{"id":374021,"date":"2021-12-04T17:23:19","date_gmt":"2021-12-04T20:23:19","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=374021"},"modified":"2021-12-04T17:23:19","modified_gmt":"2021-12-04T20:23:19","slug":"a-turbulenta-historia-da-vacinacao-obrigatoria-no-brasil-e-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-turbulenta-historia-da-vacinacao-obrigatoria-no-brasil-e-no-mundo\/","title":{"rendered":"A turbulenta hist\u00f3ria da vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria no Brasil e no mundo"},"content":{"rendered":"<div class=\"col-sm-12 ig-container_headerText\">\n<h1 id=\"noticia-titulo-h1\" class=\"noticia-titulo-h1-ig_V04\"><\/h1>\n<h2 id=\"noticia-olho\">A vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria nos acompanha h\u00e1 s\u00e9culos, silenciosamente salvando vidas.<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"share-page\"><\/div>\n<div id=\"noticia-other\" class=\"noticia-other-ig_V04\">\n<div class=\"author-container\">\n<p>Por <strong>BBC News Brasil<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"contentNoticia\">\n<div class=\"main-content\">\n<div class=\"row\">\n<section class=\"noticia col-sm-12 plf-0\">\n<div id=\"noticia\">\n<div class=\"Noticia_Foto\">\n<figure class=\"foto-legenda \">\n<div class=\"foto-legenda-img\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria\" src=\"https:\/\/i0.statig.com.br\/bancodeimagens\/8x\/r0\/2i\/8xr02i5kujntl1aij0opm6t8y.jpg\" alt=\"Vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria\" width=\"906\" height=\"509\" \/><\/div><figcaption class=\"foto-legenda-citacao \"><cite>BBC<\/cite><\/p>\n<div class=\"foto-legenda-citacao-text\" data-gtm-vis-recent-on-screen-214867_1952=\"3413\" data-gtm-vis-first-on-screen-214867_1952=\"3413\" data-gtm-vis-total-visible-time-214867_1952=\"100\" data-gtm-vis-has-fired-214867_1952=\"1\">Vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria<\/div>\n<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<p class=\" \">Christine Ro<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria nos acompanha h\u00e1 s\u00e9culos, silenciosamente salvando vidas \u2014 e geralmente sem oposi\u00e7\u00e3o, enquanto n\u00e3o ocorrem mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Para o centro m\u00e9dico Virginia Mason Franciscan Health, no Estado de Washington, nos Estados Unidos, 18 de outubro de 2021 foi um dia para colocar \u00e0 prova o hist\u00f3rico at\u00e9 ent\u00e3o bem-sucedido de vacina\u00e7\u00e3o dos seus funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Dez semanas antes, o centro havia decidido que todos os seus funcion\u00e1rios deveriam ser vacinados contra a covid-19 at\u00e9 aquela data, para proteger os trabalhadores e os pacientes do centro m\u00e9dico contra a doen\u00e7a. Era uma exig\u00eancia potencialmente pol\u00eamica, considerando a falta de pessoal e a resist\u00eancia \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o que atingia outras partes do setor m\u00e9dico norte-americano.<\/p>\n<p>Mas, quando 18 de outubro chegou, 95% dos funcion\u00e1rios haviam atendido \u00e0 exig\u00eancia com vacina\u00e7\u00e3o ou isen\u00e7\u00e3o aprovada. Os outros 5%, incluindo os funcion\u00e1rios com vacina\u00e7\u00e3o parcial, est\u00e3o agora licenciados do servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Charleen Tachibana, executiva que dedicou toda a sua carreira ao centro m\u00e9dico, acredita que essa alta taxa de vacina\u00e7\u00e3o deve-se, em parte, &#8220;\u00e0 nossa longa hist\u00f3ria de vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria&#8230; \u00e9 algo que se tornou bem normal&#8221;.<\/p>\n<p>Em 2004, o Virginia Mason anunciou ter se tornado o primeiro centro m\u00e9dico a exigir que todos os seus funcion\u00e1rios fossem vacinados contra a influenza anualmente. A administra\u00e7\u00e3o do centro formou grupos de conscientiza\u00e7\u00e3o e promoveu outras atividades, incluindo jogos e um evento, para incentivar a discuss\u00e3o sobre a nova exig\u00eancia. A abordagem foi muito bem sucedida e a taxa de vacina\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios de Virginia Mason contra a influenza disparou de 54% para 98% em dois anos.<\/p>\n<p>As li\u00e7\u00f5es aprendidas com essa experi\u00eancia serviram de base para implantar a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria contra o coronav\u00edrus. Um aspecto foi garantir a maior conveni\u00eancia poss\u00edvel para que os funcion\u00e1rios tomassem a vacina. O outro aspecto foi um s\u00e9rio enfoque na comunica\u00e7\u00e3o a respeito da nova exig\u00eancia, incluindo sess\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o e documentos em diversos idiomas.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s levamos a s\u00e9rio nossas obriga\u00e7\u00f5es&#8221;, segundo Tachibana. &#8220;Existe tanto conhecimento cient\u00edfico claro a respeito \u2014 que a vacina \u00e9 comprovadamente segura e t\u00e3o eficaz \u2014 que levamos [a quest\u00e3o] adiante.&#8221;<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Virginia Mason sugere que a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria \u00e9 uma ferramenta poderosa para proteger a sa\u00fade p\u00fablica. Mas pode tamb\u00e9m ser muito contestada. De certa forma, o comportamento relativo \u00e0 necessidade atual de vacina\u00e7\u00e3o contra a covid-19 reflete os padr\u00f5es de s\u00e9culos atr\u00e1s, o que ressalta a import\u00e2ncia de compreender as li\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas da vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria.<\/p>\n<h3>Precedentes de vacina\u00e7\u00f5es obrigat\u00f3rias<\/h3>\n<p>No s\u00e9culo 17, m\u00e9dicos chineses descobriram que certas prepara\u00e7\u00f5es de var\u00edola, quando sopradas pelo nariz, poderiam gerar doen\u00e7a mais suave que a infec\u00e7\u00e3o natural, seguida por imunidade. A t\u00e9cnica acabou por difundir-se para a Europa e as Am\u00e9ricas, onde geralmente era esfregado material infeccioso em uma pun\u00e7\u00e3o na pele.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que ela se espalhou pelo mundo, alguns l\u00edderes decidiram eventualmente obrigar esse tipo de inocula\u00e7\u00e3o. Durante a Guerra da Independ\u00eancia Americana, em 1777, por exemplo, o general George Washington exigiu que todas as tropas fossem inoculadas contra a var\u00edola.<\/p>\n<p>A inocula\u00e7\u00e3o deu lugar \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o mais sofisticada, depois que o m\u00e9dico ingl\u00eas Dr. Edward Jenner desenvolveu uma vacina contra a var\u00edola em 1796, com base no v\u00edrus da var\u00edola mais suave, que infecta as vacas. A vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria come\u00e7ou poucos anos depois. Em 1806, Elisa Bonaparte, governante de Lucca e Piombino, no territ\u00f3rio que hoje pertence \u00e0 It\u00e1lia (e irm\u00e3 de Napole\u00e3o), ordenou a vacina\u00e7\u00e3o de beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos e adultos.<\/p>\n<p>Outro marco hist\u00f3rico ocorreu em 1853, quando a Lei da Vacina\u00e7\u00e3o Obrigat\u00f3ria exigiu que os beb\u00eas da Inglaterra e do Pa\u00eds de Gales fossem vacinados contra a var\u00edola.<\/p>\n<p>Embora algumas vacinas inicialmente fossem populares, como a da p\u00f3lio, observa-se um padr\u00e3o em que o p\u00fablico se acostuma com uma exig\u00eancia de vacina espec\u00edfica ao longo do tempo. Isso at\u00e9 que algumas pessoas comecem a ficar assustadas com o surgimento de vacinas novas.<\/p>\n<p>&#8220;Os Estados Unidos estabeleceram a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria no final dos anos 1970&#8221;, segundo Lee Hampton, pediatra e m\u00e9dico epidemiologista da Alian\u00e7a pelas Vacinas (Gavi).<\/p>\n<h3>Vacina\u00e7\u00e3o no Brasil<\/h3>\n<p>No Brasil,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-53533707?xtor=AL-73-%5Bpartner%5D-%5Big.com.br%5D-%5Blink%5D-%5Bbrazil%5D-%5Bbizdev%5D-%5Bisapi%5D\">o nome mais marcante da vacina\u00e7\u00e3o no pa\u00eds \u00e9 o do m\u00e9dico Oswaldo Cruz<\/a>\u00a0, que liderou a campanha de combate sanit\u00e1rio contra a var\u00edola, a peste bub\u00f4nica e a febre amarela. As tr\u00eas seriam erradicadas em poucos anos do Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital federal. Seu nome batizaria d\u00e9cadas depois a Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, que surgiu em 1900 a partir do Instituto Soroter\u00e1pico Federal, criado para fabricar soros e vacinas contra a peste bub\u00f4nica.<\/p>\n<p>Cruz \u00e9 bastante conhecido tamb\u00e9m pela rea\u00e7\u00f5es que gerou. Ent\u00e3o chefe da Dire\u00e7\u00e3o-Geral de Sa\u00fade P\u00fablica (equivalente a ministro da Sa\u00fade), ele defendeu a ado\u00e7\u00e3o da vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria contra var\u00edola, o que desencadeou diversas rea\u00e7\u00f5es violentas de parte da popula\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 vivia forte opress\u00e3o social. Uma delas foi a Revolta da Vacina, em 1904, que levaria \u00e0 revoga\u00e7\u00e3o da obrigatoriedade naquele mesmo ano.<\/p>\n<p>Mas em 1908, em meio a um grave surto de var\u00edola no Rio de Janeiro, a popula\u00e7\u00e3o passaria a buscar voluntariamente a imuniza\u00e7\u00e3o. A doen\u00e7a seria erradicada do pa\u00eds em 1971. Desde ent\u00e3o, vacinas s\u00e3o aplicadas de maneira ampla, gratuita e coordenada no Brasil com implanta\u00e7\u00e3o do Plano Nacional de Vacina\u00e7\u00e3o, nos anos 1970. E, aos poucos, restri\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a ser impostas a quem n\u00e3o se vacinasse.<\/p>\n<p>Atualmente, embora n\u00e3o se obrigue fisicamente pessoas a tomarem a vacina,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-55320332?xtor=AL-73-%5Bpartner%5D-%5Big.com.br%5D-%5Blink%5D-%5Bbrazil%5D-%5Bbizdev%5D-%5Bisapi%5D\">h\u00e1 restri\u00e7\u00f5es a direitos civis<\/a>\u00a0para quem n\u00e3o cumprir o calend\u00e1rio vacinal do Sistema \u00danico de Sa\u00fade<\/p>\n<p>&#8220;Quando se fala que vai ter vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria, a maioria das pessoas imagina uma cena com um agente de sa\u00fade entrando na sua casa com uma seringa na m\u00e3o e vacinando voc\u00ea \u00e0 for\u00e7a, contra a sua vontade&#8221;, diz a pesquisadora Natalia Pasternak, PhD em microbiologia e integrante da Equipe Halo, uma iniciativa da ONU que re\u00fane cientistas do mundo todo para aumentar o alcance da ci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8220;Isso n\u00e3o existe e n\u00e3o vai acontecer. N\u00e3o \u00e9 assim que as vacinas s\u00e3o tratadas em pa\u00edses democr\u00e1ticos.&#8221; Exemplos de como a &#8220;obrigatoriedade&#8221; na imuniza\u00e7\u00e3o se aplica no Brasil incluem exig\u00eancia de vacina\u00e7\u00e3o em dia para matr\u00edcula em escolas p\u00fablicas em v\u00e1rios Estados, como S\u00e3o Paulo, Goi\u00e1s e Pernambuco, para registro em grande parte dos concursos p\u00fablicos, para obter Bolsa Fam\u00edlia (renomeado Aux\u00edlio Brasil) e para se alistar nas For\u00e7as Armadas.<\/p>\n<h3>Na \u00cdtalia, EUA, Reino Unido&#8230;<\/h3>\n<p>Outros pa\u00edses tamb\u00e9m exigem a vacina\u00e7\u00e3o para o exerc\u00edcio pleno de direitos civis. A It\u00e1lia exige a vacina\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as contra uma s\u00e9rie de pat\u00f3genos, como a hepatite B, difteria, coqueluche, poliomielite, t\u00e9tano, Haemophilus influenzae do tipo B, sarampo, caxumba, rub\u00e9ola e varicela.<\/p>\n<p>Segundo Hampton, &#8220;a obriga\u00e7\u00e3o propriamente dita&#8230; na verdade n\u00e3o causou nenhum problema. O que ocasionou mudan\u00e7as ao longo do tempo nesse tipo de contexto foram as altera\u00e7\u00f5es da obriga\u00e7\u00e3o.&#8221; Esse padr\u00e3o vem sendo observado, por exemplo, com as novas exig\u00eancias de vacina\u00e7\u00e3o contra a hepatite B, antraz e agora, \u00e9 claro, a covid-19.<\/p>\n<p>A vacina\u00e7\u00e3o agora \u00e9 necess\u00e1ria, em alguns casos, para o comparecimento \u00e0s escolas (por exemplo, na Eslov\u00eania, contra a hepatite B), para transplantes de \u00f3rg\u00e3os (algumas regi\u00f5es do Reino Unido exigem a vacina\u00e7\u00e3o para transplantes renais) e, em um caso extremo na It\u00e1lia, para manter a cust\u00f3dia de crian\u00e7as. As penalidades pelo n\u00e3o cumprimento, na maioria dos casos, s\u00e3o educativas ou financeiras.<\/p>\n<p>A vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria \u00e9 especialmente comum nos pa\u00edses ricos, segundo Hampton. Existem tamb\u00e9m tend\u00eancias de varia\u00e7\u00e3o de acordo com o estilo de governo, em que &#8220;quanto mais autorit\u00e1rio for o governo, mais prov\u00e1vel o estabelecimento da vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria&#8221;.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 uma surpresa, j\u00e1 que \u00e9 mais f\u00e1cil para esse tipo de governo impor novas regras, incluindo as de interesse p\u00fablico (como no caso das vacinas). G\u00e2mbia, por exemplo, ordenou a imuniza\u00e7\u00e3o infantil em 2007, durante um per\u00edodo de regime autorit\u00e1rio (ap\u00f3s uma queda na cobertura vacinal).<\/p>\n<p>Mas a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria tamb\u00e9m \u00e9 comum em pa\u00edses democr\u00e1ticos durante situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia, como as pandemias. O Estado de Nova York, nos Estados Unidos, imp\u00f4s temporariamente a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria dos funcion\u00e1rios da sa\u00fade contra a gripe durante a pandemia de gripe su\u00edna em 2009.<\/p>\n<h3>O legado da &#8220;obje\u00e7\u00e3o consciente&#8221;<\/h3>\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos, surgiram algumas obje\u00e7\u00f5es sobre os componentes utilizados na fabrica\u00e7\u00e3o das vacinas.<\/p>\n<p>Algumas vacinas incluem pequenas quantidades de produtos animais, como esqualeno, um \u00f3leo extra\u00eddo do f\u00edgado de tubar\u00f5es. A vacina contra a p\u00f3lio usava anteriormente c\u00e9lulas de rins de macacos. Esses ingredientes causaram certa oposi\u00e7\u00e3o dos vegetarianos.<\/p>\n<p>A primeira vacina contra a var\u00edola inclu\u00eda linfa de var\u00edola bovina, retirada da ves\u00edcula de bezerros. Para parte do crescente movimento vegetariano e antivivissec\u00e7\u00e3o na Gr\u00e3-Bretanha vitoriana, isso era repulsivo.<\/p>\n<p>Esses questionadores das vacinas tinham v\u00e1rios argumentos diferentes, segundo Sylvia Valentine, atualmente trabalhando em sua tese de PhD sobre o tema na Universidade de Dundee, no Reino Unido. &#8220;Algumas das denomina\u00e7\u00f5es inconformistas acreditavam que o corpo humano n\u00e3o deveria ser contaminado com material animal&#8221;, segundo ela.<\/p>\n<p>&#8220;O movimento antivivissec\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m estava envolvido com os antivacinas e muitos questionadores eram &#8216;anti&#8217; muitas outras coisas, incluindo a interfer\u00eancia do Estado nas suas vidas. Os antivivisseccionistas questionavam os m\u00e9todos empregados para obter a linfa de bezerro, que eram um tanto perversos, para ser honesta, e se preocupavam com o bem-estar animal&#8221;, segundo Valentine.<\/p>\n<p>Tecidos su\u00ednos tamb\u00e9m levaram parte dos mu\u00e7ulmanos a se preocupar se algumas vacinas seriam halal \u2014 permitidas pelo Isl\u00e3 \u2014 por exemplo, se elas usassem gelatina de porcos como estabilizante. Isso foi um desafio para a vacina\u00e7\u00e3o contra o sarampo na Indon\u00e9sia, em 2018.<\/p>\n<p>Mais recentemente, cl\u00e9rigos mu\u00e7ulmanos na Indon\u00e9sia declararam que as vacinas contra a covid-19 s\u00e3o aceit\u00e1veis e os fabricantes de vacinas contra a covid-19 afirmaram que suas vacinas n\u00e3o cont\u00eam produtos derivados de porcos. Algumas autoridades do Juda\u00edsmo tamb\u00e9m insistiram que n\u00e3o deveria haver problemas com vacinas n\u00e3o orais que contenham ingredientes derivados de porcos.<\/p>\n<p>Outro componente contestado s\u00e3o as linhagens de c\u00e9lulas de fetos obtidas ap\u00f3s abortos que foram realizados legalmente d\u00e9cadas atr\u00e1s. Essas linhagens celulares continuam a ser utilizadas nos testes de algumas vacinas e no desenvolvimento de outras. Mas o Vaticano declarou que as vacinas contra o coronav\u00edrus s\u00e3o &#8220;moralmente aceit\u00e1veis&#8221;.<\/p>\n<p>Embora haja discord\u00e2ncias entre as religi\u00f5es e os indiv\u00edduos, particularmente nas religi\u00f5es altamente descentralizadas \u2014 como entre os crist\u00e3os evang\u00e9licos nos Estados Unidos \u2014, nenhuma religi\u00e3o estabelecida pro\u00edbe a vacina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De fato, ao longo de toda a hist\u00f3ria, as autoridades religiosas desempenharam pap\u00e9is importantes no incentivo \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o e sua implementa\u00e7\u00e3o. Afinal, \u00e9 do interesse delas proteger a sa\u00fade dos seus seguidores.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos questionadores espirituais, muito ativismo trabalhista foi relacionado \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o contra as vacinas.<\/p>\n<p>Durante a era vitoriana, alguns empregadores ingleses impuseram a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria contra a var\u00edola, que afetava particularmente a classe trabalhadora \u2014 que tamb\u00e9m apresentava muita resist\u00eancia. Os sindicatos geraram forte oposi\u00e7\u00e3o organizada (incluindo, em 2004, as enfermeiras sindicalizadas que questionaram a exig\u00eancia de vacina\u00e7\u00e3o contra a influenza no centro m\u00e9dico Virginia Mason).<\/p>\n<p>Em 1898, a Inglaterra passou a admitir obje\u00e7\u00f5es conscientes \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria. Mas a aprova\u00e7\u00e3o dessas isen\u00e7\u00f5es tornou-se relativamente f\u00e1cil apenas em 1907 \u2014 e chegou a atingir um a cada quatro nascimentos.<\/p>\n<p>Atualmente, apenas uma pequena minoria de pessoas antivacina \u00e9 muito atuante, mas &#8220;o movimento antivacina na era vitoriana era muito maior&#8221;, segundo Nadja Durbach, professora especialista na hist\u00f3ria do corpo da Universidade de Utah, nos Estados Unidos. &#8220;Era muito mais disseminado que o movimento antivacina atual. N\u00e3o se conhecia muito da ci\u00eancia de vacina\u00e7\u00e3o e a falta de condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias significava que o processo podia facilmente causar infec\u00e7\u00f5es.&#8221;<\/p>\n<p>Mas continua a haver paralelos entre os protestos antivacina hist\u00f3ricos e contempor\u00e2neos. S\u00edmbolos antivacinas continuam ocasionalmente a ser queimados em alguns lugares, como ocorreu em Utah, em maio deste ano.<\/p>\n<p>Mas uma diferen\u00e7a \u00e9 o ambiente dos protestos vitorianos, que, \u00e0s vezes, lembrava o carnaval. Durbach descreveu que &#8220;uma demonstra\u00e7\u00e3o antivacina\u00e7\u00e3o comum envolvia levar um prisioneiro antivacina rec\u00e9m-libertado, muitas vezes ainda com as roupas da pris\u00e3o, em uma carro\u00e7a adornada com fitas e faixas, acompanhada por uma charanga musical&#8221;.<\/p>\n<h3>Impulsos x entraves<\/h3>\n<p>A vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria contra a var\u00edola terminou no Reino Unido em 1947, em meio a uma tend\u00eancia mais ampla de vacina\u00e7\u00e3o opcional (por exemplo, contra a difteria), concentrada na educa\u00e7\u00e3o e na persuas\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, como estamos vendo agora com a covid-19 e como vimos anteriormente com a var\u00edola, a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria realmente aumenta as inocula\u00e7\u00f5es. Quando a Fran\u00e7a ordenou a vacina\u00e7\u00e3o infantil contra 11 doen\u00e7as potencialmente mortais para os nascidos ap\u00f3s 2018, por exemplo, o n\u00famero de crian\u00e7as totalmente vacinadas aumentou significativamente com rela\u00e7\u00e3o aos anos anteriores.<\/p>\n<p>Quando escolhida com cuidado, \u00e9 inquestion\u00e1vel que a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria pode salvar vidas.<\/p>\n<p>Um estudo demonstrou, por exemplo, que os pacientes s\u00e3o substancialmente menos propensos a morrer &#8211; com taxas de mortalidade de cerca de 13,6% contra 22,4% &#8211; em hospitais com n\u00edveis mais altos de vacina\u00e7\u00e3o contra a gripe entre os funcion\u00e1rios de assist\u00eancia m\u00e9dica em compara\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es com n\u00edveis de vacina\u00e7\u00e3o menores, embora a probabilidade dos pacientes serem infectados pelo v\u00edrus seja a mesma.<\/p>\n<p>Outro estudo europeu tamb\u00e9m concluiu que, em pa\u00edses com vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria contra o sarampo e sem isen\u00e7\u00f5es de ordem n\u00e3o m\u00e9dica, a incid\u00eancia da doen\u00e7a foi 86% inferior a pa\u00edses onde a vacina\u00e7\u00e3o n\u00e3o era obrigat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Existe tens\u00e3o comum entre a obriga\u00e7\u00e3o, que pode aumentar a hostilidade, e a vacina\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, que pode aumentar a transmiss\u00e3o. Alguns especialistas em sa\u00fade preocupam-se com a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria porque essas pol\u00edticas podem reduzir a confian\u00e7a nas autoridades m\u00e9dicas a longo prazo. Como exemplos, a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria gerou dist\u00farbios violentos no Brasil e pode haver contribu\u00eddo com furiosos movimentos antivacina em toda a Europa.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, que \u00e9 um dos principais locais de hesita\u00e7\u00e3o contra as vacinas do mundo, o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade tentou reduzir os efeitos polarizantes da vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria ampliando seus esfor\u00e7os para criar leis que estabele\u00e7am confian\u00e7a. Isso gerou maior cobertura vacinal, embora uma minoria significativa ainda permane\u00e7a hesitante com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s vacinas &#8211; o que sugere a import\u00e2ncia de continuar a monitorar comportamentos e fortalecer as rela\u00e7\u00f5es entre as institui\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas e o p\u00fablico.<\/p>\n<p>Mas nem todos concordam com a defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 &#8220;obrigat\u00f3rio&#8221;. Existe um argumento de que muitas das chamadas vacina\u00e7\u00f5es obrigat\u00f3rias tecnicamente n\u00e3o o s\u00e3o porque as pessoas muitas vezes podem decidir n\u00e3o se vacinar em certas circunst\u00e2ncias, como cren\u00e7as religiosas. E a execu\u00e7\u00e3o pode ser deficiente ou at\u00e9 inexistente.<\/p>\n<p>A vacina\u00e7\u00e3o coercitiva &#8211; que envolve a execu\u00e7\u00e3o de vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria com for\u00e7a f\u00edsica ou intimida\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e9 diferente. E, apesar dos efeitos ben\u00e9ficos do aumento da cobertura vacinal, existe um consenso de que essa estrat\u00e9gia deve ser evitada.<\/p>\n<p>Ainda assim, segundo o pesquisador chin\u00eas da ONG Human Rights Watch, Yaqiu Wang, t\u00e1ticas coercitivas, que incluem espionagem e persegui\u00e7\u00e3o, est\u00e3o sendo relatadas em algumas partes da China.<\/p>\n<p>Wang explica que esta n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma pol\u00edtica oficial do pa\u00eds, mas o governo central emite quotas de vacina\u00e7\u00e3o rigorosas para os governos locais, como a orienta\u00e7\u00e3o de vacinar pelo menos 90% das crian\u00e7as na China, emitida em setembro de 2021. &#8220;Esse tipo de quota\/decreto do governo central eleva a taxa de vacina\u00e7\u00e3o, mas, \u00e0s vezes, pode resultar em vacina\u00e7\u00f5es coercitivas a n\u00edvel local&#8221;, segundo Wang.<\/p>\n<p>Mesmo na aus\u00eancia de for\u00e7a f\u00edsica, certas penalidades pelo descumprimento das normas obrigat\u00f3rias podem ser contraproducentes &#8211; por exemplo, se forem cobradas altas multas de pessoas que j\u00e1 t\u00eam dificuldade de sair do trabalho ou de se deslocar para os locais de vacina\u00e7\u00e3o. Isso foi um ponto de disc\u00f3rdia entre os criadores de bicho-da-seda no s\u00e9culo 19 e permanece sendo um obst\u00e1culo para algumas pessoas que ainda n\u00e3o foram vacinadas.<\/p>\n<p>Para Lee Hampton, a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria \u00e9 &#8220;algo a ser utilizado com modera\u00e7\u00e3o&#8221;, com o m\u00ednimo de execu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. As condi\u00e7\u00f5es para o seu uso dever\u00e3o incluir &#8220;a exist\u00eancia de uma doen\u00e7a mortal, particularmente uma doen\u00e7a mortal altamente contagiosa, e interven\u00e7\u00f5es [seguras e] eficazes para reduzir a transmiss\u00e3o dessa doen\u00e7a. Trata-se normalmente de uma boa combina\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O que ajuda \u00e9 que as vacinas que temos contra a covid-19, afinal, s\u00e3o extremamente seguras&#8221;, acrescenta ele. Hampton permanece otimista que a vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria continuar\u00e1 a ser uma forma \u00fatil de proteger a popula\u00e7\u00e3o, apesar da oposi\u00e7\u00e3o encontrada.<\/p>\n<p>&#8220;Com cuidado e crit\u00e9rio, o benef\u00edcio da vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria superar\u00e1 os riscos&#8221;, afirma ele. S\u00f3 o tempo dir\u00e1 se isso \u00e9 suficiente para convencer os c\u00e9ticos das vacinas.<\/p>\n<\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dez semanas antes, o centro havia decidido que todos os seus funcion\u00e1rios deveriam ser vacinados contra a covid-19 at\u00e9 aquela data, para proteger os trabalhadores e os pacientes do centro m\u00e9dico contra a doen\u00e7a. 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