{"id":337874,"date":"2020-11-13T07:12:55","date_gmt":"2020-11-13T10:12:55","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=337874"},"modified":"2020-11-13T08:41:39","modified_gmt":"2020-11-13T11:41:39","slug":"ha-110-anos-marujos-denunciaram-chibata-na-marinha-e-racismo-no-brasil-pos-abolicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ha-110-anos-marujos-denunciaram-chibata-na-marinha-e-racismo-no-brasil-pos-abolicao\/","title":{"rendered":"H\u00e1 110 anos, marujos denunciaram chibata na Marinha e racismo no Brasil p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<nav class=\"t_n\">\n<div class=\"gh_c\">\n<div class=\"global-header global-header__article | flex_grid no_gutter_mobile color_gray_dark relative background_white\">\n<div class=\"header_bottom-bar | row relative\">\n<div id=\"paywallOfferBig\" class=\"paywallOffer Big\">\n<div class=\"whiteContent\"><strong>Ocultada tanto pela ditadura do Estado Novo quando pelo regime militar, a Revolta da Chibata ajudou a derrubar o mito da democracia racial no pa\u00eds<\/strong><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/nav>\n<article class=\"a | flex_grid background_white\">\n<header class=\"a_h | col desktop_12 tablet_8 mobile_4\">\n<figure class=\"lead_art | \"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/L7hXOuMylElWHgTKoZsq6-T44pc=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/FSGGZAGGDNEMNM6FJXZG3VGHSI.jpeg\" alt=\"\" \/><figcaption class=\"f_c | color_gray_medium border_bottom border_1 border_gray padding_vertical text_align_right\"><span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">REVISTA\u00a0O MALHO\/BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL \/ EL PA\u00cdS<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"sb | width_full border_bottom border_5\">\n<div class=\"sb_w | border_bottom border_1 padding_bottom flex justify_space_between relative\">\n<div class=\"flex container_row social-icons horizontal \"><\/div>\n<div class=\"flex container_row social-icons right-links horizontal \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div data-fusion-collection=\"features\" data-fusion-type=\"article\/lead-art\"><\/div>\n<div class=\"a_by | margin_bottom_lg \">\n<div class=\"a_auts flex flex_wrap \">\n<p><span class=\"a_aut | margin_bottom uppercase flex align_items_center \"><a class=\"a_aut_n | color_black\" title=\"Ver todas as not\u00edcias de Ricardo Westin (Ag\u00eancia Senado)\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/autor\/el-pais\/\">RICARDO WESTIN (AG\u00caNCIA SENADO)<\/a><\/span><\/p>\n<div class=\"flex container_row social-icons margin_left horizontal small\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/header>\n<div class=\"a_w | col desktop_8 tablet_8 mobile_4\">\n<div class=\"a_b article_body | color_gray_dark\">\n<p class=\"\">O\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/rio-de-janeiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Rio de Janeiro<\/a> entrou em p\u00e2nico. Quando correu a not\u00edcia de que, da Ba\u00eda de Guanabara, quatro navios de guerra apontavam seus canh\u00f5es para a cidade, os cariocas fizeram as malas \u00e0s pressas para fugir da morte. Na Esta\u00e7\u00e3o Central do Brasil, os trens para longe da capital da Rep\u00fablica partiram lotados. Nos bondes com destino aos sub\u00farbios, os passageiros viajaram espremidos, muitos pendurados no lado de fora.<\/p>\n<p class=\"\">O perigo era real. Numa amostra do estrago que eram capazes de provocar, os encoura\u00e7ados fizeram disparos que mataram duas crian\u00e7as no Morro do Castelo, no Centro, a poucos metros da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/camara-deputados-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">C\u00e2mara dos Deputados<\/a>.<\/p>\n<p class=\"\">O senador Ruy Barbosa (BA) contou aos colegas, num discurso no Senado, o horror de ter sido testemunha ocular do ataque naval:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Foi com a minha filha chumbada ao leito, por uma enfermidade que n\u00e3o nos permite sequer mov\u00ea-la na sua pr\u00f3pria cama, que tive esta manh\u00e3 de ver passar sobre a nossa casa, sob a forma de um proj\u00e9til de guerra, a triste amea\u00e7a de ataque \u00e0 nossa seguran\u00e7a e \u00e0 nossa civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"\">H\u00e1 110 anos, explodia a\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Revolta_da_Chibata\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><b>Revolta da Chibata<\/b><\/a>. Na noite de 22 de novembro de 1910, centenas de marujos se insurgiram e se apossaram dos quatro navios da\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/marina-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Marinha<\/a>, entre os quais os encoura\u00e7ados Minas Gerais e S\u00e3o Paulo, as mais poderosas m\u00e1quinas de guerra da \u00e9poca. Eles n\u00e3o tinham motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A grande bandeira era o fim dos castigos corporais aplicados aos acusados de indisciplina. Dos castigos, o mais violento eram as chicotadas \u2014 da mesma forma que se fazia com os\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/esclavitud\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">escravos na \u00e9poca da Col\u00f4nia e do Imp\u00e9rio<\/a>. Por causa das chibatadas, as deser\u00e7\u00f5es no mundo naval eram rotineiras.<\/p>\n<p class=\"\">Como o Governo era surdo aos clamores, os marinheiros resolveram pressionar de uma forma mais dr\u00e1stica. Atacaram os comandantes dos navios, matando alguns deles, assumiram os tim\u00f5es e viraram os canh\u00f5es para o Rio. Depois de fazer aqueles primeiros disparos, os marujos apresentaram um ultimato ao presidente da Rep\u00fablica, o marechal\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Hermes_da_Fonseca\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Hermes da Fonseca<\/a>: se os castigos desumanos n\u00e3o fossem proibidos, a capital iria pelos ares.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/iPN0qnt-UDmtD--82HudGGPds_Y=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/JYKIKUKF4JFEVHH4DHECDFM7PU.jpg\" alt=\"Marujos rebeldes no encoura\u00e7ado S\u00e3o Paulo mostram cartaz com dizeres &quot;viva a liberdade&quot;\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Marujos rebeldes no encoura\u00e7ado S\u00e3o Paulo mostram cartaz com dizeres &#8220;viva a liberdade&#8221;<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">CARETA\/BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Documentos hist\u00f3ricos guardados no\u00a0<a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/institucional\/arquivo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Arquivo do Senado<\/a>, em Bras\u00edlia, mostram que os senadores tiveram papel decisivo no desenrolar e no desfecho da Revolta da Chibata.\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ruy_Barbosa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Ruy Barbosa<\/a>, depois de recuperar-se do susto inicial e inteirar-se da motiva\u00e7\u00e3o dos rebeldes, mudou o tom dos discursos e se transformou no mais ardoroso apoiador dos marinheiros:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Senhores, n\u00e3o h\u00e1 muitos anos, nas proximidades de Santos, na Fortaleza da Praia Grande, diversos soldados, submetidos ao castigo corporal, ca\u00edam fulminados pela sua agonia e pouco depois eram cad\u00e1veres. Tratou-se de uma sindic\u00e2ncia, uma dessas provid\u00eancias aparentes com que se procura iludir a publicidade, mas o inqu\u00e9rito morreu ali mesmo, sem que esse crime tivesse puni\u00e7\u00e3o. Ainda h\u00e1 poucos dias, uma senhora, filha de um almirante, perguntava a um marinheiro, cujas m\u00e3os estavam enroladas com chuma\u00e7os de pano, que mol\u00e9stia sofria. \u201cAh, minha senhora, se soubesse&#8230; Estas m\u00e3os receberam 60 d\u00fazias de bolos.\u201d \u00c9 desse monturo de\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/pobreza\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">mis\u00e9rias sociais<\/a>\u00a0que fermentam as subleva\u00e7\u00f5es militares.<\/p>\n<p class=\"\">Os insurgentes tamb\u00e9m pediam reajuste do sal\u00e1rio, melhora da qualidade da ra\u00e7\u00e3o e al\u00edvio na carga de trabalho.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Navios constru\u00eddos para 900 homens de tripula\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem ser guarnecidos, mantidos, asseados e conservados por 300 marinheiros \u2014 criticou Ruy no Senado.<\/p>\n<p class=\"\">Como pano de fundo da revolta de 1910, estava\u00a0<a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/infomaterias\/2020\/06\/negro-continuara-sendo-oprimido-enquanto-o-brasil-nao-se-assumir-racista-dizem-especialistas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">o que hoje \u00e9 chamado de racismo estrutural<\/a>. De acordo com n\u00fameros da \u00e9poca, at\u00e9 90% dos marujos eram negros, isto \u00e9, filhos e netos de antigos escravos.\u00a0<a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/infograficos\/2018\/05\/senado-e-camara-aprovaram-lei-aurea-em-apenas-5-dias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">A Lei \u00c1urea fora assinada apenas 22 anos antes.<\/a>\u00a0A eles cabia o trabalho mais pesado dos navios militares, incluindo a limpeza e as caldeiras. Havendo gente de menos, ainda tinham que acumular fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"\">Como a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/esclavitud\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">escravid\u00e3o fora abolida sem que se garantisse aos negros indeniza\u00e7\u00e3o, terra, educa\u00e7\u00e3o ou trabalho<\/a>\u00a0(a op\u00e7\u00e3o da lavoura p\u00f3s-1888 foi por imigrantes europeus pobres), a imensa maioria deles teve que se contentar com os empregos que ningu\u00e9m queria. A Marinha era um desses empregos.<\/p>\n<p class=\"\">A pr\u00f3pria\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/constitucion\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Constitui\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0da \u00e9poca enxergava os negros como cidad\u00e3os de segunda classe. No cap\u00edtulo referente \u00e0 cidadania, a Carta de 1891 dizia que n\u00e3o tinham direito ao voto os mendigos, os analfabetos e os subalternos da Marinha e do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p class=\"\">Ao mesmo tempo, o oficialato da Marinha, grupo respons\u00e1vel pelo comando das embarca\u00e7\u00f5es, era inteiramente branco. O grande desejo das fam\u00edlias abastadas da Primeira Rep\u00fablica era que todo filho homem se tornasse m\u00e9dico, advogado, engenheiro ou almirante.<\/p>\n<p class=\"\">O\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-06-03\/tirem-os-joelhos-brancos-dos-pescocos-negros.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">fosso racial entre marujos negros e oficiais brancos<\/a>\u00a0era t\u00e3o expl\u00edcito que os jornais do Rio de Janeiro apelidaram o marinheiro\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Jo%C3%A3o_C%C3%A2ndido\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Jo\u00e3o C\u00e2ndido<\/a>\u00a0\u2014 aos 30 anos de idade, o cabe\u00e7a do motim \u2014 de Almirante Negro. Eram duas palavras que n\u00e3o faziam sentido juntas. Para os jornais oposicionistas, simp\u00e1ticos \u00e0 Revolta da Chibata, o apelido era uma forma de mostrar que Jo\u00e3o C\u00e2ndido tinha valor, pois era capaz comandar o gigantesco encoura\u00e7ado Minas Gerais mesmo sem ter passado pela prestigiosa Escola Naval. Para os jornais governistas, cr\u00edticos do motim, por sua vez, era uma maneira de ridicularizar o reles marinheiro negro que tinha o atrevimento de se portar como se fosse almirante.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/g4HGuRUozB4uiuugsRjiJuXDnA4=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/FROLL3YGNNDKLEKFOXPCAB4WFY.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o C\u00e2ndido, apelidado de Almirante Negro; e Hermes da Fonseca, o presidente da Rep\u00fablica.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Jo\u00e3o C\u00e2ndido, apelidado de Almirante Negro; e Hermes da Fonseca, o presidente da Rep\u00fablica.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">O MALHO\/BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL E LIBRARY OF CONGRESS<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Em meio \u00e0 insurrei\u00e7\u00e3o dos marujos, Ruy Barbosa, que era o l\u00edder dos oposicionistas no Senado, chegou a comparar a luta contra a chibata na\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Primeira_Rep%C3%BAblica_Brasileira\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Primeira Rep\u00fablica<\/a>\u00a0\u00e0 luta contra a escravid\u00e3o no\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Segundo_reinado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Segundo Reinado<\/a>:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 O homem do povo, preto ou mesti\u00e7o, que veste a nobre camisa azul da nossa Marinha, filho ou descendente de antigos escravos, sabe que, para emancip\u00e1-los, uma revolu\u00e7\u00e3o abalou a sociedade e um regime [a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/monarquia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Monarquia<\/a>] caiu. Esse homem do povo agora sente cair sobre as carnes a chibata aviltante, sente a indigna palmat\u00f3ria magoar-lhe as m\u00e3os. Todos os abusos t\u00eam, mais cedo ou mais tarde, sua expia\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p class=\"\">At\u00e9 mesmo Pinheiro Machado (RS), o mais governista dos senadores, enxergou nos marinheiros alguma raz\u00e3o. Num pronunciamento, ele citou os sal\u00e1rios de fome:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Nunca compreendi como na Rep\u00fablica se tenha feito, com tanta liberalidade, aumentos de soldo todos os anos \u00e0s classes armadas, aos oficiais, ora sob pretexto de equipara\u00e7\u00e3o, ora modificando-se a organiza\u00e7\u00e3o do quadro de generais, de modo que temos no pa\u00eds numerosos generais sem termos soldados. Nunca compreendi que, para atender \u00e0s necessidades das\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/fuerzas-armadas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">For\u00e7as Armadas<\/a>, fosse esse o processo republicano, abandonando-se o interesse das pra\u00e7as [militares subalternos]. Agora mesmo fez-se a reforma dos Correios, e os estafetas [carteiros] foram esquecidos. Os direitos dos que trabalham, dos que mourejam, dos humildes s\u00e3o esquecidos neste regime de igualdade.<\/p>\n<p class=\"\">O senador Alfredo Ellis (SP) concordou:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 S\u00e3o os deserdados da Rep\u00fablica oligarca.<\/p>\n<p class=\"\">Muito marujo negro certamente cresceu ouvindo de seus pais e av\u00f3s hist\u00f3rias atrozes que eles pr\u00f3prios viveram nos tempos da escravid\u00e3o. Em 1910, a marinhagem tinha consci\u00eancia de que, mesmo com a\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/esclavitud\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Lei \u00c1urea<\/a>\u00a0em vigor, as atrocidades permaneciam \u2014 por\u00e9m com nova roupagem, adaptadas \u00e0 era do trabalho livre.<\/p>\n<p class=\"\">Numa das mensagens ao presidente da Rep\u00fablica, os rebeldes liderados por Jo\u00e3o C\u00e2ndido escreveram: \u201cPedimos a V. Exa. abolir a chibata e os demais b\u00e1rbaros castigos pelo direito da nossa liberdade, a fim de que a Marinha brasileira seja uma Armada de cidad\u00e3os, e n\u00e3o uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/12\/17\/economia\/1481988865_894992.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">fazenda de escravos<\/a>\u00a0que s\u00f3 t\u00eam dos seus senhores o direito de serem chicoteados.\u201d<\/p>\n<p class=\"\">Em outra mensagem endere\u00e7ada ao Pal\u00e1cio do Catete, citaram os republicanos que derrubaram a Monarquia em 1889 prometendo inclus\u00e3o social: \u201cDurante 20 anos, a Rep\u00fablica ainda n\u00e3o foi bastante para tratar-nos como cidad\u00e3os fardados em defesa da p\u00e1tria. Mandamos esta honrada mensagem para que V. Ex\u00aa. fa\u00e7a aos marinheiros brasileiros possuirmos os direitos sagrados que as leis da Rep\u00fablica nos facilitam\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">Na vis\u00e3o do historiador\u00a0<a href=\"https:\/\/bv.fapesp.br\/pt\/pesquisador\/53005\/alvaro-pereira-do-nascimento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">\u00c1lvaro Pereira do Nascimento<\/a>, que \u00e9 professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e autor do livro\u00a0<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S2236-46332019000100358\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>Jo\u00e3o C\u00e2ndido, o Mestre-Sala dos Mares<\/i><\/a>\u00a0(Eduff), a Revolta da Chibata diz muito sobre o Brasil de hoje. Segundo ele, a insurrei\u00e7\u00e3o de 1910 foi um sinal inequ\u00edvoco de que o racismo continuou estruturando a sociedade brasileira mesmo depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 O\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/racismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">racismo estrutural \u00e9 aquele que se mant\u00e9m com o apoio do Estado<\/a>, seja por meio de leis, seja por for\u00e7as outras que n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis. N\u00e3o existia nenhum c\u00f3digo dizendo que negros n\u00e3o podiam entrar na Escola Naval. Eles n\u00e3o entravam porque n\u00e3o tinham forma\u00e7\u00e3o educacional. Quando tinham forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o possu\u00edam dinheiro para pagar o enxoval exigido pela Escola Naval. Ainda que conseguissem o enxoval, l\u00e1 dentro existiam v\u00e1rias normas n\u00e3o escritas que os impediam de concluir o curso. A Marinha, mesmo sendo hoje uma institui\u00e7\u00e3o de 200 anos, s\u00f3 foi ter o primeiro almirante de carreira negro recentemente, na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo 21. Com os marujos nos por\u00f5es dos navios e os almirantes nos camarotes, a Marinha apenas reproduziu \u00e0 sua maneira o racismo que tem estado presente na sociedade o tempo todo.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/5g6qeQ0KZOXBYKB5AM8dT1xGZXM=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/UFSDOG4E45FXDGKU3PIAAMDG7I.jpg\" alt=\"Jornal noticia o fim da Revolta da Chibata.\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Jornal noticia o fim da Revolta da Chibata.<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">CORREIO DA MANH\u00c3\/BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">No romance\u00a0<a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/Bom_Crioulo.html?id=Diglo_N07v8C&amp;redir_esc=y\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>Bom Crioulo<\/i>, publicado em 1895, o escritor Adolfo Caminha<\/a>\u00a0\u2014 que teve uma breve carreira naval, chegando ao posto de segundo-tenente \u2014 recorreu \u00e0s cenas que vira na Marinha para descrever as chicotadas a bordo dos navios de guerra:<\/p>\n<p class=\"\"><i>O motivo, por\u00e9m, de sua pris\u00e3o agora, no alto mar, a bordo da corveta, era outro, muito outro: Bom Crioulo esmurrara desapiedadamente um segunda-classe. [&#8230;]<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>Metido em ferros no por\u00e3o, Bom Crioulo n\u00e3o deu palavra. Admiravelmente manso quando se achava em seu estado normal, longe de qualquer influ\u00eancia alco\u00f3lica, submeteu-se \u00e0 vontade superior, esperando resignado o castigo. [&#8230;]<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>A chibata n\u00e3o lhe fazia mossa; tinha costas de ferro para resistir como um H\u00e9rcules ao pulso do guardi\u00e3o Agostinho. J\u00e1 nem se lembrava do n\u00famero das vezes que apanhara de chibata&#8230;\u2014 Uma! \u2014 cantou a mesma voz.<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>\u2014 Duas! Tr\u00eas! Bom Crioulo tinha despido a camisa de algod\u00e3o, e, nu da cintura para cima, [&#8230;] nem sequer gemia, como se estivesse a receber o mais leve dos castigos.<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>Entretanto, j\u00e1 iam cinquenta chibatadas! Ningu\u00e9m lhe ouvira um gemido, nem percebera uma contor\u00e7\u00e3o, um gesto qualquer de dor.<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>Viam-se unicamente naquele cost\u00e3o negro as marcas do junco, umas sobre as outras, entrecruzando-se como uma grande teia de aranha, roxas e latejantes, cortando a pele em todos os\u00a0<\/i><a href=\"http:\/\/sentidos.de\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>sentidos.<\/i><\/a><\/p>\n<p class=\"\"><i>De repente, por\u00e9m, Bom Crioulo teve um estremecimento e soergueu um bra\u00e7o: a chibata vibrara em cheio sobre os rins, empolgando o baixo-ventre. Fora um golpe medonho, arremessado com uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria.<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>Por sua vez Agostinho estremeceu, mas estremeceu de gozo ao ver, afinal, triunfar a rijeza de seu pulso.<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>Marinheiros e oficiais, num sil\u00eancio concentrado, alongavam o olhar, cheios de interesse, a cada golpe.<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>\u2014 Cento e cinquenta!<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>S\u00f3 ent\u00e3o houve quem visse um ponto vermelho, uma gota rubra deslizar no espinha\u00e7o negro do marinheiro e logo este ponto vermelho se transformar numa fita de sangue. [&#8230;]<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>\u2014 Basta! \u2014 imp\u00f4s o comandante.<\/i><\/p>\n<p class=\"\"><i>Estava terminado o castigo. Ia recome\u00e7ar a faina.<\/i><\/p>\n<p class=\"\">O impulso inicial do marechal Hermes da Fonseca foi partir com tudo para cima dos revoltosos. O presidente assumira o\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Pal%C3%A1cio_do_Catete\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Pal\u00e1cio do Catete<\/a>\u00a0havia apenas uma semana e sabia dos riscos que corria ao come\u00e7ar o mandato fazendo concess\u00f5es e enfraquecendo o pr\u00f3prio Governo. Ao mesmo tempo, sendo ele pr\u00f3prio um militar de carreira, n\u00e3o tolerava o desrespeito \u00e0 hierarquia.<\/p>\n<p class=\"\">Quem o conteve foi Pinheiro Machado. A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/prensa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">imprensa oposicionista<\/a>\u00a0afirmava que o presidente, sem muita experi\u00eancia no mundo do poder (a n\u00e3o ser um breve per\u00edodo como ministro da Guerra), n\u00e3o passava de um fantoche nas m\u00e3os do senador ga\u00facho, o pol\u00edtico mais influente da \u00e9poca. Pinheiro Machado chamou-lhe a aten\u00e7\u00e3o para o fato de que, entre os quatro navios rebelados, estavam os poderosos encoura\u00e7ados Minas Gerais e S\u00e3o Paulo, que, rec\u00e9m-comprados, haviam custado uma fortuna. Ou seja, as corvetas que haviam se mantido fi\u00e9is ao governo n\u00e3o tinham poder de fogo para enfrent\u00e1-los. Ainda que pudessem ser afundados, o Governo estava endividado e n\u00e3o podia se dar ao luxo de queimar dinheiro p\u00fablico.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/3rlqml8EA4e6o99at_p8qViFn1U=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/QPYPORURH5D2LAQWJ4PJUT645M.jpg\" alt=\"Ap\u00f3s fim da revolta, marujos devolvem comando de encoura\u00e7ado a oficial da Marinha\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Ap\u00f3s fim da revolta, marujos devolvem comando de encoura\u00e7ado a oficial da Marinha<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">O MALHO\/BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">O marechal Hermes cedeu \u00e0s pondera\u00e7\u00f5es, mas se recusou a lidar diretamente com os revoltosos. As negocia\u00e7\u00f5es foram conduzidas por senadores e deputados. Influenciados por Ruy Barbosa, os parlamentares entenderam que, para que os marujos enfim aceitassem entregar as armas, o Governo precisava conceder-lhes a anistia, de modo que n\u00e3o fossem punidos pelos crimes cometidos ao tomar as embarca\u00e7\u00f5es e matar os comandantes. Contrariando o presidente da Rep\u00fablica, o senador Severino Vieira (BA) apresentou ao\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/congresso-nacional-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Congresso Nacional<\/a>\u00a0um projeto de lei prevendo a anistia.<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Voto a favor do projeto porque no movimento atual s\u00f3 enxergo uma greve de oper\u00e1rios da na\u00e7\u00e3o reclamando melhoria das condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia material e moral \u2014 disse o senador Jo\u00e3o Luiz Alves (ES).<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 A\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/amnistia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">anistia<\/a>\u00a0correta \u00e9 regular, \u00e9 jur\u00eddica, desde que ela oferece aos insurgentes uma medida para p\u00f4r termos a um conflito insol\u00favel \u2014 afirmou Ruy Barbosa, tentando convencer o Governo de que n\u00e3o se tratava de uma humilha\u00e7\u00e3o. \u2014 Nas guerras internacionais, os Bonapartes capitulam \u00e0 frente de dezenas e centenas de milhares de homens sem que se possa atribuir \u00e0 covardia ou ao medo a inspira\u00e7\u00e3o que os leva a erguer a bandeira da paz e se submeter \u00e0s exig\u00eancias do inimigo. Nesse caso, aceitar as condi\u00e7\u00f5es \u00e9 ceder \u00e0 raz\u00e3o humana, sem desonra nem quebra do decoro da autoridade.<\/p>\n<p class=\"\">A anistia foi aprovada por unanimidade. Sem alternativa, o presidente teve que sancion\u00e1-la. Os 2.300 marujos amotinados se entregaram em 26 de novembro. Em troca, eles conseguiram tamb\u00e9m a t\u00e3o sonhada aboli\u00e7\u00e3o dos castigos corporais. Satisfeitos, desembarcaram posando para os fot\u00f3grafos e dando entrevista para os rep\u00f3rteres dos jornais. Depois de quatro dias de terror, a Revolta da Chibata chegava ao fim e o Rio de Janeiro finalmente respirava aliviado.<\/p>\n<p class=\"\">Da tribuna do Senado, Ruy Barbosa continuou com o apoio:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Li com admira\u00e7\u00e3o como esses homens mostravam com orgulho os seus navios, dizendo: \u201cSenhores, isto \u00e9 uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/revueltas-sociales\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">revolta honesta<\/a>!\u201d. Eles tinham lan\u00e7ado ao mar toda a aguardente existente a bordo para n\u00e3o se embriagarem, tinham feito guardar com sentinelas as caixas onde se achavam depositados os valores, tinham mandado atalaiar com sentinelas os camarotes dos oficiais para que n\u00e3o fossem violados, tinham guardado na organiza\u00e7\u00e3o do movimento um sigilo prodigioso entre os costumes brasileiros, tinham sido fieis \u00e0 sua ideia, tinham sido leais uns com os outros, desinteressados na luta. E, em vez de se entregarem aos instintos t\u00e3o naturais em homens da sua condi\u00e7\u00e3o, servindo-se dos meios destruidores de que dispunham contra a cidade, fizeram concess\u00f5es e estabeleceram a luta como se fossem for\u00e7as regulares contra inimigos regularmente constitu\u00eddos. Gente dessa ordem n\u00e3o se despreza. Lamentam-se os desvios, mas reconhece-se o valor humano que ela representa.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/6v-FVk42d7_FVE1iFCKd7in2XmY=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/SY6SYOY6FRDPXCPNYLASSOHC2M.jpg\" alt=\"Marinheiros s\u00e3o detidos ap\u00f3s fim da Revolta da Chibata\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Marinheiros s\u00e3o detidos ap\u00f3s fim da Revolta da Chibata<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">A ILUSTRA BRASILEIRA\/FUNDA\u00c7\u00c3O BIBLIOTECA NACIONAL \/ A ILUSTRA BRASILEIRA\/FUNDA\u00c7\u00c3O<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">A paz, contudo, duraria pouco. Dois dias depois do armist\u00edcio, o marechal Hermes, que n\u00e3o estava disposto a esquecer a aud\u00e1cia da marujada, baixou uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/dimisiones\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">norma autorizando a Marinha a demitir sumariamente todos os homens tidos como indisciplinados<\/a>. Os marinheiros compreenderam que a anistia fora de mentira.<\/p>\n<p class=\"\">Aparentemente, o que o presidente desejava era for\u00e7ar uma nova rebeli\u00e3o e dessa vez sufoc\u00e1-la de forma exemplar. Para evitar o mesmo susto da Revolta da Chibata, mandou retirar a muni\u00e7\u00e3o de todos os navios de guerra. A previs\u00e3o se cumpriu. Em 9 de dezembro, inconformados com a anistia enganosa, alguns marinheiros que n\u00e3o haviam participado da Revolta da Chibata se rebelaram na\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ilha_das_Cobras_(Rio_de_Janeiro)\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Ilha das Cobras<\/a>, onde havia instala\u00e7\u00f5es da Marinha. Sem perder tempo e ignorando a bandeira branca logo levantada pelos amotinados, as for\u00e7as do Governo arrasaram a pequena ilha.<\/p>\n<p class=\"\">O marechal Hermes usou essa segunda revolta para conseguir do Congresso Nacional a aprova\u00e7\u00e3o do\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Estado_de_exce%C3%A7%C3%A3o\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">estado de s\u00edtio<\/a>, em que certos direitos constitucionais ficam suspensos e o governo ganha mais poderes para repelir as investidas dos inimigos. O estado de s\u00edtio s\u00f3 n\u00e3o foi aprovado por unanimidade porque Ruy Barbosa advertiu que mais arbitrariedades certamente seriam cometidas e votou contra.<\/p>\n<p class=\"\">Nos dias seguintes, sem processo judicial ou defesa, centenas de marujos foram perseguidos e presos. Alguns morreram em masmorras militares, asfixiados por nuvens de cal virgem lan\u00e7adas pelos carcereiros. Outros foram fuzilados em navios em alto-mar, acusados de tramar uma terceira revolta. Muitos foram despachados para os confins do\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/acre\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Acre<\/a>, onde trabalharam como escravos na extra\u00e7\u00e3o da borracha, na extens\u00e3o de linhas telegr\u00e1ficas e na constru\u00e7\u00e3o de estradas de ferro.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/UyFG3opS9lkKMkOBK8jPWfNUvjA=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/WND7QQDILVARFIXKQR7YKMLVDA.jpg\" alt=\"Charges de 1910 mostram que seria rid\u00edculo se negros comandassem brancos na Marinha; a imagem da direita retrata Jo\u00e3o C\u00e2ndido como malandro\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Charges de 1910 mostram que seria rid\u00edculo se negros comandassem brancos na Marinha; a imagem da direita retrata Jo\u00e3o C\u00e2ndido como malandro<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">CARETA E O MALHO\/BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Num pronunciamento, o senador Pires Ferreira (PI) afirmou que os marujos fizeram por merecer:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 N\u00e3o \u00e9 justo que se endeusem criminosos como os que assassinaram o comandante Jo\u00e3o Batista das Neves [no primeiro dia da Revolta da Chibata]. Com aquela marinhagem, composta de homens que abusaram da anistia que lhes foi concedida, n\u00e3o podia haver outro recurso sen\u00e3o energia e energia.<\/p>\n<p class=\"\">Na mesma linha, o senador Urbano Santos (MA) leu para os colegas uma mensagem do ministro da Marinha:<\/p>\n<p class=\"\">\u201cRecrutada na camada social quase toda alheia a qualquer grau de instru\u00e7\u00e3o, a nossa maruja infelizmente \u00e9 dotada de esp\u00edrito inculto e assim se explica n\u00e3o haver apreendido que a anistia apagava a falta que cometera. Por essa defici\u00eancia de compreens\u00e3o, depois mesmo da a\u00e7\u00e3o benevolente e generosa dos poderes p\u00fablicos, ainda perdurou em seu esp\u00edrito o estado de indisciplina, de maneira que, em vez de se submeter \u00e0 ordem, parte da marinhagem continuou na insubordina\u00e7\u00e3o. O Governo ent\u00e3o se viu for\u00e7ado a dominar os novos movimentos com os meios de for\u00e7a de que dispunha, para acautelar os supremos interesses da ordem p\u00fablica confiados \u00e0 sua guarda\u201d.<\/p>\n<p class=\"\">O historiador \u00c1lvaro do Nascimento, da UFRRJ, afirma que, ao contr\u00e1rio do quadro pintado pelos pol\u00edticos governistas, os marujos revoltosos n\u00e3o eram aqueles brutos e ignorantes que s\u00f3 podiam ser domesticados \u00e0 base de chibatadas:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Os marinheiros, na realidade, demonstraram capacidade e intelig\u00eancia na Revolta da Chibata. Eles tiveram consci\u00eancia de classe, conseguiram criar um movimento organizado, planejaram o motim durante pelo menos um ano e, para agir, escolheram o preciso momento em que o pa\u00eds e o mundo pol\u00edtico estavam mais fragilizados, logo ap\u00f3s\u00a0<a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/infograficos\/2018\/08\/ruy-barbosa-desafiou-elite-da-republica-velha-e-fez-1a-campanha-eleitoral-moderna-do-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">o racha nacional provocado pela Campanha Civilista<\/a>\u00a0[a candidatura presidencial de Ruy Barbosa, que foi derrotado pelo marechal Hermes em mar\u00e7o de 1910], sem contar que conduziram sozinhos, sem a necessidade dos superiores, aqueles grandes navios de guerra. Os marinheiros queriam que a Marinha toda fosse reformulada, de modo que que eles pr\u00f3prios recebessem mais\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/educacion\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">educa\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0e os oficiais aprendessem a comandar sem viol\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"\">Furioso, Ruy Barbosa denunciou todos os abusos, incluindo a farsa da anistia. Diante das repetidas ofensas \u00e0 lei, afirmou que o marechal Hermes da Fonseca havia reduzido a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201cabandonad\u00edssima defunta\u201d. Apesar das den\u00fancias, os oficiais que comandaram as execu\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram acusados, presos ou condenados. Alguns, ao contr\u00e1rio, foram at\u00e9 promovidos.<\/p>\n<p class=\"\">Jo\u00e3o C\u00e2ndido, o Almirante Negro, foi poupado. Logo ap\u00f3s a revolta, ele passou uma temporada na cadeia e outra num manic\u00f4mio. Expulso da Marinha e na pobreza, viveu o resto da vida vendendo peixe e recebendo ajuda financeira de marinheiros gratos pelo fim da chibata. Jo\u00e3o C\u00e2ndido morreu em 1969, aos 89 anos de idade.<\/p>\n<figure class=\"f | margin_top\"><img decoding=\"async\" class=\"block width_full\" src=\"https:\/\/imagens.brasil.elpais.com\/resizer\/_IDo83HGUL2qKfUjmrShtl61WMM=\/1500x0\/cloudfront-eu-central-1.images.arcpublishing.com\/prisa\/CENY6WLBW5BPVIIQHDC454FPAE.jpg\" alt=\"Jo\u00e3o C\u00e2ndido na d\u00e9cada de 1940, como pescador, e est\u00e1tua do Almirante Negro no Rio de Janeiro\" \/><figcaption class=\"f_c | border_bottom border_1 border_gray_ultra_light_warm text_align_right padding_vertical color_gray_medium\">Jo\u00e3o C\u00e2ndido na d\u00e9cada de 1940, como pescador, e est\u00e1tua do Almirante Negro no Rio de Janeiro<span class=\"f_a | color_black margin_left uppercase light\"><span class=\"author\">REVISTA DA SEMANA\/BIBLIOTECA NACIONAL DIGITAL E VIN\u00cdCIUS ANT\u00d4NIO SILVA<\/span><\/span><\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"\">Os primeiros escritores que tentaram narrar a insurrei\u00e7\u00e3o foram barrados pela\u00a0<a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Estado_Novo_(Brasil)#:~:text=Estado%20Novo%2C%20ou%20Terceira%20Rep%C3%BAblica,anticomunismo%20e%20por%20seu%20autoritarismo.\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">ditadura do Estado Novo<\/a>\u00a0(1937-1945). O livro que tirou o movimento do esquecimento foi\u00a0<a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/A_revolta_da_chibata.html?id=wqoYAAAAYAAJ&amp;redir_esc=y\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>A Revolta da Chibata<\/i>, publicado pelo jornalista Edmar Morel\u00a0<\/a>em 1958. Foi Morel quem deu esse nome ao motim. Como n\u00e3o era considerado um epis\u00f3dio hist\u00f3rico, nem sequer tinha nome pr\u00f3prio.<\/p>\n<p class=\"\">Na\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/noticias\/dictadura-brasilena\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">ditadura militar (1964-1985)<\/a>, o assunto voltou a ser vetado. A obra de Morel foi logo recolhida das livrarias. Em 1974, a can\u00e7\u00e3o\u00a0<i>O Almirante Negro<\/i>, de Jo\u00e3o Bosco e\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/cultura\/2020-05-09\/aldir-blanc-e-a-representacao-do-brasileirismo-mais-carioca-do-mundo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">Aldir Blanc<\/a>, sofreu censura e, para ser liberada, teve que ser rebatizada de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ajjAV1bHHX4\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><i>O Mestre-Sala dos Mares<\/i><\/a>. A Revolta da Chibata s\u00f3 come\u00e7aria a entrar nos livros escolares na d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p class=\"\">De acordo com o historiador \u00c1lvaro Pereira do Nascimento, a Revolta da Chibata foi um epis\u00f3dio ocultado durante tanto tempo por dois motivos principais:<\/p>\n<p class=\"\">\u2014 Primeiro, porque a revolta mostrou que o povo brasileiro quer o di\u00e1logo com aqueles que est\u00e3o \u00e0 frente do Estado, mas pode se organizar, explodir e partir para a luta direta quando eles n\u00e3o escutam suas reivindica\u00e7\u00f5es. Segundo, porque fora negros que se rebelaram por serem explorados como os antigos escravos. A Revolta da Chibata derruba aquele mito de que o Brasil \u00e9 uma\u00a0<a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/opiniao\/2020-08-14\/a-realidade-do-coronavirus-e-a-fantasia-da-democracia-racial-no-brasil.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\">democracia racial<\/a>, onde as ra\u00e7as conviveriam em harmonia. A a\u00e7\u00e3o dos marinheiros passou d\u00e9cadas ocultada porque o racismo estrutural s\u00f3 pode permanecer e se perpetuar quando a sociedade acredita que ele n\u00e3o existe e que o que vigora \u00e9 essa democracia racial.<\/p>\n<p class=\"\"><i>A reportagem, publicada originalmente<\/i><a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/especiais\/arquivo-s\/em-1910-marujos-denunciaram-chibata-na-marinha-e-racismo-no-brasil-pos-abolicao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-link-track-dtm=\"\"><b>\u00a0aqui,<\/b><\/a><i>\u00a0faz parte da se\u00e7\u00e3o\u00a0<\/i><a href=\"http:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/especiais\/arquivo-s\" data-link-track-dtm=\"\"><i>Arquivo S<\/i><\/a><i>, resultado de uma parceria entre o Jornal do Senado, a Ag\u00eancia Senado e o Arquivo do Senado brasileiro.\u00a0<\/i>Reportagem e edi\u00e7\u00e3o:\u00a0<b>Ricardo Westin.\u00a0<\/b>Pesquisa hist\u00f3rica:\u00a0<b>Arquivo do Senado.\u00a0<\/b>Edi\u00e7\u00e3o de multim\u00eddia:\u00a0<b>Bernardo Ururahy.\u00a0<\/b>Edi\u00e7\u00e3o de fotografia:\u00a0<b>Pillar Pedreira.<\/b><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ocultada tanto pela ditadura do Estado Novo quando pelo regime militar, a Revolta da Chibata ajudou a derrubar o mito da democracia racial no pa\u00eds<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":337905,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-337874","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/revolta-da-chibata.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/337874","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=337874"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/337874\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/337905"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=337874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=337874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=337874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}