{"id":34048,"date":"2013-12-18T14:00:09","date_gmt":"2013-12-18T17:00:09","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=34048"},"modified":"2013-12-18T08:32:54","modified_gmt":"2013-12-18T11:32:54","slug":"o-que-a-historia-tem-a-dizer-sobre-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-que-a-historia-tem-a-dizer-sobre-jesus\/","title":{"rendered":"O que a hist\u00f3ria tem a dizer sobre Jesus"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-34049\" alt=\"ImageProxy (5)\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2013\/12\/ImageProxy-512-300x168.jpg\" width=\"300\" height=\"168\" \/><\/p>\n<p><strong><\/strong><\/p>\n<p>O pesquisador americano Joseph Atwill \u00e9 categ\u00f3rico: Jesus n\u00e3o passa de um mito. O personagem, suas palavras e a\u00e7\u00f5es fazem parte de uma elaborada narrativa inventada por aristocratas romanos, com o objetivo de pacificar os judeus \u2014 um povo envolvido em sucessivas rebeli\u00f5es contra o imp\u00e9rio. Atwill apresentou suas ideias em outubro, numa confer\u00eancia realizada em Londres, na Inglaterra. &#8220;Os romanos perceberam que o melhor caminho para acabar com a atividade mission\u00e1ria fervorosa entre os judeus era criar um sistema de cren\u00e7as que competisse com o deles&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>Joseph Atwill n\u00e3o \u00e9 um acad\u00eamico da \u00e1rea \u2014 sua forma\u00e7\u00e3o \u00e9 em ci\u00eancias da computa\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o publicou suas pesquisas em peri\u00f3dicos cient\u00edficos e suas ideias est\u00e3o longe de ser apoiadas por seus pares. No entanto, sua teoria recebeu aten\u00e7\u00e3o mundial, e foi debatida entre pesquisadores, jornalistas e religiosos. Seu poder est\u00e1 no fato de ela ser o cap\u00edtulo mais novo de uma antiga discuss\u00e3o \u2014 com quase 2.000 anos de idade \u2014 sobre qual \u00e9 a verdade por tr\u00e1s de Jesus, seus feitos, milagres e mensagem.<\/p>\n<p>Para Atwill, a ideia de que Jesus n\u00e3o passaria de uma montagem hist\u00f3rica deveria funcionar como um duro golpe aplicado pela ci\u00eancia contra a ignor\u00e2ncia propagada pela religi\u00e3o. &#8220;Embora o cristianismo possa ser um conforto para alguns, ele tamb\u00e9m pode ser muito prejudicial e repressivo, uma forma insidiosa de controle mental que levou \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o cega da servid\u00e3o, pobreza e guerra ao longo da hist\u00f3ria&#8221;, diz. Seu erro \u00e9 que a exist\u00eancia de Jesus n\u00e3o \u00e9 mais uma quest\u00e3o de f\u00e9, mas de ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Os acad\u00eamicos da \u00e1rea \u2014 historiadores das mais prestigiadas universidades do mundo \u2014 afirmam restar poucas d\u00favidas sobre a quest\u00e3o. &#8220;Volta e meia aparecem essas hip\u00f3teses sobre Jesus ser um mito. Mas, do ponto de vista metodol\u00f3gico, parece bastante claro que ele realmente existiu&#8221;, diz Andr\u00e9 Chevitarese, professor do Instituto de Hist\u00f3ria da UFRJ e autor dos livros\u00a0<em>Jesus Hist\u00f3rico &#8211; Uma Brev\u00edssima Introdu\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Cristianismos: Quest\u00f5es e Debates Metodol\u00f3gicos<\/em>\u00a0(Editora Kline), em entrevista ao site de VEJA.<\/p>\n<p><strong>Jesus hist\u00f3rico<\/strong>\u00a0\u2014 Os historiadores deixam claro que o personagem estudado por eles n\u00e3o \u00e9 o mesmo da religi\u00e3o. Eles est\u00e3o em busca de informa\u00e7\u00f5es sobre o homem chamado Jesus, que viveu na Galileia h\u00e1 2.000 anos e em torno do qual foi criada a maior religi\u00e3o do mundo. \u201cOs historiadores n\u00e3o buscam um ser divino, que \u00e9 imposs\u00edvel de quantificar, medir e avaliar. O Jesus da hist\u00f3ria \u00e9 estritamente humano\u201c, afirma Chevitarese.<\/p>\n<p>Nessa busca pelo Jesus hist\u00f3rico, a perspectiva dos pesquisadores lembra a de S\u00e3o Tom\u00e9, o ap\u00f3stolo que duvidou de Cristo e exigiu provas de sua ressurrei\u00e7\u00e3o. Do mesmo modo, os historiadores n\u00e3o podem acreditar cegamente no que dizem as religi\u00f5es e seus l\u00edderes, mas devem embasar tudo que afirmam em evid\u00eancias. Essas provas n\u00e3o precisam ser, necessariamente, f\u00edsicas, como a descoberta de uma ossada ou um t\u00famulo. &#8220;Se esse crit\u00e9rio fosse adotado, 95% dos personagens hist\u00f3ricos n\u00e3o seriam reconhecidos&#8221;, diz o pesquisador.<\/p>\n<p>Hoje, o crit\u00e9rio mais importante que os pesquisadores possuem para atestar a exist\u00eancia de Jesus \u00e9 o da m\u00faltipla confirma\u00e7\u00e3o: autores diferentes, que nunca se conheceram, afirmam fatos semelhantes sobre o personagem.<\/p>\n<p>Os textos mais antigos sobre Jesus datam do s\u00e9culo I, em sua maioria escritos por seguidores do cristianismo. A exce\u00e7\u00e3o \u00e9 Fl\u00e1vio Josefo, um historiador judeu que tentou escrever toda a hist\u00f3ria do povo judaico, desde o G\u00eanesis at\u00e9 sua \u00e9poca. Ele cita Jesus, Jo\u00e3o Batista e Tiago (irm\u00e3o de Jesus) como exemplos de homens que lideraram movimentos messi\u00e2nicos na regi\u00e3o da Galileia.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo seguinte, surgem mais textos de historiadores que citam Jesus e, principalmente, o movimento iniciado por seus seguidores. &#8220;Esses dados servem para mostrar que n\u00e3o estamos no campo da mitologia. S\u00e3o autores judeus e romanos, que nunca se tornaram crist\u00e3os, e permitem afirmar de modo muito seguro que Jesus \u00e9 um personagem hist\u00f3rico.&#8221;<\/p>\n<p><strong>O homem<\/strong>\u00a0\u2014 A esses textos se somam descobertas recentes da arqueologia que fornecem informa\u00e7\u00f5es precisas sobre o tempo e o espa\u00e7o em que Jesus viveu. Os dados n\u00e3o s\u00e3o abundantes, mas permitem esbo\u00e7ar como se pareceria esse personagem hist\u00f3rico real. &#8220;N\u00e3o podemos afirmar exatamente a cor de pele e cabelo de Jesus. A partir dos mosaicos e dos afrescos que retratam outros romanos, judeus e s\u00edrios que viviam no mesmo ambiente, a tend\u00eancia maior \u00e9 de vermos um Jesus de cabelos preto, com a pele queimada por causa de sol&#8221;, diz Chevitarese.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Segundo a maior parte dos historiadores, Jesus n\u00e3o nasceu em Bel\u00e9m, como afirmam algumas passagens b\u00edblicas, mas em Nazar\u00e9 \u2014 uma pequena aldeia montanhosa da Galileia, cuja popula\u00e7\u00e3o era camponesa e girava em torno de 500 indiv\u00edduos. &#8220;A aldeia n\u00e3o tinha nenhuma relev\u00e2ncia pol\u00edtica, n\u00e3o possu\u00eda constru\u00e7\u00f5es p\u00fablicas ou sinagogas. Os escritores dos Evangelhos mudaram o lugar por raz\u00f5es teol\u00f3gicas, para que o nascimento de Cristo confirmasse algumas profecias do Antigo Testamento.&#8221;<\/p>\n<p>Jesus teria nascido na pequena vila em torno do ano 4 A.C., e teria passado a maior parte de sua vida na regi\u00e3o, sem nunca pisar em uma cidade grande. A exce\u00e7\u00e3o acontece quando ele entra em Jerusal\u00e9m \u2014\u00a0ato que teria como consequ\u00eancia sua crucifica\u00e7\u00e3o pelas autoridades romanas. Sua morte deve ter acontecido por volta dos anos 35 e 36 D.C., pouco tempo depois de Jo\u00e3o Batista tamb\u00e9m ter sido morto pelos romanos, segundo a narrativa de Fl\u00e1vio Josefo.<\/p>\n<p><strong>A mensagem<\/strong>\u00a0\u2014 Segundo os historiadores, t\u00e3o importante quanto quem era Jesus \u00e9 o que ele dizia \u2014 foi sua mensagem poderosa que repercutiu em todo o mundo e, s\u00e9culos mais tarde, deu origem \u00e0s diversas vertentes religiosas. &#8220;Ele era um campon\u00eas pobre que, diante das injusti\u00e7as que o mundo apresentava, defendia a instaura\u00e7\u00e3o do Reino de Deus \u2014 um reino de justi\u00e7a e fartura, sem hierarquias sociais&#8221;, diz Chevitarese.<\/p>\n<p>A mensagem espiritual \u2014 e messi\u00e2nica\u2014 de Jesus era voltada especialmente aos judeus de seu tempo. Ela, no entanto, adquiria car\u00e1ter pol\u00edtico ao afrontar o Imp\u00e9rio Romano e setores da elite judaica. Foi justamente a for\u00e7a dessa mensagem, e os rebanhos que ela poderia angariar, que levaram \u00e0 sua crucifica\u00e7\u00e3o e morte. Como aconteceu muitas vezes na hist\u00f3ria, no entanto, o assassinato de Jesus n\u00e3o conseguiu matar suas ideias.<\/p>\n<p><strong>Jesus teol\u00f3gico<\/strong>\u00a0\u2014 Jesus nunca chegou a colocar suas ideias no papel (nem poderia, os historiadores afirmam que ele era analfabeto). A maior parte do que chega aos dias de hoje sobre o personagem e suas ideias foi escrito por seguidores das primeiras comunidades crist\u00e3s, duas ou tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es depois de sua morte. Os autores n\u00e3o est\u00e3o preocupados em transmitir uma vers\u00e3o fiel dos fatos, como uma biografia, mas em defender os pressupostos de sua f\u00e9. Assim, os primeiros crist\u00e3os que escrevem sobre Jesus \u2014 os evangelistas \u2014 j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o fazendo hist\u00f3ria, mas teologia.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca o cristianismo come\u00e7ava a se distanciar do juda\u00edsmo em que ele estava originalmente inserido, e a se aproximar do Imp\u00e9rio Romano \u2014 o que exigiu algumas mudan\u00e7as em sua mensagem. &#8220;Ao serem escritas, suas ideias come\u00e7am a ser dilu\u00eddas, pois v\u00e1rios filtros s\u00e3o impostos. Primeiro, Jesus \u00e9 um indiv\u00edduo de fala aramaica, mas quase tudo que conhecemos sobre ele est\u00e1 escrito em grego. Al\u00e9m disso, os textos s\u00e3o destinados a convencer um p\u00fablico urbano, muito diferente dos camponeses para quem Jesus pregava&#8221;, diz Chevitarese.<\/p>\n<p>Com o passar dos s\u00e9culos, isso abriu margem para que v\u00e1rios te\u00f3logos interpretassem as escrituras de maneiras variadas, criando as in\u00fameras vertentes do cristianismo que se encontram nos dias de hoje. Assim, a depender de quem faz a homilia, Jesus pode ser visto como um personagem sagrado ou humano, santo ou falho, foco de paz ou de guerra, de fundamentalismo ou de liberdade.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que o estudo do Jesus hist\u00f3rico \u00e9 importante. &#8220;Ele pode ajudar a colocar um freio naqueles que querem transformar pressupostos teol\u00f3gicos em verdades hist\u00f3ricas&#8221;, diz Chevitarese. Seu objetivo n\u00e3o \u00e9 acabar com a teologia ou retirar da hist\u00f3ria de Jesus seu car\u00e1ter espiritual. O que a ci\u00eancia faz \u00e9 descobrir o que, de fato, pode ser afirmado sobre o homem e sua \u00e9poca. As muitas lacunas que permanecer\u00e3o abertas apresentam mist\u00e9rios suficientes para que a religi\u00e3o possa se instalar.<\/p>\n<div>\n<div id=\"ecxboxLista\">\n<p>Oito perguntas e respostas sobre o Jesus hist\u00f3rico<\/p>\n<h4><\/h4>\n<div>\n<ul>\n<li>&lt;<\/li>\n<li>1<\/li>\n<li>2<\/li>\n<li>3<\/li>\n<li>4<\/li>\n<li>5<\/li>\n<li>6<\/li>\n<li>7<\/li>\n<li>8<\/li>\n<li>&gt;<\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<div><b>1<\/b>\u00a0de 8<\/p>\n<h3>Os autores dos Evangelhos conheceram Jesus?<\/h3>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"https:\/\/bay173.mail.live.com\/Handlers\/ImageProxy.mvc?bicild=&amp;canary=6rlOyQTSB3gwyxuQkTG8L%2blrYuLOk57RA5xU%2fkaGb%2fE%3d0&amp;url=http%3a%2f%2fveja.abril.com.br%2fassets%2fimages%2f2013%2f12%2f192794%2fJesus-size-620.jpg%3f1386875883\" width=\"600\" \/><\/p>\n<div>A maior parte dos historiadores concorda que nenhum dos evangelistas foi testemunha ocular da vida de Jesus. Os Evangelhos, na verdade, faziam parte de uma grande variedade de textos que circulavam nos primeiros s\u00e9culos depois de Cristo e representavam o que algumas das comunidades crist\u00e3s pensavam (os Evangelhos que foram deixados de lado pela tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica se tornaram conhecidos como ap\u00f3crifos).\n<\/div>\n<div>Os textos t\u00eam autoria an\u00f4nima, e os pesquisadores possuem poucas informa\u00e7\u00f5es sobre sua exata origem geogr\u00e1fica. O que se sabe \u00e9 que eles foram criados a partir de relatos, mem\u00f3rias, tradi\u00e7\u00f5es e textos mais antigos, que circulavam entre as primeiras comunidades crist\u00e3s. Eles teriam sido escritos entre o ano 60 e o 120, e s\u00f3 no s\u00e9culo II \u00e9 que seus autores foram atribu\u00eddos \u2014 o primeiro Evangelho a Marcos, e o \u00faltimo a Jo\u00e3o.<\/div>\n<div>\nCom o passar dos s\u00e9culos \u2014 e com a ortodoxia crist\u00e3 tendo rela\u00e7\u00f5es cada vez mais pr\u00f3ximas ao Imp\u00e9rio Romano \u2014 surgiu a preocupa\u00e7\u00e3o de delimitar exatamente quais os textos que guardavam a mem\u00f3ria verdadeira sobre Jesus. Por volta do s\u00e9culo IV, depois de s\u00e9rias disputas teol\u00f3gicas, a Igreja finalmente escolheu quais haviam sido inspirados por Deus \u2014 criando o c\u00e2none do Novo Testamento. &#8220;Decidiu-se assim quais textos seria destru\u00eddos e quais preservados, e quais tradi\u00e7\u00f5es crist\u00e3s seriam perseguidas e quais aceitas pela Igreja&#8221;, diz Andr\u00e9 Chevitarese, professor do Instituto de Hist\u00f3ria da UFRJ e autor dos livros &#8220;Jesus Hist\u00f3rico &#8211; Uma Brev\u00edssima Introdu\u00e7\u00e3o&#8221; e &#8220;Cristianismos: Quest\u00f5es e Debates Metodol\u00f3gicos&#8221; (Editora Kline), em entrevista ao site de VEJA.<\/div>\n<div>\nDentre os textos do Novo Testamento, aqueles que os historiadores atribuem, de fato, a algu\u00e9m que conviveu com Jesus s\u00e3o as enc\u00edclicas escritas por Paulo \u2014 pelo menos sete delas teriam sido ditadas pelo ap\u00f3stolo. &#8220;Na forma como o Novo Testamento est\u00e1 organizado, os quatro Evangelhos aparecem antes dos textos de Paulo. No entanto, as enc\u00edclicas foram escritas primeiro. O pesquisador tem de come\u00e7ar a ler por elas \u2014 assim fica mais f\u00e1cil entender a evolu\u00e7\u00e3o das primeiras comunidades crist\u00e3s.&#8221;<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pesquisador americano Joseph Atwill \u00e9 categ\u00f3rico: Jesus n\u00e3o passa de um mito. O personagem, suas palavras e a\u00e7\u00f5es fazem parte de uma elaborada narrativa inventada por aristocratas romanos, com o objetivo de pacificar os judeus \u2014 um povo envolvido em sucessivas rebeli\u00f5es contra o imp\u00e9rio. 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