{"id":33464,"date":"2013-12-15T15:55:45","date_gmt":"2013-12-15T18:55:45","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=33464"},"modified":"2013-12-15T15:55:45","modified_gmt":"2013-12-15T18:55:45","slug":"masculinidade-sufocada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/masculinidade-sufocada\/","title":{"rendered":"Masculinidade Sufocada?"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Campanha fala em crise do macho, mas ass\u00e9dio a mulheres nas ruas constrange e humilha<\/h3>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Juliana de Faria<\/span><\/h3>\n<div id=\"bb-md-noticia-tabs\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"bb-md-noticia-tabs-1\">\n<div>\n<p>Uma pesquisa brit\u00e2nica mostrou no m\u00eas passado que, se voc\u00ea apresentar para o p\u00fablico frases de uma revista masculina e depoimentos de estupradores, ningu\u00e9m consegue perceber a diferen\u00e7a. Agora, ganhamos mais um exemplo dessa afinidade. Uma revista brasileira voltada para homens lan\u00e7ou uma campanha publicit\u00e1ria chamada Manifesto pelo Homem Livre, baseada em pesquisa de ag\u00eancia que encontrou uma tal &#8220;masculinidade sufocada&#8221; entre eles. Nunca explicou direito o que \u00e9 que est\u00e1, de fato, sufocando os pobres coitados, mas j\u00e1 inspirou bandeiras como &#8220;sim, adoramos ver uma bela bunda passar&#8221; e &#8220;como casamento d\u00e1 trabalho, dever\u00edamos receber um m\u00eas de f\u00e9rias por ano&#8221;.<\/p>\n<div>\n<div>\n<div><img decoding=\"async\" title=\" 'American Girl in Italy', foto de Ruth Orkin, flagrou o machismo latino em 1951. - Ruth Orkin\" alt=\" 'American Girl in Italy', foto de Ruth Orkin, flagrou o machismo latino em 1951. - Ruth Orkin\" src=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/fotos\/assedio_ruthorkin.jpg\" \/><\/div>\n<div>Ruth Orkin<\/div>\n<div>&#8216;American Girl in Italy&#8217;, foto de Ruth Orkin, flagrou o machismo latino em 1951.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u00c9 uma tentativa grosseira de gerar barulho por meio da indigna\u00e7\u00e3o dos leitores (e, principalmente, leitoras). Na internet, deu-se a isso o nome de &#8220;trolada&#8221;: defender um objetivo rid\u00edculo, em que nem voc\u00ea mesmo acredita, com a inten\u00e7\u00e3o de se tornar o centro das aten\u00e7\u00f5es. Acontece que a campanha gerou mais deboche do que raiva.<\/p>\n<p>Apesar de insignificante, \u00e9 triste ver uma campanha refor\u00e7ar um discurso que j\u00e1 gerou tantas trag\u00e9dias. A afirma\u00e7\u00e3o do poder dos homens sobre as mulheres \u00e9 o que sustenta o machismo e v\u00e1rias formas de viol\u00eancia contra elas. Talvez voc\u00ea diga: &#8220;Ah, mas \u00e9 s\u00f3 uma brincadeira&#8230;&#8221;. Foi exatamente o que eu ouvi quando comecei minha cruzada contra o ass\u00e9dio sexual em locais p\u00fablicos, cinco meses atr\u00e1s. Em julho, lancei a campanha Chega de Fiu Fiu, pelo site Think Olga. A a\u00e7\u00e3o tem um objetivo: mostrar como ass\u00e9dio humilha e intimida as mulheres, e exterminar esse comportamento. A luta partiu de uma afli\u00e7\u00e3o pessoal. Sofro ass\u00e9dio nas ruas desde antes de menstruar. A primeira vez foi aos 11 anos, quando um cara, na rua da minha casa, me disse palavras que os editores deste jornal n\u00e3o me deixariam reproduzir.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria exclusiva minha. Amigas e conhecidas tamb\u00e9m se lamentavam, em voz baixa, sobre o problema. A discri\u00e7\u00e3o tinha motivo: o medo de serem taxadas de exageradas, reclamonas e at\u00e9, veja s\u00f3, metidas. O assunto, como costumo dizer, era tratado como um monstro invis\u00edvel, sem nenhum dado ou informa\u00e7\u00e3o que pudessem descrev\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Em agosto, com a jornalista Karin Hueck, tentei entender contra o que brig\u00e1vamos. Publicamos no site um question\u00e1rio sobre ass\u00e9dio, elaborado por ela. Em apenas duas semanas, 7.762 mulheres brasileiras haviam respondido. Entre elas, 83% disseram n\u00e3o gostar do que s\u00e3o obrigadas a ouvir nas ruas; 81% j\u00e1 deixaram de fazer tarefas cotidianas por medo de ass\u00e9dio; 90% j\u00e1 trocaram de roupa para evitar cantadas; 85% delas j\u00e1 sofreram com a tal &#8220;m\u00e3o boba&#8221;.<\/p>\n<p>Essas mulheres tamb\u00e9m compartilharam milhares de relatos terr\u00edveis. Iam de agress\u00f5es verbais at\u00e9 contatos f\u00edsicos &#8211; &#8220;um homem se masturbou ao meu lado&#8221;, &#8220;um cara se aproximou me chamando de linda e encostou no meu rosto a m\u00e3o molhada de s\u00eamen&#8221;, &#8220;quatro desconhecidos, ao cruzarem comigo na rua, tentaram rasgar minhas roupas&#8221;.<\/p>\n<p>Um dos obst\u00e1culos da campanha \u00e9 a frequente confus\u00e3o entre agress\u00e3o e elogio, e ela foi at\u00e9 acusada de tentar acabar com o flerte. O fato de algu\u00e9m n\u00e3o ser capaz de diferenciar ass\u00e9dio sexual de rela\u00e7\u00f5es rom\u00e2nticas naturais j\u00e1 mostra como o assunto \u00e9 problem\u00e1tico.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 nada dif\u00edcil diferenciar um do outro. Elogio demonstra respeito, ass\u00e9dio constrange e humilha. Fa\u00e7a o teste: voc\u00ea repetiria o xaveco com sua chefe? Se suspeita que ela pode n\u00e3o gostar e at\u00e9 o demitir, por que faz\u00ea-lo com uma estranha na rua? Talvez seja s\u00f3 porque alguns homens sentem que, em locais p\u00fablicos, t\u00eam poder para fazer o que quiserem com as mulheres. Tamb\u00e9m disseram que esse \u00e9 apenas um tra\u00e7o da t\u00e3o famosa cordialidade do brasileiro. Quando o historiador S\u00e9rgio Buarque de Holanda usou essa palavra para descrever nosso povo, ele quis dizer que as rela\u00e7\u00f5es por aqui &#8220;vem do cora\u00e7\u00e3o&#8221;. Ou seja, as pessoas tendem a tratar quem est\u00e1 pr\u00f3ximo como se fosse amigo ou membro da fam\u00edlia, e a ignorar o que \u00e9 p\u00fablico. O que as mulheres sofrem na rua \u00e9 o oposto de ser cordial. \u00c9, na verdade, o pior tra\u00e7o cultural do Pa\u00eds: ignorar o direito dos cidad\u00e3os comuns e n\u00e3o prezar uma vida p\u00fablica de respeito e igualdade.<\/p>\n<p>Mas o ass\u00e9dio sexual nas ruas n\u00e3o \u00e9 um problema exclusivo do Brasil. \u00c9 mundial. N\u00e3o \u00e0 toa, a ONU Mulheres lan\u00e7ou, em outubro, uma campanha contra ele. No fim do m\u00eas passado, Navi Pillay, alta comiss\u00e1ria para os Direitos Humanos da ONU, alertou para a viol\u00eancia justificada pelas roupas que as mulheres usam. &#8220;Qualquer tipo de abuso contra mulheres \u00e9 inaceit\u00e1vel, independentemente do que estiver vestindo&#8221;, disse.<\/p>\n<p>Em pa\u00edses em que a igualdade de g\u00eanero \u00e9 mais equilibrada, como Alemanha, Noruega e Su\u00e9cia, o ass\u00e9dio sexual nas ruas praticamente n\u00e3o existe. Ou seja, isso \u00e9 uma prova de que as tais cantadas est\u00e3o intrinsecamente ligadas a uma quest\u00e3o de poder, e n\u00e3o a carinho ou valoriza\u00e7\u00e3o. O cen\u00e1rio, no entanto, est\u00e1 mudando. Pode ser visto no crescimento de v\u00e1rios grupos de combate ao ass\u00e9dio e no engajamento de muitos homens na Chega de Fiu Fiu.<\/p>\n<p>Ante tantas evid\u00eancias de que o problema existe e \u00e9 grave, percebi que h\u00e1 dois tipos de rea\u00e7\u00e3o por parte dos homens. Alguns tentam entender melhor o que est\u00e1 acontecendo e querem conversar com as mulheres para criar uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel para ambos os g\u00eaneros. Outros apenas trazem novos exemplos do problema: soltam palavr\u00f5es (fui chamada de fr\u00edgida, mal comida e vagabunda, al\u00e9m de outros piores) e at\u00e9 tentam silenciar o movimento com viol\u00eancia, como no caso das amea\u00e7as de estupro que recebi. S\u00e3o pessoas que se revoltam em perder o privil\u00e9gio e, de maneira raivosa, sentem saudade de quando podiam explorar e humilhar quem eles quisessem sem dor na consci\u00eancia. \u00c9 como se quisessem voltar no tempo. Mas, como todos sabemos, n\u00e3o existem m\u00e1quinas do tempo. \u00c9 inevit\u00e1vel que esses sejam atropelados pela hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Fonte: Estado de S. Paulo<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Campanha fala em crise do macho, mas ass\u00e9dio a mulheres nas ruas constrange e humilha Juliana de Faria Uma pesquisa brit\u00e2nica mostrou no m\u00eas passado que, se voc\u00ea apresentar para o p\u00fablico frases de uma revista masculina e depoimentos de estupradores, ningu\u00e9m consegue perceber a diferen\u00e7a. Agora, ganhamos mais um exemplo dessa afinidade. 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