{"id":359665,"date":"2021-06-22T00:44:34","date_gmt":"2021-06-22T03:44:34","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=359665"},"modified":"2021-06-22T04:33:32","modified_gmt":"2021-06-22T07:33:32","slug":"500-mil-mortos-a-tragedia-esquecida-que-dizimou-brasileiros-durante-3-anos-no-seculo-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/500-mil-mortos-a-tragedia-esquecida-que-dizimou-brasileiros-durante-3-anos-no-seculo-19\/","title":{"rendered":"500 mil mortos: a trag\u00e9dia esquecida que dizimou brasileiros durante 3 anos no s\u00e9culo 19"},"content":{"rendered":"<div class=\"vj-header\">\n<div class=\"vj-header__hero-container\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/news.files.bbci.co.uk\/include\/vjamericas\/688-brazil-drought\/assets\/app-project-assets\/img\/hero-image.png?v=3\" alt=\"\" \/><\/div>\n<div class=\"vj-header__headline-background\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"vj-header__headline\"><strong>Camilla Veras Mota, Camilla Costa e Cecilia Tombesi | BBC News Brasil<\/strong><\/p>\n<div class=\"story-timestamp\">\n<div class=\"story-meta\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"static-content-container\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"toggle-container\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"static-content-container\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"disclaimer\">Aviso: esta reportagem cont\u00e9m descri\u00e7\u00f5es e imagens que podem afetar pessoas sens\u00edveis.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"static-content-container\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Cerca de 40 anos antes da gripe espanhola, uma cat\u00e1strofe matou 50 milh\u00f5es de pessoas no mundo. Desta vez, a principal causa foi a fome.<\/p>\n<p>Uma sucess\u00e3o de eventos clim\u00e1ticos combinados gerou uma seca sem precedentes em praticamente toda a regi\u00e3o equatorial do globo.<\/p>\n<p>No Brasil, a falta de chuvas foi o primeiro cap\u00edtulo de um flagelo que incluiu uma epidemia de var\u00edola e matou pelo menos 500 mil pessoas entre 1877 e 1879.<\/p>\n<p class=\"large-text\">Isso\u00a0<span class=\"orange-highlight\">era o equivalente a 5% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds<\/span>\u00a0contabilizada no primeiro censo, de 1872.<\/p>\n<p>A ent\u00e3o prov\u00edncia do Cear\u00e1 foi de longe a mais afetada. S\u00f3 em 1878, o pior ano da seca, 119 mil pessoas morreram e outras 55 mil foram obrigadas a migrar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/AC02\/production\/_118843044_grafico-1-muertes-poblacion-nc.png?v=3\" alt=\"Gr\u00e1fico da estimativa de mortos pela Grande Seca em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o da \u00e9poca no Brasil, nos estados do atual Nordeste e do Cear\u00e1\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/AC02\/production\/_118843044_grafico-1-muertes-poblacion-nc.png?v=3\" \/>A prov\u00edncia assistiu \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica de sua popula\u00e7\u00e3o, de cerca de 900 mil em 1876 para 750 mil em 1881, de acordo com o m\u00e9dico Bar\u00e3o de Studart, no livro\u00a0<i>Climatologia, Epidemias e Endemias do Cear\u00e1<\/i>.<\/p>\n<p>A \u00fanica trag\u00e9dia em escala semelhante no pa\u00eds, desde ent\u00e3o, acontece neste momento, com a pandemia de covid-19, que j\u00e1 tirou quase meio milh\u00e3o de vidas em cerca de um ano e meio.<\/p>\n<p>A &#8220;Grande Seca&#8221;, como ficou conhecida, ocorreu em um momento e em uma propor\u00e7\u00e3o diferente \u2014 a popula\u00e7\u00e3o brasileira hoje \u00e9 cerca de 21 vezes maior do que a de 1877, por exemplo.<\/p>\n<p>No entanto, seu impacto foi resultado de uma combina\u00e7\u00e3o de fen\u00f4meno natural, crise econ\u00f4mica, falhas na assist\u00eancia \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e disputas pol\u00edticas \u2014 din\u00e2micas que ainda podem ser vistas no Brasil de hoje.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"static-content-container\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"section-heading transitionalItem fade-up\">Um desastre natural \u2018ao acaso&#8217;<\/h2>\n<p>Juntamente com o nordeste do Brasil, as regi\u00f5es mais duramente atingidas pela Grande Seca foram \u00cdndia, Austr\u00e1lia, sul da \u00c1frica, nordeste da China e Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>Mas, apesar da cat\u00e1strofe humana e ambiental na \u00e9poca, s\u00f3 recentemente a ci\u00eancia passou a investigar suas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>O primeiro trabalho que analisa a Grande Seca como um fen\u00f4meno global do ponto de vista climatol\u00f3gico \u00e9 de 2018. Nele, a pesquisadora Deepti Singh e seus colegas apontam a combina\u00e7\u00e3o de pelo menos quatro eventos recordes e quase simult\u00e2neos: um dos piores El Ni\u00f1o de que se tem not\u00edcia, redu\u00e7\u00e3o das temperaturas do Pac\u00edfico tropical, aquecimento das \u00e1guas do Atl\u00e2ntico Norte e uma oscila\u00e7\u00e3o de temperaturas no oceano \u00cdndico que afetou a temporada de mon\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/D312\/production\/_118843045_grafico-2-mapa-seca-nc.png?v=3\" alt=\"Mapa que mostra as regi\u00f5es do mundo afetadas pelo fen\u00f4meno clim\u00e1tico que gerou a seca em 1877\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/D312\/production\/_118843045_grafico-2-mapa-seca-nc.png?v=3\" \/>Em um per\u00edodo anterior ao do aquecimento global, essa equa\u00e7\u00e3o foi obra do acaso. Ou, em linguagem cient\u00edfica, das oscila\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas e naturais do clima, explicou Singh \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<p>Mas o resultado da combina\u00e7\u00e3o foi t\u00e3o intenso que, caso algo do tipo ocorresse hoje, &#8220;seus efeitos poderiam ser ainda maiores, j\u00e1 que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas agravam os desastres naturais&#8221;, afirma.<\/p>\n<p class=\"large-text\">Por outro lado, para alguns pesquisadores, como Mike Davis, da Universidade da Calif\u00f3rnia,\u00a0<span class=\"orange-highlight\">a a\u00e7\u00e3o humana ajuda a explicar o n\u00famero t\u00e3o elevado de mortes<\/span>\u00a0causadas por esse fen\u00f4meno clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>Em seu livro \u00daltimo Holocausto Vitoriano, ele afirma que a desestrutura\u00e7\u00e3o da economia de subsist\u00eancia em pa\u00edses como Egito e \u00cdndia, provocada pelo colonialismo europeu, foi uma das respons\u00e1veis pela fome que decorreu da seca.<\/p>\n<p>No Brasil tamb\u00e9m, segundo historiadores, a crise econ\u00f4mica e as decis\u00f5es do poder p\u00fablico agravaram o problema \u2014 que se tornaria uma trag\u00e9dia sem precedentes na hist\u00f3ria contempor\u00e2nea brasileira.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"static-content-container\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"section-heading transitionalItem fade-up\">A &#8216;invas\u00e3o&#8217; dos famintos<\/h2>\n<p>Em 1877, cem anos depois da \u00faltima seca prolongada no Cear\u00e1, praticamente n\u00e3o caiu \u00e1gua do c\u00e9u entre janeiro e mar\u00e7o. Sem gado e sem colheita, teve in\u00edcio um grande \u00eaxodo dos sert\u00f5es em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 capital, Fortaleza.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que pregava parte dos intelectuais na capital do Imp\u00e9rio, o Rio de Janeiro, a chuva tamb\u00e9m n\u00e3o veio nos meses seguintes. E as fileiras de migrantes engrossaram com um ex\u00e9rcito de famintos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/275A\/production\/_118947001_sequia-victimas-1-nc.png?v=3\" alt=\"Fotos de retirantes cearenses em Fortaleza durante a Grande Seca\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/275A\/production\/_118947001_sequia-victimas-1-nc.png?v=3\" \/><\/p>\n<p class=\"image-caption\">Os refugiados eram fotografados em est\u00fadio em Fortaleza; a Grande Seca foi a primeira registrada dessa maneira | Foto: Biblioteca Nacional<\/p>\n<p>&#8220;Morria-se de fome, puramente de fome nas ruas da cidade, pelas estradas&#8221;, escreveu o m\u00e9dico cearense Bar\u00e3o de Studart.<\/p>\n<p>Desesperados, os retirantes comiam o que encontravam pelo caminho \u2014 inclusive vegetais venenosos que lhes acabavam tirando a vida.<\/p>\n<p>&#8220;Depois de alimentar-se de ra\u00edzes silvestres (especialmente da mucun\u00e3), de algumas esp\u00e9cies de cactus (chique-chique, mandacaru) e brom\u00e9lias (coroat\u00e1, macambira), do palmito da carna\u00faba e de outras palmeiras, das am\u00eandoas e entrecasca do cocos, o faminto passara a comer as carnes mais repugnantes, como a dos c\u00e3es, a dos abutres e corvos, e a dos r\u00e9pteis.&#8221;<\/p>\n<p class=\"large-text\">Em dezembro de 1877, 80 mil haviam chegado a Fortaleza,\u00a0<span class=\"orange-highlight\">n\u00famero quatro vezes maior que a popula\u00e7\u00e3o da capital, 19 mil.<\/span><\/p>\n<p>Uma multid\u00e3o que ficava na rua, nas pra\u00e7as, sob a sombra dos cajueiros, como descrevem os livros da \u00e9poca.<\/p>\n<p>O Cear\u00e1, al\u00e9m da prov\u00edncia mais afetada, \u00e9 tamb\u00e9m a que melhor manteve registros estat\u00edsticos da migra\u00e7\u00e3o dos retirantes e do clima. Os \u00fanicos dados dispon\u00edveis sobre os \u00edndices pluviom\u00e9tricos do nordeste no per\u00edodo, por exemplo, v\u00eam da esta\u00e7\u00e3o climatol\u00f3gica de Fortaleza, diz a pesquisadora Deepti Singh.<\/p>\n<p>No entanto, documentos e jornais da \u00e9poca contam como a seca prejudicou tamb\u00e9m as prov\u00edncias vizinhas.<\/p>\n<p>Os governos de Pernambuco e Alagoas, por exemplo, se desentenderam porque ambos julgavam n\u00e3o ter responsabilidade sobre um contingente de 9 mil retirantes concentrados na fronteira. Alagoas dizia que os migrantes s\u00f3 estavam ali porque tentavam chegar ao dep\u00f3sito de alimentos pernambucano instalado em Taracatu; Pernambuco alegava que, tecnicamente, as pessoas ainda estavam em solo alagoano.<\/p>\n<p>O historiador Roger Cunniff, que esteve no Brasil na d\u00e9cada de 1960 para pesquisar o tema, relatou este e outros epis\u00f3dios em\u00a0<i>The Great Drought: Northeast Brazil, 1877-1880<\/i>\u00a0(&#8220;A Grande Seca: Nordeste do Brasil, 1877-1880&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>Em outro trecho, ele narra o desespero de migrantes que cruzam o rio S\u00e3o Francisco de Pernambuco para a Bahia, menos afetada pela seca do que as demais, e invadiam as fazendas para pedir esmolas e roubar.<\/p>\n<p>&#8220;Era uma crise de refugiados&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil Dain Borges, professor do departamento de Hist\u00f3ria da Universidade de Chicago e pesquisador dos s\u00e9culos 19 e 20 na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/4E6A\/production\/_118947002_sequia-victimas-2-nc.png?v=3\" alt=\"Fotos de retirantes cearenses em Fortaleza durante a Grande Seca\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/4E6A\/production\/_118947002_sequia-victimas-2-nc.png?v=3\" \/><\/p>\n<p class=\"image-caption\">As fotos dos famintos eram acompanhadas de poemas sobre a seca e se transformavam e cart\u00f5es postais, para sensibilizar a popula\u00e7\u00e3o do sul | Foto: Biblioteca Nacional<\/p>\n<p>Se tornaram emblem\u00e1ticas as imagens chocantes de homens, mulheres e crian\u00e7as esqu\u00e1lidas feitas dentro do est\u00fadio do fot\u00f3grafo Joaquim Antonio Corr\u00eaa em Fortaleza.<\/p>\n<p>Ele trabalhou na \u00e9poca com o jornalista Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, enviado pela Gazeta do Rio de Janeiro para o Cear\u00e1, de onde narrava a seca sob a rubrica &#8220;Viagem ao Norte&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o professor do departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Estadual do Cear\u00e1 (UECE) Gleudson Passos, essa foi a primeira vez que uma seca foi registrada em fotografias no Brasil.<\/p>\n<p>A ideia de expor e explorar a mis\u00e9ria dos retirantes era sensibilizar a opini\u00e3o p\u00fablica e alertar para a gravidade dos fatos que se desenrolavam nas chamadas prov\u00edncias do Norte, que parte dos brasileiros do sul do pa\u00eds achava ser exagero.<\/p>\n<p>Os jornais contavam hist\u00f3rias de mulheres que se prostitu\u00edam por um prato de comida, de pais que vendem e at\u00e9 mesmo comiam os pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n<p>&#8220;Se bestializava os miser\u00e1veis nessas descri\u00e7\u00f5es, inclusive naquelas que querem criar empatia e miseric\u00f3rdia com o retirantes&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil a professora do departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal Fluminense (UFF) Ver\u00f3nica Secreto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/666\/cpsprodpb\/11664\/production\/_118886217_recortes-sequia-1877s-nc.png?v=3\" alt=\"Montagem de an\u00fancios do jornal Gazeta de Not\u00edcias sobre bailes beneficentes e arrecada\u00e7\u00f5es para os afetados pela seca\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/666\/cpsprodpb\/11664\/production\/_118886217_recortes-sequia-1877s-nc.png?v=3\" \/><\/p>\n<p class=\"image-caption\">Na capital imperial, a alta sociedade organizava bailes, pe\u00e7as de teatro e concertos em benef\u00edcio aos afetados pela fome | Fotos: Biblioteca Nacional<\/p>\n<p>A &#8220;campanha para sensibilizar finalmente a corte&#8221; deu certo. Na capital do Imp\u00e9rio e nas prov\u00edncias do Sul, comit\u00eas passaram a organizar bailes e banquetes beneficentes em favor das &#8220;v\u00edtimas da seca&#8221;, que suplementassem o aux\u00edlio do governo.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia virou inclusive not\u00edcia na imprensa internacional. A Scribner&#8217;s Magazine de Nova York chegou a enviar um correspondente ao Cear\u00e1 para cobrir a seca.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"static-content-container\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"section-heading transitionalItem fade-up\">A epidemia de var\u00edola e o \u2018dia dos mil mortos&#8217;<\/h2>\n<p>A trag\u00e9dia provocada pela fome virou calamidade com a dissemina\u00e7\u00e3o da var\u00edola, que dizimou parte da popula\u00e7\u00e3o cearense em 1878.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a foi registrada bem antes na prov\u00edncia da Para\u00edba, a primeira atingida: 74 pessoas morreram entre abril e maio de 1877, de acordo com os documentos citados por Cunniff.<\/p>\n<p class=\"large-text\">Nos meses seguintes, o v\u00edrus foi percorrendo\u00a0<span class=\"orange-highlight\">o caminho da prociss\u00e3o dos retirantes.<\/span><\/p>\n<p>Subiu \u00e0 prov\u00edncia do Rio Grande do Norte e atingiu especialmente Mossor\u00f3, que recebia os sertanejos paraibanos. E entrou no Cear\u00e1 pelo munic\u00edpio litor\u00e2neo de Aracati, destino, por sua vez, de levas de migrantes vindas de Mossor\u00f3.<\/p>\n<p>Quando chegou a Fortaleza, mais de 100 mil sertanejos j\u00e1 estavam aglomerados em campos e vivendo em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es de higiene.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/757A\/production\/_118947003_sequia-victimas-3-nc.png?v=3\" alt=\"Foto de crian\u00e7as atingidas pela seca em Fortaleza\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/757A\/production\/_118947003_sequia-victimas-3-nc.png?v=3\" \/><\/p>\n<p class=\"image-caption\">Fragilizados pela fome e aglomerados em acampamentos, os retirantes foram as primeiras e principais v\u00edtimas da epidemia de var\u00edola | Foto: Biblioteca Nacional<\/p>\n<p>Eram os chamados &#8220;currais do governo&#8221; ou abarracamentos, a solu\u00e7\u00e3o encontrada pela administra\u00e7\u00e3o local para lidar com os refugiados.<\/p>\n<p>&#8220;(Os abarracamentos) Eram verdadeiras palho\u00e7as&#8221;, descreve o professor Gleudson Passos. &#8220;Umas colunas de pau, geralmente feitas de madeira de carna\u00faba, e uma cobertura. Esses espa\u00e7os eram cercados e l\u00e1 se amotinavam as popula\u00e7\u00f5es que vinham dos sert\u00f5es, para que elas n\u00e3o entrassem na cidade.&#8221;<\/p>\n<p>Sem saneamento adequado, essas aglomera\u00e7\u00f5es foram decisivas para que a var\u00edola explodisse na cidade.<\/p>\n<p>&#8220;Os sert\u00f5es haviam conseguido conter surtos de var\u00edola antes da seca, mas foram eventos isolados e as autoridades n\u00e3o tinham dado import\u00e2ncia suficiente a eles a ponto de tomarem medidas efetivas para que fossem eliminados. O deslocamento e a concentra\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o afetada pela seca forjou as condi\u00e7\u00f5es ideiais para o surgimento de uma epidemia&#8221;, escreveu Cunniff em\u00a0<i>The Great Drought<\/i>.<\/p>\n<p>Apesar do desastre humanit\u00e1rio, os abarracamentos continuariam sendo usados em secas posteriores, sob o nome de &#8220;campos de concentra\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Nos arredores da capital cearense, dez desses currais reuniam cerca de 110 mil pessoas conforme os registros feitos \u00e0 \u00e9poca pelo farmac\u00eautico Rodolpho Te\u00f3philo.<\/p>\n<p>Em seu livro\u00a0<i>Var\u00edola e vacina\u00e7\u00e3o no Cear\u00e1<\/i>, ele descreveu a situa\u00e7\u00e3o no pico da epidemia, quando hospitais estavam em ocupa\u00e7\u00e3o m\u00e1xima e as ruas, repletas de cad\u00e1veres \u2014 em dezembro de 1878, Fortaleza viveu o que ficou conhecido como o &#8220;dia dos mil mortos&#8221;.<\/p>\n<div class=\"testimonial\">\n<div class=\"testimonial-header\">\n<div class=\"testimonial-image\"><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/600\/cpsprodpb\/C844\/production\/_118886215_theodofilo-testimonio-nc.png?v=3\" alt=\"Rodolpho Te\u00f3philo | Foto: Funda\u00e7\u00e3o Waldemar Alc\u00e2ntara\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/600\/cpsprodpb\/C844\/production\/_118886215_theodofilo-testimonio-nc.png?v=3\" \/><\/div>\n<div class=\"testimonial-captions\">\n<p>\u2018Sombria desola\u00e7\u00e3o&#8217;<\/p>\n<p class=\"orange-highlight centered\">Rodolpho Te\u00f3philo<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Entrou setembro de 1878 e a seca tocava ao per\u00edodo mais agudo. O \u00eaxodo do sert\u00e3o para o litoral era incessante e vasto.<\/p>\n<p>A var\u00edola propagou-se como um inc\u00eandio ateado na base de uma meda de palhas secas e alimentado por um fole.<\/p>\n<p>No fim de outubro j\u00e1 n\u00e3o havia mais esperan\u00e7as de restabelecer o servi\u00e7o hospitalar mais ou menos regular dada a cifra de variolosos.<\/p>\n<p>O p\u00e2nico j\u00e1 come\u00e7ava a abater o \u00e2nimo da popula\u00e7\u00e3o mais agasalhada e domiciliada na \u00e1rea urbana, concorrendo para isso o triste e repugnante espet\u00e1culo do transporte dos cad\u00e1veres de variolosos pelas ruas mais p\u00fablicas de Fortaleza.<\/p>\n<p>Imagine-se um cad\u00e1ver, meio putrefato, vestido apenas de ligeiros trapos, amarrado de p\u00e9s e m\u00e3os a um pau, conduzido por dois homens, ordinariamente meio embriagados, e se ter\u00e1 visto o modo como porque iam para a vala os retirantes mortos de var\u00edola em Fortaleza.<\/p>\n<p>Quantas vezes as fam\u00edlias chegando \u00e0s janelas de suas casas entravam horrorizadas porque deparavam com estes esquifes estendidos nas cal\u00e7adas e ao lado os carregadores, que, excitados pelo \u00e1lcool, descansavam da carga palrando sem descanso.<\/p>\n<p>Em dezembro, a peste atingiu o per\u00edodo agudo.<\/p>\n<p>Tinha Fortaleza o aspecto de sombria desola\u00e7\u00e3o. A tristeza e o luto estavam em todos os lares. O com\u00e9rcio completamente paralisado dava \u00e0s ruas mais p\u00fablicas a fei\u00e7\u00e3o de uma terra abandonada.<\/p>\n<p>Os transeuntes que se viam eram vestidos de preto ou mendigos sa\u00eddos dos lazaretos com sinais recentes de bexiga confluente que lhes esburacou a cara ou deformou o nariz.<\/p>\n<p>A 10 do m\u00eas o cemit\u00e9rio de Lag\u00f4a Funda recebia 1.004 cad\u00e1veres! Esse assombroso obitu\u00e1rio, de um dia, encheu de p\u00e2nico a quantos dele tiveram not\u00edcia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"static-content-container\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"section-heading transitionalItem fade-up\">Por que o Brasil foi t\u00e3o afetado?<\/h2>\n<p>Diferentes pesquisadores apontam erros e omiss\u00f5es do poder p\u00fablico da \u00e9poca que adicionaram \u00e0 trag\u00e9dia clim\u00e1tica uma calamidade humana.<\/p>\n<p>No entanto, a pobreza em que a regi\u00e3o Nordeste j\u00e1 estava imersa foi um ingrediente essencial da cat\u00e1strofe, diz Cunniff.<\/p>\n<p>&#8220;Planejadores urbanos e regionais modernos usam o argumento convincente de que secas prolongadas como essa teriam efeitos m\u00ednimos em sociedade munidas de transporte adequado, uma ind\u00fastria n\u00e3o agr\u00edcola e recursos razoavelmente distribu\u00eddos. Essa l\u00f3gica n\u00e3o pode ser contestada. Se essa sociedade existisse no nordeste do Brasil em 1877, nenhuma a\u00e7\u00e3o emergencial teria sido necess\u00e1ria: n\u00e3o teria havido crise&#8221;, escreveu o pesquisador no artigo\u00a0<i>O Nascimento da Ind\u00fastria da Seca<\/i>.<\/p>\n<p>A pobreza \u00e0 qual ele faz refer\u00eancia tem como pano de fundo a decad\u00eancia da economia do algod\u00e3o. Anos antes, com os pre\u00e7os recorde no mercado internacional devido \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos, o cultivo havia atra\u00eddo para o Cear\u00e1 milhares de migrantes de outras prov\u00edncias do nordeste.<\/p>\n<p>Com o fim da guerra civil americana e a retomada da produ\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, contudo, os pre\u00e7os despencaram na Bolsa de Algod\u00e3o de Manchester, no Reino Unido, e a produ\u00e7\u00e3o entrou em decl\u00ednio.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/84F2\/production\/_118843043_cotton-exchange-manchester-1835-getty-images.png?v=3\" alt=\"Gravura da Bolsa de Valores do Algod\u00e3o em Manchester, no Reino Unido, em 1835\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/84F2\/production\/_118843043_cotton-exchange-manchester-1835-getty-images.png?v=3\" \/><\/p>\n<p class=\"image-caption\">A queda nos pre\u00e7os do algod\u00e3o, regulados por Manchester, na Inglaterra, tinha mergulhado o nordeste em crise econ\u00f4mica | Foto: Getty<\/p>\n<p>Mitigar os efeitos da recess\u00e3o no nordeste n\u00e3o estava entre as prioridades do governo central, que concentrava seus investimentos nas prov\u00edncias mais pr\u00f3ximas da capital do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p class=\"large-text\">Mesmo depois que a Grande Seca irrompeu,\u00a0<span class=\"orange-highlight\">a regi\u00e3o continuou em segundo plano.<\/span><\/p>\n<p>N\u00e3o houve urg\u00eancia para articula\u00e7\u00e3o de socorro, fosse financeiro ou material. O Rio de Janeiro demorou a acreditar que havia um problema \u2014 e a disputa pol\u00edtica entre o Partido Conservador, que estava no poder, e o Partido Liberal contribuiu nesse sentido.<\/p>\n<p>Em um discurso na C\u00e2mara dos Representantes no in\u00edcio de 1877, o escritor Jos\u00e9 de Alencar, ent\u00e3o deputado conservador, acusou a oposi\u00e7\u00e3o de fazer uso pol\u00edtico da climatologia e afirmou que as chuvas deveriam voltar a cair na regi\u00e3o em pouco tempo.<\/p>\n<p>Entre seus antagonistas estavam o senador liberal Tom\u00e1s Pompeu de Sousa Brasil, que levou uma comitiva do Cear\u00e1 nessa mesma \u00e9poca para pedir socorro \u00e0 administra\u00e7\u00e3o imperial.<\/p>\n<p>Pompeu, que era cientista e colecionava estat\u00edsticas climatol\u00f3gicas do Cear\u00e1, tamb\u00e9m se contrap\u00f4s \u00e0 ideia popular entre parte dos intelectuais da \u00e9poca de que os respons\u00e1veis pela seca eram os pr\u00f3prios retirantes.<\/p>\n<p>A seca s\u00f3 passou a ser vista como um problema de Estado, que deveria ser objeto de pol\u00edticas p\u00fablicas de mitiga\u00e7\u00e3o, depois do desastre de 1877 a 1879, diz o professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Hidr\u00e1ulica e Ambiental da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC) Jos\u00e9 Nilson Campos em Secas e Pol\u00edticas P\u00fablicas no Semi\u00e1rido: Ideias, Pensadores e Per\u00edodos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/004A\/production\/_118947000_jose-alencar-pompeu-de-sousa-nc.png?v=3\" alt=\"Jos\u00e9 de Alencar e Tom\u00e1s Pompeu de Sousa Brasil\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/004A\/production\/_118947000_jose-alencar-pompeu-de-sousa-nc.png?v=3\" \/><\/p>\n<p class=\"image-caption\">O antagonismo entre o escritor Jos\u00e9 de Alencar, conservador, e o senador Tom\u00e1s Pompeu, liberal, representava o debate pol\u00edtico sobre a seca | Fotos: Biblioteca Nacional e Arquivo Pares Pompeu<\/p>\n<p>Esse per\u00edodo, ali\u00e1s, exp\u00f4s falhas graves na resposta do governo brasileiro a emerg\u00eancias do tipo.<\/p>\n<p>Roger Cunniff cita tr\u00eas em The Great Drought: primeiramente, um sistema de comunica\u00e7\u00e3o ruim mesmo para a \u00e9poca, que dificultou o acesso das autoridades a informa\u00e7\u00f5es precisas sobre o que estava acontecendo.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a inabilidade do governo imperial de coordenar as a\u00e7\u00f5es dos presidentes de prov\u00edncia e uma estrutura do Estado excessivamente centralizada, que impediu que as administra\u00e7\u00f5es locais tivessem acesso a dinheiro para socorrer necessitados &#8220;at\u00e9 que o governo imperial decidisse que a situa\u00e7\u00e3o era grave o suficiente para justificar um aux\u00edlio emergencial&#8221;.<\/p>\n<p>E finalmente, mesmo quando o governo central foi convencido a aprovar o envio desses recursos, ele foram muitas vezes utilizados de maneira ineficiente pelos governos locais ou destinado a indiv\u00edduos que aproveitaram para fazer dinheiro com o neg\u00f3cio da seca.<\/p>\n<p>O historiador Gleudson Passos ressalta que nos jornais do per\u00edodo eram frequentes as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, algo dif\u00edcil de ser comprovado naquela \u00e9poca, dada a falta de \u00f3rg\u00e3os de controle no Brasil Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Segundo pesquisadores, a &#8220;ra\u00e7\u00e3o&#8221; de farinha, arroz e carne seca que passou a ser comprada e distribu\u00edda aos retirantes como parte do aux\u00edlio tamb\u00e9m era de baixa qualidade, o que contribu\u00eda para que eles permanecessem fracos e com a baixa imunidade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/FA22\/production\/_118843046_grafico-3-mapa-zona-afectada-seca-nc.png?v=3\" alt=\"Mapa da regi\u00e3o afetada pela seca em 1877-79 no Nordeste brasileiro\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/FA22\/production\/_118843046_grafico-3-mapa-zona-afectada-seca-nc.png?v=3\" \/>Com a crise do sistema escravista no Brasil, os refugiados da seca foram considerados candidatos a substituir da for\u00e7a de trabalho dos escravizados.<\/p>\n<p>&#8220;Houve at\u00e9 uma disputa pelos retirantes, que se transformavam em migrantes para outras regi\u00f5es&#8221;, afirma Secreto. As elites da regi\u00e3o Amaz\u00f4nica, por exemplo, os queriam para o servi\u00e7o nos seringais; j\u00e1 S\u00e3o Paulo, para o trabalho nos cafezais. Mas oligarquias locais n\u00e3o queriam perder o que enxergavam como eleitores potenciais, al\u00e9m de m\u00e3o de obra.<\/p>\n<p>Intelectuais liberais da \u00e9poca como o abolicionista Andr\u00e9 Rebou\u00e7as defendiam que a melhor maneira de &#8220;salvar&#8221; os retirantes da fome era pagar-lhes por trabalhos, pequenos ou grandes.<\/p>\n<p>&#8220;Nessa conjuntura da crise da escravid\u00e3o, ele pensou nisso como uma solu\u00e7\u00e3o nacional. No lugar de trazer imigrantes italianos, que era a solu\u00e7\u00e3o paulista, ele dizia: \u2018A solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 aqui dentro, \u00e9 s\u00f3 a gente administrar bem a seca&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Rebou\u00e7as chegava a comparar os nordestinos com o que valia um escravo na \u00e9poca. Era uma maneira de vender para as elites a ideia de que seria proveitoso ajudar aquelas pessoas&#8221;, acrescenta a pesquisadora.<\/p>\n<p>Dessa forma, os refugiados da fome nos sert\u00f5es, aglomerados nos &#8220;currais do governo&#8221; e mal alimentados pelas ra\u00e7\u00f5es de baixa qualidade, tinham que trabalhar em obras p\u00fablicas ou em servi\u00e7os da administra\u00e7\u00e3o local para conseguir dinheiro para produtos de necessidade b\u00e1sica.<\/p>\n<p class=\"large-text\">&#8220;As pessoas literalmente\u00a0<span class=\"orange-highlight\">morriam de fazer esfor\u00e7o nas obras&#8221;,<\/span>\u00a0diz a historiadora.<\/p>\n<p>Foi nessas condi\u00e7\u00f5es que o v\u00edrus da var\u00edola encontrou a popula\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1 em 1878.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos abarracamentos cheios de pessoas com a sa\u00fade debilitada, foi decisivo o fato de que cerca de 95% da popula\u00e7\u00e3o da prov\u00edncia, tamb\u00e9m a mais afetada pelo v\u00edrus na regi\u00e3o, n\u00e3o havia sido vacinada.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/309C\/production\/_118844421_grafico-4-muertes-por-ano-nc.png?v=3\" alt=\"Gr\u00e1fico das mortes por ano em Fortaleza entre os anos de 1867 e 1878\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/309C\/production\/_118844421_grafico-4-muertes-por-ano-nc.png?v=3\" \/>Apesar de a imuniza\u00e7\u00e3o contra var\u00edola j\u00e1 ser amplamente conhecida naquela \u00e9poca, o governo central e os locais h\u00e1 anos falhavam em organizar uma ampla campanha.<\/p>\n<p>Bar\u00e3o de Studart e RodolphoTe\u00f3philo acrescentam outros dois obst\u00e1culos: de um lado, resist\u00eancia por parte da pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o e, de outro, mat\u00e9ria-prima de baixa qualidade para a fabrica\u00e7\u00e3o da vacina no nordeste enviada pelo Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A &#8220;linfa&#8221; que veio a capital, como era chamada a vacina, chegou a causar p\u00fastulas e feridas em quem a tomava, aumentando ainda mais a desconfian\u00e7a.<\/p>\n<p>Em meados de 1878, &#8220;a epidemia havia tomado propor\u00e7\u00f5es tais que a a\u00e7\u00e3o dos poderes p\u00fablicos se limitava a assistir os doentes que estavam recolhidos \u00e0s enfermarias e enterrar os mortos&#8221;, relatou Te\u00f3philo.<\/p>\n<p>&#8220;Em for\u00e7ada resigna\u00e7\u00e3o esperava-se que o tempo resolvesse t\u00e3o angustiosa crise. A solu\u00e7\u00e3o estava prevista: a var\u00edola s\u00f3 se extinguiria quando atacasse o \u00faltimo indiv\u00edduo n\u00e3o imune.&#8221;<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 come\u00e7ou a melhorar em 1879, depois que os n\u00fameros de infec\u00e7\u00f5es e mortes caiu naturalmente.<\/p>\n<p>&#8220;Que nos reservaria o novo ano? O m\u00eas de janeiro registou ainda a enorme cifra de 2.134 \u00f3bitos por var\u00edola em Fortaleza, mas em fevereiro descia o n\u00famero a 176 e em mar\u00e7o, a 107. Saciara-se o minotauro&#8221;, escreveu Studart.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"static-content-container\" style=\"text-align: justify;\">\n<h2 class=\"section-heading transitionalItem fade-up\">Duas sindemias,143 anos de diferen\u00e7a<\/h2>\n<p>Em agosto de 2020, Richard Horton, editor-chefe da revista cient\u00edfica The Lancet, afirmou que a pandemia de covid-19 deveria, na verdade, ser considerada uma sindemia \u2014 uma situa\u00e7\u00e3o em que a nova doen\u00e7a, ao interagir com outras j\u00e1 existentes em um contexto ambiental e de profunda desigualdade social, tem um impacto exacerbado.<\/p>\n<p>A sindemia de covid-19 j\u00e1 deixou mais de 3,7 de milh\u00f5es de mortos globalmente \u2014 Estados Unidos, Brasil e \u00cdndia tiveram as maiores perdas, em n\u00fameros absolutos.<\/p>\n<p>O mundo do s\u00e9culo 19 era muito diferente do atual, desde seus sistemas de governo predominantes at\u00e9 a dificuldade de obter informa\u00e7\u00f5es sobre doen\u00e7as ou fen\u00f4menos clim\u00e1ticos, como uma seca excepcional.<\/p>\n<p>Mesmo assim, o conceito de sindemia tamb\u00e9m se aplica \u00e0 Grande Seca de 1877-79, na avalia\u00e7\u00e3o do historiador Gleudson Passos.<\/p>\n<p>Naquele caso, ele explica, um &#8220;conjunto de for\u00e7as sin\u00e9rgicas formou uma trama&#8221; que relacionou diferentes crises \u2014 social, econ\u00f4mica, ambiental e produtiva \u2014, de forma que o resultado dessa combina\u00e7\u00e3o foi muito pior do que seria cada uma delas isolada.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o havia um registro centralizado oficial de \u00f3bitos no Brasil, n\u00e3o \u00e9 conhecido o n\u00famero definitivo de mortes causadas pela seca \u2014 que inclui, segundo todos os especialistas consultados, os mortos por var\u00edola no per\u00edodo.<\/p>\n<p>A estimativa de 500 mil v\u00edtimas poderia ser, portanto, conservadora. C\u00e1lculos do projeto Our World in Data, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, indicam que o Brasil teria perdido at\u00e9 750 mil durante os tr\u00eas anos de estiagem, epidemia e crise no nordeste.<\/p>\n<p>Mesmo com todas as diferen\u00e7as entre os momentos hist\u00f3ricos, a maior trag\u00e9dia humana documentada at\u00e9 ent\u00e3o no pa\u00eds se explica por uma combina\u00e7\u00e3o de fatores que ecoa nos dias atuais.<\/p>\n<p>A pandemia de covid-19, que come\u00e7ou em janeiro de 2020, est\u00e1 prestes a registrar meio milh\u00e3o de mortos no Brasil \u2014 que podem ser ao menos 35% mais, segundo alguns pesquisadores. Pouco mais de 11% da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 completamente imunizada contra o v\u00edrus (ap\u00f3s ter recebido as duas doses), cinco meses ap\u00f3s o in\u00edcio da vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/1F3C\/production\/_118969970_grafico-5-mortos-2020-2021-nc.png?v=3\" alt=\"Gr\u00e1fico de mortes acumuladas por covid-19 no Brasil desde o in\u00edcio da pandemia\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/1F3C\/production\/_118969970_grafico-5-mortos-2020-2021-nc.png?v=3\" \/>Nos \u00faltimos meses, especialistas t\u00eam repetido que a fatura macabra da pandemia poderia ser menor no pa\u00eds, n\u00e3o tivesse o v\u00edrus encontrado terreno f\u00e9rtil para se proliferar.<\/p>\n<p>Sua avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 que o pa\u00eds j\u00e1 se encontrava fragilizado por uma crise econ\u00f4mica quando se deparou com um evento global de propor\u00e7\u00f5es devastadoras.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o governo federal demorou a levar a crise a s\u00e9rio e perdeu-se em conflitos pol\u00edticos em vez de dar uma resposta consistente ao problema \u2014 faltaram testes em massa, barreiras sanit\u00e1rias, coordena\u00e7\u00e3o entre Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e secretarias estaduais.<\/p>\n<p>Por fim, criou um aux\u00edlio emergencial que n\u00e3o teve f\u00f4lego para acompanhar a longevidade da crise e errou na compra e distribui\u00e7\u00e3o das vacinas.<\/p>\n<p class=\"large-text\">O historiador Dain Borges ressalta que, diferentemente do Brasil do s\u00e9culo 19,\u00a0<span class=\"orange-highlight\">hoje \u00e9 claro que o Estado teria recursos para enfrentar melhor<\/span>\u00a0uma crise sanit\u00e1ria e social desse tipo.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que o governo brasileiro h\u00e1 um ano tinha capacidade de ter diminu\u00eddo a crise e n\u00e3o o fez. Pensando nisso, \u00e9 bem mais dif\u00edcil julgar os erros dos governos brasileiros de 1878 e 79&#8221;, conclui.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"vj-footer\">\n<hr class=\"sub-divide\" \/>\n<h2 class=\"vj-footer__title\" style=\"text-align: justify;\">Cr\u00e9ditos<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pesquisa e reportagem: Camilla Veras Mota (@cavmota) e Camilla Costa (@_camillacosta)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Edi\u00e7\u00e3o: Camilla Costa e Felipe Corazza<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Design e ilustra\u00e7\u00e3o: Cecilia Tombesi<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Programa\u00e7\u00e3o: Scott Jarvis e Shilpa Saraf<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a colabora\u00e7\u00e3o de Sally Morales<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Projeto liderado por Carol Olona<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fragilizados pela fome e aglomerados em acampamentos, os retirantes foram as primeiras e principais v\u00edtimas da epidemia de var\u00edola | Foto: Biblioteca Nacional<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":359749,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-359665","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/fortaleza-na-era-colonial.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/359665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=359665"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/359665\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/359749"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=359665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=359665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=359665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}