{"id":37517,"date":"2014-01-10T07:57:27","date_gmt":"2014-01-10T10:57:27","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=37517"},"modified":"2014-01-10T07:57:27","modified_gmt":"2014-01-10T10:57:27","slug":"livro-fala-do-papel-de-gilmar-mendes-na-anulacao-da-condenacao-de-daniel-dantas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/livro-fala-do-papel-de-gilmar-mendes-na-anulacao-da-condenacao-de-daniel-dantas\/","title":{"rendered":"Livro fala do papel de Gilmar Mendes na anula\u00e7\u00e3o da condena\u00e7\u00e3o de Daniel Dantas"},"content":{"rendered":"<p>Com 24 anos de carreira, Rubens Valente \u00e9 um dos rep\u00f3rteres mais premiados do Brasil. Rigoroso na apura\u00e7\u00e3o dos fatos, fiel na interpreta\u00e7\u00e3o dos acontecimentos, construiu uma carreira respeitada no jornalismo. Durante mais de dois anos, Valente se dedicou \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o que resultou no livro\u00a0<i>\u201cOpera\u00e7\u00e3o Banqueiro\u201d<\/i>\u00a0(462 p\u00e1ginas, R$ 44,90, Gera\u00e7\u00e3o Editorial), um mergulho nos documentos e bastidores da Satiagraha. O subt\u00edtulo da obra resume o conte\u00fado escrito com habilidade e independ\u00eancia: \u201cUma trama brasileira sobre poder, chantagem, crime e corrup\u00e7\u00e3o. A incr\u00edvel hist\u00f3ria de como o banqueiro Daniel Dantas escapou da pris\u00e3o com apoio do Supremo Tribunal Federal e virou o jogo, passando de acusado a acusador\u201d. A an\u00e1lise do livro pode ser lida na edi\u00e7\u00e3o impressa de\u00a0<i>CartaCapital<\/i>\u00a0que chega \u00e0s bancas nesta sexta-feira 10. Na entrevista a seguir, Valente fala do papel do ent\u00e3o presidente do STF, Gilmar Mendes, na campanha contra a opera\u00e7\u00e3o policial e a favor de Dantas e desmonta algumas vers\u00f5es mentirosas alimentadas com o \u00fanico intuito de anular a condena\u00e7\u00e3o do banqueiro a 10 anos de pris\u00e3o por suborno.<i>\u201cOpera\u00e7\u00e3o Banqueiro\u201d<\/i>\u00a0\u00e9 uma ode \u00e0 verdade factual e presta um grande servi\u00e7o \u00e0 democracia e ao jornalismo.<\/p>\n<p><strong>CartaCapital:<\/strong>\u00a0<i>Na sua longa carreira de rep\u00f3rter, voc\u00ea se lembra de uma opera\u00e7\u00e3o t\u00e3o peculiar quanto a Satiagraha?<\/i><\/p>\n<p><strong>Rubens Valente:<\/strong>\u00a0O aspecto mais grave foi a interdi\u00e7\u00e3o da investiga\u00e7\u00e3o, a impossibilidade de as autoridades levarem a apura\u00e7\u00e3o inteira at\u00e9 o final. Em termos gerais, a regra do jogo do processo penal no Brasil \u00e9 simples: o delegado aponta evid\u00eancias, o procurador acusa ou n\u00e3o, o juiz julga. Ao longo do processo, o r\u00e9u se defende. Em caso de inoc\u00eancia, ap\u00f3s o processo o r\u00e9u pode buscar a puni\u00e7\u00e3o dos respons\u00e1veis por um eventual erro judicial. Mas no caso \u00a0da Satiagraha, o delegado foi proibido de investigar e o juiz foi impedido de julgar. O sistema foi brutalmente bloqueado, de modo a n\u00e3o funcionar, a n\u00e3o concluir sequer a apura\u00e7\u00e3o inicial. Ao longo de 24 anos como rep\u00f3rter, li e acompanhei algumas dezenas de inqu\u00e9ritos policiais. Mas nunca vi uma invers\u00e3o de fatores t\u00e3o dram\u00e1tica e na dimens\u00e3o deste caso. Eu s\u00f3 posso qualificar o rumo dos acontecimentos como espantoso. Que dizer de um cidad\u00e3o que n\u00e3o chega a ser julgado, mas em poucos meses passa a acusador em um processo contra o pr\u00f3prio delegado e o pr\u00f3prio juiz que o prenderam? \u00c9 o sonho de todo investigado. As institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o em risco quando um acusado consegue impedir que a atribui\u00e7\u00e3o de um fato criminoso seja devidamente apurada at\u00e9 o fim pelos \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos. O bloqueio da Satiagraha foi um dos principais motivos do meu empenho neste livro, inclusive financeiro, pois todos os gastos, incluindo as viagens a tr\u00eas capitais e c\u00f3pias de documentos, foram bancados com as minhas pr\u00f3prias economias.<\/p>\n<p><strong>CC:<\/strong>\u00a0<i>Daniel Dantas n\u00e3o s\u00f3 conseguiu anular na Justi\u00e7a a opera\u00e7ao como leis e regras judiciais foram mudadas depois da a\u00e7\u00e3o policial, entre elas o uso de algema (a Lei Dantas), que passou a ser disciplinado. De onde prov\u00e9m tanto poder?<\/i><\/p>\n<p><strong>RV:<\/strong>\u00a0At\u00e9 2010, o Opportunity sequer constava nas listas de doadores das principais campanhas eleitorais registradas na Justi\u00e7a eleitoral. Estranho que uma empresa com tantas rela\u00e7\u00f5es no meio pol\u00edtico n\u00e3o tenha colaborado para elei\u00e7\u00f5es at\u00e9 aquele ano. Mas certa vez um advogado de Dantas o descreveu como um indiv\u00edduo com boas rela\u00e7\u00f5es com o Congresso, com os poderosos, uma pessoa \u201cque se vira&#8221;. \u00a0De fato, as rela\u00e7\u00f5es de Dantas com pol\u00edticos parece ser um tra\u00e7o fundamental na sua trajet\u00f3ria. Mas isso n\u00e3o explica tudo. No livro procurei descrever as rela\u00e7\u00f5es de amizade e acad\u00eamicas de advogados de Dantas e do banco Opportunity com o ministro do Supremo Gilmar Mendes. Que durante a presid\u00eancia do STF disse abertamente se opor ao que chamava de abusos do Minist\u00e9rio P\u00fablico e da Pol\u00edcia Federal. As coisas se juntaram. Sem Mendes na presid\u00eancia do Supremo, nem todo o prest\u00edgio de Dantas teria sido capaz de reverter o jogo de forma t\u00e3o espetacular. A altera\u00e7\u00e3o de regramentos se deveu ao empenho pessoal de Mendes, que chegou a convocar um \u201cpacto social\u201d e chamar o presidente da Rep\u00fablica \u201c\u00e0s falas\u201d. Ele se tornou um ator fundamental no processo de desqualifica\u00e7\u00e3o da Satiagraha. Partiu do Supremo o vazamento de um relat\u00f3rio, depois desmontado pelos fatos, que sugeria a exist\u00eancia de grampo sobre autoridades do tribunal. E partiu de Mendes a decis\u00e3o de acolher a tese de que o juiz Fausto De Sanctis havia se \u201cinsurgido\u201d contra o Supremo pelo simples fato de ter ordenado uma segunda ordem de pris\u00e3o contra Dantas. Como se um juiz n\u00e3o pudesse julgar de acordo com sua consci\u00eancia. A ideia de uma suposta \u201crebeldia\u201d comoveu outros ministros do STF, que chegaram a falar em \u201cuni\u00e3o\u201d em defesa do tribunal. Como se o Supremo fosse um clube no qual os filiados devem \u201cdefender\u201d uns aos outros, e n\u00e3o meramente analisar fatos e provas.<\/p>\n<p><strong>CC:<\/strong>\u00a0<i>A introdu\u00e7\u00e3o de \u201cOpera\u00e7\u00e3o Banqueiro\u201d cita excessos e equ\u00edvocos do delegado Prot\u00f3genes Queiroz. Essas falhas eram suficientes para anular o processo?<\/i><\/p>\n<p><strong>RV:<\/strong>\u00a0A defesa do banqueiro se aproveitou dessas falhas. Mas o delegado muito mais acertou do que errou. Ele acertou ao elaborar e colocar em pr\u00e1tica um plano que levou \u00e0 documenta\u00e7\u00e3o da oferta de suborno e \u00e0 apreens\u00e3o do dinheiro que seria usado como propina para ele e outro delegado do caso. Foi uma situa\u00e7\u00e3o arriscada, que ele soube concluir com sucesso. Acertou ao conseguir uma ampla intercepta\u00e7\u00e3o de telefones e de comunica\u00e7\u00f5es por internet com ordem judicial que trouxe evid\u00eancias importantes para a investiga\u00e7\u00e3o. Acertou ao n\u00e3o se dobrar \u00e0s dificuldades do inqu\u00e9rito, que tratava de temas variados e de certa complexidade t\u00e9cnica. Esses m\u00e9ritos, por\u00e9m, foram ofuscados pela intensa campanha de desmoraliza\u00e7\u00e3o que ele e a Satiagraha sofreram em diversos n\u00edveis e por diferentes meios. Seus erros, por mais banais, acabaram amplificados \u00e0 exaust\u00e3o. Por qu\u00ea? Porque ele era a pe\u00e7a mais fraca do inqu\u00e9rito, havia sido abandonado \u00e0 pr\u00f3pria sorte pela sua institui\u00e7\u00e3o, a Pol\u00edcia Federal. Qualquer jornalista com alguma experi\u00eancia em processos judiciais sabe que todo e qualquer inqu\u00e9rito policial, todo e qualquer, repito, cont\u00e9m certa dose de erros, imprecis\u00f5es ou conclus\u00f5es sem rigorosa base nos fatos. Mas o trabalho de um delegado \u00e9 apenas uma parte do processo. O sistema judicial possui freios e contrapesos que permitem que as opini\u00f5es do delegado sejam verificadas por outras inst\u00e2ncias, a saber: o Minist\u00e9rio P\u00fablico, o juiz e os advogados dos r\u00e9us. O beab\u00e1 de um advogado criminalista \u00e9 descobrir esses erros e, por meio deles, tentar obter alguma vit\u00f3ria judicial, na estrat\u00e9gia de convencer o Judici\u00e1rio sobre as \u201cilegalidades\u201d da pol\u00edcia. O jornalista isento que ler com paci\u00eancia o inqu\u00e9rito da Satiagraha vai concluir que os erros cometidos pelo delegado ao longo da opera\u00e7\u00e3o, talvez o principal deles tenha sido pedir a colabora\u00e7\u00e3o de agentes da Abin sem um respaldo superior da dire\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal, jamais teriam a capacidade de levar \u00e0 anula\u00e7\u00e3o da opera\u00e7\u00e3o. Em situa\u00e7\u00f5es normais de temperatura e press\u00e3o, seus erros poderiam ser censurados e corrigidos, mas n\u00e3o teriam qualquer repercuss\u00e3o em termos de legalidade.<\/p>\n<p><strong>CC:<\/strong>\u00a0<i>Ao longo da apura\u00e7\u00e3o, voc\u00ea encontrou alguma prova ou ind\u00edcio de que o ent\u00e3o presidente do STF, Gilmar Mendes, ou algum integrante do tribunal foi grampeado pela Policia Federal ou pela Abin?<\/i><\/p>\n<p><strong>RV:<\/strong>\u00a0Sob v\u00e1rios pontos de vista (jornal\u00edstico, t\u00e9cnico, jur\u00eddico e mesmo \u00e9tico), n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel aceitar que essa suspeita continue a ser veiculada como fato, pois todas as imensas e complicadas investiga\u00e7\u00f5es desencadeadas por diferentes \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos jamais localizaram qualquer prova material de grampo telef\u00f4nico ou ambiental sobre qualquer ministro do STF. Eu cuidei de verificar esse ponto quase \u00e0 exaust\u00e3o. Ouvi com aten\u00e7\u00e3o e a necess\u00e1ria dose de desconfian\u00e7a integrantes da Opera\u00e7\u00e3o Satiagraha, li as conclus\u00f5es das investiga\u00e7\u00f5es policiais, vi os laudos do material apreendido. N\u00e3o h\u00e1 uma linha sequer sobre constata\u00e7\u00e3o de grampo contra autoridades do Supremo. Esses s\u00e3o os elementos concretos que integram o processo. Fora disso, s\u00f3 mesmo a paran\u00f3ia, alimentada por um estranho sil\u00eancio das autoridades encarregadas de verificar a exist\u00eancias desses supostos grampos. A Pol\u00edcia Federal e a Procuradoria Geral da Rep\u00fablica sabem muito bem que n\u00e3o existe prova alguma dos grampos, mas at\u00e9 hoje, mais de cinco anos depois, jamais vieram a p\u00fablico fazer o desmentido cabal. Nunca prestaram contas das investiga\u00e7\u00f5es. Esse ato de transpar\u00eancia deveria ter ocorrido h\u00e1 muito tempo, pois institui\u00e7\u00f5es e figuras p\u00fablicas foram colocadas em xeque.<\/p>\n<p><strong>CC:<\/strong>\u00a0<i>E quanto as supostas ilegalidades cometidas pela Abin?<\/i><\/p>\n<p><strong>RV:\u00a0<\/strong>Li e reli v\u00e1rias vezes os diversos depoimentos e documentos que integram a Satiagraha e o inqu\u00e9rito aberto para apurar a participa\u00e7\u00e3o da Abin. A \u00fanica conclus\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 que a Abin n\u00e3o usurpou o papel de investiga\u00e7\u00e3o consagrado pela Constitui\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edcias. A Abin n\u00e3o interceptou nenhum telefonema, n\u00e3o tomou nenhum depoimento e n\u00e3o requisitou ao juiz do caso nenhuma medida de qualquer natureza. Em suma, os agentes da Abin em momento algum conduziram o inqu\u00e9rito. Por todo o tempo a investiga\u00e7\u00e3o continuou presidida pela autoridade policial, com a devida fiscaliza\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico e sob os olhares do Judici\u00e1rio. O papel dos agentes da Abin se restringiu a acompanhar e fotografar alvos nas ruas, ler emails interceptados por ordem judicial, transcrever conversas interceptadas com ordem judicial. Ou seja, era um papel meramente auxiliar. Um trabalho bra\u00e7al. No pen drive do delegado Prot\u00f3genes foram apreendidos tamb\u00e9m documentos em word produzidos por agentes da Abin sobre algumas autoridades. Esses pap\u00e9is, que incluem dados delirantes e informa\u00e7\u00f5es de dif\u00edcil comprova\u00e7\u00e3o, jamais foram anexados \u00e0 Satiagraha. S\u00e3o imprest\u00e1veis como prova, tanto que o delegado n\u00e3o os juntou ao inqu\u00e9rito. E foi apenas esse o papel da Abin. Por que a eventual participa\u00e7\u00e3o de agentes da Abin em certo ponto do inqu\u00e9rito poderia ser capaz de anular a opera\u00e7\u00e3o inteiraa? N\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica participa\u00e7\u00e3o, nem mesmo lateral, de agentes da Abin no epis\u00f3dio do suborno de dois delegados federais. A alega\u00e7\u00e3o de que a mera e pontual ajuda de alguns agentes da Abin em qualquer ponto da investiga\u00e7\u00e3o seja capaz de anular um processo inteiro \u00e9 inteiramente ris\u00edvel. \u00c9, na verdade, um tapa na cara dos cidad\u00e3os brasileiros pagadores de impostos e cumpridores das leis. Os advogados falam na teoria importada dos EUA dos \u201cfrutos da \u00e1rvore contaminada\u201d. Diz a tese que um processo gerado por uma prova il\u00edcita deve ser anulado pelo v\u00edcio na origem. Ocorre que a participa\u00e7\u00e3o dos agentes da Abin n Satiagraha nada teve a ver com a origem do processo, foi sempre posterior, e portanto a teoria \u00e9 totalmente inv\u00e1lida.<\/p>\n<p><strong>CC:<\/strong>\u00a0<i>Dantas j\u00e1 foi condenado fora do Brasil. Cortes brit\u00e2nicas e norte-americanas se referiram a ele em termos duros e o acusaram de fraude, entre outro crimes. No Brasil, a despeito da anula\u00e7\u00e3o posterior (agora em analise no Supremo), ele foi condenado em primeira instancia por suborno. Seu nome tamb\u00e9m tem sido citado nos principais esc\u00e2ndalos da era FHC e Lula. Ele continua, por\u00e9m, a ser tratado em diversos c\u00edrculos e por consider\u00e1vel parcela da m\u00eddia como um &#8220;empres\u00e1rio pol\u00eamico&#8221;. E apenas isso. Pelo seu livro, conclui-se que ele e mais do que pol\u00eamico, certo?<\/i><\/p>\n<p><strong>RV:<\/strong>\u00a0Dantas e o banco Opportunity aparecem referidos em diversos esc\u00e2ndalos nos \u00faltimos anos: grampos do BNDES e as privatiza\u00e7\u00f5es, caso do extinto banco Banestado, investiga\u00e7\u00e3o privada da Kroll e a Opera\u00e7\u00e3o Chacal, CPI dos Correios e o mensal\u00e3o e, por fim, a Opera\u00e7\u00e3o Satiagraha. Essa sequ\u00eancia de acontecimentos coloca o banqueiro como um dos principais personagens da hist\u00f3ria brasileira contempor\u00e2nea. Trat\u00e1-lo como \u201cpol\u00eamico\u201d \u00e9 um resumo pobre e impreciso. Ele foi acusado e investigado n\u00e3o por suas supostas \u201cpol\u00eamicas\u201d, mas por fatos e atos que podem e devem ser averiguados.<\/p>\n<p><strong>CC:\u00a0<\/strong><i>As rela\u00e7\u00f5es de Dantas com o PSDB foram retratadas em varias reportagens e livros ao longo das ultimas d\u00e9cadas. &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Banqueiro&#8221; acrescenta novas e interessantes provas dessa rela\u00e7\u00e3o umbilical. O banqueiro, por outro lado, sempre se declarou perseguido pelo PT, mas os interesses do Opportunity e do partido se entrela\u00e7am na Satiagraha. Voc\u00ea chegou a buscar explica\u00e7\u00f5es para os motivos de os petistas terem sa\u00eddo em apoio ao banqueiro e participarem da for\u00e7a tarefa para desacreditar a opera\u00e7\u00e3o?<\/i><\/p>\n<p><b>RV:<\/b>\u00a0A Satiagraha veio a p\u00fablico em abril de 2008, no mesmo per\u00edodo de intensas negocia\u00e7\u00f5es entre os fundos de pens\u00e3o ligados ao PT, a telef\u00f4nica Oi e o banqueiro com vistas \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da gigante da telefonia BrOi. Havia um interesse p\u00fablico e manifesto do governo na cria\u00e7\u00e3o da nova supertele, uma opera\u00e7\u00e3o que acabou poss\u00edvel ap\u00f3s um ato do pr\u00f3prio presidente Lula. Creio que as investiga\u00e7\u00f5es da Satiagraha chegaram num p\u00e9ssimo momento para os interesses do governo, que queria logo concluir aquela fus\u00e3o. Isso pode ter contribu\u00eddo para a extrema m\u00e1 vontade do governo em rela\u00e7\u00e3o ao inqu\u00e9rito policial. Por outro lado, Dantas havia conseguido se aproximar de petistas hist\u00f3ricos. No livro procurei descrever o papel de dois desses petistas no processo de cria\u00e7\u00e3o da BrOi. Houve um segundo fato: em 2008, a Pol\u00edcia Federal havia incomodado muitos interesses de pol\u00edticos de v\u00e1rios partidos, incluindo petistas e integrantes da base aliada. E a \u201ctoler\u00e2ncia\u201d do PT e do governo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 PF havia chegado ao ponto m\u00e1ximo um ano antes, quando uma equipe de policiais invadiu a casa do irm\u00e3o de Lula na Grande S\u00e3o Paulo. Por sua vez, Lula havia superado, do ponto de vista da sua imagem diante o eleitorado, o trauma da acusa\u00e7\u00e3o do mensal\u00e3o, e n\u00e3o estava t\u00e3o dependente das a\u00e7\u00f5es espetaculares da pol\u00edcia, que davam ao governo um discurso anti-corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>CC:<\/b>\u00a0<i>Dantas recorre a uma teoria conspirat\u00f3ria para se defender. Diz-se vitima da uni\u00e3o de interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos de integrantes do PT, seu desafeto Luis Roberto Demarco e a Telecom Italia. Ele tem usado esse argumento para tentar influenciar processos contra ele no Brasil.\u00a0 Nos \u00faltimos anos, ele e seus advogados se referem a um inqu\u00e9rito em Milao que investigou e puniu funcion\u00e1rios da Telecom Italia por espionagem. Esse inqu\u00e9rito sempre \u00e9 evocado em diversos processos pelo Opportunity. Ao longo de sua pesquisa, encontrou alguma evid\u00eancia dessa conspira\u00e7\u00e3o ou alguma rela\u00e7\u00e3o entre os processos no Brasil e a investiga\u00e7\u00e3o italiana?<\/i><\/p>\n<p><b>RV:<\/b>\u00a0Tive acesso e verifiquei milhares de p\u00e1ginas que integram a investiga\u00e7\u00e3o realizada na It\u00e1lia, incluindo os extensos depoimentos dos principais envolvidos. Como digo no livro, o Opportunity enfrenta s\u00e9rias e talvez incontorn\u00e1veis dificuldades para demonstrar uma prova objetiva sobre a alegada corrup\u00e7\u00e3o de autoridades do Brasil por funcion\u00e1rios da Telecom Italia de modo a \u201cperseguir\u201d o banco brasileiro. At\u00e9 o momento, essa hip\u00f3tese n\u00e3o passa disso, uma simples suspeita sem confirma\u00e7\u00e3o. Nos autos h\u00e1 apenas refer\u00eancias indiretas e imprecisas. Mas os advogados do Opportunity passaram a manobrar esse fantasma para relacionar a investiga\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e0 outra da It\u00e1lia, exigindo que uma acusa\u00e7\u00e3o s\u00f3 fosse investigada depois da outra. \u00c9 como se um motorista atropelasse algu\u00e9m na rua e, quando encontrado pela pol\u00edcia, alegasse ao juiz: \u201cL\u00e1 na It\u00e1lia uma pessoa disse que esse delegado que me prendeu aqui est\u00e1 me perseguindo. Ent\u00e3o eu s\u00f3 posso ser acusado do atropelamento se antes voc\u00eas investigarem esse delegado\u201d. \u00c9 um argumento juridicamente absurdo. Mas que ganhou guarida em variados meios.<\/p>\n<p><b>CC:<\/b><i>\u00a0No relat\u00f3rio da Satiagraha, Prot\u00f3genes Queiroz dedica um capitulo \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de Dantas com a m\u00eddia. Como voc\u00ea definiria essa rela\u00e7\u00e3o?<\/i><\/p>\n<p><b>RV:<\/b>\u00a0O foco do meu livro s\u00e3o as provas, acusa\u00e7\u00f5es e explica\u00e7\u00f5es do caso Satiagraha e n\u00e3o o papel da m\u00eddia, embora ela seja um personagem presente em toda a narrativa. Eu tamb\u00e9m entendi que o debate sobre o papel da m\u00eddia na cobertura da Satiagraha havia sido extenso e intenso na internet, por meio de blogs e sites e outras publica\u00e7\u00f5es, como CartaCapital, que remaram contra a mar\u00e9, e por isso eu n\u00e3o precisava gastar p\u00e1ginas que poderiam ser usadas para avaliar outros aspectos do caso. Mas ao longo do livro eu procurei demonstrar diversas imprecis\u00f5es e enganos divulgados pela m\u00eddia que acabaram por ajudar as posi\u00e7\u00f5es do Opportunity. Outro aspecto not\u00e1vel foi ver que boa parte da m\u00eddia n\u00e3o viu nenhum problema na paralisa\u00e7\u00e3o e anula\u00e7\u00e3o do caso Satiagraha, considerando-os fatos quase rotineiros, mas que de banais nada tinham.<\/p>\n<p>Fonte: Carta Capital<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com 24 anos de carreira, Rubens Valente \u00e9 um dos rep\u00f3rteres mais premiados do Brasil. Rigoroso na apura\u00e7\u00e3o dos fatos, fiel na interpreta\u00e7\u00e3o dos acontecimentos, construiu uma carreira respeitada no jornalismo. Durante mais de dois anos, Valente se dedicou \u00e0 investiga\u00e7\u00e3o que resultou no livro\u00a0\u201cOpera\u00e7\u00e3o Banqueiro\u201d\u00a0(462 p\u00e1ginas, R$ 44,90, Gera\u00e7\u00e3o Editorial), um mergulho nos documentos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":37518,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3],"tags":[343],"class_list":["post-37517","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","tag-livro"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/ImageProxy5.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37517","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=37517"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/37517\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37518"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=37517"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=37517"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=37517"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}