{"id":340874,"date":"2020-12-13T09:44:26","date_gmt":"2020-12-13T12:44:26","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=340874"},"modified":"2020-12-13T09:44:26","modified_gmt":"2020-12-13T12:44:26","slug":"conheca-historias-de-policiais-militares-que-venceram-o-racismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/conheca-historias-de-policiais-militares-que-venceram-o-racismo\/","title":{"rendered":"Conhe\u00e7a hist\u00f3rias de policiais militares que venceram o racismo"},"content":{"rendered":"<div class=\"title\">\n<div class=\"content-title\">\n<div class=\"wrapper\">\n<div class=\"materia-title\">\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Para negros e negras que tra\u00e7aram a meta de ingressar na corpora\u00e7\u00e3o, na tentativa de alcan\u00e7ar um objetivo antigo, o caminho tem muitos percal\u00e7os. O Correio apresenta trajet\u00f3rias de profissionais que n\u00e3o deixaram para tr\u00e1s a vontade de vencer<\/h2>\n<\/div>\n<\/div>\n<div id=\"cb-publicidade-rasgado-1\" class=\"pub-hor\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CIOhlrH9yu0CFSsUuQYd21wMEQ\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/6887\/portal-correioweb\/correiobraziliense-com-br\/cidades-df\/interna_1__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"content-materia\">\n<div class=\"wrapper\">\n<section class=\"body-content-cb\">\n<article class=\"article\">\n<div class=\"autor\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"item\">\n<div class=\"name\">Sarah Peres<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"date\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"responsive-img\" style=\"text-align: justify;\"><picture><source media=\"(max-width: 767px)\" data-srcset=\"https:\/\/midias.correiobraziliense.com.br\/_midias\/jpg\/2020\/12\/13\/360x240\/1_cbpfot121220202625-6443969.jpg 360w\" \/><source media=\"(max-width: 1365px)\" data-srcset=\"https:\/\/midias.correiobraziliense.com.br\/_midias\/jpg\/2020\/12\/13\/675x450\/1_cbpfot121220202625-6443969.jpg 675w\" \/><source media=\"(min-width: 1366px)\" data-srcset=\"https:\/\/midias.correiobraziliense.com.br\/_midias\/jpg\/2020\/12\/13\/820x547\/1_cbpfot121220202625-6443969.jpg 820w\" \/><img decoding=\"async\" class=\"cb-article-destaque\" title=\" (cr\u00e9dito: Minervino J?nior\/CB\/D.A Press            )\" src=\"https:\/\/midias.correiobraziliense.com.br\/_midias\/jpg\/2020\/12\/13\/675x450\/1_cbpfot121220202625-6443969.jpg\" alt=\" (cr\u00e9dito: Minervino J?nior\/CB\/D.A Press            )\" data-src=\"https:\/\/midias.correiobraziliense.com.br\/_midias\/jpg\/2020\/12\/13\/675x450\/1_cbpfot121220202625-6443969.jpg\" \/><\/picture>\n<div class=\"responsive-img-caption\"><small>(cr\u00e9dito: Minervino J?nior\/CB\/D.A Press )<\/small><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Foco, dedica\u00e7\u00e3o e determina\u00e7\u00e3o s\u00e3o elementos essenciais para exercer o of\u00edcio de policial. Respons\u00e1veis pela seguran\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o, esses profissionais s\u00e3o os primeiros a se expor \u00e0 viol\u00eancia para defender os que amam e, tamb\u00e9m, pessoas completamente desconhecidas. No caso da Pol\u00edcia Militar do Distrito Federal (PMDF), alcan\u00e7ar o sonho de integrar a corpora\u00e7\u00e3o exige sacrif\u00edcios, mas algumas pessoas precisaram vencer muito mais do que isso. Em meio \u00e0 trajet\u00f3ria de luta, servidores como Ademilsa, Jucilene, Marcos Antonio e Robson precisaram bater de frente, tamb\u00e9m, contra o preconceito racial.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Ainda crian\u00e7a, a tenente-coronel Jucilene deixou a comunidade quilombola do povoado de Mesquita, na Cidade Ocidental (GO), para dar in\u00edcio \u00e0 batalha por uma carreira de estabilidade. Marcos Antonio, natural de An\u00e1polis (GO), cresceu em meio \u00e0 viol\u00eancia do P Sul, em Ceil\u00e2ndia, antes de se tornar tenente na PMDF. A sargento Ademilson chegou ao DF no in\u00edcio da adolesc\u00eancia e trabalhou como empregada dom\u00e9stica antes de entrar para a corpora\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o militar Robson vendeu churros em feiras livres e paradas de \u00f4nibus do Gama, durante a longa trajet\u00f3ria profissional at\u00e9 chegar \u00e0 fun\u00e7\u00e3o de sargento.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Os perfis s\u00e3o diversos, mas todos se tornaram policiais militares de destaque na carreira. Eles est\u00e3o entre os 723 negros da corpora\u00e7\u00e3o do Distrito Federal, formada por mais de 10 mil PMs ativos. As hist\u00f3rias que o Correio nesta reportagem fazem parte do especial Hist\u00f3rias de Consci\u00eancia, que narram caminhos de supera\u00e7\u00e3o e vit\u00f3ria de negros e negras que alcan\u00e7aram postos com os quais sempre sonharam, inclusive em corpora\u00e7\u00f5es da Seguran\u00e7a P\u00fablica do DF.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Tenente-coronel Jucilene Garc\u00eas Pires, 52 anos<\/strong><br \/>\nNatural do povoado quilombola de Mesquita, na Cidade Ocidental (GO)<br \/>\nOficial combatente e comandante do Batalh\u00e3o de Policiamento Escolar<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Jucilene Garc\u00eas Pires, 52 anos, nasceu no povoado quilombola de Mesquita, na Cidade Ocidental (GO). Os pais dela, Pedro Garc\u00eas, 75, e Ana Teixeira Magalh\u00e3es, 80, tiveram quatro filhos na comunidade, mas deixaram a regi\u00e3o, em 1973, para que as crian\u00e7as fossem para a escola. \u201cMoramos em dois endere\u00e7os no Gama, de aluguel, para que meus irm\u00e3os e eu pud\u00e9ssemos estudar. Ganhamos uma casa em Ceil\u00e2ndia Norte, na QNM 20, na Guariroba. Ali era uma \u00e1rea muito violenta, era preciso sempre andar atento. Agrade\u00e7o muito a meus pais, porque, mesmo morando em um local prop\u00edcio ao crime, nunca nos envolvemos com algo errado\u201d, conta a goiana.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">A policial militar teve uma inf\u00e2ncia dif\u00edcil, ao ser menosprezada nas escolas pela cor da pele. Aos 8 anos, uma situa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica marcou profundamente a hist\u00f3ria dela. \u201cEstava na sala (de aula) quando uma mulher desconhecida abriu a porta e apontou o dedo para mim, dizendo: \u2018Foi voc\u00ea\u2019. N\u00e3o entendi o que estava acontecendo e fui retirada da turma\u201d, relata. \u201cNa sala da dire\u00e7\u00e3o (do col\u00e9gio), essa mulher me acusou de ter furtado roupas do varal dela. Eu neguei, mas continuei sendo culpabilizada. Minha m\u00e3e precisou sair do servi\u00e7o para me defender. Lembro que ela queria fazer um boletim de ocorr\u00eancia pelo ocorrido, mas n\u00e3o havia uma lei que nos defendesse dessas situa\u00e7\u00f5es de racismo\u201d, acrescenta Jucilene.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Palavras ditas por colegas de sala tamb\u00e9m provocaram tristeza: \u201cSofri muito bullying na escola, ent\u00e3o, era uma crian\u00e7a retra\u00edda. At\u00e9 quis desistir dos estudos. S\u00f3 que meu pai sempre me incentivava, dizendo que poder\u00edamos ser negros e pobres, mas que a honestidade e os estudos eram a maior heran\u00e7a que poder\u00edamos deixar para o mundo. Ele s\u00f3 tinha (estudado at\u00e9) a quarta s\u00e9rie, mas era muito s\u00e1bio. Sempre me inspirou a vencer e a buscar meu lugar na sociedade\u201d, recorda-se.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Jucilene viu no esporte uma alternativa para crescer na vida. Ao assistir propagandas com esportistas, passou a nutrir a vontade de se tornar atleta. A oportunidade apareceu quando, mais uma vez pela televis\u00e3o, a goiana descobriu que uma empresa de refrigerantes buscava talentos para o Pentatlo Brasileiro de Atletismo \u2014 competi\u00e7\u00e3o composta por cinco provas: salto a dist\u00e2ncia, em altura, lan\u00e7amento de disco e de dardo, al\u00e9m de corrida e luta. \u201cDescobri que meu col\u00e9gio, o Centro Educacional 4 de Ceil\u00e2ndia, participaria com a equipe de atletas no campeonato. Como n\u00e3o integrava o time, decidi ir para a competi\u00e7\u00e3o escondida no \u00f4nibus. Quando cheguei ao local das provas, na Universidade de Bras\u00edlia, fiz a inscri\u00e7\u00e3o\u201d, conta.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">A empreitada rendeu a Jucilene o primeiro lugar no campeonato local. Antes de ingressar na carreira militar, tornou-se velocista profissional. Por duas vezes, em uma competi\u00e7\u00e3o em Medell\u00edn, na Colombia, quebrou o recorde dos 400 metros, em 1983. A primeira marca foi de 54 segundos e seis mil\u00e9simos. Na segunda, fez o percurso em 36 mil\u00e9simos a menos. O recorde perdurou por 25 anos. \u201cAos 17, tive estafa, o que me tirou das pistas. Foi um momento muito dif\u00edcil em minha vida. Passei por um deserto. Consegui enfrentar a situa\u00e7\u00e3o ao ter apoio de minha fam\u00edlia e dos amigos. Decidi que precisaria de uma profiss\u00e3o mais est\u00e1vel e decidi me tornar uma policial militar\u201d, diz Jucilene.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Em 1990, ela tornou-se soldado da Pol\u00edcia Militar do Distrito Federal (PMDF). Dois anos depois, conseguiu nova aprova\u00e7\u00e3o, mas para oficial \u2014 \u00e0 \u00e9poca, era poss\u00edvel ascender por meio de concursos p\u00fablicos. Mesmo com uma carreira consolidada, seguiu os estudos e formou-se em educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica pela Faculdade Alvorada, em 2002. Depois, fez p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em fisiologia do exerc\u00edcio pela Universidade Gama Filho. \u201cEm nossas vidas, encontramos desafios. Sempre haver\u00e1 obst\u00e1culos, mas n\u00e3o podemos parar. Devemos vislumbrar algo melhor. Quando sa\u00ed do quilombo, quem poderia imaginar que eu teria essa trajet\u00f3ria de sucesso? Quem poderia dizer que eu seria atleta e chegaria ao posto que exer\u00e7o hoje, na PM? Precisamos tornar nossos sonhos realidade\u201d, destaca.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">\n<strong>Segundo sargento Ademilsa Ara\u00fajo Martins, 49 anos<\/strong><br \/>\nNascida na Asa Norte<br \/>\nIntegrante do 3\u00ba Comando Regional de Policiamento em \u00c1guas Claras<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Ademilsa Ara\u00fajo Martins, 49 anos, nasceu na Asa Norte, mas, no in\u00edcio da inf\u00e2ncia, retornou com a fam\u00edlia para Tocantins. \u00c0 \u00e9poca, o estado ainda pertencia a Goi\u00e1s. O pai dela, o motorista Manoel Francisco da Silva, 78, \u00e9 natural de Ponte Alta do Bom Jesus (TO). A m\u00e3e, a lavadeira Adelaide Ara\u00fajo da Silva, 71, \u00e9 de Taguatinga (TO). Os dois se conheceram em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">O motorista chegou \u00e0 capital federal em 1960; a lavadeira, em 1967. A policial militar \u00e9 a segunda dos seis filhos do casal, que morava na invas\u00e3o do IAPI, onde os dois se conheceram, apaixonaram-se e decidiram se casar, em 1969. Manoel trabalhava para o Itamaraty. Adelaide era empregada dom\u00e9stica e faxineira. \u201cEles conseguiram uma casa na QNN 6, na Guariroba, em Ceil\u00e2ndia Sul, onde vivi os primeiros anos da minha vida com meus irm\u00e3os\u201d, conta Ademilsa.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando eu tinha 7 anos, minha fam\u00edlia voltou para Tocantins, porque meu pai havia deixado o servi\u00e7o. Fomos viver na ro\u00e7a do meu av\u00f4 materno e tivemos de auxiliar nos servi\u00e7os. Desde nova, desempenhei trabalho bra\u00e7al, plantando e colhendo arroz e feij\u00e3o, por exemplo. S\u00f3 que, como havia passado parte da inf\u00e2ncia em Bras\u00edlia, vendo a cidade e o crescimento dela, nutri o sentimento de n\u00e3o aceitar uma vida de dificuldades. Ainda muito nova, eu tinha o sonho de me tornar policial militar, mas na capital do pa\u00eds. Durante toda a vida, persegui esse objetivo\u201d, completa a PM.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">A vontade de retornar a Bras\u00edlia tornou-se mais forte quando Ademilsa visitou a cidade, em 1984, com o pai. \u201cEu tinha 13 anos e pedi a ele para morar de novo na capital federal, para trabalhar como empregada dom\u00e9stica e estudar. Ele deixou, eu voltei e nunca mais fui para o Tocantins\u201d, detalha. Ao longo da adolesc\u00eancia e em boa parte da vida adulta, a policial militar trabalhou em cinco casas, sempre mantendo em mente o objetivo de ingressar na corpora\u00e7\u00e3o. \u201cNesse per\u00edodo, cheguei a passar por momentos de dificuldade. Em algumas resid\u00eancias, comia o que sobrava do jantar. Se sobrasse. Tamb\u00e9m cheguei a dormir no ch\u00e3o. Nas tentativas de conseguir novos empregos, n\u00e3o conseguia nada se n\u00e3o fosse como empregada dom\u00e9stica. E sempre escolhiam as brancas, apesar de meu constante esfor\u00e7o\u201d, relata.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEu sabia que, para conseguir me tornar policial, precisava me esfor\u00e7ar o dobro. O momento que tinha para estudar era \u00e0 noite, ap\u00f3s o servi\u00e7o. Quando falava do meu sonho (para outras pessoas), diziam que eu nunca conseguiria torn\u00e1-lo realidade. Colocavam-me como a negra que s\u00f3 poderia ser empregada dom\u00e9stica, mas nunca me deixei encaixar nessa situa\u00e7\u00e3o. Era destratada pela minha cor, chamada nas casas de forma pejorativa \u2014 como \u2018neguinha\u2019 e \u2018pretinha\u2019 \u2014 mas jamais permiti que isso abalasse meu objetivo\u201d, recorda-se.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Ademilsa conciliava o servi\u00e7o dom\u00e9stico com os estudos para o concurso da Pol\u00edcia Militar. Nessa fase, formou-se em um curso de cabeleireira e manicure. \u201cForam momentos de muito sacrif\u00edcio e tristeza. Mas todo o esfor\u00e7o valeu a pena quando vi minha aprova\u00e7\u00e3o no concurso de 1995, entre as 50 primeiras colocadas. Chorei de alegria, porque consegui realizar um sonho que vislumbrei ainda menina. Vi que tudo o que criamos em nossa imagina\u00e7\u00e3o pode, sim, ser conquistado\u201d, comenta a sargento, emocionada.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Com 25 anos de carreira, a militar trabalha com estudos de intelig\u00eancia emocional, focados no desenvolvimento pessoal de integrantes da corpora\u00e7\u00e3o. \u201cCom minha trajet\u00f3ria, o que tento deixar de li\u00e7\u00e3o \u00e9 que as hist\u00f3rias que criamos em nossas cabe\u00e7as e cora\u00e7\u00f5es podem ser realidade. Tudo o que passei at\u00e9 chegar onde estou n\u00e3o foi f\u00e1cil, mas, independentemente das dificuldades, n\u00e3o podemos desistir do que almejamos\u201d, refor\u00e7a Ademilsa.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Segundo sargento Robson Fernandes dos Santos, 42 anos<\/strong><br \/>\nNatural do Gama<br \/>\nIntegrante do Batalh\u00e3o de Policiamento Escolar<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de Robson Fernandes, 42 anos, come\u00e7a quando dois piauienses decidem morar juntos em Bras\u00edlia, ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o da capital do pa\u00eds. Em 1962, o pai dele, Mariano Fernandes dos Santos, saiu da Fazenda Prata Ribeira do Uru\u00e7u\u00ed, no munic\u00edpio de Bom Jesus (PI), para tentar a vida como carpinteiro no Centro-Oeste.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">O piauiense chegou sozinho \u00e0 capital federal e passou a morar na antiga invas\u00e3o do IAPI, enquanto trabalhava em constru\u00e7\u00f5es de Bras\u00edlia. Depois de visitar a fam\u00edlia no Piau\u00ed, voltou para o DF com a irm\u00e3 e a ent\u00e3o amiga Maria Bel\u00e9m Vieira Soares, 68, com quem, posteriormente, teve quatro filhos. Robson foi o segundo a nascer.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">A inf\u00e2ncia do policial militar teve como pano de fundo a Quadra 5 do Setor Sul do Gama. \u201cComecei a trabalhar muito cedo, aos 12 anos, para ajudar minha m\u00e3e a complementar a renda de casa. Ela costurava durante a semana e, nos s\u00e1bados e domingos, \u00edamos para feiras livres vender churros\u201d, conta. \u201cMeu pai tamb\u00e9m trabalhava com telhado colonial, e os servi\u00e7os que prestava eram apenas na \u00e9poca de seca. Quando come\u00e7ava o per\u00edodo das chuvas, n\u00e3o tinha como atuar. Era quando minha m\u00e3e mais se esfor\u00e7ava para que n\u00e3o faltasse nada em casa. Eu a ajudava nos fins de semana. Al\u00e9m das feiras, vend\u00edamos churros em outros pontos da cidade, como paradas de \u00f4nibus, no cemit\u00e9rio e em eventos locais. \u00c9ramos at\u00e9 conhecidos pela regi\u00e3o\u201d, relembra Robson.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Apesar de auxiliar a m\u00e3e no trabalho, o PM carregava um livro para se distrair enquanto n\u00e3o atendia clientes. \u201cSempre gostei muito de ler e, quando conseguia, juntava dinheiro para comprar gibis. Terminava um e comprava outro. Tamb\u00e9m era ass\u00edduo na biblioteca da escola. Desde novo, tinha em mente que, se eu quisesse crescer, precisava ser pelos estudos\u201d, detalha.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Aos 13 anos, Robson passou por uma situa\u00e7\u00e3o de racismo enquanto trabalhava. \u201cMinha m\u00e3e e eu est\u00e1vamos em uma parada de \u00f4nibus do Gama. Sentado em um banco, eu estava imerso em um livro que havia pegado na biblioteca da escola. Lembro que um \u00f4nibus para Luzi\u00e2nia (GO) passou e escutei (algu\u00e9m gritar de dentro do coletivo): \u2018Nunca vi macaco ler\u2019, e jogaram um ovo em mim\u201d, relata. \u201cAquela situa\u00e7\u00e3o me entristeceu muito, e minha m\u00e3e ficou abalada ao saber o que havia acontecido. Mas nunca me deixei abater por essas coisas. Levantei, bati a poeira e segui me dedicando aos estudos. Tinha consci\u00eancia de que a supera\u00e7\u00e3o e a ascens\u00e3o social viriam por meio disso. A leitura abre portas inimagin\u00e1veis.\u201d<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Na adolesc\u00eancia, enquanto estudava no Centro de Ensino M\u00e9dio 3 do Gama, Robson continuou a vender churros pela regi\u00e3o. \u201cUm dia, vi uma senhora com dificuldade para carregar as compras e decidi ajud\u00e1-la. Enquanto convers\u00e1vamos, ela me disse que eu poderia tentar um est\u00e1gio para ajudar minha fam\u00edlia. Consegui entrar como motoboy no atual Cnpq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico) e, ao ter contato com tantas pessoas, surgiu o sonho de me tornar policial\u201d, revela o segundo sargento.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Sem dinheiro para pagar um cursinho, Robson recorreu, mais uma vez, aos livros a que tinha acesso. Com o dinheiro que sobrava do trabalho, comprava novos materiais para se dedicar ao objetivo de entrar na Pol\u00edcia Militar. \u201cTinha um conhecido que tamb\u00e9m queria entrar na corpora\u00e7\u00e3o, e ele me disse que eu n\u00e3o conseguiria passar na prova. Esse colega fazia curso (preparat\u00f3rio), mas, em 1998, eu passei na prova, e ele, n\u00e3o\u201d, recorda-se. \u201cMinha aprova\u00e7\u00e3o foi um dos momentos mais felizes de minha vida. Mal sabia eu que enfrentaria uma saga para conseguir permanecer na PMDF\u201d, acrescenta Robson.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">\u00c0 \u00e9poca da entrega de exames admissionais, um m\u00e9dico disse que policial \u2014 \u00e0 \u00e9poca, rec\u00e9m-aprovado \u2014 estava inapto a assumir a fun\u00e7\u00e3o, devido a uma calcifica\u00e7\u00e3o na testa. Robson questionou o laudo e afirmou que, na avalia\u00e7\u00e3o m\u00e9dica anterior, o resultado n\u00e3o havia indicado qualquer complica\u00e7\u00e3o. No entanto, o argumento n\u00e3o adiantou. \u201cFiquei desolado. Mas contei com a ajuda de uma prima, que pagou para eu fazer um novo exame no hospital particular em que ela trabalhava. Nesse raio-x, n\u00e3o havia nenhuma mancha. Um m\u00e9dico dessa unidade de sa\u00fade me explicou que a suposta calcifica\u00e7\u00e3o (diagnosticada anteriormente) deveria ser sujeira na chapa\u201d, diz o policial.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Com o novo resultado em m\u00e3os, Robson passou novamente pela junta m\u00e9dica da PMDF. \u201cMesmo assim, o m\u00e9dico n\u00e3o aceitou. Busquei a Defensoria P\u00fablica e consegui ingressar na corpora\u00e7\u00e3o por meio de uma liminar e ganhando menos. Dois anos depois, em 2000, decidi prestar outro concurso, para garantir que ficaria na institui\u00e7\u00e3o caso algo desse errado com o recurso que apresentei \u00e0 Justi\u00e7a.\u201d Aprovado mais uma vez, passou por avalia\u00e7\u00e3o de sa\u00fade, mas n\u00e3o recebeu aval. \u201cEra a mesma junta m\u00e9dica, mas n\u00e3o me reconheceram. Faltando 15 dias para finalizar o curso de forma\u00e7\u00e3o, ganhei a causa do primeiro concurso em segunda inst\u00e2ncia. Mas decidi me formar pela nova turma\u201d, afirma Robson.<\/p>\n<div id=\"cb-publicidade-retangulo-interna-8\" class=\"pub-ret\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CPjI8rr9yu0CFWIHuQYdo1ANXA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/6887\/portal-correioweb\/correiobraziliense-com-br\/cidades-df\/interna_9__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Depois de ingressar na PMDF, o segundo sargento chegou a passar em mais dois concursos p\u00fablicos: do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Uni\u00e3o (MPU) e da C\u00e2mara dos Deputados. \u201cMas segui como integrante da Pol\u00edcia Militar. Hoje, mais velho, vejo que n\u00e3o podemos aceitar o \u2018n\u00e3o\u2019 que a vida ou as pessoas nos imp\u00f5em. N\u00e3o \u00e9 porque ca\u00edmos que devemos permanecer no ch\u00e3o. Precisamos levantar. Temos de ser como a \u00e1gua, que, mesmo ao se deparar com obst\u00e1culos, segue o fluxo. Se uma porta se fechar, tente a outra. Se n\u00e3o der, pule a janela. Pode-se dar passos para tr\u00e1s, mas que seja para pegar impulso\u201d, finaliza o sargento.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Segundo Tenente Marcos Antonio Serra, 49 anos<\/strong><br \/>\nNascido em An\u00e1polis (GO)<br \/>\nMestre de cerim\u00f4nia e integrante do Batalh\u00e3o de Opera\u00e7\u00f5es Especiais (Bope)<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">\nMarcos Antonio Serra, 49 anos, nasceu em An\u00e1polis (GO), em 1971, fruto do casamento entre Ant\u00f4nio Ramos Serra e Maria Paulina Serra. A m\u00e3e, natural do munic\u00edpio goiano, e o pai, de Itabirito (MG), conheceram-se em Bras\u00edlia. Eles chegaram \u00e0 capital federal nos anos 1960, em busca de uma vida melhor. No DF, o mineiro trabalhou em obras, e a goiana, como empregada dom\u00e9stica para uma fam\u00edlia da Asa Sul.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Depois de casados, Ant\u00f4nio e Maria Paulina mudaram-se para uma casa no P Sul, em Ceil\u00e2ndia. \u201cFoi ali que passei minha inf\u00e2ncia, adolesc\u00eancia e juventude. Era uma \u00e1rea violenta, tanto que foi apelidada pelo jornalista M\u00e1rio Eug\u00eanio como Caldeir\u00e3o do Diabo. O crime no local era comandado por uma quadrilha de traficantes de drogas conhecida como Nasa\u201d, detalha o segundo tenente.<\/p>\n<div id=\"cb-publicidade-retangulo-interna-9\" class=\"pub-ret\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CJizxbv9yu0CFf8JuQYd6jkJ2g\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/6887\/portal-correioweb\/correiobraziliense-com-br\/cidades-df\/interna_10__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Marcos Antonio estudou apenas em escolas p\u00fablicas de Ceil\u00e2ndia. \u201cNo fim da d\u00e9cada de 1980, perto de finalizar os estudos, formei uma banda de rock com amigos, chamada o Terno El\u00e9trico. Ela est\u00e1 na ativa at\u00e9 hoje. E, naquela \u00e9poca, n\u00e3o t\u00ednhamos carro. And\u00e1vamos a p\u00e9 por toda a cidade, fosse dia ou n\u00e3o. Tive contato com v\u00e1rios tipos de pessoas e vi de perto a viol\u00eancia, o tr\u00e1fico de drogas, a repress\u00e3o da pol\u00edcia e os diversos conflitos de uma cidade marginalizada e \u00e0 margem de Bras\u00edlia. Mesmo exposto \u00e0 criminalidade, nunca me deixei envolver\u201d, conta o policial militar.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas anos depois de se formar no ensino m\u00e9dio, Marcos Antonio ficou desempregado e decidiu prestar o concurso da Pol\u00edcia Militar. \u201cFiz a prova mais por insist\u00eancia dos meus pais e acabei passando. No in\u00edcio, o tratamento era ruim, porque est\u00e1vamos a poucos anos do fim do regime militar e da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o (de 1988). Com isso, termos pejorativos eram usados, sobretudo relativos ao tom de pele\u201d, relata.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Mesmo v\u00edtima de racismo, o segundo tenente conseguiu se manter na institui\u00e7\u00e3o. Em 1994, Marcos Antonio prestou um segundo concurso para a corpora\u00e7\u00e3o. \u00c0 \u00e9poca, para a fun\u00e7\u00e3o de cabo. \u201cNaquele per\u00edodo, senti o peso de ser policial militar, pois, durante a noite, somos os \u00fanicos representantes do Estado nas ruas para garantir a seguran\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o. Acabamos atendendo todos os tipos de ocorr\u00eancias, desde furto a assalto a resid\u00eancia e homic\u00eddio\u201d, continua Marcos Antonio.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Na Pol\u00edcia Militar do DF, o tenente ficou conhecido pelo tom de voz grave e tornou-se mestre de cerim\u00f4nia em formaturas da corpora\u00e7\u00e3o. \u201cComecei a me interessar pelo tema e a me relacionar com outras pessoas nessa fun\u00e7\u00e3o. Decidi me capacitar, fazer cursos de cerimonial, de protocolo, de preced\u00eancia e orat\u00f3ria. H\u00e1 quase 20 anos, atuo nessa \u00e1rea, comandando diversos eventos na institui\u00e7\u00e3o\u201d, diz o policial.<\/p>\n<p class=\"texto\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m dessa capacita\u00e7\u00e3o, outro sonho de Marcos Antonio tornou-se realidade. Em 2007, come\u00e7ou o curso de administra\u00e7\u00e3o. Um ano depois, a PMDF passou a cobrar ensino superior completo para ingresso na corpora\u00e7\u00e3o e, assim, ofereceu o curso de t\u00e9cnico em seguran\u00e7a e ordem p\u00fablica para os policiais concursados. O segundo tenente tamb\u00e9m apostou nesse preparo, al\u00e9m da profissionaliza\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de negocia\u00e7\u00e3o policial. \u201cEsse \u00e9 o embaixador do caos. Quem tem como miss\u00e3o estar de frente com pessoas em estados alterados e que mant\u00eam v\u00edtimas como ref\u00e9ns, por exemplo. Entrar nessa \u00e1rea me permitiu promover uma das principais opera\u00e7\u00f5es de que participei: a desocupa\u00e7\u00e3o do Hotel Torre Palace, em junho de 2016\u201d, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Correio Braziliense<\/p>\n<\/article>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m dessa capacita\u00e7\u00e3o, outro sonho de Marcos Antonio tornou-se realidade. 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