{"id":346305,"date":"2021-02-07T10:13:49","date_gmt":"2021-02-07T13:13:49","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=346305"},"modified":"2021-02-07T10:13:49","modified_gmt":"2021-02-07T13:13:49","slug":"o-ouvido-de-clarice-lispector-de-olho-em-james-joyce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-ouvido-de-clarice-lispector-de-olho-em-james-joyce\/","title":{"rendered":"O ouvido de Clarice Lispector de olho em James Joyce"},"content":{"rendered":"<div class=\"title-single\">\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<article id=\"div-comment-5\" class=\"comment-body\">\n<footer class=\"comment-meta\">\n<div class=\"comment-author vcard\"><b class=\"fn\">Dirce Waltrick do Amarante<\/b><\/div>\n<div><\/div>\n<\/footer>\n<\/article>\n<\/div>\n<div class=\"img-single\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" title=\"\" src=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/joyce.jpg\" alt=\"O ouvido de Clarice Lispector de olho em James Joyce\" \/><\/p>\n<div class=\"box-share\">\n<div class=\"addthis_inline_share_toolbox_above addthis_tool\" data-url=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/o-ouvido-de-clarice-lispector-de-olho-em-james-joyce\/\" data-title=\"O ouvido de Clarice Lispector de olho em James Joyce\" data-description=\"Livro de Mar\u00edlia Librandi mostra a no\u00e7\u00e3o de escuta na escrita de Clarice - que parece ter sido atra\u00edda pela for\u00e7a auditiva da fic\u00e7\u00e3o de Joyce\">\n<div id=\"atstbx\" class=\"at-share-tbx-element addthis-smartlayers addthis-animated at4-show\" role=\"region\" aria-labelledby=\"at-d1cd2988-e908-4c2b-9e19-cb465aa0d323\"><span id=\"at-d1cd2988-e908-4c2b-9e19-cb465aa0d323\" class=\"at4-visually-hidden\"><\/span><\/p>\n<div class=\"at-share-btn-elements\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"img-single\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><strong>James Joyce talvez tenha sido o ponto de partida da est\u00e9tica ficcional de Clarice Lispector (Foto: Lipnitzki\/ Roger Viollet)<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"desc-single\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Escrever de ouvido: Clarice Lispector e os romances da escuta\u00a0<\/em>(Relic\u00e1rio), de Mar\u00edlia Librandi, vem se somar \u00e0 bibliografia fundamental a respeito de\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tag\/james-joyce\">James Joyce<\/a>. O livro destaca a \u201cno\u00e7\u00e3o de escuta na escrita\u201d da escritora brasileira nascida na Ucr\u00e2nia\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tag\/clarice-lispector\">Clarice Lispector<\/a>\u00a0(1920-1977). O objetivo de Librandi \u201cn\u00e3o se trata apenas de uma leitura cr\u00edtica de sua obra\u201d, \u201cmas mostrar aos leitores de que modo se pode usar a autora como\u00a0<em>fonte te\u00f3rica\u00a0<\/em>capaz de nos ajudar a repensar a fic\u00e7\u00e3o, em termos gerais, como uma pr\u00e1tica de escuta\u201d, uma vez que, para a professora brasileira, a escritora foi \u201ca principal te\u00f3rica do que ela chamou de um \u2018escrever de ouvido\u2019\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">James Joyce talvez tenha sido o ponto de partida da est\u00e9tica ficcional clariceana. O primeiro livro de Lispector,\u00a0<em>Perto do cora\u00e7\u00e3o selvagem\u00a0<\/em>(1943), tem como ep\u00edgrafe uma frase de\u00a0<em>O retrato do artista quando jovem\u00a0<\/em>(1916), do escritor irland\u00eas: \u201cEle estava s\u00f3. Estava abandonado, feliz,\u00a0perto\u00a0do\u00a0selvagem cora\u00e7\u00e3o\u00a0da vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ep\u00edgrafe une o romance de forma\u00e7\u00e3o de Lispector ao de Joyce, e cria um la\u00e7o entre eles, que vai al\u00e9m dessas duas obras. A escritora parece ter sido atra\u00edda tamb\u00e9m pela sonoridade da obra do escritor irland\u00eas, e n\u00e3o por acaso: assim como Joyce, Clarice viveu entre diferentes idiomas (o russo, o \u00eddiche \u2013 que seus pais falavam em casa \u2013, o portugu\u00eas) e diferentes sotaques (viveu na cidade de Recife e no Rio de Janeiro).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De modo que Joyce e Lispector tinham o ouvido agu\u00e7ado para outros falares. Dessa escuta nasce uma obra escrita numa l\u00edngua singular. Portanto, caberia a James Joyce o que Librandi fala a respeito da escrita de Clarice Lispector: \u201cessa \u2018mistura de l\u00ednguas\u2019 singular faz de Clarice um caso emblem\u00e1tico de algu\u00e9m que escreve em uma esp\u00e9cie de l\u00edngua estrangeira, o que a deixou especialmente sens\u00edvel \u00e0 escuta de nuances, timbres e entona\u00e7\u00f5es (inst\u00e2ncias que precedem a compreens\u00e3o sem\u00e2ntica)\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como n\u00e3o lembrar de um fragmento de\u00a0<em>Finnegans wake (<\/em>1939)?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><a href=\"http:\/\/www.finwake.com\/1024chapter1\/prevod12.htm#behove\">Behove<\/a>\u00a0this sound of Irish sense. Really? Here English might be seen. Royally? One sovereign\u00a0<a href=\"http:\/\/www.finwake.com\/1024chapter1\/prevod13.htm#punned\">punned<\/a>\u00a0to\u00a0<a href=\"http:\/\/www.finwake.com\/1024chapter1\/prevod13.htm#Peter\">petery pence<\/a>. Regally? The silence speaks the scene.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.finwake.com\/1024chapter1\/prevod13.htm#fake\">Fake<\/a>!<\/em><br \/>\n<em>So This Is\u00a0<a href=\"http:\/\/www.finwake.com\/1024chapter1\/prevod13.htm#Dublin\">Dyoublong<\/a>?<\/em><br \/>\n<em>Hush! Caution!\u00a0<a href=\"http:\/\/www.finwake.com\/1024chapter1\/prevod13.htm#It\">Echoland<\/a>!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Asscolta o som do sentido do irland\u00eas. S\u00e9rio? Aqui o ingl\u00eas deve ser visto. Realmente? Um soberano deu um trocadilho de um tost\u00e3o. Regiamente? O sil\u00eancio insere a cena. Falso!<br \/>\nEnt\u00e3o Essa \u00e9 a Dublil\u00edngua?<br \/>\nHouve! Calma! Ecol\u00e2ndia! (minha tradu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A for\u00e7a auditiva da fic\u00e7\u00e3o de Joyce ganha pot\u00eancia m\u00e1xima em\u00a0<em>Finnegans wake<\/em>. Certa vez, ao ser indagado sobre a leitura herm\u00e9tica de seu \u00faltimo romance, o autor teria dito: \u201c\u00c9 tudo t\u00e3o simples. Se algu\u00e9m n\u00e3o entender uma passagem, tudo o que ele precisa \u00e9 ler em voz alta [\u2026] Ouvir lan\u00e7a uma diferente luz\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A respeito da relev\u00e2ncia do ouvido e da escuta na obra de Lispector, que cabe igualmente para pensar o\u00a0<em>Finnegans wake<\/em>, Librandi acrescenta que \u201c\u00e9 importante afirmar que o foco na escuta n\u00e3o significa que a vis\u00e3o seja colocada de lado\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro, Joyce d\u00e1 algumas pistas de que os olhos t\u00eam que ficar atentos, pois pelo menos a l\u00edngua inglesa, como na frase citada acima \u201cdeve ser vista\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda p\u00e1gina de\u00a0<em>Finnegans wake<\/em>, l\u00ea-se:\u00a0<em>What true feeling for their\u2019s hayair with what strawng voice of false jiccup! O here here how hoth sprowled met the duskt the father of fornicationists<\/em>\u00a0(Que sentimento sincero por teus carpelos como que espalhando a voz de falso jacoup! O is cute is cute como pode o deustreza encontrar o p\u00f3 do pai dos fornicacionistas) (minha tradu\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Destaco neste fragmento de tr\u00e1s para frente, nas palavras\u00a0<em>here here<\/em>: os olhos veem o adv\u00e9rbio de lugar\u00a0<em>here<\/em>, j\u00e1 o ouvido capta tamb\u00e9m o verbo\u00a0<em>hear<\/em>. Vis\u00e3o e audi\u00e7\u00e3o caminham lado a lado nesse e em outros excertos do livro. Em portugu\u00eas se v\u00ea \u201c\u00e9 bonito \u00e9 bonito\u201d, em ingl\u00eas,\u00a0<em>is cute is cute<\/em>, e se escuta \u201cescute escute\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na primeira parte da senten\u00e7a acima o destaque vai para\u00a0<em>what strawng voice of false jiccup!<\/em>\u00a0(como que espalhando a voz de falso jacoup!). O ouvido tamb\u00e9m confunde. Librand cita em seu livro uma frase de outro escritor brasileiro, Oswald de Andrade, que disse: \u201ca gente escreve o que ouve, nunca o que houve\u201d. E a gente ouve o que passa de boca em boca, a hist\u00f3ria \u00e9 uma grande fofoca, como bem destaca Joyce em\u00a0<em>Finnegans wake<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sylvia Beach dizia que \u201cJoyce comparava a hist\u00f3ria \u00e0 brincadeira do telefone sem fio, no qual algu\u00e9m sussurra alguma coisa no ouvido da pessoa ao lado, que repete n\u00e3o muito perfeitamente para a pr\u00f3xima pessoa, e assim por diante, quando a \u00faltima pessoa escuta, a frase surge completamente transformada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, a hist\u00f3ria n\u00e3o tem uma \u00fanica vers\u00e3o. Aquela narrada pelo povo tem tanto valor quanto a escrita por um pesquisador. Clarice Lispector, que vivia da oralidade, dizia, como lembra Librandi, \u201cvivo de ouvido. Vivo de ter ouvido falar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como Joyce em\u00a0<em>Finnegans Wake<\/em>, que disse haver\u00a0<em>one thousand and one stories all told, of the same<\/em>\u00a0(mil e uma hist\u00f3rias, todas contadas, da mesma), \u201cClarice escreveria em\u00a0<em>A hora da estrela<\/em>\u201d, como se l\u00ea no livro de Librandi, \u201cvai ser dif\u00edcil escrever esta hist\u00f3ria (\u2026) Os fatos s\u00e3o sonoros, mas entre os fatos h\u00e1 um sussurro. \u00c9 o sussurro que me impressiona\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viver de ouvido \u00e9 uma s\u00edntese de um pensamento liter\u00e1rio e pol\u00edtico: a fala do povo \u00e9 muito mais importante do que os fatos que a hist\u00f3ria teima em reunir, categorizar e chamar de verdadeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cabe lembrar ainda, como sublinha Librandi, que a escrita de ouvido pode assumir formas diferentes dependendo da obra, mas h\u00e1 um tra\u00e7o comum que as une: \u201cela implica a ideia de que esses autores escrevem nas\u00a0<em>orillas\u00a0<\/em>(ou seja, em cen\u00e1rios coloniais e p\u00f3s-coloniais) da tradi\u00e7\u00e3o europeia [\u2026]\u201d. No caso de Joyce, ele escreve nas\u00a0<em>orillas\u00a0<\/em>do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, n\u00e3o se pode esquecer, diz Librandi, que \u201cescrever de ouvido tamb\u00e9m pede leitores capazes de \u2018escutar\u2019 um texto escrito, a fim de captar precisamente aquilo que passa entre as linhas, como a forma, desenho de uma entona\u00e7\u00e3o, de um tom ou de um timbre\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00ea-se em\u00a0<em>Finnegans wake<\/em>: l<em>isten now. Are you listening? Yes, yes! Indeed I am!\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.finwake.com\/1024chapter8\/prevod201.htm#turn\"><em>Tarn<\/em><\/a><em>\u00a0your\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.finwake.com\/1024chapter8\/prevod201.htm#ore\"><em>ore<\/em><\/a><em>\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.finwake.com\/1024chapter8\/prevod201.htm#ouse\"><em>ouse<\/em><\/a><em>!\u00a0<\/em><a href=\"http:\/\/www.finwake.com\/1024chapter8\/prevod201.htm#lesson01\"><em>Essonne inne<\/em><\/a><em>!<\/em>\u201d (Agora ouve. T\u00e1 ouvindo? Sim, sim! \u00c9 claro quitou! S\u00ea toda ouvidos. Deixossom trar).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-86697 aligncenter\" src=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escrever-de-ouvido.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 709px) 85vw, (max-width: 909px) 67vw, (max-width: 984px) 61vw, (max-width: 1362px) 45vw, 600px\" srcset=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escrever-de-ouvido.jpg 800w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escrever-de-ouvido-300x113.jpg 300w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escrever-de-ouvido-768x288.jpg 768w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escrever-de-ouvido-600x225.jpg 600w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escrever-de-ouvido-165x62.jpg 165w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escrever-de-ouvido-216x81.jpg 216w, https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escrever-de-ouvido-360x135.jpg 360w\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Escrever de ouvido: Clarice Lispector e os romances da escuta, Mar\u00edlia Librandi, Relic\u00e1rio, 304 p\u00e1ginas, R$ 55.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dirce Waltrick do Amarante<\/strong>\u00a0\u00e9 autora, entre outros, de\u00a0<em>Finnegans wake (por um fio)\u00a0<\/em>e\u00a0<em>Para ler Finnegasn Wake de James Joyce<\/em>, ambos pela editora Iluminuras.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ep\u00edgrafe une o romance de forma\u00e7\u00e3o de Lispector ao de Joyce, e cria um la\u00e7o entre eles, que vai al\u00e9m dessas duas obras. 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