{"id":345545,"date":"2021-01-30T09:50:20","date_gmt":"2021-01-30T12:50:20","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=345545"},"modified":"2021-01-30T12:41:23","modified_gmt":"2021-01-30T15:41:23","slug":"queimadas-no-pantanal-e-covid-19-potencializam-tragedia-no-norte-e-centro-oeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/queimadas-no-pantanal-e-covid-19-potencializam-tragedia-no-norte-e-centro-oeste\/","title":{"rendered":"Queimadas no Pantanal e Covid-19 potencializam trag\u00e9dia no Norte e Centro-Oeste"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-sm-12 ig-container_headerText\">\n<h1 id=\"noticia-titulo-h1\" class=\"noticia-titulo-h1-ig_V04\"><\/h1>\n<h2 id=\"noticia-olho\">No Mato Grosso e Par\u00e1, popula\u00e7\u00e3o vivenciou uma crise de doen\u00e7as respirat\u00f3rias sem saber qual a causa dos problemas<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"share-page\"><\/div>\n<div id=\"noticia-other\" class=\"noticia-other-ig_V04\">\n<p>Por\u00a0<span id=\"authors-box\"><strong>Ag\u00eancia P\u00fablica<\/strong>\u00a0<\/span><strong class=\"complemento-credito\">| | Julia Dolce<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"main-content\">\n<div class=\"row\">\n<section class=\"noticia col-sm-12 plf-0\">\n<div id=\"noticia\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"Noticia_Foto\">\n<figure class=\"foto-legenda \">\n<div class=\"foto-legenda-img\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Sufocados pela fuma\u00e7a, cercados pelo coronav\u00edrus\" src=\"https:\/\/statig0.akamaized.net\/bancodeimagens\/f1\/ah\/wr\/f1ahwrev333f16j27g0cxzsmb.jpg\" alt=\"Sufocados pela fuma\u00e7a, cercados pelo coronav\u00edrus\" width=\"652\" height=\"408\" \/><\/div><figcaption class=\"foto-legenda-citacao \"><cite>Julia Dolce<\/cite><\/p>\n<div class=\"foto-legenda-citacao-text\">Sufocados pela fuma\u00e7a, cercados pelo coronav\u00edrus<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p>Cuiab\u00e1 registrava, no final de dezembro, 918 casos de\u00a0<a href=\"https:\/\/saude.ig.com.br\/2020-11-25\/casos-de-sindrome-respiratoria-aguda-grave-voltam-a-crescer-no-brasil.html\">s\u00edndrome respirat\u00f3ria aguda (SRAG)<\/a>\u00a0por 100 mil habitantes, mais de duas vezes a m\u00e9dia da regi\u00e3o, tornando-se a capital da\u00a0<strong>Amaz\u00f4nia Legal<\/strong>\u00a0com a maior taxa do problema em 2020.<\/p>\n<p>Em 18 de janeiro, a cidade de 612 mil habitantes j\u00e1 tinha mais de 44 mil casos confirmados de\u00a0<strong>Covid-19<\/strong>\u00a0e mais de 1.250 \u00f3bitos, trag\u00e9dia di\u00e1ria que permanece no cotidiano da popula\u00e7\u00e3o h\u00e1 quase um ano.<\/p>\n<p>Por l\u00e1, a sobreposi\u00e7\u00e3o da pandemia de Covid-19 e a densa fuma\u00e7a das queimadas do desmatamento \u2013 problema anual cr\u00f4nico na cidade \u2013 causaram sintomas que confundiram seus habitantes e os profissionais de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Luciano Barco, de 39 anos, relata a experi\u00eancia que sofreu ao descobrir o diagn\u00f3stico de Covid-19 no dia 29 de junho e ver seu quadro piorar muito ao longo do m\u00eas de julho do ano passado. No mesmo per\u00edodo, Cuiab\u00e1 j\u00e1 estava debaixo de uma densa fuma\u00e7a trazida pelo in\u00edcio das queimadas no Pantanal e em regi\u00f5es do cerrado e parte da Amaz\u00f4nia Legal brasileira.<\/p>\n<p>\u201cEstava muito dif\u00edcil respirar aqui perto de Cuiab\u00e1, as queimadas estavam no auge, a fuma\u00e7a estava bem densa, ent\u00e3o posso afirmar que as queimadas tiveram um impacto no meu quadro. Nos primeiros 15 dias em isolamento, meu pulm\u00e3o foi de 15% de acometimento a 70% de acometimento por Covid-19\u201d, conta o professor de tecnologia na Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat).<\/p>\n<p>Em meados de julho, Barco, que trabalha tamb\u00e9m na Superintend\u00eancia de Tecnologia de Informa\u00e7\u00e3o da Secretaria de Sa\u00fade do Mato Grosso, ficou internado por sete dias e a oxigena\u00e7\u00e3o de seu organismo chegou a 89% \u2013 em condi\u00e7\u00f5es normais, o n\u00famero deve ficar entre 95% e 100%. \u201cHouve uma\u00a0<strong>evolu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica<\/strong>\u00a0do v\u00edrus no meu organismo, mesmo eu tomando todos os cuidados\u201d, relembra.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a esposa e a filha do professor chegaram a ter muita dificuldade para respirar por conta do cheiro e da ard\u00eancia da fuma\u00e7a na capital mato-grossense \u2013 as duas tamb\u00e9m testaram positivo para o coronav\u00edrus. \u201cSempre teve fuma\u00e7a em Cuiab\u00e1, seja pelas queimadas no Pantanal ou na Chapada dos Guimar\u00e3es, porque estamos em uma depress\u00e3o geol\u00f3gica. Mas nunca foi t\u00e3o denso e duradouro\u201d, explica Barco, que at\u00e9 hoje tem cerca de 10% dos pulm\u00f5es inflamados.<\/p>\n<p>Com diversos artigos publicados sobre o assunto, o professor do Instituto de Sa\u00fade Coletiva (ISC) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Ageo M\u00e1rio C\u00e2ndido da Silva pesquisa h\u00e1 pelo menos uma d\u00e9cada o efeito das part\u00edculas de queima de floresta na sa\u00fade respirat\u00f3ria da popula\u00e7\u00e3o amaz\u00f4nica. Com o in\u00edcio da pandemia que afeta principalmente o sistema respirat\u00f3rio, ele j\u00e1 previa que a\u00a0<strong>sobreposi\u00e7\u00e3o de coronav\u00edrus e queimadas poderia ser desastrosa.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u201cCuiab\u00e1 ficou quase um m\u00eas debaixo de fuma\u00e7a. \u00c9 um efeito atmosf\u00e9rico que pega todo mundo de uma maneira ou outra, mas principalmente quem j\u00e1 sofre com doen\u00e7a pulmonar cr\u00f4nica, asma, rinite sofreu bastante nesse per\u00edodo\u201d, diz.<\/p>\n<p>O pesquisador afirma que o aumento de interna\u00e7\u00f5es por doen\u00e7as respirat\u00f3rias em geral no estado \u00e9 sazonal e depende da intensidade da fuma\u00e7a. Em 2020 n\u00e3o foi diferente. Os servi\u00e7os de sa\u00fade do Mato Grosso atenderam n\u00fameros maiores de pacientes com doen\u00e7as respirat\u00f3rias durante o per\u00edodo de queimadas no estado. \u201cPodemos supor que esse efeito pode ter sido de intera\u00e7\u00e3o da gravidade da Covid e da gravidade das part\u00edculas presentes no ar, ent\u00e3o supomos, sim, esse agravamento dos quadros de Covid-19\u201d, afirma.<\/p>\n<h3><strong>\u201cAs pessoas com Covid-19 que atendi pioraram com a fuma\u00e7a\u201d, diz m\u00e9dico<\/strong><\/h3>\n<p>Tamb\u00e9m no Mato Grosso, a cidade de Rondon\u00f3polis sofreu com os efeitos das queimadas. O m\u00e9dico Kl\u00e9ber Julio Amorim da Silva j\u00e1 trabalhou em todas as pontas da rede assistencial do munic\u00edpio e desde o in\u00edcio da pandemia trabalha na linha de frente do combate \u00e0 Covid-19. \u201cAtendo de mil a 2 mil pessoas por m\u00eas e com certeza todas as pessoas que atendi e tiveram Covid-19 tiveram o quadro agravado pela fuma\u00e7a nesse per\u00edodo. Isso porque a Covid j\u00e1 gera uma les\u00e3o pulmonar, um quadro respirat\u00f3rio que piora muito com a fuma\u00e7a\u201d, afirma.<\/p>\n<p>No final de dezembro, o munic\u00edpio registrava 547,5 casos de SRAG por 100 mil habitantes,\u00a0<strong>acima da m\u00e9dia<\/strong>\u00a0da Amaz\u00f4nia Legal. Com 232 mil habitantes, a cidade registrava, em 18 de janeiro, mais de 13 mil casos de Covid-19, com 481 \u00f3bitos.<\/p>\n<p><a id=\"Link2\"><\/a>Rondon\u00f3polis \u00e9 a segunda maior economia do Mato Grosso, e sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada no agroneg\u00f3cio \u2013 soja, algod\u00e3o e gado. Al\u00e9m da fuma\u00e7a que vem de longe, o munic\u00edpio sofreu com queimadas na sua pr\u00f3pria zona rural \u2013 com dois focos que atingiram a Terra Ind\u00edgena Tadarimana, do povo Boror\u00f3. De acordo com o m\u00e9dico, o avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio tem favorecido progressivamente a devasta\u00e7\u00e3o do meio ambiente pelo fogo. \u201cTodos os anos, em per\u00edodos de queimadas, temos um aumento muito grande de hospitaliza\u00e7\u00f5es por doen\u00e7as respirat\u00f3rias, principalmente entre crian\u00e7as e idosos. Mas dessa vez, na chegada ao hospital, a gente tinha que tentar entender se o sintoma era relacionado \u00e0 fuma\u00e7a ou \u00e0 Covid-19\u201d, explica.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico conta que durante o per\u00edodo de queimadas a temperatura em Rondon\u00f3polis chegou a bater nos 50 \u00baC. A condi\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica extrema, segundo Kl\u00e9ber, fez com que as pessoas demorassem mais para procurar o hospital quando estavam infectadas com coronav\u00edrus, acreditando estar apenas reagindo ao clima: \u201cCom sintomas tamb\u00e9m trazidos pela fuma\u00e7a, como coriza, tosse e at\u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o para falta de ar grave, uma dispneia\u201d, conclui.<\/p>\n<p>De acordo com o tamb\u00e9m m\u00e9dico Daniel Pires, al\u00e9m do adoecimento agudo, a presen\u00e7a constante da fuma\u00e7a vinda da queima de biomassa pode levar ao desenvolvimento de doen\u00e7as a longo prazo, principalmente o c\u00e2ncer. \u201cA exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 fuma\u00e7a a longo prazo pode causar tamb\u00e9m outros problemas cr\u00f4nicos graves\u201d, resume Pires, como bronquite, agravamento de asma e outras doen\u00e7as pulmonares, al\u00e9m da exacerba\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as cardiovasculares, como insufici\u00eancia card\u00edaca.<\/p>\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-79224\" src=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/sufocados-pela-fumaca-cercados-pelo-coronavirus-img6.jpg\" sizes=\"(max-width: 1400px) 100vw, 1400px\" srcset=\"https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/sufocados-pela-fumaca-cercados-pelo-coronavirus-img6.jpg 1400w, https:\/\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/sufocados-pela-fumaca-cercados-pelo-coronavirus-img6-800x514.jpg 800w\" alt=\"\" data-has-syndication-rights=\"1\" data-portal-copyright=\"Foto: Twitter\/Reprodu\u00e7\u00e3o - Arte: Bruno Fonseca e Larissa Fernandes\/Ag\u00eancia P\u00fablica\" \/><figcaption>Em 2020, Cuiab\u00e1 foi a regi\u00e3o da Amaz\u00f4nia Legal com mais registros de SRAG: 918 casos por 100 mil habitantes<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<h3><strong>Mato Grosso lidera casos de SRAG na Amaz\u00f4nia Legal<\/strong><\/h3>\n<p>Segundo levantamento da\u00a0<strong>P\u00fablica<\/strong>\u00a0, a partir da plataforma Sivep-Gripe, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o Mato Grosso foi o estado da Amaz\u00f4nia Legal com a maior incid\u00eancia\u00a0<a id=\"Link1\"><\/a>de SRAG ao longo de 2020.<\/p>\n<p>At\u00e9 o final de dezembro, eram 749,6 casos por 100 mil habitantes, sendo a m\u00e9dia na regi\u00e3o cerca de 406 casos por 100 mil habitantes \u2013 crescimento de 184% em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e9dia. Al\u00e9m disso, das dez cidades da Amaz\u00f4nia Legal com maior incid\u00eancia de SRAG, oito est\u00e3o localizadas no Mato Grosso.<\/p>\n<p>Mas, apesar de liderar o n\u00famero de registros de SRAG, o Mato Grosso \u00e9 somente o quinto estado com maior incid\u00eancia de Covid-19, entre os nove da Amaz\u00f4nia Legal, segundo dados dispon\u00edveis no Painel Coronav\u00edrus do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Em 18 de janeiro, o estado registrava 5.712 casos de Covid-19 a cada 100 mil habitantes, abaixo de Roraima, Amap\u00e1, Rond\u00f4nia e Tocantins.<\/p>\n<p>Questionada sobre a diferen\u00e7a nos dados, a Secretaria de Sa\u00fade (SES) do Mato Grosso n\u00e3o se pronunciou at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O estado tamb\u00e9m teve o segundo maior n\u00famero total de focos de queimada na Amaz\u00f4nia Legal, com 20.648 registros at\u00e9 o final de dezembro. Proporcionalmente \u00e0 \u00e1rea, o Mato Grosso teve a quarta maior incid\u00eancia de focos de inc\u00eandio entre os estados da Amaz\u00f4nia Legal.<\/p>\n<h3><strong>\u201cN\u00e3o conseguia ver minha m\u00e3o de tanta fuma\u00e7a\u201d<\/strong><\/h3>\n<p>Canarana, a 630 km de Cuiab\u00e1, registrou cerca de 598 casos de SRAG por 100 mil habitantes no ano passado, 147% acima da m\u00e9dia da Amaz\u00f4nia Legal no mesmo per\u00edodo. No munic\u00edpio, que tem 52% do seu territ\u00f3rio na Amaz\u00f4nia e outros 48% no cerrado, as queimadas tiveram um primeiro pico entre mar\u00e7o e abril e um segundo em agosto, com os efeitos das queimadas vis\u00edveis a olho nu pelos moradores. \u201cDe manh\u00e3 eu andava e estendia o bra\u00e7o e n\u00e3o conseguia ver minha m\u00e3o de tanta fuma\u00e7a. A cidade ficava totalmente tomada pela fuma\u00e7a\u201d, conta Ludmila Rattis, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia (Ipam).<\/p>\n<p>\u201cCanarana amanhece como S\u00e3o Paulo amanheceu naquele dia de agosto de 2019. Todo ano tem aquilo. S\u00f3 que n\u00e3o vira not\u00edcia porque Canarana tem 20 mil habitantes e fica no Mato Grosso\u201d, diz.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o do ano passado, quando a pandemia estourava no pa\u00eds, ela acabara de chegar \u00e0 cidade para um per\u00edodo de pesquisas. \u201cQuando a pandemia come\u00e7ou, Canarana n\u00e3o tinha leito de UTI, n\u00e3o tinha nenhum respirador. O \u00fanico meio de tratar pessoas graves era saindo de l\u00e1 de avi\u00e3o e indo para Cuiab\u00e1 ou Goi\u00e2nia\u201d, relata. Com cerca de 21,5 mil habitantes, o munic\u00edpio tinha 1.155 casos confirmados de Covid-19, segundo o boletim epidemiol\u00f3gico da prefeitura de 18 de janeiro.<\/p>\n<h3><strong>Par\u00e1: \u201cTodo ano a gente s\u00f3 espera a fuma\u00e7a\u201d<\/strong><\/h3>\n<p><a id=\"Link3\"><\/a>Em meados de agosto passado, os profissionais de sa\u00fade da Unidade de Sa\u00fade da Fam\u00edlia (USF) Carlos Barreto, no bairro de Morada Nova, em Marab\u00e1, no Par\u00e1, sa\u00edram \u00e0s ruas procurando idosos de casa em casa para tentar convenc\u00ea-los a deixar o local por um tempo. O munic\u00edpio amaz\u00f4nico no sudeste do estado paraense enfrentava a Covid-19 quando come\u00e7ou a temporada de queimadas na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Afastado do centro, Morada Nova foi atingido por uma nuvem de fuma\u00e7a, que agravou o quadro de sa\u00fade respirat\u00f3ria dos seus moradores. \u00c9 o que contou \u00e0 reportagem a enfermeira Bet\u00e2nia Nunes da Silva, que h\u00e1 20 anos trabalha na Carlos Barreto. Naquela manh\u00e3, quando ela deixou a prote\u00e7\u00e3o dos consult\u00f3rios da unidade em busca de pessoas no grupo de risco da pandemia, acabou prejudicando a pr\u00f3pria sa\u00fade. \u201cNo dia do pico da fuma\u00e7a, quando estava fazendo as visitas domiciliares, tive a ressintomatologia\u201d, ou seja, passou a sentir sintomas parecidos de quando estava com Covid-19.<\/p>\n<p>Bet\u00e2nia, conhecida como Beta, foi infectada pelo coronav\u00edrus em maio. Cardiopata e com problemas renais, ela chegou a ser internada para receber oxig\u00eanio \u2013 insumo que atualmente est\u00e1 em falta em regi\u00f5es do Par\u00e1 e do Amazonas.<\/p>\n<p>Bet\u00e2nia passou 39 dias afastada do trabalho. Em agosto, voltou a sentir \u201csintomas muito parecidos com a Covid-19\u201d, apesar de nunca ter tido crises respirat\u00f3rias durante a anual \u00e9poca de fuma\u00e7a das queimadas. \u201cCom a Covid-19 a gente fica fragilizado, as plaquetas descem e demoramos a voltar ao normal. Ficamos ofegantes por 60, 90 dias. Vimos que com essa fragilidade ficamos muito mais suscet\u00edveis \u00e0s crises respirat\u00f3rias\u201d, explica.<\/p>\n<p>De acordo com ela, os profissionais de sa\u00fade de Marab\u00e1 perceberam uma alta procura dos servi\u00e7os de sa\u00fade durante as queimadas. \u201cA gente entendeu que muita gente que teve Covid-19, que j\u00e1 tava saindo da linha vermelha, voltou com sintomas novamente, principalmente tosse.\u201d Um dos casos mais preocupantes que a enfermeira acompanha at\u00e9 hoje \u00e9 o de uma menina de 7 anos que ficou internada em junho diagnosticada com o coronav\u00edrus. Ela j\u00e1 havia melhorado quando chegou a fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cEm agosto ela teve que ser entubada, bem na semana da pior fuma\u00e7a. Ficou mais nove dias internada\u201d, diz. A enfermeira conta que exames identificaram a presen\u00e7a de part\u00edculas de fuma\u00e7a na regi\u00e3o pulmonar. A crian\u00e7a, que n\u00e3o tinha nenhuma comorbidade conhecida, ainda carrega uma rouquid\u00e3o como sequela da doen\u00e7a. \u201cPara n\u00f3s, ficou como certeza que a fuma\u00e7a foi muito favor\u00e1vel para que as pessoas com Covid-19 piorassem o quadro cl\u00ednico\u201d, diz.<\/p>\n<p>Segundo Bet\u00e2nia, ap\u00f3s a pior semana de fuma\u00e7a, houve superlota\u00e7\u00e3o de sua unidade, que foi ocupada principalmente com crian\u00e7as precisando fazer inala\u00e7\u00e3o. Ela conta que as queimadas fazem o posto aumentar em m\u00e9dia 30% o atendimento de crian\u00e7as, idosos e gestantes. \u201cInfelizmente, j\u00e1 estamos acostumados a trabalhar com as consequ\u00eancias das queimadas na nossa regi\u00e3o. Mas dessa vez os m\u00e9dicos tiveram dificuldade de entender se era Covid-19 ou apenas sintomas da fuma\u00e7a\u201d, conclui.<\/p>\n<p>Mesmo para as pessoas n\u00e3o diagnosticadas com a Covid-19, o per\u00edodo em que o munic\u00edpio ficou debaixo de fuma\u00e7a causou preocupa\u00e7\u00e3o. Foi o caso da estudante de hist\u00f3ria Tifhanny Flor de Lua, de 21 anos, que perdeu as contas das ocasi\u00f5es em que chegou a ficar em d\u00favida se estava infectada com o coronav\u00edrus ou apenas reagindo \u00e0 fuma\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cDe uma forma geral, como a gente passou mais de um m\u00eas com os efeitos da fuma\u00e7a, isso abala o corpo humano. Nos primeiros momentos vem um calor absurdo, voc\u00ea fica ofegante com facilidade. \u00c0s vezes eu ficava cansada s\u00f3 de subir a escada para o meu quarto, chegava sem ar, me sentia sufocada\u201d, lembra Tifhanny.<\/p>\n<p>Os sintomas n\u00e3o foram sentidos apenas pela jovem. \u201cEu e meu namorado come\u00e7amos a ter muita dor de cabe\u00e7a, algo que nunca sinto. Minhas veias na testa pareciam inchadas, pulsando. Os colegas da universidade comentaram com frequ\u00eancia que s\u00f3 de varrer a casa estavam indispostos.\u201d<\/p>\n<p>Tanto Tifhanny quanto Bet\u00e2nia sabem que a fuma\u00e7a que chega em Marab\u00e1 vem do fogo provocado pelos grandes produtores do agroneg\u00f3cio e pelo desmatamento na regi\u00e3o. \u201cTodo ano a gente s\u00f3 espera a fuma\u00e7a, no ver\u00e3o amaz\u00f4nico, auge do calor. Marab\u00e1 \u00e9 uma das regi\u00f5es mais desmatadas, mais destru\u00eddas. Aqui voc\u00ea s\u00f3 v\u00ea ch\u00e3o e boi andando\u201d, afirma a estudante de hist\u00f3ria, que vive no munic\u00edpio h\u00e1 15 anos.<\/p>\n<p>Ter a sa\u00fade afetada por fuma\u00e7a \u00e9 algo que acompanha a hist\u00f3ria da jovem. Ela nasceu e passou a primeira inf\u00e2ncia em outro munic\u00edpio amaz\u00f4nico afetado pela economia extrativista: A\u00e7ail\u00e2ndia, no Maranh\u00e3o. A regi\u00e3o \u00e9 palco das pol\u00eamicas usinas de ferro-gusa, que tamb\u00e9m marcaram o corpo de Tifhanny. \u201cEu sou de uma comunidade muito conhecida por l\u00e1, Piqui\u00e1 de Baixo, um lugar afetado pela siderurgia, por um derretimento muito t\u00f3xico\u201d, conta.<\/p>\n<p>Aos 3 anos de idade, a jovem ficou internada por seis meses ap\u00f3s ter desenvolvido uma pneumonia aguda e asma al\u00e9rgica relacionada \u00e0 fuma\u00e7a do ferro-gusa. \u201cL\u00e1 muita gente tem problemas respirat\u00f3rios. A convers\u00e3o de p\u00f3 e barras de min\u00e9rio pelos fornos gera uma polui\u00e7\u00e3o que deixa os telhados das casas escurecidos, o ch\u00e3o da cidade marrom\u201d, conta.<\/p>\n<p class=\" \">Ela recorda que na inf\u00e2ncia tinham que colocar uma lona entre as telhas e a estrutura da casa para barrar parte das cinzas que entravam os c\u00f4modos. \u201cEnt\u00e3o era algo muito vis\u00edvel, imagina para respirar. Em Marab\u00e1 h\u00e1 outras problem\u00e1ticas. Tem a fuma\u00e7a da queimada de pasto, que \u00e9 escura, vem com fagulhas de capim e passa mais r\u00e1pido, e a fuma\u00e7a de queima de mata, que \u00e9 branca, mais densa, e perdura por dias no horizonte. O cheiro \u00e9 diferente tamb\u00e9m, por\u00e9m todo ano elas v\u00eam.\u201d<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela recorda que na inf\u00e2ncia tinham que colocar uma lona entre as telhas e a estrutura da casa para barrar parte das cinzas que entravam os c\u00f4modos. \u201cEnt\u00e3o era algo muito vis\u00edvel, imagina para respirar. Em Marab\u00e1 h\u00e1 outras problem\u00e1ticas. 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