{"id":366409,"date":"2021-09-06T06:49:10","date_gmt":"2021-09-06T09:49:10","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=366409"},"modified":"2021-09-06T06:49:10","modified_gmt":"2021-09-06T09:49:10","slug":"campanha-da-legalidade-impedia-um-golpe-ha-60-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/campanha-da-legalidade-impedia-um-golpe-ha-60-anos\/","title":{"rendered":"\u201cCampanha da Legalidade\u201d impedia um golpe h\u00e1 60 anos"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"blog-post-title\"><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/encrypted-tbn0.gstatic.com\/images?q=tbn:ANd9GcRq7VLoaY6ZNc794-i83qdudGje2pEjMGEO5Q&amp;usqp=CAU\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p><strong>Por Roberto Claudio*<\/strong><\/p>\n<p>Foram dias tensos, parecidos com os atuais. Entre 25 de agosto e 7 de setembro de 1961, o Brasil assistia a mais um nervoso cap\u00edtulo da sua breve e conturbada hist\u00f3ria democr\u00e1tica. Sob forte influ\u00eancia de interesses internacionais e o apoio de setores da elite brasileira, acontecia uma tentativa dos ministros das For\u00e7as Armadas de veto \u00e0 posse autom\u00e1tica e constitucional do vice-presidente eleito Jo\u00e3o Goulart, em raz\u00e3o da ren\u00fancia do ent\u00e3o presidente J\u00e2nio Quadros.<\/p>\n<p>A ret\u00f3rica anticomunista dos ministros militares era a narrativa oficial para o golpe, que tinha como consequ\u00eancia o rompimento constitucional com o veto \u00e0 posse de Jango. Entretanto, n\u00e3o havia apoio popular para a iniciativa e bem poucos pol\u00edticos de express\u00e3o nacional \u2013 como o ent\u00e3o governador da Guanabara, Carlos Lacerda \u2013, manifestavam apoio expl\u00edcito ao que queriam os ministros militares.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em um pa\u00eds com um cen\u00e1rio tecnol\u00f3gico e comunicacional bastante distinto dos atuais, com a propaga\u00e7\u00e3o mais lenta e o alcance menor dos canais de comunica\u00e7\u00e3o, nasceu uma forte insurg\u00eancia pol\u00edtica, em defesa da Constitui\u00e7\u00e3o e da legal posse de Jango, liderada pelo ent\u00e3o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola.<\/p>\n<p>A coragem, a lideran\u00e7a pessoal, a capacidade de persuas\u00e3o e o raro senso de nacionalismo de Brizola foram as molas mestras do que ficou conhecido como \u201cCampanha da Legalidade\u201d, um movimento de natureza civil, com apoio de setores militares, que permitiu que a nossa Constitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse desmoralizada e a democracia acossada.<\/p>\n<p>Sob lideran\u00e7a de Brizola, foi inicialmente garantido o apoio da Brigada Militar do Sul \u00e0 causa legalista e, em seguida, sob influ\u00eancia da forte capacidade argumentativa do governador, que encontrou boa vontade e grande sensibilidade no nacionalismo verdadeiro do general Machado Lopes, foi tamb\u00e9m garantido o apoio do III Ex\u00e9rcito, localizado em Porto Alegre.<\/p>\n<p>Mas umas das marcas mais extraordin\u00e1rias e criativas do movimento, que inclusive conseguiu lhe dar dimens\u00e3o nacional, foi o apoio de uma cadeia de emissoras de r\u00e1dio que constitu\u00edram a \u201cCadeia da Legalidade\u201d.<\/p>\n<p>Esse instrumento democr\u00e1tico de livre comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica criou a possibilidade n\u00e3o s\u00f3 de amplificar a voz das lideran\u00e7as da \u201cCampanha da Legalidade\u201d, como tamb\u00e9m de noticiar os riscos e amea\u00e7as iminentes ao movimento. Acabou por se tornar uma inciativa de influ\u00eancia na opini\u00e3o p\u00fablica sobre os acontecimentos de ent\u00e3o e de consequente press\u00e3o popular sobre os golpistas.<\/p>\n<p>O resto da hist\u00f3ria todos conhecemos bem: a \u201cCampanha da Legalidade\u201d teve direta ou indiretamente poder dissuas\u00f3rio sobre os mais variados e absurdos planos golpistas. Inclusive, segundo relatos hist\u00f3ricos, um plano para abater o avi\u00e3o presidencial a caminho de Bras\u00edlia (Opera\u00e7\u00e3o Mosquito).<\/p>\n<p>Entretanto, a concilia\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o com os promovedores do golpe foi a sa\u00edda escolhida, o que garantiu uma suposta pacifica\u00e7\u00e3o de curto prazo com a instala\u00e7\u00e3o do Parlamentarismo como regime de governo e que, ao mesmo tempo, limitou os poderes presidenciais.<\/p>\n<p>Todavia, a semente do golpismo e da violenta afronta constitucional permaneceram vivas e ativas, tornando-se as bases do que aconteceria tr\u00eas anos depois, em 1964, e que teve como desfecho a supress\u00e3o por mais de 20 anos das liberdades e diretos democr\u00e1ticos brasileiros.<\/p>\n<p>J\u00e1 se v\u00e3o 60 anos de hist\u00f3ria, mas a despeito de contextos distintos, os fatos e suas implica\u00e7\u00f5es s\u00e3o assustadoramente contempor\u00e2neos. Outra infeliz coincid\u00eancia \u00e9 que quando se completam exatas seis d\u00e9cadas da \u201cCampanha da Legalidade\u201d que se encerrou no dia 7 de setembro de 1961, o presidente da Rep\u00fablica e sua base de apoio mais radical excitam seus apoiadores \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de atos extremos, contra a democracia e as nossas institui\u00e7\u00f5es, no dia exato em que, tradicionalmente, celebramos com orgulho nossa p\u00e1tria, nossa hist\u00f3ria e nosso nacionalismo.<\/p>\n<p>Nada mais contradit\u00f3rio! Atacar a democracia \u00e9, no m\u00ednimo, agredir a Constitui\u00e7\u00e3o, um dos s\u00edmbolos de uma na\u00e7\u00e3o republicana. Estimular a viol\u00eancia verbal e f\u00edsica como linguagem da comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 negar a paz social como objetivo nacional. Ofender as institui\u00e7\u00f5es do pa\u00eds impessoalmente \u00e9 promover um desservi\u00e7o \u00e0 cara constru\u00e7\u00e3o do nosso estado nacional que, diga-se de passagem, \u00e9 uma conquista da na\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Promover a desarmonia e a instabilidade institucional \u00e9 penalizar ainda mais o Brasil, que precisa de equil\u00edbrio, serenidade e respeito entre as institui\u00e7\u00f5es para que tenhamos, minimamente, as dignas condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas de sobreviv\u00eancia asseguradas.<\/p>\n<p>Usar os s\u00edmbolos nacionais, como a nossa bandeira ou o hino nacional, para representar ou manipular objetivos pol\u00edticos pessoais \u00e9 n\u00e3o compreender o verdadeiro significado hist\u00f3rico do amor \u00e0 p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Por fim, os atos mais nobres de coragem, de bravura e amor \u00e0 p\u00e1tria, dados pelos nossos her\u00f3is militares e civis, n\u00e3o se limitaram \u00e0 rever\u00eancia formal aos nossos s\u00edmbolos nacionais, mas muito mais em correrem riscos pessoais na luta pela prote\u00e7\u00e3o e defesa da vida dos nossos irm\u00e3os brasileiros. Nos tempos de hoje, temos milhares de brasileiros desvalidos e esquecidos, igualmente irm\u00e3os, filhos da mesma p\u00e1tria m\u00e3e gentil, precisando de um bom, verdadeiro e justo sentimento de patriotismo.<\/p>\n<p>Os nacionalistas, das mais diversas orienta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, s\u00e3o respeitados e lembrados na hist\u00f3ria pela for\u00e7a de suas palavras, mas, muito mais, pelos seus atos concretos de compromisso com o Brasil, pela defesa briosa dos interesses nacionais e, fundamentalmente, pela empatia, cuidado e prote\u00e7\u00e3o aos outros irm\u00e3os de p\u00e1tria.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos deixemos levar por um irrespons\u00e1vel e descomprometido discurso pseudopatri\u00f3tico, cheio de oportunismos pol\u00edticos circunstanciais, at\u00e9 com algum simbolismo ret\u00f3rico, mas vazio de significados concretos, j\u00e1 que n\u00e3o est\u00e3o conectados com os nossos melhores exemplos hist\u00f3ricos de patriotismo e, muito menos, comprometidos com o futuro da nossa Na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que a mem\u00f3ria dos 60 anos da \u201cCampanha da Legalidade\u201d nos sirva de reflex\u00e3o cr\u00edtica para os nossos atos e escolhas nesse pr\u00f3ximo dia 7 de setembro. Mas, principalmente, que ela sirva de inspira\u00e7\u00e3o para o exerc\u00edcio de uma cidadania engajada, menos baseada em amores e \u00f3dios irracionais e muito mais fundamentada no nosso real amor e respeito \u00e0 p\u00e1tria brasileira.<\/p>\n<p><strong>*Ex-prefeito de Fortaleza (CE) e presidente do Diret\u00f3rio Municipal do PDT. M\u00e9dico sanitarista, com PhD em Sa\u00fade P\u00fablica pela Universidade do Arizona.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"container_clear\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ret\u00f3rica anticomunista dos ministros militares era a narrativa oficial para o golpe, que tinha como consequ\u00eancia o rompimento constitucional com o veto \u00e0 posse de Jango. 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