{"id":355467,"date":"2021-05-10T04:00:04","date_gmt":"2021-05-10T07:00:04","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=355467"},"modified":"2021-05-10T04:00:04","modified_gmt":"2021-05-10T07:00:04","slug":"55-anos-de-historia-do-brasil-em-300-cartas-a-correspondencia-do-economista-celso-furtado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/55-anos-de-historia-do-brasil-em-300-cartas-a-correspondencia-do-economista-celso-furtado\/","title":{"rendered":"55 anos de Hist\u00f3ria do Brasil em 300 cartas: a correspond\u00eancia do economista Celso Furtado"},"content":{"rendered":"<div class=\"bbc-1151pbn e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<h1 id=\"content\" class=\"bbc-1lsgtu3 e1yj3cbb0\" style=\"text-align: justify;\" tabindex=\"-1\"><\/h1>\n<\/div>\n<div class=\"e1j2237y6 bbc-q4ibpr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"bbc-1atl7vu e1c9i7u14\">\n<p>Andr\u00e9 Bernardo<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"e1j2237y7 bbc-q4ibpr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"bbc-1ka88fa e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"bbc-1qdcvv9 e6bmn90\">\n<div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-189y18v e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-1k5hvrj e1whu0\" data-e2e=\"image-placeholder\"><img decoding=\"async\" class=\"bbc-fat2bc e1enwo3v0\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/906A\/production\/_118407963_bbcbrasil_celsofurtado_divulgacaociadasletras.jpg\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/240\/cpsprodpb\/906A\/production\/_118407963_bbcbrasil_celsofurtado_divulgacaociadasletras.jpg 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/320\/cpsprodpb\/906A\/production\/_118407963_bbcbrasil_celsofurtado_divulgacaociadasletras.jpg 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/480\/cpsprodpb\/906A\/production\/_118407963_bbcbrasil_celsofurtado_divulgacaociadasletras.jpg 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/906A\/production\/_118407963_bbcbrasil_celsofurtado_divulgacaociadasletras.jpg 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/906A\/production\/_118407963_bbcbrasil_celsofurtado_divulgacaociadasletras.jpg 800w\" alt=\"Celso Furtado\" width=\"976\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div><figcaption class=\"bbc-1t9zlwf eede9f50\" dir=\"ltr\">Ministro do Planejamento do Governo Jo\u00e3o Goulart, Celso Furtado saiu do Brasil em maio de 1964. Viveu no ex\u00edlio por 21 anos, at\u00e9 1985. No exterior, morou nos EUA e na Fran\u00e7a, onde trabalhou como professor na Universidade de Sorbonne<\/p>\n<\/figcaption><div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-3edg7g e57qer20\" dir=\"ltr\"><\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\"><b>Entre fevereiro e abril de 1974, Celso Furtado recebeu duas cartas de Thiago de Mello. Na primeira delas, datada de 19 de fevereiro, o poeta amazonense, de seu ex\u00edlio em Buenos Aires, queixava-se da falta de documentos para ir e vir, lamentava a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil e pedia algum dinheiro, &#8220;pouco que seja&#8221;, para ajudar na compra de rem\u00e9dios. &#8220;A solidariedade j\u00e1 est\u00e1 ficando com gosto de favor&#8221;, admitiu ele, que se recuperava de uma cirurgia no cora\u00e7\u00e3o.<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Dois meses depois, o economista paraibano recebeu outra correspond\u00eancia, de 1\u00ba de abril, em sua casa em Paris. O remetente confirmava o recebimento do dinheiro, agradecia a &#8220;ajuda solid\u00e1ria&#8221; e dizia que, com alegria, tinha estendido seu &#8220;gesto sol\u00edcito&#8221; a algu\u00e9m mais necessitado que ele. &#8220;Me deste esta alegria: a de servir, com humildade&#8221;, escreveu Thiago de Mello que, durante o ex\u00edlio, morou em pa\u00edses, como Alemanha, Fran\u00e7a e Portugal.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">&#8220;Algu\u00e9m j\u00e1 disse, e eu concordo, que ex\u00edlio n\u00e3o \u00e9 para qualquer um. Recome\u00e7ar a vida num pa\u00eds distante, mudar de profiss\u00e3o ou aprender outra l\u00edngua, \u00e9 uma experi\u00eancia muito dura&#8221;, afirma a jornalista e tradutora Rosa Freire D&#8217;Aguiar, vi\u00fava de Celso e curadora de seu acervo. &#8220;Celso nunca foi de se expor. Pelo contr\u00e1rio. Era uma pessoa muito reservada. Mas, nas cartas, ele revela um pouco quem era&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">As cartas que Celso Furtado (1920-2004) recebeu de Thiago de Mello, hoje com 95 anos, s\u00e3o duas das mais de 300 que integram o rec\u00e9m-lan\u00e7ado<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">\u00a0Correspond\u00eancia Intelectual 1949-2004\u00a0<\/i>(Companhia das Letras), ainda em comemora\u00e7\u00e3o pelo centen\u00e1rio de nascimento de um dos mais respeitados economistas brasileiros.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 id=\"Acervo-de-15-mil-cartas\" class=\"bbc-l3e97o e14hemmw0\" tabindex=\"-1\">Acervo de 15 mil cartas<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Para selecionar as 300 cartas que fazem parte da antologia, a vi\u00fava de Celso Furtado precisou ler e reler o acervo epistolar do marido, composto por algo em torno de 15 mil correspond\u00eancias. Dessas, 10 mil foram escritas durante o regime militar, entre 1964 e 1985.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">&#8220;No ex\u00edlio, Celso n\u00e3o ficou propriamente amargo. O que \u00e9 raro. Muitos ficaram. Ele ficou atormentado. N\u00e3o tanto com a situa\u00e7\u00e3o dele, mas com a situa\u00e7\u00e3o do Brasil. Ele pensava diuturnamente no Brasil&#8221;, afirma Rosa que, al\u00e9m de selecionar as cartas e escrever a apresenta\u00e7\u00e3o e as notas do livro, ainda teve que &#8220;decifrar&#8221; as letras de alguns interlocutores.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Ao todo, o livro inclui cartas de 80 interlocutores, 50 brasileiros e 30 estrangeiros, como o fil\u00f3sofo brit\u00e2nico Bertrand Russell (1872-1970), o antrop\u00f3logo mineiro Darcy Ribeiro (1922-1997) e o pol\u00edtico cubano Fidel Castro (1926-2016), e abrange um per\u00edodo de 55 anos, que tem in\u00edcio em 28 de julho de 1949, com uma carta do economista argentino Ra\u00fal Prebisch (1901-1986), e chega ao fim em 20 de abril de 2004, do economista mexicano V\u00edctor Urquidi (1919-2004).<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">&#8220;Felizmente, nenhum remetente ou herdeiro se recusou a autorizar a publica\u00e7\u00e3o das cartas. No entanto, suprimi certos trechos. N\u00e3o cabia a mim publicar coisas pessoais&#8221;, explica.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">A princ\u00edpio, a ideia da jornalista e tradutora carioca era publicar apenas a correspond\u00eancia do ex\u00edlio. Mas, por sugest\u00e3o de Ot\u00e1vio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras, ampliou o escopo do livro e incluiu 5 mil cartas escritas antes e depois do golpe de 1964.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">&#8220;As cartas do ex\u00edlio s\u00e3o muito pungentes, dolorosas de ler. Exp\u00f5em os dramas vividos pelos exilados. Seus problemas eram incont\u00e1veis: de sa\u00fade, financeiros, familiares&#8230; As embaixadas, por sua vez, dificultavam ao m\u00e1ximo suas vidas: negavam vistos, n\u00e3o concediam passaportes, entre outras pequenas maldades&#8221;, relata.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 id=\"Terra-de-gigantes\" class=\"bbc-l3e97o e14hemmw0\" tabindex=\"-1\">Terra de gigantes<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">De Paris, Rosa conta, por telefone, que a ideia de publicar um livro com a correspond\u00eancia do marido surgiu em 2018, quando pesquisava as fotos, os documentos e outros registros in\u00e9ditos para o livro\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">Di\u00e1rios Intermitentes 1937-2002,<\/i>\u00a0lan\u00e7ado em 2019. Como professor da Universidade de Sorbonne, na Fran\u00e7a, Celso nunca teve secret\u00e1ria. Era ele que, organizado at\u00e9 o \u00faltimo fio de cabelo, guardava sua correspond\u00eancia em pastas de papel\u00e3o. Naquele tempo, contextualiza Rosa, escrevia-se carta para tudo. At\u00e9 para avisar os passageiros de um voo de uma eventual mudan\u00e7a de hor\u00e1rio.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">As cartas recebidas eram guardadas em pastas nas cores preta ou cinza e as enviadas, em pastas coloridas. Pelas estimativas de Rosa, Celso recebia uma m\u00e9dia de 400 cartas por ano e escrevia algo em torno de 100. Ex\u00edmio datil\u00f3grafo, ele batia as cartas em duas Olivettis Lettera 22 e 32 e, em seguida, guardava as c\u00f3pias, feitas com papel-carbono, em seu acervo pessoal.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-1ka88fa e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"bbc-1qdcvv9 e6bmn90\">\n<div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-189y18v e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-1k5hvrj e1whu0\" data-e2e=\"image-placeholder\">\n<div class=\"lazyload-wrapper \"><img decoding=\"async\" class=\"css-fat2bc e1enwo3v0\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/145BE\/production\/_118409338_bbcbrasil_rosafreired'aguiarecelsofurtado_divulgacao_ciadasletras.jpg\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/240\/cpsprodpb\/145BE\/production\/_118409338_bbcbrasil_rosafreired'aguiarecelsofurtado_divulgacao_ciadasletras.jpg 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/320\/cpsprodpb\/145BE\/production\/_118409338_bbcbrasil_rosafreired'aguiarecelsofurtado_divulgacao_ciadasletras.jpg 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/480\/cpsprodpb\/145BE\/production\/_118409338_bbcbrasil_rosafreired'aguiarecelsofurtado_divulgacao_ciadasletras.jpg 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/145BE\/production\/_118409338_bbcbrasil_rosafreired'aguiarecelsofurtado_divulgacao_ciadasletras.jpg 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/145BE\/production\/_118409338_bbcbrasil_rosafreired'aguiarecelsofurtado_divulgacao_ciadasletras.jpg 800w\" alt=\"Celso Furtado e Rosa Freire\" width=\"976\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div><figcaption class=\"bbc-1t9zlwf eede9f50\" dir=\"ltr\">Celso Furtado e Rosa Freire se conheceram em 1979 e foram casados por 25 anos. Se vivo estivesse, Celso Furtado estaria, acredita Rosa, &#8220;atormentado&#8221; com a situa\u00e7\u00e3o do Brasil<\/p>\n<\/figcaption><div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-3edg7g e57qer20\" dir=\"ltr\"><\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Ao vasculhar o arquivo do marido, Rosa se deparou com uma quantidade incalcul\u00e1vel de convites. Eram convites para debates, congressos e semin\u00e1rios, ao lado de pensadores como Jean Paul-Sartre (1905-1980), Theodor Adorno (1903-1969) e Herbert Marcuse (1898-1979). Um deles, de 1965, convidava Celso para participar de um debate nos EUA sobre Am\u00e9rica Latina ao lado de Dom H\u00e9lder C\u00e2mara (1909-1999) e Martin Luther King (1929-1968). Por falta de tempo, Celso recusava a maior parte deles: &#8220;R\u00e9ponse negative&#8221;, costumava escrever no rodap\u00e9 da carta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Outra quantidade incalcul\u00e1vel era composta por solicita\u00e7\u00f5es. Dia sim, outro tamb\u00e9m, Celso era solicitado a escrever artigos acad\u00eamicos para jornais e revistas. Os prazos variavam de &#8220;tr\u00eas meses&#8221; a &#8220;o quanto antes&#8221;. Se aceitasse todas as solicita\u00e7\u00f5es que recebia, n\u00e3o sobraria tempo para dar aulas ou corrigir provas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Outra categoria de carta, prossegue Rosa, era formada por pedidos inusitados. Havia desde um presidi\u00e1rio que, cumprindo pena em pris\u00e3o da B\u00e9lgica, solicitou um exemplar de L&#8217;Am\u00e9rique Latine porque estava cursando Ci\u00eancias Econ\u00f4micas, at\u00e9 conterr\u00e2neo que, na maior cara de pau, pediu a Celso tr\u00eas bolsas de estudo: uma para ele, outra para a namorada e uma terceira para um ex-aluno.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">&#8220;Muitas cartas, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, pediam aut\u00f3grafos. Numa delas, uma garotinha de uns dez, 11 anos, dizia que viu o Celso em um programa de TV e sua m\u00e3e o achou muito bonito. Como colecionava aut\u00f3grafos, pediu a ele que escrevesse uma lembrancinha qualquer&#8221;, diverte-se Rosa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 id=\"Ecos-da-ditadura\" class=\"bbc-l3e97o e14hemmw0\" tabindex=\"-1\">Ecos da ditadura<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Curiosidades \u00e0 parte, um dos cap\u00edtulos do livro, batizado de\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">Ecos da ditadura,<\/i>\u00a0\u00e9 dedicado a algumas das muitas cartas do ex\u00edlio. Numa delas, de 14 de outubro de 1964, o fil\u00f3sofo \u00c1lvaro Vieira Pinto (1901-1987), de seu ex\u00edlio em Belgrado, na antiga Iugosl\u00e1via, pedia a Celso que o ajudasse a ser transferido para o Chile. &#8220;A carta do \u00c1lvaro Vieira Pinto \u00e9 terr\u00edvel. Voc\u00ea come\u00e7a a imaginar a situa\u00e7\u00e3o de um professor de filosofia confinado em um hotel de Belgrado. O que ele vai fazer da vida? Aprender servo-croata para dar aula em uma universidade local?&#8221;, questiona Rosa.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Noutra carta, de 4 de janeiro de 1966, o advogado paraibano Gl\u00e1ucio Veiga (1923-2010), de sua casa no Recife, relata algumas de suas pris\u00f5es e a depreda\u00e7\u00e3o de sua biblioteca. As obras completas de Marx, L\u00eanin e Luk\u00e1cs, descreve, haviam sido atiradas ao ch\u00e3o e rasgadas. &#8220;A pol\u00edcia pernambucana fez imensa pira com os livros e, ao jeito do nazismo, queimou-os publicamente&#8221;, escreve.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Mais adiante, o jornalista e cr\u00edtico liter\u00e1rio Otto Maria Carpeaux (1900-1978) criticava o boicote que estava sofrendo por parte de alguns jornais, que se recusavam a publicar seus artigos. &#8220;O sil\u00eancio, que me foi imposto, produz hemorragias internas intelectuais. Tanta coisa para engolir sem falar!&#8221;, escreveu, de sua casa no Rio, em 3 de novembro de 1967.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">&#8220;O que mais me interessou no acervo do Celso foram as cartas de amigos intelectuais, algumas de at\u00e9 quatro p\u00e1ginas, contando o que estava acontecendo no Brasil p\u00f3s-golpe de 1964&#8221;, descreve Rosa. &#8220;Algumas cartas mais parecem ensaios sociol\u00f3gicos&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-1ka88fa e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"bbc-1qdcvv9 e6bmn90\">\n<div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-189y18v e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-1k5hvrj e1whu0\" data-e2e=\"image-placeholder\">\n<div class=\"lazyload-wrapper \"><img decoding=\"async\" class=\"css-fat2bc e1enwo3v0\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/D476\/production\/_118409345_bbcbrasil_rosafreired'aguiar_divulgacaociadasletras-1.jpg\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/240\/cpsprodpb\/D476\/production\/_118409345_bbcbrasil_rosafreired'aguiar_divulgacaociadasletras-1.jpg 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/320\/cpsprodpb\/D476\/production\/_118409345_bbcbrasil_rosafreired'aguiar_divulgacaociadasletras-1.jpg 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/480\/cpsprodpb\/D476\/production\/_118409345_bbcbrasil_rosafreired'aguiar_divulgacaociadasletras-1.jpg 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/D476\/production\/_118409345_bbcbrasil_rosafreired'aguiar_divulgacaociadasletras-1.jpg 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/D476\/production\/_118409345_bbcbrasil_rosafreired'aguiar_divulgacaociadasletras-1.jpg 800w\" alt=\"Rosa Freire\" width=\"976\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div><figcaption class=\"bbc-1t9zlwf eede9f50\" dir=\"ltr\">O acervo de Celso Furtado \u00e9 composto de 15 mil cartas. Dessas, 300 foram selecionadas por Rosa Freire (acima) para entrar no livro<\/p>\n<\/figcaption><div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-3edg7g e57qer20\" dir=\"ltr\"><\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 id=\"Tempos-sombrios\" class=\"bbc-l3e97o e14hemmw0\" tabindex=\"-1\">Tempos sombrios<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Celso Monteiro Furtado partiu para o ex\u00edlio em maio de 1964. Aos 43 anos, o paraibano de Pombal, munic\u00edpio a 371 quil\u00f4metros de Jo\u00e3o Pessoa, ocupava o cargo de ministro de Planejamento do Presidente Jo\u00e3o Goulart. Seu nome era o 26\u00ba de uma lista encabe\u00e7ada por Lu\u00eds Carlos Prestes (1898-1990), Jo\u00e3o Goulart (1919-1976) e Leonel Brizola (1922-2004).<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Logo que saiu do pa\u00eds, foi convidado para lecionar em tr\u00eas das mais prestigiadas universidades dos EUA: Harvard, Columbia e Yale. Optou pela terceira, onde ficou de setembro de 1964 a junho de 1965.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Em agosto de 1965, seguiu para a Fran\u00e7a. L\u00e1, assumiu o cargo de professor da Universidade de Sorbonne. Muitos de seus ex-alunos na institui\u00e7\u00e3o se tornaram ministros, banqueiros e at\u00e9 presidentes, como Alan Garc\u00eda (1949-2019), do Peru, e Abolhassan Bani-Sadr, hoje com 88 anos, do Ir\u00e3. Seu prest\u00edgio pode ser mensurado pela quantidade de convites que recebia para ser patrono ou paraninfo em cerim\u00f4nias de cola\u00e7\u00e3o de grau: s\u00f3 em 1968, foram 15.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Em 1979, em uma feijoada na casa do jornalista mineiro Jos\u00e9 Maria Rabelo, o editor do jornal Bin\u00f4mio (1952-1964), Celso conheceu Rosa Freire. Viveram juntos por 25 anos. Dezessete anos depois de sua morte, \u00e9 indagada sobre o que o marido, se vivo estivesse, estaria achando do Brasil de 2021? Embora n\u00e3o seja m\u00e9dium, como costuma brincar, acredita que Celso estaria &#8220;atormentado&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">&#8220;\u00c9 incr\u00edvel como os problemas se acumulam no Brasil. Alguns n\u00e3o foram resolvidos e, para piorar, surgiram outros. Todo dia, ali\u00e1s, aparece problema novo! Ele ficaria aflito com essa situa\u00e7\u00e3o. Alguns problemas, como educa\u00e7\u00e3o gratuita e de qualidade, v\u00e3o ficando para tr\u00e1s. At\u00e9 quando?&#8221;, indaga.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Das centenas de cartas que fazem parte de\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">Correspond\u00eancia Intelectual,<\/i>\u00a0uma das favoritas de Rosa \u00e9 a que Celso trocou com o jornalista e escritor Ant\u00f4nio Callado (1917-1997). L\u00e1 pelas tantas, os dois come\u00e7am a filosofar sobre a passagem dos anos. &#8220;A verdadeira velhice \u00e9 feita de solid\u00e3o&#8221;, afirma Celso, de Paris, em 6 de junho de 1995. &#8220;\u00c9 a aus\u00eancia dos amigos que foram. Se nos apegamos tanto aos livros, \u00e9 porque sabemos que deles n\u00e3o seremos privados em vida&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Quatro dias depois, veio a resposta do autor de\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">Quarup<\/i>\u00a0(1967), do Rio: &#8220;Quando o motor do barco come\u00e7a a ratear, voltamos a usar velas para navegar. E, se levamos muito mais tempo para chegar a qualquer lugar, em compensa\u00e7\u00e3o vemos muito melhor \u00e1guas e peixes ao redor, e lua no c\u00e9u, quando n\u00e3o faz frio e o reumatismo nos permite ficar no conv\u00e9s&#8230;&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-1ka88fa e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"bbc-1qdcvv9 e6bmn90\">\n<div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-189y18v e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-1k5hvrj e1whu0\" data-e2e=\"image-placeholder\">\n<div class=\"lazyload-wrapper \"><img decoding=\"async\" class=\"css-fat2bc e1enwo3v0\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/640\/cpsprodpb\/1617A\/production\/_118409409_gettyimages-1174211448.jpg\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/240\/cpsprodpb\/1617A\/production\/_118409409_gettyimages-1174211448.jpg 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/320\/cpsprodpb\/1617A\/production\/_118409409_gettyimages-1174211448.jpg 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/480\/cpsprodpb\/1617A\/production\/_118409409_gettyimages-1174211448.jpg 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/1617A\/production\/_118409409_gettyimages-1174211448.jpg 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/1617A\/production\/_118409409_gettyimages-1174211448.jpg 800w\" alt=\"Livro original de Proust, , &#96;\u00c0 Sombra das Mo\u00e7as em Flor&#96;\" width=\"976\" \/><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div><figcaption class=\"bbc-1t9zlwf eede9f50\" dir=\"ltr\">Rosa Freire est\u00e1 no momento dedicada \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de obras de Marcel Proust<\/p>\n<\/figcaption><div class=\"bbc-172p16q e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"bbc-3edg7g e57qer20\" dir=\"ltr\"><\/div>\n<\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 id=\"Tradutora-de-almas\" class=\"bbc-l3e97o e14hemmw0\" tabindex=\"-1\">Tradutora de almas<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Terminadas as comemora\u00e7\u00f5es pelo anivers\u00e1rio de 100 anos de Celso Furtado, Rosa Freire volta as suas aten\u00e7\u00f5es para outro centen\u00e1rio: o de morte do escritor franc\u00eas Marcel Proust (1871-1922). A convite do jornalista M\u00e1rio S\u00e9rgio Conti, ela est\u00e1 traduzindo sua obra-prima,\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">Em Busca do Tempo Perdido<\/i>\u00a0(1913-1927). Conti ficou com o primeiro volume,<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">\u00a0No Caminho de Swann<\/i>\u00a0(1913); Rosa com o segundo,\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">\u00c0 Sombra das Mo\u00e7as em Flor<\/i>\u00a0(1919), e assim, sucessivamente, at\u00e9 o s\u00e9timo volume. &#8220;Quem traduz palavras \u00e9 o Google Translator. N\u00f3s traduzimos almas e emo\u00e7\u00f5es&#8221;, teoriza.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Neste ano, Rosa Freire D&#8217;Aguiar completa tr\u00eas d\u00e9cadas de tradu\u00e7\u00e3o. Nesse per\u00edodo, transp\u00f4s para o portugu\u00eas mais de 140 t\u00edtulos de pesos-pesados da literatura mundial, como Michel de Montaigne (1533-1592), Honor\u00e9 de Balzac (1799-1850) e Claude L\u00e9vi-Strauss (1908-2009). Traduzir\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">Em Busca do Tempo Perdido<\/i>, admite, \u00e9 um trabalho herc\u00faleo que exige muita releitura. Mas, em termos de vocabul\u00e1rio, est\u00e1 longe de ser o mais dif\u00edcil.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">&#8220;Em mat\u00e9ria de g\u00edrias, trocadilhos e neologismos, o mais dif\u00edcil foi Louis-Ferdinand C\u00e9line (1894-1961). Ele tem um estilo agressivo de escrever. Baba de \u00f3dio&#8221;, explica a tradutora que, entre outros pr\u00eamios, faturou o Jabuti de 2009 pela tradu\u00e7\u00e3o de\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">A Eleg\u00e2ncia do Ouri\u00e7o<\/i>\u00a0(2008), de Muriel Barbery.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Mas, antes de ganhar a vida como tradutora, Rosa trabalhou como correspondente das revistas Manchete e Isto\u00c9 em Paris. Ao longo da carreira, entrevistou nomes como o escritor belga Georges Simenon (1903-1989), o pintor espanhol Salvador Dal\u00ed (1904-1989) e o bailarino russo Rudolf Nureyev (1938-1993). &#8220;\u00c0s vezes, sinto saudades, sim. Volta e meio, vejo algu\u00e9m interessante e penso: &#8216;Hummm, se ainda trabalhasse em jornal, entrevistaria essa pessoa&#8217;. Adoraria entrevistar quem j\u00e1 morreu. Balzac, por exemplo. Tomar um caf\u00e9 com ele. Parecia ser um sujeito boa-pra\u00e7a&#8221;, diverte-se.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\">Uma de suas entrevistas favoritas, revela, foi com o escritor ga\u00facho \u00c9rico Ver\u00edssimo (1905-1975). Na ocasi\u00e3o, passou uma semana no Rio Grande do Sul, entre as cidades de Porto Alegre e Cruz Alta. Para entrevistar o autor de\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">Olhai os L\u00edrios do Campo\u00a0<\/i>(1938),\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">O Tempo e o Vento<\/i>\u00a0(1949-1962) e\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 ewc4zcb0\">Incidente em Antares\u00a0<\/i>(1971), entre outros cl\u00e1ssicos da literatura brasileira, elaborou um question\u00e1rio de duas laudas. No dia e hor\u00e1rio combinados, chegou \u00e0 casa do escritor. Ao ligar o gravador, ele protestou: &#8220;N\u00e3o, gravador n\u00e3o!&#8221;. E continuou: &#8220;Voc\u00ea pode vir aqui, quantas vezes quiser, depois do jantar. Mas, gravador, n\u00e3o!&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr e57qer20\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-bm53ic e1cc2ql70\" dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;A primeira coisa em que pensei foi: &#8216;Me ferrei!&#8217;. Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era um perfil, era (uma entrevista) pingue-pongue. Quando chegava no hotel, com o bloco de anota\u00e7\u00f5es em m\u00e3os, e o fot\u00f3grafo come\u00e7ava a falar, eu o interrompia: &#8216;Fica quieto! Se n\u00e3o, vou esquecer tudo o que o \u00c9rico falou'&#8221;, relata, aos risos.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma de suas entrevistas favoritas, revela, foi com o escritor ga\u00facho \u00c9rico Ver\u00edssimo (1905-1975). Na ocasi\u00e3o, passou uma semana no Rio Grande do Sul, entre as cidades de Porto Alegre e Cruz Alta. 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