{"id":348372,"date":"2021-02-27T12:04:25","date_gmt":"2021-02-27T15:04:25","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=348372"},"modified":"2021-02-28T14:37:12","modified_gmt":"2021-02-28T17:37:12","slug":"a-terrivel-vida-dos-escravizados-que-eram-obrigados-a-carregar-fezes-dos-senhores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-terrivel-vida-dos-escravizados-que-eram-obrigados-a-carregar-fezes-dos-senhores\/","title":{"rendered":"A terr\u00edvel vida dos escravizados que eram obrigados a carregar fezes dos senhores\u00a0"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<p class=\"lead\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Conhecidos como escravos tigre, eles transportavam ton\u00e9is repletos de excrementos<\/strong><\/p>\n<div class=\"addthis_inline_share_toolbox\" style=\"text-align: justify;\" data-url=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/reportagem\/a-infernal-vida-dos-escravos-tigre-obrigados-carregar-fezes-dos-senhores.phtml?utm_source=pushnews&amp;utm_medium=pushnotification\" data-title=\"A terr\u00edvel vida dos escravizados que eram obrigados a carregar fezes dos senhores\" data-description=\"Conhecidos como escravos tigre, eles transportavam ton\u00e9is repletos de excrementos\">\n<div id=\"atstbx\" class=\"at-resp-share-element at-style-responsive addthis-smartlayers addthis-animated at4-show\" role=\"region\" aria-labelledby=\"at-8f8cf991-fe08-476b-adb4-aaaade577f3b\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"at-share-btn-elements\">Andr\u00e9 Nogueira<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure class=\"img-lead\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"img-fluid\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/_versions\/curiosidades\/escravo_tigre_capa_widelg.jpg\" alt=\"Charge sobre o apelido &quot;tigre&quot;, de Henrique Fleiuss\" \/><figcaption>Charge sobre o apelido &#8220;tigre&#8221;, de Henrique Fleiuss &#8211; Dom\u00ednio P\u00fablico<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"artigo_texto\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes do saneamento b\u00e1sico e dos programas de higiene do governo, os grandes centros do\u00a0<a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/almanaque\/historia-pornochanchada-cinema-brasileiro.phtml\">Brasil<\/a>, ainda a latrina, tinham como base do despejo de dejetos sanit\u00e1rios. Sem privadas, at\u00e9 os mais ricos defecavam e urinavam numa ins\u00f3lita casinha ou em penicos, que eram esvaziados diariamente e preenchiam nojentos ton\u00e9is ou valas presentes no lado de fora da casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todavia, por tr\u00e1s desse sistema pouco higi\u00eanico, uma figura intimamente associada ao escravismo urbano era obrigada a desempenhar o papel: era o escravo respons\u00e1vel pela recolha dos dejetos, apelidado de \u201ctigre\u201d. Por mais de trezentos anos, eles recolheram as fezes dos senhores e despejavam no mar ou num rio pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os\u00a0<a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/reportagem\/historia-jose-de-alencar-defendeu-a-escravidao-escravidao.phtml\">escravizados<\/a> tinham que carregar nas costas grandes ton\u00e9is repletos de coc\u00f4, sendo que muitos deles, geralmente, eram sujos ou n\u00e3o suportavam a quantidade depositada, fazendo com que o explorado fosse atingido pelo excremento. Como consequ\u00eancia,\u00a0 muitos deles eram marcados por gotas ou lastros de fezes na pele, resultando em listras (que podiam at\u00e9 marcar por conta da acidez). Assim nasceu o apelido &#8220;tigre&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, muitos dos escravos, agredidos com a sujeira e a am\u00f4nia dos dejetos, ficavam com marcas brancas permanentes na pele. Os \u201ctigrados\u201d receberam o nome de maneira pejorativa. Para se ter ideia, as pessoas se afastavam desses prisioneiros nas ruas, por conta do mau cheiro e da reputa\u00e7\u00e3o, causando forte impot\u00eancia e isolamento, e prov\u00e1veis abalos psicol\u00f3gicos.<\/p>\n<figure class=\"image\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/uploads\/554974a4d3fee1.23321427_ROcdVSm.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Reprodu\u00e7\u00e3o do despejo por Henrique Fleiuss \/ Cr\u00e9dito: Dom\u00ednio P\u00fablico<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, existem teorias onde \u00e9 afirmado que, apesar da indigna fun\u00e7\u00e3o, os escravos tigre ainda n\u00e3o estavam no final das hierarquias mentais criadas entre os negros em cativeiro. Na situa\u00e7\u00e3o de ref\u00e9m, os explorados muitas vezes buscavam ref\u00fagios em superioridades, mesmo que quase nulas, em rela\u00e7\u00e3o a outros. Os tigres estavam mal, mas para muitos deles, estavam melhor que os escravizados que catavam o coc\u00f4 e os colocavam nos ton\u00e9is.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso dava uma ideia de &#8220;maior dignidade&#8221;. Era melhor carregar do que lidar com o bruto e, pelo menos, junto \u00e0s fezes dos senhores, estavam seus pr\u00f3prios excrementos. Ele carregava o pr\u00f3prio dejeto, tamb\u00e9m, argumento que era usado para manter o m\u00ednimo de sanidade. Por\u00e9m, essa teoria est\u00e1 ligada a um circuito informal de hip\u00f3teses romantizadas sobre o per\u00edodo, sendo dif\u00edcil atestar em uma pesquisa documental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o historiador\u00a0<strong><a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/reportagem\/ah-indica-guerras-do-brasildoc.phtml\">Luiz Felipe de Alencastro<\/a><\/strong>, em fala \u00e0 BBC, esse \u201ceram escravos ou escravos de aluguel que, geralmente, eram destacados para esse tipo de trabalho\u201d. Como eram proibidas as fossas no Rio de Janeiro, capital imperial, muitas fam\u00edlias endinheiradas tinham ao menos um desses trabalhadores, que eram usados nesse oficio unicamente at\u00e9 a d\u00e9cada de 1860. Para o estudioso, por mais que seja a impress\u00e3o, dada a pobreza desses trabalhadores, o escravo\u00a0 \u201cn\u00e3o era uma m\u00e3o de obra barata\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inclusive, j\u00e1 nos estudos de\u00a0<strong>Gilberto Freyre<\/strong>, revelados em Casa Grande &amp; Senzala, se entendia que o trabalho dos escravos tigre era usado de forma extensiva numa rede de domina\u00e7\u00e3o que pleiteava todas as esferas da vida na sociedade senhorial, at\u00e9 a vida \u00edntima sanit\u00e1ria. Segundo o soci\u00f3logo, a extens\u00e3o do uso desse modo de trabalho retardou a cria\u00e7\u00e3o de redes mais higi\u00eanicas de sanitarismo nas cidades.<\/p>\n<figure class=\"image\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/uploads\/escravotigrww0vkckkcc.jpg\" alt=\"\" \/><\/figure>\n<p>Escravo tigre em pintura de Debret \/ Cr\u00e9dito: Dom\u00ednio P\u00fablico<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A presen\u00e7a desses escravizados come\u00e7ou a se diluir na capital a partir dos anos 1860: a cidade passou a receber grandes obras de saneamento por iniciativa de\u00a0<strong>Dom Pedro II<\/strong>, que trazia novas tecnologias de fora. Muitas dessas pr\u00e1ticas sanitaristas eram, inclusive, novas na Europa, pois cidades como Londres e Paris tamb\u00e9m eram bem pouco higi\u00eanicas at\u00e9 o fim do\u00a0<a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/galeria\/historia-intimidade-explicita-sexo-kama-sutra-do-seculo-19.phtml\">s\u00e9culo 19<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cidades, mesmo capitais, mais perif\u00e9ricas mantiveram esse of\u00edcio por um longo tempo. \u00c9 o caso de S\u00e3o Paulo e Recife, que tiveram tigres at\u00e9 os anos 1880. A partir do in\u00edcio das campanhas pelo saneamento b\u00e1sico, come\u00e7ou-se a atrelar o emprego dos escravos ao atraso, como se fossem eles e n\u00e3o a escravid\u00e3o (apesar de as pol\u00edticas abolicionistas estarem em auge na \u00e9poca) um obst\u00e1culo ao interesse p\u00fablico.<\/p>\n<div class=\"injected_arroba mb-2 mx-auto\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"banner-300x250-5-area\" data-mobile=\"300x250\" data-desktop=\"300x250\" data-google-query-id=\"COW92Luqiu8CFWc1uQYdrckPHw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/8804\/parceiros\/aventuras_na_historia_4__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"injected_arroba mb-2 mx-auto\">\n<div id=\"banner-300x250-6-area\" data-mobile=\"300x250\" data-desktop=\"300x250\" data-google-query-id=\"CJP767uqiu8CFWc1uQYdrckPHw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/8804\/parceiros\/aventuras_na_historia_5__container__\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conhecidos como escravos tigre, eles transportavam ton\u00e9is repletos de excrementos<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":348373,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-348372","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/escravos-carregendo-fezes.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/348372","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=348372"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/348372\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/348373"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=348372"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=348372"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=348372"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}