{"id":358987,"date":"2021-06-13T10:29:02","date_gmt":"2021-06-13T13:29:02","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=358987"},"modified":"2021-06-13T10:29:02","modified_gmt":"2021-06-13T13:29:02","slug":"patentes-de-vacinas-licoes-tiradas-das-experiencias-passadas-na-aids-e-na-gripe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/patentes-de-vacinas-licoes-tiradas-das-experiencias-passadas-na-aids-e-na-gripe\/","title":{"rendered":"Patentes de vacinas: li\u00e7\u00f5es tiradas das experi\u00eancias passadas na aids e na gripe"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-sm-12 ig-container_headerText\">\n<h1 id=\"noticia-titulo-h1\" class=\"noticia-titulo-h1-ig_V04\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 id=\"noticia-olho\" style=\"text-align: justify;\">Cientistas e profissionais da sa\u00fade concordam que uma eventual libera\u00e7\u00e3o global dos imunizantes seria uma conquista hist\u00f3rica, mas n\u00e3o resolveria imediatamente a escassez de doses para controlar a pandemia no planeta inteiro.<\/h2>\n<\/div>\n<div id=\"noticia-other\" class=\"noticia-other-ig_V04\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Por\u00a0<span id=\"authors-box\"><strong>BBC News Brasil<\/strong>\u00a0<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"contentNoticia\">\n<div class=\"main-content\">\n<div class=\"row\">\n<section class=\"noticia col-sm-12 plf-0\">\n<div id=\"noticia\">\n<div class=\"Noticia_Foto\" style=\"text-align: justify;\">\n<figure class=\"foto-legenda \">\n<div class=\"foto-legenda-img\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Patentes de vacinas: que li\u00e7\u00f5es tiramos das experi\u00eancias passadas na aids e na gripe\" src=\"https:\/\/i0.statig.com.br\/bancodeimagens\/f3\/ol\/fx\/f3olfxcgyx5kiued7zkk5f0c1.jpg\" alt=\"Patentes de vacinas: que li\u00e7\u00f5es tiramos das experi\u00eancias passadas na aids e na gripe\" width=\"652\" height=\"408\" \/><\/div><figcaption class=\"foto-legenda-citacao \"><cite>Andr\u00e9 Biernath &#8211; Da BBC News Brasil em S\u00e3o Paulo<\/cite><\/p>\n<div class=\"foto-legenda-citacao-text\">Patentes de vacinas: que li\u00e7\u00f5es tiramos das experi\u00eancias passadas na aids e na gripe<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a quebra de patentes das vacinas contra a covid-19 for realmente aprovada, isso representar\u00e1 um feito hist\u00f3rico e poder\u00e1 diminuir a desigualdade global de acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade no futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas uma medida do tipo certamente n\u00e3o resolver\u00e1 nosso problema de falta de doses no curto prazo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 a principal constata\u00e7\u00e3o feita por cinco especialistas em imuniza\u00e7\u00e3o ouvidos pela BBC News Brasil durante as \u00faltimas semanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A an\u00e1lise deles acontece ap\u00f3s alguns eventos importantes, como a mudan\u00e7a de posicionamento dos Estados Unidos sobre a quest\u00e3o: no dia 5 de maio, o presidente americano Joe Biden anunciou que seu governo apoiaria a quebra de patentes dos imunizantes nos debates que ocorrem na Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio (OMC).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns dias depois, em 17\/05, foi a vez da China tamb\u00e9m se mostrar favor\u00e1vel \u00e0 demanda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A discuss\u00e3o sobre o tema come\u00e7ou ainda no final de 2020, quando \u00cdndia e \u00c1frica do Sul defenderam essa ideia na OMC, entidade que regula o com\u00e9rcio internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 \u00e9poca, a proposta encontrou forte resist\u00eancia dos pa\u00edses-membros, que preferiram proteger a propriedade intelectual de farmac\u00eauticas e dos institutos de pesquisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a evolu\u00e7\u00e3o das campanhas de vacina\u00e7\u00e3o em alguns pa\u00edses confirmou um conceito importante: a pandemia s\u00f3 ir\u00e1 acabar de verdade quando o mundo inteiro estiver protegido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outras palavras, enquanto o coronav\u00edrus circular livremente em algum lugar do planeta, a amea\u00e7a continua a ser real para todos, pois o surgimento de novas variantes mais transmiss\u00edveis e com capacidade de &#8220;driblar&#8221; a resposta imune coloca em xeque todos os esfor\u00e7os feitos at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas da\u00ed vem um problema importante: os laborat\u00f3rios que fabricam as vacinas j\u00e1 testadas e aprovadas contra a covid-19 n\u00e3o possuem capacidade de produzir bilh\u00f5es e bilh\u00f5es de doses de uma hora para outra. N\u00e3o h\u00e1 estrutura, material ou equipe que sejam suficientes para suprir essa necessidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para piorar, os \u00faltimos meses escancararam que a distribui\u00e7\u00e3o global de vacinas \u00e9 absolutamente desigual: at\u00e9 abril, os pa\u00edses ricos j\u00e1 haviam vacinado uma a cada quatro pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas na\u00e7\u00f5es mais pobres, apenas um a cada 500 indiv\u00edduos havia recebido as doses contra a covid-19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O diretor-geral da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, chegou a classificar essa situa\u00e7\u00e3o de &#8220;chocante&#8221; e &#8220;grotesca&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00faltima quarta-feira (09\/06), os pa\u00edses-membros da OMC aceitaram iniciar formalmente as negocia\u00e7\u00f5es para aumentar o suprimento global de vacinas contra a covid-19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E h\u00e1 duas propostas principais na mesa: a primeira, defendida por \u00cdndia, \u00c1frica do Sul e outras na\u00e7\u00f5es em desenvolvimento, pede a suspens\u00e3o pelos pr\u00f3ximos tr\u00eas anos das patentes dos imunizantes que barram o coronav\u00edrus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda, encampada por Uni\u00e3o Europeia, Su\u00ed\u00e7a e Reino Unido, entende ser poss\u00edvel aumentar a quantidade de doses dispon\u00edveis por meio de acordos de licenciamento e transfer\u00eancia de tecnologia com outros produtores capacitados, que possuem f\u00e1bricas espalhadas pelo mundo.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">&#8216;Epis\u00f3dio hist\u00f3rico&#8217;<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independentemente de qual caminho seja acatado pela OMC, o simples fato de existir essa discuss\u00e3o j\u00e1 \u00e9 algo a ser destacado, avaliam os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico sanitarista Paulo Buss, professor em\u00e9rito da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz), destaca o impacto trazido pela mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00f3s estamos vivendo um epis\u00f3dio hist\u00f3rico. Quando as patentes adquiriram uma dimens\u00e3o central no com\u00e9rcio internacional, os Estados Unidos sempre foram o pa\u00eds que mais defendia a preserva\u00e7\u00e3o dessa propriedade&#8221;, avalia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O apoio americano \u00e9 uma fissura importante nessa coura\u00e7a r\u00edgida que protege as patentes e isso vai ter impacto nas negocia\u00e7\u00f5es internacionais a partir de agora&#8221;, completa o professor, que escreveu dois livros sobre diplomacia da sa\u00fade e \u00e9 membro titular da Academia Brasileira de Medicina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Buss sente falta de uma participa\u00e7\u00e3o mais ativa do Brasil nessas discuss\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Isso \u00e9 uma decep\u00e7\u00e3o para n\u00f3s. A hist\u00f3ria do nosso pa\u00eds sempre esteve ligada \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o internacional, \u00e0 busca constante por melhorar o acesso a vacinas, medicamentos e ferramentas de diagn\u00f3stico&#8221;, lamenta. &#8220;O Brasil est\u00e1 na contram\u00e3o de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.&#8221;<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">&#8216;Claras em neve&#8217; da imunologia<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar do simbolismo dos debates, \u00e9 preciso ter em mente que a quebra de patentes n\u00e3o soluciona a quest\u00e3o mais urgente: a falta imediata de doses para proteger bilh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo num cen\u00e1rio em que a propriedade intelectual fosse completamente neutralizada, nenhum lugar do mundo teria capacidade para iniciar a fabrica\u00e7\u00e3o de novos imunizantes de uma hora para outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E isso \u00e9 ainda mais complicado quando pensamos em produtos modernos, que utilizam tecnologias desenvolvidas nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Algumas das vacinas dispon\u00edveis atualmente, caso daquelas de mRNA [como a de Pfizer\/BioNTech] e as de vetor viral n\u00e3o replicante [como a de AstraZeneca\/Universidade de Oxford], s\u00e3o dif\u00edceis de fazer. S\u00e3o poucos os lugares que teriam capacidade de estruturar uma planta produtiva dessas rapidamente&#8221;, conta o m\u00e9dico sanitarista Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o, que foi ministro da Sa\u00fade entre 2007 e 2010.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender a dificuldade em fabricar doses desses compostos mais modernos, a epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, organiza\u00e7\u00e3o sediada nos Estados Unidos que trabalha para aumentar o acesso global aos imunizantes, faz uma compara\u00e7\u00e3o com a culin\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo a linha de racioc\u00ednio dela, quebrar as patentes para ter acesso \u00e0s &#8220;receitas&#8221; das vacinas de mRNA sem suporte algum para a fabrica\u00e7\u00e3o \u00e9 compar\u00e1vel a &#8220;pedir para uma pessoa sem experi\u00eancia na cozinha fazer um prato que exige bater claras em neve e uma s\u00e9rie de outras t\u00e9cnicas mais avan\u00e7adas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, mesmo se forem produzidas, essas vacinas &#8220;gen\u00e9ricas&#8221; ainda precisariam passar por todas aquelas etapas de pesquisa e aprova\u00e7\u00e3o pelas ag\u00eancias regulat\u00f3rias, o que certamente acrescentaria alguns meses de espera (e de muito trabalho).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A especialista entende que duas a\u00e7\u00f5es imediatas poderiam aumentar a disponibilidade de doses nos pr\u00f3ximos meses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Para responder \u00e0 urg\u00eancia mundial, os pa\u00edses que t\u00eam unidades de vacinas a mais precisam compartilhar esse excedente com mecanismos como o Covax Facility, para que elas sejam distribu\u00eddas&#8221;, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A segunda estrat\u00e9gia \u00e9 realizar acordos de produ\u00e7\u00e3o para que outros centros e laborat\u00f3rios possam fabricar mais unidades das vacinas j\u00e1 testadas e aprovadas&#8221;, pontua Garrett.<\/p>\n<figure style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c.files.bbci.co.uk\/1429B\/production\/_117578528_denise.jpg\" alt=\"Denise Garrett\" \/><\/p>\n<footer>CRISTY PARRY\/ARQUIVO PESSOAL<\/footer><figcaption>Para resolver a falta de doses no curto prazo, Denise Garrett sugere a doa\u00e7\u00e3o das doses extras compradas por pa\u00edses ricos e a transfer\u00eancia de tecnologia para ampliar a fabrica\u00e7\u00e3o dos imunizantes<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse modelo, ali\u00e1s, j\u00e1 acontece na pr\u00e1tica: a AZD1222, de AstraZeneca e Universidade de Oxford, por exemplo, foi licenciada para ser produzida pelo Serum Institute, da \u00cdndia, e pelo Instituto BioManguinhos da Fiocruz, no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia, ent\u00e3o, seria expandir esse modelo de transfer\u00eancia de tecnologia \u2014 assim, as farmac\u00eauticas poderiam ensinar todo o passo a passo, permitindo que parceiros certificados aprendam a fabricar as vacinas nos seus m\u00ednimos detalhes.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Uma parceria na pr\u00e1tica<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O imunologista Jorge Kalil Filho, professor titular da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), teve uma oportunidade \u00fanica: acompanhar todo o processo de transfer\u00eancia de tecnologia de um imunizante para o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;No final dos anos 1990, eu era assessor do ent\u00e3o ministro da Sa\u00fade, o Dr. Adib Jatene. \u00c0 \u00e9poca, comecei as conversas para convencer os diretores da Pasteur, farmac\u00eautica detentora da patente da vacina contra a gripe&#8221;, lembra o m\u00e9dico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Negocia\u00e7\u00f5es conclu\u00eddas e contratos assinados, o Instituto Butantan ficou respons\u00e1vel por montar a f\u00e1brica e receber os materiais necess\u00e1rios para dar in\u00edcio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso tudo aconteceu em etapas e demorou um tempo para toda a fabrica\u00e7\u00e3o acontecer sem percal\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 preciso ajustar os sistemas de controle de qualidade, de envase, de distribui\u00e7\u00e3o\u2026&#8221;, lista Kalil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2012, o imunologista j\u00e1 era diretor do Instituto Butantan, cargo que ocupou at\u00e9 2017, e viu os primeiros lotes 100% brasileiros da vacina contra a gripe ficarem prontos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Come\u00e7amos com 20 milh\u00f5es de doses, depois subimos para 60 milh\u00f5es e h\u00e1 proje\u00e7\u00e3o para 100 milh\u00f5es nos pr\u00f3ximos anos&#8221;, calcula.<\/p>\n<figure style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c.files.bbci.co.uk\/B482\/production\/_111301264_whatsappimage2020-03-16at17.46.13.jpg\" alt=\"M\u00e9dico Jorge Kalil\" \/><\/p>\n<footer>Arquivo pessoal<\/footer><figcaption>No Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e no Instituto Butantan, Jorge Kalil Filho iniciou e finalizou o processo de transfer\u00eancia de tecnologia da vacina contra a gripe no Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atualmente, o Instituto Butantan tem capacidade para entregar 80 milh\u00f5es de unidades desse imunizante ao Minist\u00e9rio da Sa\u00fade a cada nova temporada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A campanha de vacina\u00e7\u00e3o anual contra a gripe, portanto, n\u00e3o depende mais da importa\u00e7\u00e3o de insumos ou outros materiais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa experi\u00eancia recente traz um aprendizado importante: a transfer\u00eancia de tecnologia \u00e9 mais complicada do que se imagina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 claro que, durante uma pandemia, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel aguardar 12 anos para que os processos estejam dentro dos conformes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, mesmo com o empenho de todos os envolvidos, completar as etapas necess\u00e1rias leva alguns meses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E um exemplo disso \u00e9 a pr\u00f3pria AZD1222, licenciada para a Fiocruz: o acordo de transfer\u00eancia de tecnologia foi anunciado em agosto de 2020, mas a assinatura do contrato e a remessa do material biol\u00f3gico necess\u00e1rio para dar in\u00edcio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o aconteceram agora em junho de 2021, cerca de dez meses depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante esse per\u00edodo, os t\u00e9cnicos da Fiocruz correram para montar as instala\u00e7\u00f5es, treinar os funcion\u00e1rios e garantir todas as certifica\u00e7\u00f5es expedidas pelas ag\u00eancias regulat\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Isso exigiu dias e noites de trabalho ininterrupto tanto do lado brasileiro quanto da farmac\u00eautica que nos deu apoio necess\u00e1rio&#8221;, detalha Buss.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O planejamento \u00e9 que as primeiras doses 100% nacionais da AZD1222 sejam entregues a partir de outubro deste ano.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Risco de retalia\u00e7\u00f5es?<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O hematologista Dimas Covas, atual diretor do Instituto Butantan, \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 quebra das patentes das vacinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de n\u00e3o resolver o problema no curto e m\u00e9dio prazo, o especialista cr\u00ea que medidas do tipo podem dificultar o relacionamento com as farmac\u00eauticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As empresas detentoras dessas propriedades intelectuais s\u00e3o multinacionais, que possuem uma s\u00e9rie de outros insumos, subst\u00e2ncias e medicamentos. A quebra de patentes, ent\u00e3o, faz com que elas se sintam prejudicadas e fa\u00e7am at\u00e9 retalia\u00e7\u00f5es aos governos&#8221;, interpreta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As companhias podem, por exemplo, dificultar o acesso dos pa\u00edses que fizerem a quebra das patentes ao mercado farmac\u00eautico. \u00c9 poss\u00edvel que elas pensem: por que vou trazer os medicamentos para esse lugar, se eles t\u00eam essa fama de piratear nossos produtos? Toda vez que voc\u00ea ignora uma patente, cria-se um ambiente de desconfian\u00e7a e retalia\u00e7\u00e3o&#8221;, completa o diretor do Butantan.<\/p>\n<figure style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c.files.bbci.co.uk\/4FE0\/production\/_118484402_1.png\" alt=\"Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan\" \/><\/p>\n<footer>Governo do Estado de S\u00e3o Paulo<\/footer><figcaption>Dimas Covas teme que a quebra de patentes prejudique as propriedades intelectuais dos pr\u00f3prios institutos de pesquisa brasileiros<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Covas tamb\u00e9m pensa que o feiti\u00e7o pode virar contra o feiticeiro e as propriedades intelectuais dos pr\u00f3prios pa\u00edses acabam desrespeitadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Butantan, por exemplo, possui a patente da vacina contra a dengue, que est\u00e1 em testes cl\u00ednicos. Ser\u00e1 que algu\u00e9m pode vir e quebrar essa nossa propriedade tamb\u00e9m?&#8221;, questiona.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Experi\u00eancias anteriores<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale destacar, no entanto, que essa discuss\u00e3o \u00e9 absolutamente nova. Como n\u00e3o h\u00e1 experi\u00eancias iguais no passado, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prever os poss\u00edveis desdobramentos e repercuss\u00f5es caso uma quebra de patentes de vacinas vire realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma medida similar no universo da sa\u00fade aconteceu em 2007, quando o Brasil quebrou a patente do Efavirenz, um medicamento usado no tratamento da aids produzido pela farmac\u00eautica americana MSD.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempor\u00e3o, que era o ministro da Sa\u00fade \u00e0 \u00e9poca, se lembra bem das incertezas daquele per\u00edodo e da dualidade entre as negocia\u00e7\u00f5es financeiras e as necessidades da sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O laborat\u00f3rio detentor dos direitos resistiu, n\u00e3o queria que isso acontecesse. Ouvimos at\u00e9 especula\u00e7\u00f5es que aconteceriam retalia\u00e7\u00f5es, que os investimentos seriam prejudicados. Na pr\u00e1tica, nada disso aconteceu e tivemos at\u00e9 um crescimento do mercado farmac\u00eautico no pa\u00eds&#8221;, rememora.<\/p>\n<figure style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c.files.bbci.co.uk\/10C0A\/production\/_118081686_d1e00d76-a348-4354-9a81-3bb331d613dd.jpg\" alt=\"Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o, ex-ministro da Sa\u00fade, em 2010\" \/><\/p>\n<footer>ABR<\/footer><figcaption>Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o lembra que a quebra da patente de um medicamento contra a aids n\u00e3o prejudicou o Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9dico sanitarista, que tamb\u00e9m \u00e9 pesquisador da Fiocruz, entende que o risco de repres\u00e1lias fica ainda menor se uma decis\u00e3o do tipo acontecer n\u00e3o por iniciativa de um \u00fanico pa\u00eds, mas, sim, num organismo internacional, como \u00e9 a OMC.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Uma decis\u00e3o pol\u00edtica internacional deixaria pouco espa\u00e7o para que qualquer tipo de retalia\u00e7\u00e3o ou postura hostil viesse a acontecer&#8221;, avalia.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Amea\u00e7a \u00e0 inova\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kalil destaca outro poss\u00edvel preju\u00edzo que a quebra unilateral de patentes pode trazer: diminuir os est\u00edmulos \u00e0 pesquisa e ao desenvolvimento de novos produtos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;As empresas costumam demorar anos e investem bilh\u00f5es de d\u00f3lares para criar uma nova vacina. \u00c9 \u00f3bvio que elas n\u00e3o v\u00e3o ficar contentes se ficarem sem sua propriedade&#8221;, raciocina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cria\u00e7\u00e3o de um novo imunizante envolve riscos enormes: as chances de uma candidata n\u00e3o ir bem nos testes cl\u00ednicos \u00e9 relativamente alta. Do ponto de vista financeiro, isso pode representar um preju\u00edzo enorme \u00e0s companhias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 preciso ponderar, no entanto, que na pandemia de covid-19 muitas farmac\u00eauticas que foram bem-sucedidas nesse processo j\u00e1 lucraram bastante e poderiam exercer esse ato altru\u00edsta de liberar suas patentes para aumentar a disponibilidade de doses&#8221;, completa o imunologista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 ainda um segundo ponto que deve ser levado em conta nesse contexto: alguns dos imunizantes j\u00e1 dispon\u00edveis contaram com investimento p\u00fablico para ficarem prontos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A farmac\u00eautica Moderna, por exemplo, recebeu mais de US$ 6 bilh\u00f5es do governo americano para desenvolver sua vacina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E todo esse dinheiro, colhido a partir dos impostos pagos pelos cidad\u00e3os, sinaliza que a discuss\u00e3o entre propriedade privada ou p\u00fablica pode ficar mais nebulosa em certas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Quest\u00f5es estrat\u00e9gicas para o pa\u00eds<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os especialistas s\u00e3o reticentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas de uma eventual quebra de patentes para a pandemia atual, mas antecipam que uma medida dessas abriria um caminho mais justo e acess\u00edvel para as crises de sa\u00fade p\u00fablica que vir\u00e3o pela frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Isso pavimenta um futuro com menos desigualdade na distribui\u00e7\u00e3o das vacinas entre pa\u00edses ricos e pobres&#8221;, antev\u00ea Garrett.<\/p>\n<figure style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/c.files.bbci.co.uk\/EB1B\/production\/_117878106_3.png\" alt=\"Profissional da sa\u00fade aplica vacina no bra\u00e7o de mulher, que est\u00e1 num barco\" \/><\/p>\n<footer>Getty Images<\/footer><figcaption>Para ser independente na produ\u00e7\u00e3o de vacinas e outros insumos da \u00e1rea de sa\u00fade, Brasil precisa investir mais em biotecnologia, avaliam especialistas<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante de todas as dificuldades com a covid-19, o mundo pode (e deve) ficar mais preparado para as pr\u00f3ximas pandemias: isso envolve criar mecanismos para a pesquisa, a aprova\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o de novas vacinas de uma maneira mais r\u00e1pida, efetiva e justa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tempor\u00e3o avalia que toda essa discuss\u00e3o traz benef\u00edcios ao Brasil, que pode aproveitar a oportunidade para aprimorar setores estrat\u00e9gicos em sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Esse debate pode nos ajudar a queimar etapas, internalizar novas tecnologias e ampliar a nossa capacidade produtiva nessa \u00e1rea&#8221;, diz.<\/p>\n<p class=\" \" style=\"text-align: justify;\">Mas o sanitarista acredita que, para que isso realmente aconte\u00e7a, \u00e9 preciso pensar em pol\u00edticas p\u00fablicas de longo prazo, com investimentos maci\u00e7os na \u00e1rea de biotecnologia.<\/p>\n<p class=\" \" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Precisamos de uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica e de uma pol\u00edtica de Estado que construam uma base tecnol\u00f3gica para a produ\u00e7\u00e3o de insumos, rem\u00e9dios e vacinas&#8221;, opina o ex-ministro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Somente com essa estrutura vamos conseguir romper nossa depend\u00eancia dos produtos vindos de outros pa\u00edses.&#8221;<\/p>\n<div id=\"preAds_ad_mrec_intext3\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tempor\u00e3o avalia que toda essa discuss\u00e3o traz benef\u00edcios ao Brasil, que pode aproveitar a 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p\u00fablica.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":358988,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,12],"tags":[],"class_list":["post-358987","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/velha-no-barco.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/358987","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=358987"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/358987\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/358988"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=358987"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=358987"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=358987"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}