{"id":341496,"date":"2020-12-19T07:05:30","date_gmt":"2020-12-19T10:05:30","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=341496"},"modified":"2020-12-19T07:05:30","modified_gmt":"2020-12-19T10:05:30","slug":"a-idade-das-luzes-a-farsa-por-tras-das-trevas-do-mundo-medieval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-idade-das-luzes-a-farsa-por-tras-das-trevas-do-mundo-medieval\/","title":{"rendered":"A Idade das Luzes: A farsa por tr\u00e1s das trevas do mundo medieval\u00a0"},"content":{"rendered":"<h1><\/h1>\n<p class=\"lead\"><strong>Uma viagem \u00e0 Espanha dos s\u00e9culos 8 a 15 mostra como a conviv\u00eancia pac\u00edfica entre crist\u00e3os, mu\u00e7ulmanos e judeus criou uma sociedade brilhante em plena Europa<\/strong><\/p>\n<p class=\"autor\">Por: Jer\u00f4nimo Teixeira<\/p>\n<figure class=\"img-lead\"><img decoding=\"async\" class=\"img-fluid\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/_versions\/curiosidades\/idade_das_luzes_capa_widelg.jpg\" alt=\"Pintura sobre a Idade M\u00e9dia\" \/><figcaption>Pintura sobre a Idade M\u00e9dia &#8211; Wikimedia Commons<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"artigo_texto\">\n<p>Enquanto\u00a0<strong>Crist\u00f3v\u00e3o Colombo<\/strong>\u00a0partia de Palos rumo a um continente que ele n\u00e3o imaginava encontrar, um n\u00famero bem maior de\u00a0<a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/reportagem\/legados-revolucionarios-mulheres-notaveis-da-idade-media.phtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pessoas<\/a>\u00a0corria aos portos em busca de navios que os conduziriam a destinos igualmente incertos. Por decreto real, os judeus da Espanha \u2013 ou de Sefarad, como eles a chamavam \u2013 estavam obrigados a optar entre a convers\u00e3o \u00e0 \u201cverdadeira f\u00e9\u201d cat\u00f3lica ou o ex\u00edlio.<\/p>\n<p>O ano de 1492 est\u00e1 marcado em nossa imagina\u00e7\u00e3o como o in\u00edcio de uma era, o ano da descoberta da Am\u00e9rica. Mas \u00e9 tamb\u00e9m um triste marco final.\u00a0<strong>Isabel de Castela<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Fernando de Arag\u00e3o<\/strong>, os monarcas espanh\u00f3is que comissionaram o capit\u00e3o genov\u00eas para desbravar uma rota alternativa at\u00e9 o Extremo Oriente, tamb\u00e9m enterraram para sempre uma das mais ricas experi\u00eancias de toler\u00e2ncia religiosa da hist\u00f3ria ocidental.<\/p>\n<p>Essa \u00e9poca remota e fascinante foi reconstitu\u00edda pela cubana\u00a0<strong>Mar\u00eda Rosa Menocal<\/strong>\u00a0(1953- 2012) no livro O Ornamento do Mundo \u2013 Como Mu\u00e7ulmanos, Judeus e Crist\u00e3os Criaram uma Cultura de Toler\u00e2ncia na Espanha Medieval. Sua obra anterior, mais especializada, j\u00e1 inclu\u00eda t\u00edtulos em que a influ\u00eancia \u00e1rabe sobre a cultura medieval europeia era examinada. O Ornamento do Mundo, por\u00e9m, foi escrito \u2013 como a pr\u00f3pria autora dizia \u2013 para tornar acess\u00edvel ao leigo o mundo que ela habitava em suas pesquisas acad\u00eamicas.<\/p>\n<p>A leitura, de fato, leva o leitor ao conturbado, mas vibrante enclave conquistado pelos mu\u00e7ulmanos na Europa Ocidental durante a Idade M\u00e9dia. O mundo de\u00a0<strong>Menocal<\/strong>\u00a0teve, sim, epis\u00f3dios de obscurantismo religioso e intoler\u00e2ncia fundamentalista \u2013 afinal, n\u00e3o tem sido assim em toda a hist\u00f3ria humana? Mas sua obra desmonta o velho chav\u00e3o da \u201c<a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/reportagem\/historia-quem-eram-os-cavaleiros.phtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">idade das trevas<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>A\u00a0<a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/reportagem\/historia-como-era-a-vida-na-idade-media.phtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Idade M\u00e9dia<\/a>\u00a0n\u00e3o se resume a feudalismo, peste e cruzadas. A Espanha isl\u00e2mica \u2013 chamada de al-Andalus em \u00e1rabe, da\u00ed o nome atual da regi\u00e3o sul do pa\u00eds, Andaluzia \u2013 era um lugar luminoso, a vanguarda cultural e cient\u00edfica da Europa. Sobretudo, era um espa\u00e7o raro (ali\u00e1s, \u00fanico) de conviv\u00eancia pac\u00edfica e de interc\u00e2mbio criativo entre as tr\u00eas grandes f\u00e9s monote\u00edstas, islamismo, cristianismo e juda\u00edsmo.<\/p>\n<figure class=\"image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/uploads\/admxklsamdklsa.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Ca\u00e7a \u00e0 raposa, s\u00e9culo 14 \/ Cr\u00e9dito: Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Encontro de estilos na arquitetura<\/strong><\/p>\n<p>Para caracterizar a Espanha medieval, a obra utiliza uma bem-humorada defini\u00e7\u00e3o do escritor americano\u00a0<strong>F. Scott Fitzgerald<\/strong>. O romancista de O Grande Gatsby certa vez escreveu que \u201co teste de uma intelig\u00eancia de primeira linha \u00e9 a habilidade de ter duas ideias opostas em mente ao mesmo tempo\u201d. Al-Andalus teria sido, portanto, um \u201clugar de primeira linha\u201d. Conseguiu conjugar n\u00e3o s\u00f3 duas, mas v\u00e1rias ideias que at\u00e9 hoje se mostram conflitantes.<\/p>\n<p>Um exemplo eloquente encontra-se na sincr\u00e9tica combina\u00e7\u00e3o de estilos arquitet\u00f4nicos do per\u00edodo. Pal\u00e1cios constru\u00eddos por monarcas crist\u00e3os, como o Alcazar (da palavra \u00e1rabe para pal\u00e1cio, al-qasr), de Sevilha, erguido por Pedro, o Cruel, no s\u00e9culo 14, revelavam a ostensiva influ\u00eancia da arquitetura e da decora\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmanas, com seus arabescos e arcos caracter\u00edsticos.<\/p>\n<p>Pela mesma \u00e9poca, uma sinagoga constru\u00edda em Toledo (e transformada no convento de Santa Maria La Blanca depois da expuls\u00e3o dos judeus) tinha seu interior decorado com frases em \u00e1rabe, algumas delas extra\u00eddas do Cor\u00e3o, o livro sagrado do islamismo. Mas esses s\u00e3o exemplos tardios, j\u00e1 pr\u00f3ximos do ocaso de al-Andaluz. A aventura come\u00e7ou bem antes, no s\u00e9culo 8.<\/p>\n<p>Em 711, os primeiros mu\u00e7ulmanos atravessaram o estreito de Gibraltar e penetraram com relativa facilidade no territ\u00f3rio ent\u00e3o dominado pelos visigodos, povo germ\u00e2nico famoso por ter saqueado Roma em 410. Teriam ido ainda mais longe, se n\u00e3o fossem detidos pelos francos, ao norte dos Pi-rineus. Seu dom\u00ednio concentrou-se na pen\u00ednsula ib\u00e9rica, que no entanto nunca chegou a ser completamente isl\u00e2mica \u2013 algumas regi\u00f5es a noroeste permaneceram sob dom\u00ednio crist\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 755, Abd al-Rahman I chega a al-Andalus. Ele era o \u00fanico sobrevivente da fam\u00edlia Umayyad, que at\u00e9 aquela data ocupava o califado \u2013 isto \u00e9, o reinado material e espiritual sobre todo o mundo mu\u00e7ulmano. Os Umayyads foram depostos e assassinados pela dinastia emergente dos Abbasids, que, em seguida, moveram o califado mais para leste, de Damasco para Bagd\u00e1. Abd al-Rahman estabeleceu- se em C\u00f3rdoba, onde dep\u00f4s o emir (algo como governador de prov\u00edncia) local. Formalmente, al-Andalus permaneceu como o emirado mais ocidental do gigantesco imp\u00e9rio isl\u00e2mico, ainda que de fato a autoridade dos Abbasids n\u00e3o se fizesse ouvir por l\u00e1.<\/p>\n<p>Ao tempo do Imp\u00e9rio Romano, a prov\u00edncia conhecida como Hisp\u00e2nia era uma das mais florescentes. Os visigodos, por\u00e9m, foram um fracasso administrativo, e o lugar vivia um per\u00edodo de total aridez cultural e tecnol\u00f3gica quando os mu\u00e7ulmanos chegaram. A dinastia Umayyad promoveu uma verdadeira mudan\u00e7a de ares. Os campos foram renovados com a introdu\u00e7\u00e3o de novas culturas e t\u00e9cnicas de irriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio com o Oriente intensificou- se. E a arquitetura conheceu seu \u00e1pice transformador com a constru\u00e7\u00e3o da mesquita de C\u00f3rdoba, onde os Umayyads reafirmaram sua tradi\u00e7\u00e3o de aproveitarem criativamente elementos das culturas locais. A mesquita que Abd al-Rahman mandou erguer em sua nova capital possu\u00eda um estilo que remetia nostalgicamente \u00e0 S\u00edria, terra onde o pr\u00edncipe exilado jamais tornaria a pisar, mas tamb\u00e9m incorporava tra\u00e7os marcantes da arquitetura romana e g\u00f3tica.<\/p>\n<p><strong>Menocal<\/strong>\u00a0lembra que at\u00e9 mesmo os arcos em forma de ferradura que hoje vemos como prototipicamente isl\u00e2micos s\u00e3o na verdade representativos da arquitetura da Espanha pr\u00e9-mu\u00e7ulmana. O encontro de estilos arquitet\u00f4nicos refletia a conviv\u00eancia religiosa que se implantou na vida cotidiana. O Cor\u00e3o traz disposi\u00e7\u00f5es bastante generosas sobre os demais \u201cPovos do Livro\u201d, isto \u00e9, as duas\u00a0<a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/reportagem\/historia-existia-ateu-idade-media.phtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">outras religi\u00f5es<\/a>\u00a0monote\u00edstas fundadas em obras liter\u00e1rias \u2013 o juda\u00edsmo com sua Tor\u00e1 e o cristianismo com seu Evangelho.<\/p>\n<figure class=\"image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/uploads\/gvasfwafwfaa.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Pintura Cena do mercado \/ Cr\u00e9dito: Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Deus, por meio de seu profeta\u00a0<strong>Maom\u00e9<\/strong>, decretou respeito \u00e0 liberdade religiosa de judeus e crist\u00e3os que vivem em territ\u00f3rio isl\u00e2mico. J\u00e1 ao tempo em que governavam na S\u00edria, os Umayyads revelaram-se muito liberais na aplica\u00e7\u00e3o desses ditames sagrados. Especialmente para os judeus, que viviam em semiescravid\u00e3o sob o governo crist\u00e3o dos visigodos, o dom\u00ednio mu\u00e7ulmano inaugurou uma era de liberdade inaudita. A comunidade judaica cresceu e prosperou em al-Andalus. \u00a0Seu prest\u00edgio pode ser aferido pelo fato de Abd al-Rahman III, que governou entre 912 e 961, ter nomeado um judeu como seu vizir, algo como um primeiro- ministro.<\/p>\n<p><strong>Alian\u00e7as de ocasi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Em 929, o mesmo proclamou C\u00f3rdoba como o califado, o centro universal da f\u00e9 isl\u00e2mica, em resposta a um grupo xiita do norte da \u00c1frica que havia feito a mesma declara\u00e7\u00e3o pouco tempo antes. Oficializava-se o que j\u00e1 era um fato: al-Andalus n\u00e3o devia submiss\u00e3o \u00e0 Bagd\u00e1 dos Abbasids.<\/p>\n<p>Ironicamente, este foi um dos gestos finais da dinastia Umayyad. O sucessor de\u00a0<strong>al-Rahman III<\/strong>\u00a0morreu depois de 15 anos de reinado sem deixar um sucessor em idade h\u00e1bil. O governo foi tomado por um regente ambicioso e desastrado, que n\u00e3o conseguiu conservar a unidade de al-Andalus frente aos ataques dos crist\u00e3os, ao norte, e das tribos fundamentalistas berberes, ao sul.<\/p>\n<p>O marco final da era Umayyad pode ser fixado na data simb\u00f3lica de 1009, quando os berberes saquearam e destru\u00edram Madinat al-Zahra, o suntuoso pal\u00e1cio constru\u00eddo por\u00a0<strong>al-Rahman III<\/strong>\u00a0nas imedia\u00e7\u00f5es de C\u00f3rdoba. Para os fundamentalistas, aqueles jardins magn\u00edficos, chafarizes, piscinas e est\u00e1tuas em estilo romano, representavam a impureza religiosa dos andaluzes. O pretenso califado europeu esfacela-se. Segue-se o per\u00edodo das chamadas taifas \u2013 cidadesestado que disputavam entre si a oportunidade de reunificar al-Andalus.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria nacionalista tradicional da Espanha enfatiza as disputas entre mu\u00e7ulmanos (ou mouros, como viriam a ser chamados pejorativamente) e crist\u00e3os. Destaca-se nesses entreveros a figura de\u00a0<strong>Rodrigo Diaz<\/strong>, conhecido como\u00a0<strong>El Cid<\/strong>\u00a0(corruptela de al-sayyid, senhor ou chefe, em \u00e1rabe), tido como primeiro her\u00f3i da reconquista cat\u00f3lica da pen\u00ednsula.<\/p>\n<p>Para a historiadora, no entanto, as coisas eram mais complicadas. Nas confusas alian\u00e7as de ocasi\u00e3o desse per\u00edodo, muitas vezes uma taifa crist\u00e3 se aliava a outra mu\u00e7ulmana para combater um inimigo comum. O pr\u00f3prio\u00a0<strong>Cid<\/strong>\u00a0eventualmente lutava a servi\u00e7o de mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<figure class=\"image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/uploads\/adhjadkas.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Cena de com\u00e9rcio em uma loja de talheres, s\u00e9culo 15 \/ Cr\u00e9dito: Getty Images<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Figuras de al-Andalus<\/strong><\/p>\n<p>A vasta galeria de personagens do livro de\u00a0<strong>Mar\u00eda Rosa Menocal<\/strong>\u00a0privilegia figuras que encarnaram de forma integral o inquieto e sofisticado esp\u00edrito andaluz \u2013 como o judeu\u00a0<strong>Samuel<\/strong>, o Nagib, vizir da taifa de Granada. Al\u00e9m de ser um brilhante chefe militar, obtendo vit\u00f3rias contra Sevilha,\u00a0<strong>Samuel<\/strong>\u00a0renovou a poesia hebraica, ressuscitando para a literatura uma l\u00edngua que fazia muito tempo s\u00f3 era utilizada nas sinagogas.<\/p>\n<p>A confus\u00e3o pol\u00edtica, como se v\u00ea, n\u00e3o deu fim \u00e0 efervesc\u00eancia cultural. A antiga capital dos visigodos, Toledo, conquistada pelos crist\u00e3os em 1085, consagrou-se como sede da mais importante escola de tradutores da Europa, vertendo para o latim, l\u00edngua da Igreja Cat\u00f3lica, textos s\u00f3 encontrados em \u00e1rabe, o idioma da cultura e da ci\u00eancia de ent\u00e3o. Por essa \u00e9poca, tradutores de Bagd\u00e1 j\u00e1 haviam convertido toda a obra de\u00a0<strong>Arist\u00f3teles<\/strong>\u00a0para o \u00e1rabe.<\/p>\n<p>Esses livros circulavam entre os mestres-escola de al-Andalus, enquanto os maiores eruditos da Europa crist\u00e3 s\u00f3 conheciam uns poucos fragmentos em tradu\u00e7\u00e3o latina. Em 1086, diante do avan\u00e7o crist\u00e3o de\u00a0<strong>Alfonso VI<\/strong>, a taifa mu\u00e7ulmana de Sevilha pediu socorro ao regime norte-africano dos Almoravids, que havia pouco tempo tomara o poder no Marrocos. Os Almoravids derrotaram\u00a0<strong>Alfonso VI<\/strong>\u00a0\u2013 e resolveram se estabelecer como os donos do peda\u00e7o, impondo aos andaluzes uma ideologia fundamentalista estranha \u00e0s suas pr\u00e1ticas tolerantes. A situa\u00e7\u00e3o piorou quando os Almoravids foram destitu\u00eddos por uma fac\u00e7\u00e3o ainda mais fan\u00e1tica, os Almohads.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo 13,\u00a0<strong>Fernando III<\/strong>\u00a0expulsou os Almohads e fez de Sevilha a nova capital dos reis de Castela. Em certo sentido, o monarca ainda estava filiado \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o pluralista que se gestou na al-Andalus dos Umayyads. Sua tumba, erguida na mesquita (reconsagrada como Igreja Cat\u00f3lica) de Sevilha, \u00e9 um monumento multicultural, com inscri\u00e7\u00f5es em castelhano, latim, hebreu e \u00e1rabe.<\/p>\n<p><strong>O fim da toler\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fernando III<\/strong>\u00a0concedeu a taifa de Granada a seus aliados mu\u00e7ulmanos. Limitado a um cantinho no sul da pen\u00ednsula, o novo dom\u00ednio isl\u00e2mico era uma sombra t\u00eanue da velha al-Andalus, que nem de longe voltou a respirar a atmosfera pluralista do passado: apenas mu\u00e7ulmanos viviam em Granada, isolados dos judeus e crist\u00e3os, que ainda conviviam em cidades como Toledo. Em janeiro de 1492, no epis\u00f3dio culminante da \u201creconquista\u201d, o \u00faltimo e acuado soberano isl\u00e2mico cederia a chave do bel\u00edssimo pal\u00e1cio de Alhambra, sede do governo de Granada, a\u00a0<strong>Isabel de Castela<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Fernando de Arag\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>Os reis cat\u00f3licos assinaram um tratado em que se comprometiam a preservar a liberdade religiosa dos mu\u00e7ulmanos. Mas n\u00e3o o cumpriram. O esp\u00edrito da \u00e9poca j\u00e1 era outro e a Espanha firmava-se como uma nova na\u00e7\u00e3o, unificada sob uma s\u00f3 igreja e falando uma s\u00f3 l\u00edngua.<\/p>\n<p><strong>Vitalidade intemporal<\/strong><\/p>\n<p>Menescal, al\u00e9m de dedicar algumas p\u00e1ginas a Dom Quixote, mostrando como o cl\u00e1ssico publicado por Miguel de Cervantes em 1605 retrata com sutileza e sensibilidade o ocaso da rica cultura \u00e1rabe em solo ib\u00e9rico, busca tra\u00e7os da mem\u00f3ria daqueles s\u00e9culos esfuziantes na obra contempor\u00e2nea de\u00a0<strong>Salman Rushdie<\/strong>\u00a0\u2013 escritor que foi perseguido pelo fundamentalismo isl\u00e2mico dos aiatol\u00e1s do Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Sempre insistindo na vitalidade intemporal da tradi\u00e7\u00e3o de al-Andalus. Depois da leitura de O Ornamento do Mundo, fica o desconfort\u00e1vel sentimento de que a express\u00e3o \u201cidade das trevas\u201d vale mesmo \u00e9 para o mundo que vemos, hoje, nos notici\u00e1rios.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma viagem \u00e0 Espanha dos s\u00e9culos 8 a 15 mostra como a conviv\u00eancia pac\u00edfica entre crist\u00e3os, mu\u00e7ulmanos e judeus criou uma sociedade brilhante em plena Europa<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":341497,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-341496","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/idade-das-luzes.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/341496","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=341496"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/341496\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/341497"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=341496"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=341496"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=341496"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}