{"id":351160,"date":"2021-03-25T05:25:30","date_gmt":"2021-03-25T08:25:30","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=351160"},"modified":"2021-03-25T05:25:30","modified_gmt":"2021-03-25T08:25:30","slug":"fenicios-os-globalizadores-da-antiguidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/fenicios-os-globalizadores-da-antiguidade\/","title":{"rendered":"Fen\u00edcios: Os globalizadores da antiguidade\u00a0"},"content":{"rendered":"<h1><\/h1>\n<p class=\"lead\"><strong>A partir do L\u00edbano, os fen\u00edcios dominaram o com\u00e9rcio do Mediterr\u00e2neo por s\u00e9culos. Em Cartago, descobriram a guerra. Fundaram um imp\u00e9rio, mas acabaram erradicados da Hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p class=\"autor\">Reda\u00e7\u00e3o<\/p>\n<figure class=\"img-lead\"><img decoding=\"async\" class=\"img-fluid\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/_versions\/legacy\/2019\/01\/09\/capa_fenicios_globalizadores_widelg.jpg\" alt=\"Fen\u00edcios\" \/><figcaption>Fen\u00edcios &#8211; Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"artigo_texto\">\n<p>Por mais de mil anos, os fen\u00edcios foram o shopping center ambulante da Antiguidade. Se algo pudesse ser vendido, eles vendiam: vinho, azeite, m\u00f3veis, joias, ferramentas, armas, tecidos, peles, escravos e, por uma taxa especial, seus servi\u00e7os como os melhores marinheiros do mundo. Entre 1200 a 730 a.C., sua rede conectava povos da Inglaterra at\u00e9 a Gr\u00e9cia e com ela tamb\u00e9m viajou sua grande inven\u00e7\u00e3o: o alfabeto, que deu origem ao grego, latim, hebraico e \u00e1rabe.<\/p>\n<p>Os fen\u00edcios originais n\u00e3o eram muito de guerra \u2013 preferiam fundar col\u00f4nias com a permiss\u00e3o dos habitantes locais, sem avan\u00e7ar para o interior. Mas uma col\u00f4nia fen\u00edcia mudou tudo:\u00a0<a href=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/noticias\/historia-hoje\/historia-batalha-de-canas-roma-cartago.phtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cartago<\/a>\u00a0se tornou um verdadeiro imp\u00e9rio, e por pouco n\u00e3o p\u00f4s abaixo o futuro Imp\u00e9rio Romano. Como a criatura superou o criador e como ambos foram varridos da Hist\u00f3ria \u00e9 o que veremos a seguir<\/p>\n<p><strong>Fen\u00edcio? Que fen\u00edcio?<\/strong><\/p>\n<div class=\"injected_arroba mb-2 mx-auto\">\n<div id=\"banner-300x250-2-area\" data-mobile=\"300x250\" data-desktop=\"300x250\" data-google-query-id=\"CKaRocuBy-8CFcgDuQYdc4UKgw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/8804\/parceiros\/aventuras_na_historia_1__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure class=\"image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/uploads\/estatua-de-um-fenicio-1122743.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Estatua de um fen\u00edcio \/ Cr\u00e9dito:\u00a0Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<figure><figcaption><\/figcaption>Origin\u00e1rios do que \u00e9 atualmente o L\u00edbano, a pr\u00f3pria geografia empurrou os fen\u00edcios para o mar. A cadeia de montanhas que forma o monte L\u00edbano limita a habita\u00e7\u00e3o humana \u00e0 costa. Ao sul e ao norte, imp\u00e9rios bloqueavam o caminho. Partindo das cidadesestado de Tiro, Sidon e Biblos, as primeiras col\u00f4nias foram em ilhas pr\u00f3ximas, como Chipre e Malta.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, n\u00e3o existia isso de fen\u00edcio para os pr\u00f3prios fen\u00edcios. \u201cA Fen\u00edcia n\u00e3o existiu como entidade pol\u00edtica unificada at\u00e9 os romanos fazerem uma prov\u00edncia com esse nome, milhares de anos depois\u201d, afirma o historiador Richard Miles, da Universidade de Sidney, na Austr\u00e1lia.<\/p>\n<p>O nome vem do grego e era um apelido: a palavra phoinix quer dizer algo como \u201cos roxos\u201d, por causa de um dos seus principais produtos, os tecidos tingidos de roxo. \u201cEles provavelmente chamavam a si pr\u00f3prios de cananeus. Foram os gregos que os agruparam como fen\u00edcios\u201d, diz Miles.<\/p>\n<p>Cana\u00e3 designava mais que apenas as terras dos ditos fen\u00edcios, era toda a regi\u00e3o entre o sul da S\u00edria e a Palestina, habitada tamb\u00e9m por outros povos, como os hebreus e os filisteus \u2013 cuja hist\u00f3ria, de fato, se confunde com a deles.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 1200 a.C., n\u00e3o havia diferen\u00e7a entre a hist\u00f3ria das cidades do litoral e do interior. Ou seja, n\u00f3s temos uma civiliza\u00e7\u00e3o s\u00edrio-palestina, n\u00e3o fen\u00edcia. \u00c9 s\u00f3 com a independ\u00eancia das cidades-estado (que j\u00e1 existiam) que come\u00e7a a hist\u00f3ria fen\u00edcia propriamente dita\u201d, afirmou o historiador italiano Sabatino Moscati (1922-1997) em The Phoenicians (sem tradu\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>O que fez surgir o com\u00e9rcio fen\u00edcio foi o chamado colapso da Idade do Bronze, que ocorreu por volta de 1200 a 1100 a.C.. Por motivos n\u00e3o muito claros, grandes civiliza\u00e7\u00f5es como eg\u00edpcios, gregos mic\u00eanicos e hititas entraram em r\u00e1pida decad\u00eancia. O v\u00e1cuo de imp\u00e9rios permitiu \u00e0s cidadesestado uma independ\u00eancia in\u00e9dita, que propiciou o surgimento de sua rede comercial.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, os fen\u00edcios ofereciam os produtos de sua pr\u00f3pria regi\u00e3o para os vizinhos: madeira de cedro-do-l\u00edbano, o mesmo material do qual seus barcos eram feitos, e tecidos pintados com extrato dos caramujos do g\u00eanero Murex, de um p\u00farpura belo e intenso.<\/p>\n<p>Conforme novos povos entravam em sua rede comercial, os fen\u00edcios os apresentavam a produtos de outros povos que conheciam. Assim eles passaram a vender vinho grego aos eg\u00edpcios, e papiro eg\u00edpcio aos gregos \u2013 a palavra \u201cbyblos\u201d passou a significar \u201cpapiro\u201d em grego por que eram os comerciantes de Biblos que os supriam com o material. Com o tempo, biblos passou a querer dizer tamb\u00e9m o conte\u00fado do papiro, isto \u00e9, o livro \u2013 da\u00ed as palavras biblioteca e B\u00edblia.<\/p>\n<p>Dependendo de remos quando o vento n\u00e3o ajudava, os navios fen\u00edcios n\u00e3o tinham muita autonomia e faziam rotas pr\u00f3ximas \u00e0 costa, com paradas constantes. Assim, eles estabeleceram mais de 300 col\u00f4nias, normalmente meras vilas costeiras de menos de mil habitantes.<\/p>\n<p>Essas vilas n\u00e3o eram possess\u00f5es coloniais no sentido moderno \u2013 eram estabelecidas com o consentimento dos moradores da regi\u00e3o e n\u00e3o tinham zona rural, dependendo dos locais para suprir-lhes alimentos. Era mais um free shop que col\u00f4nia, num modelo que os portugueses repetiram 2 mil anos depois com suas feitorias asi\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A grande exce\u00e7\u00e3o ao modelo fen\u00edcio era Cartago, que tinha territ\u00f3rios no interior, e passou a ser o entreposto principal. Localizada na atual Tun\u00edsia, ficava no meio do caminho para as rotas que vinham da Espanha, e pr\u00f3xima da Sardenha e Sic\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>O pre\u00e7o da paz<\/strong><\/p>\n<figure class=\"image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/uploads\/tiro-1122746.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>O Arco do triunfo, em Tiro \/ Cr\u00e9dito:Wikimedia Commons<\/figcaption><\/figure>\n<figure><figcaption><\/figcaption>A independ\u00eancia e prosperidade vinham a um custo \u2013 em esp\u00e9cie. O m\u00e9todo fen\u00edcio de sobreviv\u00eancia era basicamente pagar pela paz. Sem um grande ex\u00e9rcito e sem qualquer alian\u00e7a dur\u00e1vel entre as cidades-estado, eles sobreviviam por causa de sua conveni\u00eancia para os imp\u00e9rios vizinhos. Com a imensa fortuna de sua rede de com\u00e9rcio, aplacavam a ira dos conquistadores com tributos. Assim eles sobreviveram ao novo reino do Egito (1550-1069 a.C.) e o reino de Israel (1030-930 a.C.), que os tornaram vassalos \u2013 protegidos mediante pagamento.<\/p>\n<p>A paz fen\u00edcia aguentou at\u00e9 o Imp\u00e9rio neo-ass\u00edrio (934-604 a.C.), que aceitou seus acordos por alguns s\u00e9culos. Na d\u00e9cada de 730 a.C., no entanto, o rei Tiglate-Pileser 3\u00ba invadiu e conquistou Tiro, ent\u00e3o a cidade fen\u00edcia mais pr\u00f3spera. Tiro n\u00e3o foi destru\u00edda, mas perdeu muito de sua autonomia. \u00c0 conquista dos ass\u00edrios, se seguiriam a dos persas sob Ciro 1\u00ba (539 a.C.) e a dos maced\u00f4nios de Alexandre Magno (332 a.C.), que arrasaram a cidade. Nada restaria da Fen\u00edcia original, exceto sua maior cria\u00e7\u00e3o: Cartago.<\/p>\n<p>Fundada em 814 a.C., Cartago come\u00e7ou a receber migrantes do Oriente M\u00e9dio conforme a situa\u00e7\u00e3o piorava, e tornou-se independente em 650 a.C. Em 308 a.C., virou rep\u00fablica. Cartago aprendeu uma li\u00e7\u00e3o com sua antiga metr\u00f3pole: dinheiro n\u00e3o podia comprar a paz indefinidamente.<\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio Cartaginense venceu uma s\u00e9rie de guerras contra os gregos, entre 480 e 275 a.C. A \u00faltima dessas guerras, chamada Guerra P\u00edrrica (280-275 a.C.), acabaria tendo um custo inesperado. Ela tornaria seus aliados, os romanos, em inimigos mortais.<\/p>\n<p><strong>Cartago deve ser deletada<\/strong><\/p>\n<figure class=\"image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/uploads\/cartago-1122745.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Cartago \/ Cr\u00e9dito:\u00a0ikimedia Commons<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os romanos sa\u00edram da guerra confiantes em sua capacidade militar, e menosprezando a dos cartaginenses, que tiveram v\u00e1rias derrotas. Sob o pretexto de uma alian\u00e7a com um grupo de mercen\u00e1rios, os romanos declararam guerra a Cartago em 264 a.C., iniciando a 1\u00aa Guerra P\u00fanica. Roma venceria, ficaria com a Sic\u00edlia, e cobraria tributos. Para pagar tais impostos, os cartaginenses expandiram seu dom\u00ednio na Espanha pela via militar, tomando cidades dos celtas locais.<\/p>\n<p>Um desses locais era Saguntum, cidade protegida por Roma. Assim come\u00e7ou a 2\u00aa Guerra P\u00fanica (218-201 a.C.). Sob o comando de An\u00edbal Barca, e com o apoio de aliados africanos, a guerra come\u00e7ou com um surpreendente ofensiva cartaginense em que os ex\u00e9rcitos cruzaram os Alpes com elefantes de guerra e impuseram v\u00e1rias derrotas aos romanos. Mas a guerra se prolongou demais, e terminou em outra derrota de Cartago, que perdeu a Espanha e se tornou um estado cliente de Roma.<\/p>\n<p>Os sentimentos de vingan\u00e7a pela quase derrota nunca foram esquecidos. A 3\u00aa Guerra P\u00fanica (149-146 a.C.) foi simplesmente o massacre de Cartago. A frase delenda est Cartago (Cartago deve ser destru\u00edda) vem dos discursos do senador Cato para convencer os romanos a deletar a cidade. E deletada ela foi. A popula\u00e7\u00e3o foi escravizada, a cidade, queimada, e a hist\u00f3ria dos fen\u00edcios, apagada.<\/p>\n<p>Quase tudo o que sabemos sobre eles vem dos gregos e romanos, porque seus textos em papiro n\u00e3o resistiram a tantas depreda\u00e7\u00f5es. Um fim tragicamente ir\u00f4nico para o povo que inventou o alfabeto.<\/p>\n<p><strong>Grandes ideias, grandes neg\u00f3cios<\/strong><\/p>\n<figure class=\"image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/aventurasnahistoria.uol.com.br\/media\/uploads\/barco-fenicio-1122737.jpg\" alt=\"\" \/><figcaption>Barco fen\u00edcio \/ Cr\u00e9dito:\u00a0Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<figure><figcaption><\/figcaption><\/figure>\n<p>Para se tornarem os donos do Mediterr\u00e2neo, os fen\u00edcios fizeram uso de diversas inova\u00e7\u00f5es, a maioria delas relacionada \u00e0 tecnologia naval. Os navios de guerra usados pelos romanos e gregos eram basicamente uma cria\u00e7\u00e3o fen\u00edcia. Foi deles a ideia de construir um navio a partir de um esqueleto posto numa doca seca, a partir da quilha central, outra inven\u00e7\u00e3o sua.<\/p>\n<p>Seus navios foram os primeiros a ter leme. Tamb\u00e9m foram eles que tiveram a ideia de distribuir os remadores em duas linhas, criando a birreme, que depois ganharia mais uma linha, tornando-se a trirreme. Esses eram navios de guerra, os remadores extras davam velocidade em manobras de abalroagem, bater em outro navio para afund\u00e1-lo, que se tornou a principal forma de guerra naval na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Os navios de transporte usavam principalmente velas. Mas a cria\u00e7\u00e3o fen\u00edcia mais duradoura \u00e9 o alfabeto, do qual deriva o nosso. Usar letras para passar sons, e n\u00e3o ideias, como nos hierogrifos, foi uma simplifica\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria.<\/figure>\n<\/figure>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A partir do L\u00edbano, os fen\u00edcios dominaram o com\u00e9rcio do Mediterr\u00e2neo por s\u00e9culos. Em Cartago, descobriram a guerra. 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