{"id":346302,"date":"2021-02-07T10:08:34","date_gmt":"2021-02-07T13:08:34","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=346302"},"modified":"2021-02-07T10:08:34","modified_gmt":"2021-02-07T13:08:34","slug":"criancas-de-um-futuro-impuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/criancas-de-um-futuro-impuro\/","title":{"rendered":"Crian\u00e7as de um futuro impuro"},"content":{"rendered":"<div class=\"title-single\">\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<article id=\"div-comment-5\" class=\"comment-body\">\n<footer class=\"comment-meta\">\n<div class=\"comment-author vcard\"><b class=\"fn\">Sofia Favero e Jo\u00e3o Gabriel Maracci<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<\/footer>\n<\/article>\n<\/div>\n<div class=\"img-single\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" title=\"\" src=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/getty.png\" alt=\"Crian\u00e7as de um futuro impuro\" \/><\/p>\n<div class=\"box-share\">\n<div class=\"addthis_inline_share_toolbox_above addthis_tool\" data-url=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/criancas-de-um-futuro-impuro\/\" data-title=\"Crian\u00e7as de um futuro impuro\" data-description=\"Como a moral do \u201camanh\u00e3\u201d atua na defesa de uma maneira de viver em sociedade que mant\u00e9m a heterossexualidade e a cisgeneridade como tra\u00e7os inquestion\u00e1veis\">\n<div id=\"atstbx\" class=\"at-share-tbx-element addthis-smartlayers addthis-animated at4-show\" role=\"region\" aria-labelledby=\"at-e7d6437d-5b08-4724-a7b7-53e023439377\"><span id=\"at-e7d6437d-5b08-4724-a7b7-53e023439377\" class=\"at4-visually-hidden\"><\/span><\/p>\n<div class=\"at-share-btn-elements\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"img-single\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><strong>Qual espa\u00e7o resta \u00e0quelas crian\u00e7as que descumprem o aparente tratado entre sexo, g\u00eanero e sexualidade? (Foto: Getty Images)<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"desc-single\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Debates e controv\u00e9rsias acerca da categoria inf\u00e2ncia t\u00eam ganhado, ao longo da \u00faltima d\u00e9cada, um espa\u00e7o privilegiado no cen\u00e1rio p\u00fablico brasileiro. Podemos citar como pontos dessa extensa genealogia a querela do chamado\u00a0<a href=\"http:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/a-politica-sexual-do-bolsonarismo\/\">\u201ckit gay\u201d<\/a>, iniciada em 2010, bem como os debates em torno do Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, em 2014 \u2013 quando o sintagma\u00a0<a href=\"http:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/ideologia-de-genero-ou-o-genero-da-ideologia\/\">\u201cideologia de g\u00eanero\u201d<\/a>\u00a0passou a operar como mobilizador pol\u00edtico no pa\u00eds. Consolidou-se, em nossa hist\u00f3ria recente, uma associa\u00e7\u00e3o paranoica entre a crian\u00e7a e os perigos da\u00a0<a href=\"http:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/diversidade-ou-diferenca\/\">diversidade sexual e de g\u00eanero<\/a>\u00a0\u2013 perigos contra os quais a categoria \u201cinf\u00e2ncia\u201d precisaria ser protegida e assegurada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 na esteira de tais empreendimentos que, na\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/eleicao-do-fim-do-mundo\/\">corrida eleitoral de 2018<\/a>,\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tag\/jair-bolsonaro\">Jair Bolsonaro<\/a>\u00a0afirmou sua oposi\u00e7\u00e3o aos referidos termos, de modo que \u201ckit gay\u201d e \u201cideologia de g\u00eanero\u201d se tornaram eixos fundamentais de sua campanha. O movimento acompanha uma s\u00e9rie de investidas transnacionais de recha\u00e7o e coopta\u00e7\u00e3o institucional das tem\u00e1ticas de g\u00eanero e sexualidade ao redor do globo, o que muitos acad\u00eamicos v\u00eam nomeando como \u201cofensivas antig\u00eanero\u201d. Podemos afirmar que, com o in\u00edcio da gest\u00e3o Bolsonaro, tais ofensivas deixaram de ser representadas apenas por uma bancada de parlamentares para operar no interior do pr\u00f3prio Executivo. Consolidou-se, assim, um Estado antig\u00eanero, que reiteradamente afirma e produz o p\u00e2nico sobre a diversidade, situando a inf\u00e2ncia como eixo estruturante e como ve\u00edculo de mobiliza\u00e7\u00e3o para apoiadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez o exemplo mais expl\u00edcito desse p\u00e2nico se encontre na famosa frase de\u00a0<a href=\"http:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/o-espelho-de-damares-alves\/\">Damares Alves<\/a>, que, ao assumir seu posto como ministra da Mulher, da Fam\u00edlia e dos Direitos Humanos, afirmou que estar\u00edamos entrando em uma nova era, na qual\u00a0<a href=\"http:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/damares-uma-metafora-de-ministra\/\">\u201cmenino veste azul e menina veste rosa\u201d<\/a>. Se tal enunciado parece demasiado ris\u00edvel, \u00e9 importante levarmos em considera\u00e7\u00e3o que tais disputas em torno de um ideal de crian\u00e7a n\u00e3o se restringem ao plano caricatural. Na ret\u00f3rica que embasa as supostas amea\u00e7as \u00e0 inf\u00e2ncia, toma centralidade a associa\u00e7\u00e3o entre diversidade e pedofilia, assumindo que o mero reconhecimento da exist\u00eancia de crian\u00e7as n\u00e3o heterossexuais ou cisg\u00eaneras serviria de legitima\u00e7\u00e3o para poss\u00edveis viola\u00e7\u00f5es. N\u00e3o por acaso, Bolsonaro afirmava, em 2011, que materiais did\u00e1ticos anti-homofobia tornariam \u201cnossos filhos presas f\u00e1ceis para ped\u00f3filos\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pedofilia segue sendo um importante elemento de sustenta\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica para Bolsonaro e seu corpo ministerial. Por exemplo, ao final do primeiro ano de governo, Damares Alves afirmou,<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/app\/noticia\/cidades\/2019\/09\/12\/interna_cidadesdf,782003\/o-brasil-e-cruel-com-crianca.shtml\">\u00a0em entrevista ao Correio Braziliense<\/a>, que sua principal luta seria contra o abuso sexual infantil. Em suas palavras: \u201c\u00e9 a luta da minha vida. Eu fiz da dor a minha luta\u201d, disse, relatando o impacto que vive at\u00e9 hoje por ter sido v\u00edtima de viol\u00eancia sexual quando crian\u00e7a. Se a viola\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e adolescentes ainda \u00e9 um tema de extrema relev\u00e2ncia para nosso pa\u00eds, faz-se dif\u00edcil discernir, na ret\u00f3rica governamental, o que seria, de fato, a \u201cviol\u00eancia contra a crian\u00e7a\u201d, dado que os crit\u00e9rios para determin\u00e1-la parecem demasiado solid\u00e1rios \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de outras viola\u00e7\u00f5es, sobretudo aquelas referidas \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o por g\u00eanero e sexualidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assumindo que algum tipo de prioridade \u00e9 dada \u00e0s crian\u00e7as no regimento de uma pol\u00edtica de Estado, seria arriscado dizer que essa categoria se tornou um conveniente canal de legitima\u00e7\u00e3o do governo a partir de valores compartilhados com seus apoiadores? Se sim, seria poss\u00edvel considerar que quest\u00f5es como \u201cdiversidade\u201d ou \u201cdiferen\u00e7a\u201d \u2013 principalmente quando relacionadas a crian\u00e7as \u2013 tamb\u00e9m podem estar sendo lidas sob a \u00f3tica do abuso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 not\u00e1vel que o mero reconhecimento da inf\u00e2ncia para al\u00e9m da heterocisnormatividade j\u00e1 figura como ponto de oposi\u00e7\u00e3o e recha\u00e7o do atual governo e de seus representantes. Por essa via, a nossa an\u00e1lise \u00e9 que a manuten\u00e7\u00e3o de um ideal de crian\u00e7a (presumidamente cisg\u00eanero e heterossexual), bem como a garantia de um padr\u00e3o espec\u00edfico de fam\u00edlia e da pr\u00f3pria diferen\u00e7a sexual, precisa situar a diversidade como algo que macula a imagem idealizada da inf\u00e2ncia, degradando a pureza fantasiosa que impomos sobre a vida das crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a inf\u00e2ncia n\u00e3o surge como uma categoria isolada. Enquanto alteridade, ela diz respeito tamb\u00e9m \u00e0 adultez \u2013 bem como \u00e0 fam\u00edlia, por consequ\u00eancia. Quando falamos em crian\u00e7as, estamos, ademais, falando sobre adultos \u2013 o que significa admitir que preocupa\u00e7\u00f5es baseadas na sustenta\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter normativo e idealizado da inf\u00e2ncia atuam tamb\u00e9m para prevenir (ou evitar) a forma\u00e7\u00e3o de adultos impuros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Crian\u00e7as gays, trans,<br \/>\nl\u00e9sbicas, dentre tantas<br \/>\noutras, corrompem o<br \/>\nsistema de repeti\u00e7\u00f5es<br \/>\nnormativas que garantem<br \/>\na legitimidade de um<br \/>\npadr\u00e3o espec\u00edfico de<br \/>\nfam\u00edlia e de adultez.<br \/>\nPor essa raz\u00e3o, s\u00e3o<br \/>\ntomadas como amea\u00e7a<br \/>\npara a continuidade<br \/>\ndo mundo.<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 com esse argumento que Lee Edelman, te\u00f3rico da\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tag\/psicanalise\">psican\u00e1lise<\/a>\u00a0e dos\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/queer-o-que-ativismo-e-estudos-transviados-193-ago2014\/\">estudos queer<\/a>, considera o ideal imagin\u00e1rio de inf\u00e2ncia como um sustent\u00e1culo para a pr\u00f3pria ideia de futuro. A crian\u00e7a idealizada seria a ef\u00edgie do \u201cfuturismo reprodutivo\u201d, ou seja, a l\u00f3gica que demanda um esfor\u00e7o cont\u00ednuo e cada vez mais intenso na prote\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia para que o mundo continue se replicando como \u00e9. Protegendo a inf\u00e2ncia, protegemos o adulto. Protegendo a inf\u00e2ncia, protegemos o futuro, a fam\u00edlia, a linearidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diagn\u00f3stico de Edelman n\u00e3o poderia soar mais atual no Brasil de 2021, momento em que a defesa deste ideal de inf\u00e2ncia opera como pilar ret\u00f3rico da extrema direita no exerc\u00edcio do poder. As crian\u00e7as outras, situadas nas fronteiras do ideal normativo, parecem irromper a l\u00f3gica do futurismo imposto \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o do mundo tal qual ele \u00e9. Precisam ser corrigidas e at\u00e9 mesmo eliminadas em nome da preserva\u00e7\u00e3o do futuro. Assim como precisam ser eliminados os \u201cide\u00f3logos de g\u00eanero\u201d \u2013 degenerados e pervertidos que atentam contra cren\u00e7as basilares da nossa forma\u00e7\u00e3o cultural, social e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A defesa de tais valores primordiais para a civiliza\u00e7\u00e3o passa a ser imposta aos primeiros anos da vida, com a inten\u00e7\u00e3o de certificar dada ordem e dado progresso. Qual espa\u00e7o resta \u00e0quelas crian\u00e7as que descumprem o aparente tratado entre sexo, g\u00eanero e sexualidade? Aquelas que subvertem a l\u00f3gica do feminino e do masculino, que desobedecem a pretensa coer\u00eancia do desejo? Jack Halberstam, outro expoente dos estudos queer, aponta para a necessidade de afirmarmos outras formas de descobrir e de nos relacionar com a ideia de desenvolvimento humano. Seja coletivo ou individual, o desenvolvimento parece estar normativamente conectado \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es lineares, imut\u00e1veis e est\u00e1veis, imbu\u00eddo em ideais de progress\u00e3o e sucesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vivemos no Brasil, \u201co pa\u00eds do futuro\u201d. Ordem e progresso est\u00e3o grifados em nossa bandeira. N\u00e3o soa estranho que um ideal de inf\u00e2ncia esteja t\u00e3o investido politicamente no fomento a preconceitos e processos de precariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, se as aten\u00e7\u00f5es dadas a essa faixa et\u00e1ria revelam a marca da intoler\u00e2ncia, talvez deixem escapar certo potencial desestabilizador contido na pr\u00f3pria inf\u00e2ncia. Poderiam as crian\u00e7as, essas que n\u00e3o encontram repouso sob o guarda-chuva do progresso da na\u00e7\u00e3o, ter algo a nos ensinar? Para Halberstam, esse fracasso da realiza\u00e7\u00e3o normativa n\u00e3o deveria ser combatido, mas sim assumido enquanto estrat\u00e9gia vital. Fracassar, para o autor, implica perturbar a l\u00f3gica reprodutiva da normalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que almejamos ser (ou termos sido) crian\u00e7as do progresso, quando essa progress\u00e3o \u00e9 tribut\u00e1ria da repeti\u00e7\u00e3o esvaziada de um roteiro excludente? Pensando ludicamente, como instrumento de an\u00e1lise sobre a inf\u00e2ncia, \u00e9 como se estivesse ilustrada uma defini\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia desde uma l\u00f3gica atacadista. Menino, p\u00eanis, azul. Menina, vagina, rosa. Signos que procuram obter sucesso em sua busca por coer\u00eancia. Mas qual \u00e9 o efeito de tal \u201charmonia\u201d nas vidas das pr\u00f3prias crian\u00e7as? Nesta perspectiva cumulativa, na qual uma coisa leva a outra \u2013 como o biol\u00f3gico leva ao social, o genital leva \u00e0 procria\u00e7\u00e3o -, resta pouco espa\u00e7o \u00e0 desobedi\u00eancia, tendo em vista que as crian\u00e7as identificadas como \u201cinfratoras\u201d pagam um alto pre\u00e7o por suas transgress\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes, sendo expulsas do lar. Outras vezes, sendo exclu\u00eddas na escola. Frequentemente, sendo alvo de um discurso religioso que busca cur\u00e1-las, trat\u00e1-las, corrigi-las e lev\u00e1-las de volta ao \u201ccaminho\u201d do futuro, do qual n\u00e3o deveriam ter sido (des)viadas. A moral do \u201camanh\u00e3\u201d atua na defesa de uma maneira de viver em sociedade, que, apesar de se encontrar em decl\u00ednio, mant\u00e9m a heterossexualidade e a cisgeneridade como tra\u00e7os valiosos e inquestion\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar sobre as crian\u00e7as sem futuro, assim, \u00e9 estabelecer uma conversa mais honesta sobre a possibilidade de termos rela\u00e7\u00f5es mut\u00e1veis, provis\u00f3rias, ir\u00f4nicas. Com essas palavras, n\u00e3o queremos simplesmente abortar o futuro, mas sim expressar nosso interesse em outros destinos, para al\u00e9m daquele que nos imp\u00f5e uma trajet\u00f3ria normativa, linear e progressiva. Queremos contestar tal roteiro perguntando: onde ficam as crian\u00e7as trans? As crian\u00e7as gays? L\u00e9sbicas, travestis, n\u00e3o-bin\u00e1rias e tantas outras? Qual espa\u00e7o sobra \u00e0s crian\u00e7as que entram em desacordo com essas pol\u00edticas de morte subjetiva, de aniquila\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As crian\u00e7as sem futuro, ao inv\u00e9s de sustentarem a norma, apontam a urg\u00eancia do fim de um mundo sufocante, para quem sabe vislumbrarem o nascimento de um mundo criativo, resistente aos limites da discrimina\u00e7\u00e3o e do preconceito. J\u00e1 que o progresso e o futuro da na\u00e7\u00e3o tornam-se lemas que representam a agress\u00e3o e o precip\u00edcio da diversidade, talvez precisemos eleger o fracasso do futuro como alternativa \u00e0 vida. Por essa raz\u00e3o, n\u00e3o interessa a n\u00f3s, ex-crian\u00e7as sem futuro \u2013 talvez adultos igualmente sem futuro \u2013 o retorno nost\u00e1lgico a um passado fict\u00edcio, ou mesmo \u00e0 reden\u00e7\u00e3o no horizonte p\u00f3stero. Queremos disputar, agora, o paradigma cruel e violento imposto a tantas de n\u00f3s que contradizem a l\u00f3gica mort\u00edfera da heterossexualidade e da cisgeneridade (e, n\u00e3o esque\u00e7amos, tamb\u00e9m da branquitude).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, apontamos que n\u00e3o \u00e9 na pureza da inf\u00e2ncia que nossa inspira\u00e7\u00e3o encontra algum repouso, mas sim na sua profunda capacidade de desestabiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>SOFIA FAVERO<\/strong>\u00a0\u00e9 doutoranda em Psicologia Social e Institucional (UFRGS)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>JO\u00c3O GABRIEL MARACCI<\/strong>\u00a0\u00e9 doutorando em Psicologia (UFMG).<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual espa\u00e7o resta \u00e0quelas crian\u00e7as que descumprem o aparente tratado entre sexo, g\u00eanero e sexualidade? 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