{"id":366732,"date":"2021-09-10T16:24:02","date_gmt":"2021-09-10T19:24:02","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=366732"},"modified":"2021-09-10T16:24:02","modified_gmt":"2021-09-10T19:24:02","slug":"opiniao-o-contragolpe-da-elite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/opiniao-o-contragolpe-da-elite\/","title":{"rendered":"Opini\u00e3o: O contragolpe da elite"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"article__headline marginBottom30\">Opini\u00e3o<\/h2>\n<div class=\"article__lead\">\n<p>&#8220;A casa grande soube fazer valer sua autoridade&#8221;, diz o jurista Eug\u00eanio Arag\u00e3o sobre a perda de capital pol\u00edtico de Jair Bolsonaro perante o mercado, o Congresso e o STF. &#8220;Decepcionou sua base e, aparentemente, n\u00e3o recebeu nada em troca. Seus supostos contraentes no STF n\u00e3o foram obrigados a ceder em nada e, no Congresso, pouca ou nenhuma credibilidade lhe restava&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"articleMetadata marginBottom30\">\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<figure><picture><source srcset=\"https:\/\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/2021091012094_6fd6e2b7-64b4-4e59-9684-a46501214b42.webp\" type=\"image\/webp\" media=\"(max-width: 680px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/2021091012094_6fd6e2b7-64b4-4e59-9684-a46501214b42.jpg\" type=\"image\/jpeg\" media=\"(max-width: 680px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/2021091012094_ab7570d2-696f-43a6-8f3d-f25b2a932bd2.webp\" type=\"image\/webp\" media=\"(min-width: 681px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/2021091012094_ab7570d2-696f-43a6-8f3d-f25b2a932bd2.jpg\" type=\"image\/jpeg\" media=\"(min-width: 681px)\" \/><img decoding=\"async\" title=\" (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)\" src=\"https:\/\/publisher-publish.s3.eu-central-1.amazonaws.com\/pb-brasil247\/swp\/jtjeq9\/media\/2021091012094_ab7570d2-696f-43a6-8f3d-f25b2a932bd2.jpg\" alt=\"\" \/><\/picture><figcaption>(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"article__text marginTop30\">\n&nbsp;<\/p>\n<p>O mercado acordou hoje euf\u00f3rico. A bolsa disparou e o d\u00f3lar recuou. C\u00e9u de brigadeiro at\u00e9 perder de vista. O que h\u00e1 poucos dias parecia imposs\u00edvel tornou-se real: conseguiram colocar o g\u00eanio bagunceiro &#8211; o Amok brasileiro &#8211; de volta na sua garrafa. E de forma humilhante. De certo, para n\u00f3s comuns dos mortais, s\u00f3 parte da hist\u00f3ria \u00e9 cognosc\u00edvel. A outra, muito provavelmente menos republicana, ficar\u00e1 para a especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O dia 7 de setembro era para ser uma data da virada. Apoiadores de todos os rinc\u00f5es do Brasil encheram boa parte da Esplanada dos Minist\u00e9rios em Bras\u00edlia e a Avenida Paulista em S\u00e3o Paulo para ouvirem seu l\u00edder, o capit\u00e3o-presidente Bolsonaro. Vendo tamanha turba em j\u00fabilo, n\u00e3o se conteve e distribuiu rasteiras para seus supostos inimigos, ministros do STF. Falou grosso. Disse que n\u00e3o cumpriria mais decis\u00f5es advindas do Ministro Alexandre de Moraes, a quem chamou de \u201ccanalha\u201d. A massa foi a \u00eaxtase. E, para dar respaldo \u00e0s amea\u00e7as do l\u00edder, empres\u00e1rios organizadores das manifesta\u00e7\u00f5es bloquearam a Esplanada dos Minist\u00e9rios em Bras\u00edlia com seus caminh\u00f5es e desafiaram a pol\u00edcia a deixarem-nos passar \u00e0 Pra\u00e7a dos Tr\u00eas Poderes, onde pretendiam invadir o STF.<\/p>\n<p>O jogo de empurra entre a irada turba e as for\u00e7as de seguran\u00e7a causou calafrios aos democratas no Pa\u00eds. Havia medo real de perda de controle e de sucumbir, a pol\u00edtica, \u00e0 viol\u00eancia em larga escala, com poss\u00edvel interven\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas na chamada \u201cgarantia da lei e da ordem\u201d. Tudo parecia calculado. Bolsonaro, acreditava-se, estava for\u00e7ando, mais uma vez, os limites do estado de direito para instalar uma ditadura no pa\u00eds. E o movimento dos empres\u00e1rios do agroneg\u00f3cio a promoverem um lock-out da log\u00edstica de transporte Brasil afora encaixava-se nessa t\u00e1tica. Pretendia-se paralisar o pa\u00eds para submeter as institui\u00e7\u00f5es \u00e0 m\u00e1xima press\u00e3o.<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/track.mailerlite.com\/webforms\/o\/4533589\/q9s5r2?v1629209839\" alt=\".\" width=\"1\" height=\"1\" border=\"0\" \/><\/p>\n<p>Foi um jogo do tudo ou nada. Com essa intentona, Bolsonaro despejou \u00e0 lixeira toda a pol\u00edtica econ\u00f4mica de Paulo Guedes. O Congresso n\u00e3o parecia mais disposto a apoiar um governo tresloucado. O judici\u00e1rio que vinha negociando o parcelamento dos precat\u00f3rios com d\u00edvidas da Uni\u00e3o, abandonou o trato. A economia estava indo ladeira abaixo sem freios. O mercado reagia com extremo mau humor, ainda mais nervoso com os dados sobre a marcha da infla\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o aos dois d\u00edgitos anuais.<\/p>\n<p>Acendeu-se a luz vermelha. Bolsonaro foi convencido a pedir a seus apoiadores que abandonassem o bloqueio de rodovias para permitir que suprimentos chegassem a seus destinos. O recuo causou mal estar e incredulidade. Muitos empres\u00e1rios n\u00e3o queriam ceder antes de atingir seu objetivo: for\u00e7ar o STF a uma mudan\u00e7a de rumo no tratamento dos crimes praticados por gente do governo e da pol\u00edtica ind\u00edgena, com estabelecimento de um marco temporal para a ocupa\u00e7\u00e3o territorial tradicional. Mas a press\u00e3o da economia sobre o governo era imensa. Esperava-se que Bolsonaro determinasse, se necess\u00e1rio, o uso da for\u00e7a, para controlar sua turba.<\/p>\n<p>Eis que, no meio do rebuli\u00e7o, surge o salvador: o mestre em golpes pol\u00edticos, Michel Temer. Um Bolsonaro desesperado com a perda de controle sobre a massa de seus apoiadores urgiu sua vinda a Bras\u00edlia para negociar uma tr\u00e9gua com o legislativo e o judici\u00e1rio. E, no final da tarde do dia 9 de setembro, no meio da disputa de espa\u00e7o em rodovias e na Esplanada dos Minist\u00e9rios, acontece o inusitado: Bolsonaro manda publicar no Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o uma \u201cMensagem \u00e0 Na\u00e7\u00e3o\u201d em que desdiz tudo que dissera do palanque perante as massas: n\u00e3o queria confronto com os outros poderes que devem ser harm\u00f4nicos entre si, as palavras de agress\u00e3o teriam sido proferidas no \u201ccalor dos acontecimentos\u201d, etc. etc.<\/p>\n<p>A turba que marchara para Bras\u00edlia e S\u00e3o Paulo ficou perdida. Afinal, n\u00e3o haveria mais ruptura? Seu l\u00edder fora cooptado \u201cpelo sistema\u201d? Ningu\u00e9m parecia entender a abrupta mudan\u00e7a de rumos. Ali\u00e1s, sequer os ministros agredidos queriam dar cr\u00e9dito \u00e0s palavras de desculpas de Bolsonaro.<\/p>\n<p>Mas passadas as horas, v\u00ea-se com mais clareza o que aconteceu: Bolsonaro que foi \u00fatil para derrotar a esquerda em 2018 estava se tornando um estorvo n\u00e3o s\u00f3 na condu\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, mas sobretudo na perspectiva das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2022. Quanto pior governasse, mais o campo da esquerda ia se robustecendo, n\u00e3o deixando espa\u00e7o para um conservador liberal do mercado se tornar ungido nas urnas. Sabedores de que mais um mandato para Bolsonaro seria um desastre para o pa\u00eds que consideram s\u00f3 seu, os representantes do capital tamb\u00e9m n\u00e3o estariam dispostos a embarcar na canoa da oposi\u00e7\u00e3o progressista. Ao mesmo tempo, as chances de uma \u201cterceira via\u201d pareciam muito remotas. Precisava-se, pois, neutralizar Bolsonaro para enfrentar a esquerda.<\/p>\n<p>Com sua mensagem \u00e0 na\u00e7\u00e3o, o presidente-capit\u00e3o perdeu enorme capital pol\u00edtico. Decepcionou sua base e, aparentemente, n\u00e3o recebeu nada em troca. Seus supostos contraentes no STF n\u00e3o foram obrigados a ceder em nada e, no Congresso, pouca ou nenhuma credibilidade lhe restava. Talvez seja cedo para dizer que Bolsonaro se tornou um defunto pol\u00edtico, mas que saiu muito desgastado desse epis\u00f3dio, disso n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida.<\/p>\n<p>O que teria feito Bolsonaro desistir do confronto? Aqui entra a especula\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 fato noticiado que havia movimenta\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica de atores pol\u00edticos em Bras\u00edlia. Os presidentes do Senado e da C\u00e2mara dos Deputados se reuniram com o decano do STF. Buscavam desesperadamente uma sa\u00edda para a crise inaugurada com as agress\u00f5es presidenciais ao STF. E foi a\u00ed que entrou Michel Temer.<\/p>\n<p>O ex-presidente da Rep\u00fablica que golpeara Dilma Rousseff passou o dia em Bras\u00edlia, para c\u00e1 e para l\u00e1. Queria apascentar. Afinal, \u00e9 ele o padrinho de Alexandre de Moraes, o principal alvo dos desaforos indecorosos de Bolsonaro. Foi Temer quem nomeou o ministro para o STF. E conseguiu o improv\u00e1vel: fez Bolsonaro ligar para o magistrado, como se fosse para pedir desculpas. O c\u00e3o doido voltava para a coleira. O mercado, a elite, a casa grande, a Avenida Faria Lima &#8211; seja como se queira denominar esse ser et\u00e9reo que mant\u00e9m as r\u00e9deas do pa\u00eds desde tempos imemoriais &#8211; suspirava aliviada: tinha vencido a f\u00faria do g\u00eanio imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>Em troca de que? Essa \u00e9 a pergunta que n\u00e3o quer calar. De certo, Bolsonaro sabia que tinha se metido numa enrascada. O que fizera do palanque era, como dizem os alem\u00e3es, \u201cstarker Tobak\u201d &#8211; tabaco forte. N\u00e3o passaria inc\u00f3lume pela ira de seus poderosos advers\u00e1rios. Enquanto aumentavam as press\u00f5es por iminente abertura de processo de impeachment, circulavam not\u00edcias de rea\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito do TSE que pudessem tornar o presidente-capit\u00e3o ineleg\u00edvel em 2022. Mas, o pior de tudo, o cerco aos fan\u00e1ticos conselheiros de Bolsonaro ia se fechando, falando-se em poss\u00edvel pris\u00e3o dos filhos presidenciais. Dizem que Bolsonaro ficou sem dormir por duas noites at\u00e9 jogar a toalha.<\/p>\n<p>A d\u00favida que remanesce \u00e9 se o presidente-capit\u00e3o obteve alguma garantia de que, deixando de acirrar o ambiente pol\u00edtico, poderia contar com a leni\u00eancia da justi\u00e7a para consigo e seus filhos. Essa seria a parte pouco republicana do acordo \u201ccom Supremo e com tudo\u201d com que Michel Temer se notabilizou. Se houve ou n\u00e3o, s\u00f3 pode ser objeto de conjectura. Os pr\u00f3ximos dias dir\u00e3o. H\u00e1 que se ver se a CPI da COVID abrandar\u00e1 seu tom no relat\u00f3rio final; se o ministro Alexandre de Moraes refluir\u00e1 em suas dilig\u00eancias contra os organizadores da turba antidemocr\u00e1tica; se o STF poupar\u00e1 Augusto Aras dos pedidos de investiga\u00e7\u00e3o por prevarica\u00e7\u00e3o a si atribu\u00edda. Mas \u00e9 compreens\u00edvel a incredulidade sobre uma gratuita desist\u00eancia de Bolsonaro \u00e0 via do confronto. \u00c9 compreens\u00edvel tamb\u00e9m que n\u00e3o se queira dar f\u00e9 \u00e0 sustentabilidade do acordo &#8211; ou contragolpe &#8211; engendrado por Michel Temer. Por ora, o que se tem apenas \u00e9 um Bolsonaro humilhado com um ex\u00e9rcito de apoiadores perdidos feito baratas tontas.<\/p>\n<p>E o estamento militar? Um curioso sil\u00eancio tomou conta dos eloquentes fardados de outros momentos. Sabem muito bem que a briga agora \u00e9 de cachorro grande. N\u00e3o est\u00e3o mais antagonizando com a turma da esquerda civilizada. A casa grande soube fazer valer sua autoridade. Afinal, n\u00e3o se d\u00e1 conta, neste pa\u00eds, de qualquer epis\u00f3dio de rebeldia de capit\u00e3es do mato contra os senhores. Os militares sabem muito bem que a alternativa ao acordo &#8211; ou contragolpe &#8211; \u00e9 a vit\u00f3ria das for\u00e7as progressistas em 2022. Se querem evit\u00e1-la &#8211; e o querem muito mais at\u00e9 do que uma vit\u00f3ria de Bolsonaro &#8211; precisam deixar agora os profissionais trabalhar. E isso passa pela neutraliza\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o-presidente, para que a improv\u00e1vel \u201cterceira via\u201d se torne primeira e, qui\u00e7\u00e1, consiga derrotar, num confronto direto, o bicho de sete cabe\u00e7as, o ex-presidente Lula.<\/p>\n<p>A seguran\u00e7a de que a esquerda n\u00e3o volta ao poder, para o estamento militar, vale at\u00e9 a perda de umas boquinhas. E ningu\u00e9m sabe se, no trato, um jab\u00e1 n\u00e3o tenha sido inclu\u00eddo. Mas uma coisa \u00e9 certa: com o humilhante acordo &#8211; o contragolpe da elite &#8211; o panorama pol\u00edtico mudou e a casa grande volta a ser um player respeit\u00e1vel no jogo eleitoral de 2022, concentrando seu poder de fogo contra os advers\u00e1rios de sempre: os trabalhadores e oprimidos do Brasil. N\u00e3o haver\u00e1 frente \u00fanica contra Bolsonaro. Haver\u00e1 frente \u00fanica contra a esquerda.<\/p>\n<p>Por:\u00a0Eug\u00eanio Arag\u00e3o<\/p>\n<p>Ex-ministro da Justi\u00e7a<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A seguran\u00e7a de que a esquerda n\u00e3o volta ao poder, para o estamento militar, vale at\u00e9 a perda de umas boquinhas. 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