{"id":359750,"date":"2021-06-22T03:11:59","date_gmt":"2021-06-22T06:11:59","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=359750"},"modified":"2021-06-22T03:11:59","modified_gmt":"2021-06-22T06:11:59","slug":"a-invasao-dos-famintos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-invasao-dos-famintos\/","title":{"rendered":"A &#8216;invas\u00e3o&#8217; dos famintos"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"section-heading transitionalItem fade-up\"><\/h2>\n<p>Em 1877, cem anos depois da \u00faltima seca prolongada no Cear\u00e1, praticamente n\u00e3o caiu \u00e1gua do c\u00e9u entre janeiro e mar\u00e7o. Sem gado e sem colheita, teve in\u00edcio um grande \u00eaxodo dos sert\u00f5es em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 capital, Fortaleza.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que pregava parte dos intelectuais na capital do Imp\u00e9rio, o Rio de Janeiro, a chuva tamb\u00e9m n\u00e3o veio nos meses seguintes. E as fileiras de migrantes engrossaram com um ex\u00e9rcito de famintos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/275A\/production\/_118947001_sequia-victimas-1-nc.png?v=3\" alt=\"Fotos de retirantes cearenses em Fortaleza durante a Grande Seca\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/275A\/production\/_118947001_sequia-victimas-1-nc.png?v=3\" \/><\/p>\n<p class=\"image-caption\">Os refugiados eram fotografados em est\u00fadio em Fortaleza; a Grande Seca foi a primeira registrada dessa maneira | Foto: Biblioteca Nacional<\/p>\n<p>&#8220;Morria-se de fome, puramente de fome nas ruas da cidade, pelas estradas&#8221;, escreveu o m\u00e9dico cearense Bar\u00e3o de Studart.<\/p>\n<p>Desesperados, os retirantes comiam o que encontravam pelo caminho \u2014 inclusive vegetais venenosos que lhes acabavam tirando a vida.<\/p>\n<p>&#8220;Depois de alimentar-se de ra\u00edzes silvestres (especialmente da mucun\u00e3), de algumas esp\u00e9cies de cactus (chique-chique, mandacaru) e brom\u00e9lias (coroat\u00e1, macambira), do palmito da carna\u00faba e de outras palmeiras, das am\u00eandoas e entrecasca do cocos, o faminto passara a comer as carnes mais repugnantes, como a dos c\u00e3es, a dos abutres e corvos, e a dos r\u00e9pteis.&#8221;<\/p>\n<p class=\"large-text\">Em dezembro de 1877, 80 mil haviam chegado a Fortaleza,\u00a0<span class=\"orange-highlight\">n\u00famero quatro vezes maior que a popula\u00e7\u00e3o da capital, 19 mil.<\/span><\/p>\n<p>Uma multid\u00e3o que ficava na rua, nas pra\u00e7as, sob a sombra dos cajueiros, como descrevem os livros da \u00e9poca.<\/p>\n<p>O Cear\u00e1, al\u00e9m da prov\u00edncia mais afetada, \u00e9 tamb\u00e9m a que melhor manteve registros estat\u00edsticos da migra\u00e7\u00e3o dos retirantes e do clima. Os \u00fanicos dados dispon\u00edveis sobre os \u00edndices pluviom\u00e9tricos do nordeste no per\u00edodo, por exemplo, v\u00eam da esta\u00e7\u00e3o climatol\u00f3gica de Fortaleza, diz a pesquisadora Deepti Singh.<\/p>\n<p>No entanto, documentos e jornais da \u00e9poca contam como a seca prejudicou tamb\u00e9m as prov\u00edncias vizinhas.<\/p>\n<p>Os governos de Pernambuco e Alagoas, por exemplo, se desentenderam porque ambos julgavam n\u00e3o ter responsabilidade sobre um contingente de 9 mil retirantes concentrados na fronteira. Alagoas dizia que os migrantes s\u00f3 estavam ali porque tentavam chegar ao dep\u00f3sito de alimentos pernambucano instalado em Taracatu; Pernambuco alegava que, tecnicamente, as pessoas ainda estavam em solo alagoano.<\/p>\n<p>O historiador Roger Cunniff, que esteve no Brasil na d\u00e9cada de 1960 para pesquisar o tema, relatou este e outros epis\u00f3dios em\u00a0<i>The Great Drought: Northeast Brazil, 1877-1880<\/i>\u00a0(&#8220;A Grande Seca: Nordeste do Brasil, 1877-1880&#8221;, em tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>Em outro trecho, ele narra o desespero de migrantes que cruzam o rio S\u00e3o Francisco de Pernambuco para a Bahia, menos afetada pela seca do que as demais, e invadiam as fazendas para pedir esmolas e roubar.<\/p>\n<p>&#8220;Era uma crise de refugiados&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil Dain Borges, professor do departamento de Hist\u00f3ria da Universidade de Chicago e pesquisador dos s\u00e9culos 19 e 20 na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/4E6A\/production\/_118947002_sequia-victimas-2-nc.png?v=3\" alt=\"Fotos de retirantes cearenses em Fortaleza durante a Grande Seca\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/800\/cpsprodpb\/4E6A\/production\/_118947002_sequia-victimas-2-nc.png?v=3\" \/><\/p>\n<p class=\"image-caption\">As fotos dos famintos eram acompanhadas de poemas sobre a seca e se transformavam e cart\u00f5es postais, para sensibilizar a popula\u00e7\u00e3o do sul | Foto: Biblioteca Nacional<\/p>\n<p>Se tornaram emblem\u00e1ticas as imagens chocantes de homens, mulheres e crian\u00e7as esqu\u00e1lidas feitas dentro do est\u00fadio do fot\u00f3grafo Joaquim Antonio Corr\u00eaa em Fortaleza.<\/p>\n<p>Ele trabalhou na \u00e9poca com o jornalista Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio, enviado pela Gazeta do Rio de Janeiro para o Cear\u00e1, de onde narrava a seca sob a rubrica &#8220;Viagem ao Norte&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo o professor do departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Estadual do Cear\u00e1 (UECE) Gleudson Passos, essa foi a primeira vez que uma seca foi registrada em fotografias no Brasil.<\/p>\n<p>A ideia de expor e explorar a mis\u00e9ria dos retirantes era sensibilizar a opini\u00e3o p\u00fablica e alertar para a gravidade dos fatos que se desenrolavam nas chamadas prov\u00edncias do Norte, que parte dos brasileiros do sul do pa\u00eds achava ser exagero.<\/p>\n<p>Os jornais contavam hist\u00f3rias de mulheres que se prostitu\u00edam por um prato de comida, de pais que vendem e at\u00e9 mesmo comiam os pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n<p>&#8220;Se bestializava os miser\u00e1veis nessas descri\u00e7\u00f5es, inclusive naquelas que querem criar empatia e miseric\u00f3rdia com o retirantes&#8221;, disse \u00e0 BBC News Brasil a professora do departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal Fluminense (UFF) Ver\u00f3nica Secreto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/666\/cpsprodpb\/11664\/production\/_118886217_recortes-sequia-1877s-nc.png?v=3\" alt=\"Montagem de an\u00fancios do jornal Gazeta de Not\u00edcias sobre bailes beneficentes e arrecada\u00e7\u00f5es para os afetados pela seca\" data-src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/666\/cpsprodpb\/11664\/production\/_118886217_recortes-sequia-1877s-nc.png?v=3\" \/><\/p>\n<p class=\"image-caption\">Na capital imperial, a alta sociedade organizava bailes, pe\u00e7as de teatro e concertos em benef\u00edcio aos afetados pela fome | Fotos: Biblioteca Nacional<\/p>\n<p>A &#8220;campanha para sensibilizar finalmente a corte&#8221; deu certo. Na capital do Imp\u00e9rio e nas prov\u00edncias do Sul, comit\u00eas passaram a organizar bailes e banquetes beneficentes em favor das &#8220;v\u00edtimas da seca&#8221;, que suplementassem o aux\u00edlio do governo.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia virou inclusive not\u00edcia na imprensa internacional. A Scribner&#8217;s Magazine de Nova York chegou a enviar um correspondente ao Cear\u00e1 para cobrir a seca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1877, cem anos depois da \u00faltima seca prolongada no Cear\u00e1, praticamente n\u00e3o caiu \u00e1gua do c\u00e9u entre janeiro e mar\u00e7o. Sem gado e sem colheita, teve in\u00edcio um grande \u00eaxodo dos sert\u00f5es em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 capital, Fortaleza.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que pregava parte dos intelectuais na capital do Imp\u00e9rio, o<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":359751,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[327,6],"tags":[],"class_list":["post-359750","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-multimidia","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/famintos-do-ceara.png","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/359750","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=359750"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/359750\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/359751"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=359750"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=359750"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=359750"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}