{"id":366290,"date":"2021-09-05T08:44:30","date_gmt":"2021-09-05T11:44:30","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=366290"},"modified":"2021-09-05T08:44:30","modified_gmt":"2021-09-05T11:44:30","slug":"na-moda-negacionismo-surgiu-na-idade-media-quando-ciencia-ameacava-dogmas-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/na-moda-negacionismo-surgiu-na-idade-media-quando-ciencia-ameacava-dogmas-da-igreja\/","title":{"rendered":"&#8216;Na moda&#8217;, negacionismo surgiu na Idade M\u00e9dia, quando ci\u00eancia amea\u00e7ava dogmas da Igreja"},"content":{"rendered":"<div class=\"row visible-lg\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"noticias-single__tags\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-lg-3\">\n<div class=\"noticias-single__meta\">\n<div class=\"noticias-single__author\">\n<div>Clarissa Pacheco<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-lg-9\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"noticias-single__image\"><picture class=\"noticias-single__picture\"><source srcset=\"https:\/\/correio-cdn1.cworks.cloud\/fileadmin\/_processed_\/7\/f\/csm_Liestal_Suica_AFP_39d0b10718.jpeg\" media=\"(min-width: 420px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"noticias-single__image-source\" src=\"https:\/\/correio-cdn3.cworks.cloud\/fileadmin\/_processed_\/7\/f\/csm_Liestal_Suica_AFP_d4fcf3cb6d.jpeg\" alt=\"Cartaz em alem\u00e3o diz: 'Parem a loucura do corona imediatamente'; protesto foi em Liestal, na Su\u00ed\u00e7a, em mar\u00e7o deste ano\" \/><\/picture><span class=\"noticias-single__image-caption\">Cartaz em alem\u00e3o diz: &#8216;Parem a loucura do corona imediatamente&#8217;; protesto foi em Liestal, na Su\u00ed\u00e7a, em mar\u00e7o deste ano (STEFAN WERMUTH \/ AFP)<\/span><\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 noticias-single__stick-parent\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-md-7 col-lg-7\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"noticias-single__description visible-lg\"><strong>Grupos negacionistas atacam a ci\u00eancia e negam de tudo um pouco: desde a pandemia at\u00e9 a circunfer\u00eancia da Terra e o Holocausto<\/strong><\/div>\n<div class=\"noticias-single__content-area noticias-single__content-area--before-content\">\n<div class=\"chamada-assinatura\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"noticias-single__content\">\n<div class=\"noticias-single__content__text js-mediator-article\">\n<p class=\"bodytext\">Coberto da cabe\u00e7a aos p\u00e9s com um macac\u00e3o branco imperme\u00e1vel e ocultando o rosto com uma m\u00e1scara do personagem V, do filme V de Vingan\u00e7a, um homem caminha por uma rua de Liestal, na Su\u00ed\u00e7a, acompanhado de uma pequena multid\u00e3o. Em seu pesco\u00e7o, um cartaz chama a aten\u00e7\u00e3o: \u201cParem a loucura do corona imediatamente\u201d. Para ele, a pandemia n\u00e3o existe, \u00e9 um surto coletivo. E o pior \u00e9 que ele n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3. Em Londres, na Inglaterra, um protesto de negacionistas re\u00fane 15 mil pessoas, aglomeradas e sem m\u00e1scaras. \u201cOnde est\u00e1 a pandemia?\u201d, questiona uma mulher, segurando uma placa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A pandemia que ela nega j\u00e1 matou 4,5 milh\u00f5es de pessoas em todo o mundo \u2013 581 mil s\u00f3 no Brasil \u2013, mas ainda h\u00e1 muita gente capaz de afirmar categoricamente que ela n\u00e3o existe. No ano passado, um advogado alem\u00e3o iniciou uma a\u00e7\u00e3o civil coletiva milion\u00e1ria cujo principal argumento era justamente dizer que a pandemia era uma farsa \u2013 e o que pand\u00eamica, mesmo, era a realiza\u00e7\u00e3o de testes PCR, aqueles usados para detectar casos de covid-19. O alvo dele? Dois cientistas consideradas as maiores autoridades sanit\u00e1rias do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">No Brasil, as pessoas tomam as ruas com cartazes contra a vacina, enquanto elas s\u00e3o atacadas diariamente nas redes sociais com milhares de pe\u00e7as de desinforma\u00e7\u00e3o. J\u00e1 nos Estados Unidos, onde 99% das mortes atuais por covid-19 s\u00e3o de pessoas que n\u00e3o se vacinaram \u2013 porque negam a efic\u00e1cia das vacinas \u2013 o governo considera viver outra pandemia dentro da pandemia do coronav\u00edrus: a dos negacionistas, ou dos antivacina. \u00a0Mas, afinal, o que essas pessoas tanto negam? E desde quando elas se tornaram t\u00e3o numerosas \u2013 ou, pelo menos, t\u00e3o barulhentas e convincentes?<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Ao longo da hist\u00f3ria, pessoas e grupos pol\u00edticos t\u00eam negado de tudo um pouco. E, embora o termo negacionismo tenha se popularizado nos \u00faltimos anos, ainda mais intensamente desde o in\u00edcio da pandemia do SARS-CoV-2, o fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 novo, nem nasceu junto com comportamentos de extrema-direita.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cA verdade \u00e9 que ele remonta j\u00e1 ao final do medievo e in\u00edcio da Idade Moderna, quando algumas descobertas cient\u00edficas amea\u00e7avam os dogmas religiosos. As autoridades religiosas negavam os avan\u00e7os cient\u00edficos e as reflex\u00f5es feitas pelos fil\u00f3sofos humanistas\u201d<\/strong>, explica a historiadora Natalia Reis, professora de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea da Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/p>\n<\/blockquote>\n<div class=\"single-publicidade\">\n<div id=\"div-gpt-ad-1558981264142-0\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Afronta a Deus\u00a0<\/strong><br \/>\nPara Natalia, os negacionistas se preocupam em reafirmar sua ideologia \u2013 e negar o que pode ser visto como uma amea\u00e7a ao seu poder. \u201cO que move os negacionistas, em geral, \u00e9 a preocupa\u00e7\u00e3o em negar tudo aquilo que \u00e9 inconveniente \u00e0s suas ideologias pol\u00edticas e sociais, muitas vezes servem a interesses pol\u00edticos. No caso da Igreja, o seu monop\u00f3lio sobre os fi\u00e9is e a sua forma de pensar era um meio de manuten\u00e7\u00e3o do seu poder pol\u00edtico e social\u201d, exemplifica.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Foi essa preocupa\u00e7\u00e3o que fez com que a Inquisi\u00e7\u00e3o romana perseguisse e condenasse Giordano Bruno \u00e0 morte, no final do s\u00e9culo XVI. O frade, fil\u00f3sofo, te\u00f3logo e matem\u00e1tico napolitano foi acusado de heresia ao questionar uma s\u00e9rie de dogmas da Igreja Cat\u00f3lica e ainda defender a exist\u00eancia de vida em outros planetas. A teoria conhecida como pluralismo c\u00f3smico acabou culminando na morte de Giordano Bruno em 1600, numa fogueira no Campo dei Fiori, em Roma, com plateia e tudo.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/1\/a\/csm_1024px-Statua_di_Giordano_Bruno_Francesca_Soria_42b7f3598e.jpg\" width=\"1000\" height=\"658\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Giordano Bruno ganhou est\u00e1tua no Campo dei Fiori, em Roma, onde foi morto em 1600<\/strong><br \/>\n(Foto: Francesca Soria)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<div class=\"single-publicidade\">\n<div id=\"div-gpt-ad-1558981401166-0\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\">Quem n\u00e3o quis ter o mesmo fim, acabou negando suas pr\u00f3prias descobertas cient\u00edficas. \u201cFoi o caso de Galileu Galilei, que desenvolveu a teoria do heliocentrismo, indo contra o dogma geoc\u00eantrico da Igreja, que era baseado em interpreta\u00e7\u00f5es b\u00edblicas. Tais descobertas eram vistas como uma esp\u00e9cie de afronta a Deus\u201d, completa Natalia.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A teoria de que o Sol \u00e9 o centro do universo de Galileu Galilei se estabeleceu. Mas, outras descobertas cient\u00edficas ainda s\u00e3o negadas por alguns grupos, como a esfericidade da terra, medida h\u00e1 mais de 2 mil anos por Erat\u00f3stenes. Faz apenas dois anos, por exemplo, que um ex-jogador de futebol espanhol criou seu pr\u00f3prio time negacionista: o Terra Plana FC. Nos jogos, a torcida gritava que \u201cToda ci\u00eancia n\u00e3o passa de uma grande mentira\u201d e &#8220;A Nasa \u00e9 uma fraude&#8221;.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A diretoria do clube, que se desfez em julho passado, defendia que a Terra n\u00e3o \u00e9 redonda \u2013 mesmo que Erat\u00f3stenes, que nasceu em 276 a.C., tenha medido a circunfer\u00eancia da Terra e que os pr\u00f3prios espanh\u00f3is tenham, l\u00e1 no s\u00e9culo XVI, feito a primeira viagem de circum-navega\u00e7\u00e3o com base na descoberta da esfericidade da Terra. As naus, ent\u00e3o, \u2013 ufa! \u2013 n\u00e3o despencariam quando chegassem \u00e0 &#8216;borda&#8217; da Terra.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\">\n<div id=\"div-gpt-ad-1558985512674-0\"><\/div>\n<\/div>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/6\/6\/csm_Detail_from_a_map_of_Ortelius_-_Magellan_s_ship_Victoria_60f6df22ed.png\" width=\"1000\" height=\"610\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Expedi\u00e7\u00e3o de circum-navega\u00e7\u00e3o, comandada por Fern\u00e3o de Magalh\u00e3s, teve cinco embarca\u00e7\u00f5es; s\u00f3 a Victoria conseguiu retonar<\/strong><br \/>\n(Mapa: Ortelius\/Dom\u00ednio P\u00fablico)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\"><strong>Nega\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia\u00a0<\/strong><br \/>\nPara Natalia Reis, \u00e9 poss\u00edvel falar em negacionismo \u201csempre que algum movimento pol\u00edtico ou algum indiv\u00edduo nega o que a ci\u00eancia j\u00e1 comprovou com base em pesquisas emp\u00edricas ou em reflex\u00f5es baseadas no m\u00e9todo cient\u00edfico\u201d. \u00c9 o que acontece, por exemplo, quando grupos ou pessoas negam a exist\u00eancia da pandemia, a efic\u00e1cia das vacinas, a circunfer\u00eancia da Terra, os efeitos do aquecimento global ou \u2013 um caso cl\u00e1ssico de negacionismo \u2013 o Holocausto.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">\u00c9 um fen\u00f4meno t\u00e3o intrigante que o pesquisador John Cook, do Center for Climate Change Communication, da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, criou um projeto para combater o negacionismo na ci\u00eancia, sobretudo em quest\u00f5es sobre o aquecimento global. O Skeptical Science (Ci\u00eancia C\u00e9tica), acumula uma lista dos argumentos c\u00e9ticos mais usados para negar o aquecimento global e os contrap\u00f5e com o que a ci\u00eancia diz a respeito. A lista, por enquanto, tem 198 mitos \u2013 inclusive um que afirma que o que aquece a Terra \u00e9 o Sol.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\">\n<div id=\"div-gpt-ad-1563386375579-0\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\">O tamb\u00e9m historiador Valdei Lopes de Ara\u00fajo, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Hist\u00f3ria (Anpuh) e professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) explica que a ci\u00eancia entra na mira dos negacionistas por ser uma forma de autoridade.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201c\u00c9 um discurso contra tudo que est\u00e1 a\u00ed. E a ci\u00eancia, que \u00e9 uma forma de autoridade constitu\u00edda, acaba sendo um alvo\u201d<\/strong>, aponta Valdei.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Na era das transforma\u00e7\u00f5es digitais, onde todo mundo \u00e9 um pouco produtor de conte\u00fado, as coisas tendem a sair do controle. O negacionismo passa a se confundir, inclusive, com a desinforma\u00e7\u00e3o.\u00a0\u201cVira um grande mercado, deixa de ser um boato que atingia pequenas comunidades. Algu\u00e9m monta um blog para alimentar essas teorias da conspira\u00e7\u00e3o, ganha dinheiro, amplia a audi\u00eancia, logo aparece um candidato para defender aquilo. No limite, isso leva \u00e0s sociedades \u00e0 extin\u00e7\u00e3o, porque se cria uma realidade compartilhada. O caso da vacina \u00e9 evidente, est\u00e1 morrendo muito mais gente que n\u00e3o acredita que elas funcionem\u201d, pontua.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Para o cientista de dados e coordenador da Rede An\u00e1lise Covid, Isaac Schrarstzhaupt, um fundo emocional pode ajudar a explicar por que as pessoas acreditam: \u201cNo caso da pandemia, envolve o nosso medo e a nossa vontade individual. A pessoa v\u00ea a not\u00edcia ruim e come\u00e7a a negar, a n\u00e3o aceitar. E a\u00ed ela come\u00e7a a buscar informa\u00e7\u00f5es at\u00e9 achar algo que diga o que ela quer\u201d.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os efeitos disso est\u00e3o claros, aponta a jornalista, editora de Ci\u00eancias do Jornal da USP e divulgadora cient\u00edfica Luiza Caires.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cJ\u00e1 estamos vendo os efeitos perniciosos do crescimento desse ataque \u00e0 ci\u00eancia e a promo\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es pretensamente baseadas em ci\u00eancia, mas que n\u00e3o o s\u00e3o. Cria-se a d\u00favida (n\u00e3o a d\u00favida saud\u00e1vel), a inseguran\u00e7a. \u2018Vence-se\u2019 o debate (em quest\u00f5es que nem deveria haver um) pelo grito, pela ret\u00f3rica e apelo emocional e se convence as pessoas a fazerem escolhas erradas para sua sa\u00fade, por exemplo\u201d<\/strong>, exp\u00f5e Luiza.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>O Holocausto\u00a0<\/strong><br \/>\nPara a Hist\u00f3ria, nem tudo \u00e9 negacionismo. E \u00e9 comum que outro termo seja usado como sin\u00f4nimo: revisionismo. Contudo, s\u00e3o fen\u00f4menos diferentes, como explica a historiadora Ana Carolina Barbosa Pereira, professora de Teoria da Hist\u00f3ria da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Na pr\u00e1tica, revisionistas desenvolvem teses historiogr\u00e1ficas, geralmente pol\u00eamicas e permeadas de erros, mas constru\u00eddas com m\u00e9todo hist\u00f3rico, debatidas entre profissionais da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O negacionismo, pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o se firma em um m\u00e9todo.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cAs estrat\u00e9gias negacionistas s\u00e3o muito diversas e apresentam diferentes nuances. Podem se manifestar tanto na forma de comportamentos quanto de discursos, se baseiam em generaliza\u00e7\u00f5es, omiss\u00f5es ou mesmo ataques diretos \u00e0 ci\u00eancia e aos historiadores(as), em vez de seus argumentos, ideias ou resultados de pesquisa. O negacionismo \u00e9, como afirma Caroline Bauer, sempre anticient\u00edfico ou pseudocient\u00edfico, assim como o ataque \u00e0 ci\u00eancia e aos cientistas \u00e9 uma constante\u201d<\/strong>, afirma Ana Carolina.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Um dos negacionismos hist\u00f3ricos mais difundidos \u00e9 o do Holocausto. \u201c\u00c9 a nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de campos de exterm\u00ednio e das c\u00e2maras de g\u00e1s, a omiss\u00e3o de testemunhos que informam sobre o n\u00famero de v\u00edtimas, a deslegitima\u00e7\u00e3o dos testemunhos dos sobreviventes, dentre outras estrat\u00e9gias\u201d, explica a historiadora.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Entre essas outras estrat\u00e9gias est\u00e3o, por exemplo, o surgimento de outras interpreta\u00e7\u00f5es e at\u00e9 justificativas. \u201cDizem que o nazismo foi uma rea\u00e7\u00e3o ao comunismo, uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Era um pouco como \u2018passar o pano\u2019, como a gente diz hoje\u201d, completa o professor Valdei Lopes de Ara\u00fajo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Uma das hist\u00f3rias mais impressionantes em torno disso come\u00e7ou com a publica\u00e7\u00e3o de um livro em 1993. A historiadora estadunidense Deborah Lipstadt lan\u00e7ou Negando o Holocausto: O Crescente Ataque \u00e0 Verdade e \u00e0 Mem\u00f3ria (Plume Books, 304 p., R$ 85, em ingl\u00eas). Num trecho, ela falava sobre a forma equivocada como o escritor brit\u00e2nico David Irving interpretava documentos para que eles \u2018confirmassem\u2019 a tese dele de que c\u00e2maras de g\u00e1s nunca tinham sido usadas para exterminar judeus.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/3\/3\/csm_DENIAL_09195_R-min-scaled-e1609899670433-1536x852_e8b9fad687.jpg\" width=\"1000\" height=\"555\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Historiadora Deborah Lipstadt (\u00e0 direita) foi processada ap\u00f3s criticar negacionismo de escritor brit\u00e2nico; julgamento virou livro e filme, em que ela foi interpretada pela atriz Rachel Weisz (\u00e0 esquerda)<\/strong><br \/>\n(Foto: BBC Filmes)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">Irving processou Lipstadt e a pesquisadora precisou provar na Justi\u00e7a que o Holocausto existiu. Na verdade, a estrat\u00e9gia usada por ela e sua defesa foi outra: em vez de provar a exist\u00eancia do Holocausto, expondo sobreviventes a depoimentos nos tribunais, Deborah provou que a hist\u00f3ria contada por Irving era uma mentira. Em 2000, ap\u00f3s 32 dias de julgamento de um processo que caminhou por seis anos, a Justi\u00e7a decidiu que Deborah n\u00e3o havia difamado Irving, que ele era um \u201cnegador do Holocausto\u201d, al\u00e9m de racista e antissemita.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O caso gerou outro livro de Deborah, Nega\u00e7\u00e3o (Universo dos Livros, 432 p., R$ 27), no qual ela narra o julgamento em Londres. O livro deu origem a um filme hom\u00f4nimo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u2018Assassinos da mem\u00f3ria\u2019\u00a0<\/strong><br \/>\nO cientista John Cook, aquele que mentou uma lista dos principais mitos em torno do aquecimento global, tamb\u00e9m criou um acr\u00f4nimo para que as pessoas possam memorizar e identificar facilmente um discurso negacionista no dia a dia: FLICC. O acr\u00f4nimo se refere aos termos em ingl\u00eas \u2018fake experts\u2019 (falsos especialistas), \u2018logical fallacies\u2019 (l\u00f3gicas falaciosas), \u2018Impossible expectations\u2019 (expectativas imposs\u00edveis), \u2018cherry picking\u2019 (supress\u00e3o de evid\u00eancias) e \u2018conspiracy theories\u2019 (teorias da conspira\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Na hist\u00f3ria, Pierre Vidal Naquet escreveu Os Assassinos da Mem\u00f3ria (Papirus, 216p, esgotado), com um modus operandi dos negacionismos e suas manifesta\u00e7\u00f5es e motiva\u00e7\u00f5es:\u00a0parte-se de uma hip\u00f3stase \u00a0&#8211; o que importa \u00e9 confirmar o que j\u00e1 se sabe de antem\u00e3o, sem espa\u00e7o para a d\u00favida; nega\u00e7\u00e3o pura e simples do acontecimento hist\u00f3rico; generaliza\u00e7\u00f5es e omiss\u00f5es; deslegitima\u00e7\u00e3o dos testemunhos contr\u00e1rios e aceita\u00e7\u00e3o acr\u00edtica dos favor\u00e1veis \u00e0s teses negacionistas; mobiliza\u00e7\u00e3o de artimanha pseudot\u00e9cnica e pseudocient\u00edfica.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cQuando falamos em negacionismos hist\u00f3ricos, n\u00f3s estamos sempre nos referindo a disputas em torno da mem\u00f3ria coletiva que motivam as falsifica\u00e7\u00f5es, deturpa\u00e7\u00f5es ou at\u00e9 mesmo nega\u00e7\u00f5es pura e simples da realidade dos acontecimentos hist\u00f3ricos\u201d<\/strong>, aponta Ana Carolina.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">No Brasil, um dos grandes alvos de negacionismo \u00e9 a ditadura civil-militar. \u201cVoc\u00ea tem dois caminhos para negar: um \u00e9 dizer n\u00e3o foi ditadura, que n\u00e3o foi golpe, foi antigolpe. N\u00e3o h\u00e1 evidencia de que houvesse planejamento para golpe comunista, mas se usou isso como justificativa. Se n\u00e3o havia uma golpe comunista, voc\u00ea n\u00e3o pode dizer que houve um contragolpe. Outro caminho \u00e9 dizer que houve tortura, mas que ela se justificava pelo contexto hist\u00f3rico. A\u00ed \u00e9 com poucas evid\u00eancias e com um problema \u00e9tico: como se pode aceitar a tortura?\u201d, questiona Valdei Lopes de Ara\u00fajo, lembrando que o assunto foi trazido de volta \u00e0 tona por Jair Bolsonaro, em 2016, ao elogiar o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores da ditadura militar brasileira, como se fosse um her\u00f3i.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">***<\/p>\n<h3><strong>Contra o negacionismo, a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica<\/strong><\/h3>\n<p class=\"bodytext\">Se \u00e9 pelas redes sociais que os negacionistas ganham espa\u00e7o, constroem suas narrativas e convencem outras pessoas, esse parece ser, tamb\u00e9m, o melhor ambiente onde cientistas e outras pesquisadores podem combater esse tipo de atua\u00e7\u00e3o. O desafio \u00e9 valorizar o papel da ci\u00eancia e se comunicar melhor com a sociedade. Para o historiador Valdei Lopes de Ara\u00fajo, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Hist\u00f3ria (Anpuh) e professor da Federal de Ouro Preto (Ufop), n\u00f3s j\u00e1 vivemos outras ondas como essa: no s\u00e9culo XIX, com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e a explos\u00e3o da imprensa, e no s\u00e9culo XX, na era do r\u00e1dio.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cCom a expans\u00e3o do r\u00e1dio, voc\u00ea tem uma onda de desinforma\u00e7\u00e3o que vai dar origem ao fascismo. Agora, n\u00f3s vivemos a onda das redes sociais e da internet, crises do sistema de m\u00eddia em escala global. Isso vai ter que ser resolvido pela pol\u00edtica, pela regula\u00e7\u00e3o, pela constru\u00e7\u00e3o de ferramentas para qualificar essa informa\u00e7\u00e3o, pelo refor\u00e7o da ci\u00eancia, dos sistemas de curadoria da informa\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong>, aponta Valdei.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">\u00c9 um pouco o que vem sendo feito na Anpuh, com a valoriza\u00e7\u00e3o do historiador, do professor de hist\u00f3ria \u2013 atacado, por exemplo, pelo projeto Escola Sem Partido. A Associa\u00e7\u00e3o vem melhorando as formas de comunica\u00e7\u00e3o com a sociedade e acolhendo as demandas. \u201cO inimigo \u00e9 a desinforma\u00e7\u00e3o\u201d, afirma Valdei.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Falar de ci\u00eancia de forma cada vez mais clara tem sido, ali\u00e1s, uma das estrat\u00e9gias, principalmente, de jornalistas especializados. \u201cProcuramos, ainda mais do que antes, ser bastante claros, n\u00e3o dar margem a ambiguidades em textos e t\u00edtulos. N\u00e3o noticiar o que ainda n\u00e3o est\u00e1 muito bem resolvido sem deixar bastante claro que a ci\u00eancia ainda n\u00e3o tem certeza sobre aquilo. Mas o respeito ao p\u00fablico, a busca da verdade, e a transpar\u00eancia devem permanecer\u201d, afirma a jornalista Luiza Caires, divulgadora cient\u00edfica e editora de Ci\u00eancias do Jornal da USP.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Para o cientista de dados e coordenador da Rede An\u00e1lise Covid, Isaac Schrarstzhaupt, a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica serve para preencher um vazio de informa\u00e7\u00e3o e de lideran\u00e7a. Foi por ver esse vazio que ele decidiu partir para a divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cAs pessoas estavam perdidas. O m\u00e1ximo que as prefeituras faziam era divulgar uns gr\u00e1ficos e eu pensava: minha m\u00e3e vai olhar para esse gr\u00e1fico e n\u00e3o vai entender. Eu decidi ajudar as pessoas a entender os riscos\u201d<\/strong>, afirma Isaac, que explica situa\u00e7\u00f5es da pandemia atrav\u00e9s de storytelling.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">\u201cN\u00f3s, adultos, temos uma autonomia para tomada de decis\u00e3o. Mas, entre a autonomia e a tomada de decis\u00e3o, tem uma zona cinzenta que \u00e9 tomada informa\u00e7\u00e3o. Ali eu decido se eu mando meu filho para a escola ou se eu n\u00e3o mando. Essa informa\u00e7\u00e3o, da\u00ed a import\u00e2ncia da divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, vem para preencher essa zona cinzenta das pessoas\u201d, completa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">***<\/p>\n<h3><strong>N\u00e3o d\u00e1 para negar<\/strong><\/h3>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8211; A Terra \u00e9 redonda<\/strong><br \/>\nH\u00e1 mais de 2 mil anos, o matem\u00e1tico Erat\u00f3stenes de Cirene mediu a circunfer\u00eancia da Terra ao comparar os tamanhos das sombras de estacas de madeira fincadas no solo de duas cidades diferentes no Egito: Siena e Alexandria. Ao meio-dia, n\u00e3o havia sombra em Siena, mas havia em Alexandria. Se a Terra fosse plana, n\u00e3o haveria diferen\u00e7a nas sombras. No s\u00e9culo XVI, a expedi\u00e7\u00e3o de Fern\u00e3o de Magalh\u00e3es, patrocinada pela Espanha, fez a primeira viagem de circum-navega\u00e7\u00e3o, provando a circunfer\u00eancia a Terra.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8211; O Holocausto existiu<\/strong><br \/>\nEstudiosos ressaltam o quanto \u00e9 dif\u00edcil precisar o n\u00famero de judeus exterminados pelos nazistas no Holocausto, sobretudo por conta da destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de documentos pelos nazistas. Mas, dois dos principais centros de pesquisa sobre o tema \u2013 o Yad Vashem, em Israel, e o Museu do Holocausto, em Washington \u2013 estimam em 6 milh\u00f5es de pessoas. No Brasil, o Museu do Holocausto de Curitiba (PR) coleta\u00a0<a href=\"https:\/\/www.museudoholocausto.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">depoimentos de sobreviventes que chegaram ao Brasil<\/a>\u00a0e contam os horrores dos campos de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8211; Brasil viveu ditadura militar<\/strong><br \/>\nO Brasil viveu um golpe militar em 1964 e uma ditadura militar na sequ\u00eancia. Negacionistas costumam argumentar que houve um contragolpe, uma resposta a uma amea\u00e7a de golpe comunista, mas n\u00e3o h\u00e1 provas de que havia uma amea\u00e7a de golpe comunista no pa\u00eds. Tamb\u00e9m se costuma negar as torturas, a despeito dos documentos e dos depoimentos de sobreviventes.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8211; H\u00e1 aquecimento global<\/strong><br \/>\nDe acordo com dados do site Skeptical Science, desenvolvido pelo pesquisador estadunidense John Cook, 97% dos especialistas em clima do mundo concordam que os humanos est\u00e3o causando o aquecimento global. A Ant\u00e1rtida, por exemplo, est\u00e1 perdendo gelo em taxa acelerada, ao contr\u00e1rio do que dizem os que negam o aquecimento.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8211; A pandemia \u00e9 real<\/strong><br \/>\nA Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS) decretou a pandemia do coronav\u00edrus em mar\u00e7o de 2020. Isso acontece quando a dissemina\u00e7\u00e3o de uma doen\u00e7a j\u00e1 ocorre em escala mundial. Segundo a OMS, j\u00e1 foram registrados mais de 218 milh\u00f5es de casos e 4,5 milh\u00f5es de mortes por covid-19 nos cinco continentes.<\/p>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8211; Vacinas salvam vidas<\/strong><br \/>\nA ci\u00eancia j\u00e1 provou que a vacina\u00e7\u00e3o eliminou ou reduziu drasticamente a incid\u00eancia de doen\u00e7as que matavam milhares de pessoas. No Brasil, por exemplo, a vacina\u00e7\u00e3o foi respons\u00e1vel por erradicar a var\u00edola e a poliomielite. No mundo, a var\u00edola matou mais de 300 milh\u00f5es de pessoas. A OMS estima que mais de 1,5 milh\u00e3o de mortes na inf\u00e2ncia tenham sido evitadas com a vacina\u00e7\u00e3o contra p\u00f3lio.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grupos negacionistas atacam a ci\u00eancia e negam de tudo um pouco: desde a pandemia at\u00e9 a circunfer\u00eancia da Terra e o Holocausto<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":366291,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-366290","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Giordano-Bruno-Francesca.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366290","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=366290"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/366290\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/366291"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=366290"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=366290"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=366290"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}