hist\u00f3rico sismol\u00f3gico da cidade.<\/p>\n<p>No domingo, ela foi despertada por um forte barulho e chegou a achar que a casa ao fundo da sua estava desmoronando. Desesperada, foi para a rua junto com o marido e o filho e encontrou toda a vizinhan\u00e7a em situa\u00e7\u00e3o semelhante. &#8220;Foi a pior sensa\u00e7\u00e3o da minha vida. Eu nunca imaginei passar por uma coisa dessa&#8221;, conta.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico Vinicius Tapioca, por sua vez, j\u00e1 estava calejado, mas mesmo assim ficou assustado. &#8220;Eu moro aqui em Amargosa e j\u00e1 tinha sentido esse tremor outras vezes, mas esse de domingo foi muito forte. Sacudiu muito, um movimento lateral. Felizmente a minha casa n\u00e3o teve nada, mas muita gente teve preju\u00edzo com esse terremoto.&#8221;<\/p>\n<p>De acordo com a Prefeitura de Amargosa, foi realizada uma vistoria nos im\u00f3veis atingidos e, at\u00e9 a manh\u00e3 desta quarta-feira (02\/09), uma resid\u00eancia havia sido condenada. A fam\u00edlia foi removida e receber\u00e1 uma assist\u00eancia de aluguel social at\u00e9 que a prefeitura levante recursos para reparo ou reconstru\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel.<\/p>\n<p>A casa de Naira n\u00e3o sofreu danos, mas o susto foi tanto que, mais relaxada, ela chegou a repensar a mudan\u00e7a rec\u00e9m-concretizada: &#8220;Eu brinquei com meu marido que queria voltar pra Salvador. N\u00e3o quero acordar com tudo tremendo de novo n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<figure class=\"media-landscape no-caption body-width\"><\/figure>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De acordo com a Prefeitura de Amargosa, foi realizada uma vistoria nos im\u00f3veis atingidos e, at\u00e9 a manh\u00e3 desta quarta-feira (02\/09), uma resid\u00eancia havia sido condenada. 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