{"id":376917,"date":"2022-01-07T00:41:26","date_gmt":"2022-01-07T03:41:26","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=376917"},"modified":"2022-01-06T16:15:28","modified_gmt":"2022-01-06T19:15:28","slug":"sociologo-polones-cria-tese-para-justificar-atual-paranoia-contra-a-violencia-e-a-instabilidade-dos-relacionamentos-amorosos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/sociologo-polones-cria-tese-para-justificar-atual-paranoia-contra-a-violencia-e-a-instabilidade-dos-relacionamentos-amorosos\/","title":{"rendered":"Soci\u00f3logo polon\u00eas cria tese para justificar atual paranoia contra a viol\u00eancia e a instabilidade dos relacionamentos amorosos"},"content":{"rendered":"<header>\n<div class=\"en-box-bottom\">\n<figure id=\"attachment_376918\" aria-describedby=\"caption-attachment-376918\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-376918 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/bauman-620x348.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"348\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/bauman-620x348.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/bauman-300x168.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/bauman-768x431.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/bauman-160x90.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/bauman-480x270.jpg 480w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/bauman-640x359.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/bauman.jpg 828w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-376918\" class=\"wp-caption-text\">\u201cVivemos tempos l\u00edquidos. Nada \u00e9 para durar\u201d, Zygmunt Bauman\u00a0<\/figcaption><\/figure>\n<p class=\"en-chamada\" style=\"text-align: justify;\">\n<\/div>\n<div class=\"gradiente-bottom\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"main-content-entrevista\">\n<div class=\"en-entrevistador\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"wrapper-nome\">\n<p class=\"en-nome\">Adriana Prado<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"content\">\n<aside class=\"more-posts more-posts-right\">\n<h3><\/h3>\n<h3>\u201cA felicidade est\u00e1 no perd\u00e3o, na ternura e no orgasmo\u201d<\/h3>\n<\/aside>\n<p>O soci\u00f3logo polon\u00eas radicado na Inglaterra\u00a0<strong>Zygmunt Bauman<\/strong>\u00a0\u00e9 um dos intelectuais mais respeitados e produtivos da atualidade. Aos 84 anos, escreveu mais de 50 livros. Dois dos mais recentes, \u201cVida a cr\u00e9dito\u201d e \u201cCapitalismo Parasit\u00e1rio\u201d chegam ao Brasil pela Zahar. As quase duas dezenas de t\u00edtulos j\u00e1 publicados no Pa\u00eds pela editora venderam mais de 200 mil c\u00f3pias. Um resultado e tanto para um te\u00f3rico. Pode-se explicar o apelo de sua obra pela relativa simplicidade com que esmi\u00fa\u00e7a aspectos diversos da \u201cmodernidade l\u00edquida\u201d, seu conceito fundamental. \u00c9 assim que ele se refere ao momento da Hist\u00f3ria em que vivemos. Os tempos s\u00e3o \u201cl\u00edquidos\u201d porque tudo muda t\u00e3o rapidamente. Nada \u00e9 feito para durar, para ser \u201cs\u00f3lido\u201d. Disso resultariam, entre outras quest\u00f5es, a obsess\u00e3o pelo corpo ideal, o culto \u00e0s celebridades, o endividamento geral, a paran\u00f3ia com seguran\u00e7a e at\u00e9 a instabilidade dos relacionamentos amorosos. \u00c9 um mundo de incertezas. E cada um por si. \u201cNossos ancestrais eram esperan\u00e7osos: quando falavam de \u2018progresso\u2019, se referiam \u00e0 perspectiva de cada dia ser melhor do que o anterior. N\u00f3s estamos assustados: \u2018progresso\u2019, para n\u00f3s, significa uma constante amea\u00e7a de ser chutado para fora de um carro em acelera\u00e7\u00e3o\u201d, afirma. Em entrevista \u00e0 ISTO\u00c9, por e-mail, o professor em\u00e9rito das universidades de Leeds, no Reino Unido, e de Vars\u00f3via, na Pol\u00f4nia, falou tamb\u00e9m sobre temas que come\u00e7ou a estudar recentemente, mas s\u00e3o muito caros aos brasileiros: tr\u00e1fico de drogas, favelas e viol\u00eancia policial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span> \u2013\u00a0O que caracteriza a \u201cmodernidade l\u00edquida\u201d?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0L\u00edquidos mudam de forma muito rapidamente, sob a menor press\u00e3o. Na verdade, s\u00e3o incapazes de manter a mesma forma por muito tempo. No atual est\u00e1gio \u201cl\u00edquido\u201d da modernidade, os l\u00edquidos s\u00e3o deliberadamente impedidos de se solidificarem. A temperatura elevada \u2014 ou seja, o impulso de transgredir, de substituir, de acelerar a circula\u00e7\u00e3o de mercadorias rent\u00e1veis \u2014 n\u00e3o d\u00e1 ao fluxo uma oportunidade de abrandar, nem o tempo necess\u00e1rio para condensar e solidificar-se em formas est\u00e1veis, com uma maior expectativa de vida.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span>\u00a0\u2013\u00a0As pessoas est\u00e3o conscientes dessa situa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Acredito que todos estamos cientes disso, num grau ou outro. Pelo menos \u00e0s vezes, quando uma cat\u00e1strofe, natural ou provocada pelo homem, torna imposs\u00edvel ignorar as falhas. Portanto, n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de \u201cabrir os olhos\u201d. O verdadeiro problema \u00e9: quem \u00e9 capaz de fazer o que deve ser feito para evitar o desastre que j\u00e1 podemos prever? O problema n\u00e3o \u00e9 a nossa falta de conhecimento, mas a falta de um agente capaz de fazer o que o conhecimento nos diz ser necess\u00e1rio fazer, e urgentemente. Por exemplo: estamos todos conscientes das conseq\u00fc\u00eancias apocal\u00edpticas do aquecimento do planeta. E todos estamos conscientes de que os recursos planet\u00e1rios ser\u00e3o incapazes de sustentar a nossa filosofia e pr\u00e1tica de \u201ccrescimento econ\u00f4mico infinito\u201d e de crescimento infinito do consumo. Sabemos que esses recursos est\u00e3o rapidamente se aproximando de seu esgotamento. Estamos conscientes \u2014 mas e da\u00ed? H\u00e1 poucos (ou nenhum) sinais de que, de pr\u00f3pria vontade, estamos caminhando para mudar as formas de vida que est\u00e3o na origem de todos esses problemas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span>\u00a0\u2013\u00a0A atual crise financeira tem potencial para mudar a forma como vivemos?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Pode ter ou n\u00e3o. Primeiramente, a crise est\u00e1 longe de terminar. Ainda veremos suas conseq\u00fc\u00eancias de longo prazo (um grande desemprego, entre outras). Em segundo lugar, as rea\u00e7\u00f5es \u00e0 crise n\u00e3o foram at\u00e9 agora animadoras. A resposta quase un\u00e2nime dos governos foi de recapitalizar os bancos, para voltar ao \u201cnormal\u201d. Mas foi precisamente esse \u201cnormal\u201d o respons\u00e1vel pela atual crise. Essa rea\u00e7\u00e3o significa armazenar problemas para o futuro. Mas a crise pode nos obrigar a mudar a maneira como vivemos. A recapitaliza\u00e7\u00e3o dos bancos e institui\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito resultou em d\u00edvidas p\u00fablicas alt\u00edssimas, que precis\u00e3o ser pagas pelos nossos filhos e netos \u2014 e isso pode empobrecer as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. As d\u00edvidas exorbitantes podem levar a uma consider\u00e1vel redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza. S\u00e3o os pa\u00edses ricos agora os mais endividados. De qualquer forma, n\u00e3o s\u00e3o as crises que mudam o mundo, e sim nossa rea\u00e7\u00e3o a elas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Ao se conectarem ao mundo pela internet, as pessoas estariam se desconectando da sua pr\u00f3pria realidade?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span> \u2013\u00a0Os contatos online t\u00eam uma vantagem sobre os offline: s\u00e3o mais f\u00e1ceis e menos arriscados \u2014 o que muita gente acha atraente. Eles tornam mais f\u00e1cil se conectar e se desconectar. Casos as coisas fiquem \u201cquentes\u201d demais para o conforto, voc\u00ea pode simplesmente desligar, sem necessidade de explica\u00e7\u00f5es complexas, sem inventar desculpas, sem censuras ou culpa. Atr\u00e1s do seu laptop ou iPhone, com fones no ouvido, voc\u00ea pode se cortar fora dos desconfortos do mundo offline. Mas n\u00e3o h\u00e1 almo\u00e7os gr\u00e1tis, como diz um prov\u00e9rbio ingl\u00eas: se voc\u00ea ganha algo, perde alguma coisa. Entre as coisas perdidas est\u00e3o as habilidades necess\u00e1rias para estabelecer rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a, as para o que der vier, na sa\u00fade ou na tristeza, com outras pessoas. Rela\u00e7\u00f5es cujos encantos voc\u00ea nunca conhecer\u00e1 a menos que pratique. O problema \u00e9 que, quanto mais voc\u00ea busca fugir dos inconvenientes da vida offline, maior ser\u00e1 a tend\u00eancia a se desconectar.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span>\u00a0\u2013\u00a0E o que o senhor chama de \u201camor l\u00edquido\u201d?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Amor l\u00edquido \u00e9 um amor \u201cat\u00e9 segundo aviso\u201d, o amor a partir do padr\u00e3o dos bens de consumo: mantenha-os enquanto eles te trouxerem satisfa\u00e7\u00e3o e os substitua por outros que prometem ainda mais satisfa\u00e7\u00e3o. O amor com um espectro de elimina\u00e7\u00e3o imediata e, assim, tamb\u00e9m de ansiedade permanente, pairando acima dele. Na sua forma \u201cl\u00edquida\u201d, o amor tenta substituir a qualidade por quantidade \u2014 mas isso nunca pode ser feito, como seus praticantes mais cedo ou mais tarde acabam percebendo. \u00c9 bom lembrar que o amor n\u00e3o \u00e9 um \u201cobjeto encontrado\u201d, mas um produto de um longo e muitas vezes dif\u00edcil esfor\u00e7o e de boa vontade.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span> \u2013\u00a0Nesse contexto, ainda faz sentido sonhar com um relacionamento est\u00e1vel e duradouro?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Ambos os tipos de relacionamento t\u00eam suas pr\u00f3prias vantagens e riscos. Em um mundo \u201cl\u00edquido\u201d, em r\u00e1pida muta\u00e7\u00e3o, \u201ccompromissos para a vida\u201d podem se revelar como sendo promessas que n\u00e3o podem ser cumpridas \u2014 deixando de serem algo valioso para virarem dificuldades. O legado do passado, afinal, \u00e9 a restri\u00e7\u00e3o mais grave que a vida pode impor \u00e0 liberdade de escolha. Mas, por outro lado, como se pode lutar contra as adversidades do destino sozinho, sem a ajuda de amigos fi\u00e9is e dedicados, sem um companheiro de vida, pronto para compartilhar os altos e baixo? Nenhuma das duas variedades de rela\u00e7\u00e3o \u00e9 infal\u00edvel. Mas a vida tamb\u00e9m n\u00e3o o \u00e9. Al\u00e9m disso, o valor de um relacionamento \u00e9 medido n\u00e3o s\u00f3 pelo que ele oferece a voc\u00ea, mas tamb\u00e9m pelo que oferece aos seus parceiros. O melhor relacionamento imagin\u00e1vel \u00e9 aquele em que ambos os parceiros praticam essa verdade.amor<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span>\u00a0\u2013\u00a0O que explicaria o crescimento do consumo de antidepressivos?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Voc\u00ea colocou o dedo em um dos muitos sintomas da nossa crescente intoler\u00e2ncia ao sofrimento \u2013 na verdade, uma intoler\u00e2ncia a cada desconforto ou mesmo ligeira inconveni\u00eancia. Em uma vida regulada por mercados consumidores, as pessoas passaram a acreditar que, para cada problema, h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o. E que esta solu\u00e7\u00e3o pode ser comprada na loja. Que a tarefa do doente n\u00e3o \u00e9 tanto usar sua habilidade para superar a dificuldade, mas para encontrar a loja certa que venda o produto certo que ir\u00e1 superar a dificuldade em seu lugar. N\u00e3o foi provado que essa nova atitude diminui nossas dores. Mas foi provado, al\u00e9m de qualquer d\u00favida razo\u00e1vel, que a nossa induzida intoler\u00e2ncia \u00e0 dor \u00e9 uma fonte inesgot\u00e1vel de lucros comerciais. Por essa raz\u00e3o, podemos esperar que essa nossa intoler\u00e2ncia se agrave ainda mais, em vez de ser atenuada.<\/p>\n<div class=\"NQLyJRfi\">\n<div id=\"\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span>\u00a0\u2013\u00a0E a obsess\u00e3o pelo corpo perfeito?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0N\u00e3o \u00e9 o ideal de perfei\u00e7\u00e3o que lubrifica as engrenagens da ind\u00fastria de cosm\u00e9ticos, mas o desejo de melhorar. E isso significa seguir a moda atual. Todos os aspectos da apar\u00eancia corporal s\u00e3o, atualmente, objetos da moda, n\u00e3o apenas o cabelo ou a cor dos l\u00e1bios, mas os tamanhos dos quadris ou dos seios. A \u201cperfei\u00e7\u00e3o\u201d significaria um fim a outras \u201cmelhorias\u201d. Na cirurgia pl\u00e1stica, s\u00e3o oferecidos aos clientes cart\u00f5es de \u201cfidelidade\u201d, garantindo um desconto nas sucessivas cirurgias que eles certamente ir\u00e3o realizar. Assim como a ind\u00fastria de celebridades, a ind\u00fastria cosm\u00e9tica n\u00e3o tem limites e a demanda por seus servi\u00e7os pode, a princ\u00edpio, se expandir infinitamente.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span>\u00a0\u2013\u00a0O que est\u00e1 por tr\u00e1s desse culto \u00e0s celebridades?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de candidatos a celebridades e seu desejo por notoriedade. O que tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o \u00e9 que o \u201cgrande p\u00fablico\u201d precisa de celebridades, de pessoas que estejam no centro das aten\u00e7\u00f5es. Pessoas que, na aus\u00eancia de autoridades confi\u00e1veis, l\u00edderes, guias, professores, se oferecem como exemplos. Diante do enfraquecimento das comunidades, essas pessoas fornecem \u201cassuntos-chave\u201d em torno dos quais as quase-comunidades, mesmo que apenas por um breve momento, se condensam \u2014para desmoronar logo depois e se recondensar em torno de outras celebridades moment\u00e2neas. \u00c9 por isso que a ind\u00fastria de celebridades est\u00e1 garantida contra todas as depress\u00f5es econ\u00f4micas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span> \u2013\u00a0Como fica o futuro nesse contexto de constantes mudan\u00e7as?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Nossos ancestrais eram esperan\u00e7osos: quando falavam de \u201cprogresso\u201d, se referiam \u00e0 perspectiva de cada dia ser melhor do que o anterior. N\u00f3s estamos assustados: \u201cprogresso\u201d, para n\u00f3s, significa uma constante amea\u00e7a de ser chutado para fora de um carro em acelera\u00e7\u00e3o. De n\u00e3o descer ou embarcar a tempo. De n\u00e3o estar atualizado com a nova moda. De n\u00e3o abandonar rapidamente o suficiente habilidades e h\u00e1bitos ultrapassados e de falhar ao desenvolver as novas habilidades e h\u00e1bitos que os substituem. Al\u00e9m disso, ocupamos um mundo pautado pelo \u201cagora\u201d, que promete satisfa\u00e7\u00f5es imediatas e ridiculariza todos os atrasos e esfor\u00e7os a longo prazo. Em um mundo composto de \u201cagoras\u201d, de momentos e epis\u00f3dios breves, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a preocupa\u00e7\u00e3o com \u201cfuturo\u201d. Como diz um outro prov\u00e9rbio ingl\u00eas: \u201cVamos cruzar essa ponte quando chegarmos a ela\u201d. Mas quem pode dizer quando (e se) chegar e em que ponte?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span> \u2013\u00a0H\u00e1 cinco anos, a pol\u00edcia de Londres matou o brasileiro Jean Charles de Menezes, alegando t\u00ea-lo confundido com um terrorista. Por que o mundo est\u00e1 t\u00e3o paran\u00f3ico com seguran\u00e7a?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Essa obsess\u00e3o e a nossa gest\u00e3o dos assuntos globais, respons\u00e1vel por refor\u00e7\u00e1-la, constituem a amea\u00e7a mais terr\u00edvel \u00e0 nossa seguran\u00e7a. O fant\u00e1stico crescimento das \u201cind\u00fastrias de seguran\u00e7a\u201d, juntamente com a crescente suspeita de perigo que ela evoca, s\u00e3o motivos para antever uma piora das coisas. Se n\u00e3o por qualquer outro motivo, ent\u00e3o porque, na l\u00f3gica das armas de fogo, uma vez carregadas, em algum elas dever\u00e3o ser descarregadas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span>\u00a0\u2013\u00a0No Brasil, a viol\u00eancia \u00e9 uma quest\u00e3o especialmente preocupante. Como o sr. enxerga isso?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Para come\u00e7ar, as favelas servem como uma lixeira para um n\u00famero enorme de pessoas tornadas desnecess\u00e1rias em partes do Pa\u00eds onde suas fontes tradicionais de sustento foram destru\u00eddas \u2014 para quem o Estado n\u00e3o tinha nada a oferecer nem um plano de futuro. Mesmo que n\u00e3o declararem isso abertamente, as ag\u00eancias estatais devem estar felizes pelo fato de o povo nas favelas tomar os problemas em suas pr\u00f3prias m\u00e3os. Por exemplo, ao construir seus barracos rapidamente e de qualquer forma, usando materiais inst\u00e1veis, encontrados ou roubados, na aus\u00eancia de habita\u00e7\u00f5es planejadas e constru\u00eddas pelas autoridades estaduais ou municipais para acomod\u00e1-los.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Essa aus\u00eancia do Estado abriu espa\u00e7o para os traficantes. O combate \u00e0s quadrilhas \u00e0s vezes \u00e9 usado com justificativa para excessos da pol\u00edcia. Por que tanta viol\u00eancia?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0As rela\u00e7\u00f5es entre a pol\u00edcia e as empresas de tr\u00e1fico de drogas s\u00e3o, na apropriada express\u00e3o de Bernardo Sorj (soci\u00f3logo brasileiro, professor da Universidade Federal do Rio), \u201cnem de guerra nem de paz\u201d. Esse amor e \u00f3dio entre as duas principais ag\u00eancias de terror aumenta o estigma da favela como o local da viol\u00eancia genocida. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, tamb\u00e9m contribui para a \u201cfuncionalidade\u201d das favelas na manuten\u00e7\u00e3o do atual sistema de poder no Brasil. A pol\u00edcia brasileira tem um longo hist\u00f3rico de tratamento brutal aos pobres, anterior \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o relativamente recente das favelas. A brutalidade da pol\u00edcia \u00e9 mesmo para ser espetacular. Como n\u00e3o \u00e9 particularmente bem sucedida no combate \u00e0 criminalidade e \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, a pol\u00edcia, para convencer a popula\u00e7\u00e3o de seu potencial coercitivo, deve assust\u00e1-la e coagi-la a ser passivamente obediente.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span>\u00a0\u2013\u00a0O sr. v\u00ea uma solu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Algo est\u00e1 sendo feito, mesmo que, at\u00e9 agora, n\u00e3o seja suficiente para cortar um n\u00f3 firmemente amarrado por d\u00e9cadas, sen\u00e3o s\u00e9culos. Um exemplo \u00e9 o Viva Rio (ONG que atua contra a viol\u00eancia). Pequenos passos, talvez, sopros n\u00e3o fortes o suficiente para romper a armadura do ressentimento m\u00fatuo e indiferen\u00e7a moral de anos entre \u201cmorro\u201d e \u201casfalto\u201d no Rio. Mas a escolha \u00e9, afinal, entre erguer paredes de pedra e a\u00e7o ou o desmantelamento de cercas espirituais.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"pergunta\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><span class=\"autor\">ISTO\u00c9<\/span>\u00a0\u2013\u00a0O que o sr. diria ao jovens?<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"resposta\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span class=\"autor\">Zygmunt Bauman<\/span>\u00a0\u2013\u00a0Eu desejo que os jovens percebam razoavelmente cedo que h\u00e1 tanto significado na vida quando eles conseguem adicionar isso a ela atrav\u00e9s de esfor\u00e7o e dedica\u00e7\u00e3o. Que a \u00e1rdua tarefa de compor uma vida n\u00e3o pode ser reduzida a adicionar epis\u00f3dios agrad\u00e1veis. A vida \u00e9 maior que a soma de seus momentos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA felicidade est\u00e1 no perd\u00e3o, na ternura e no orgasmo\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":376918,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-376917","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/01\/bauman.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376917","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=376917"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/376917\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/376918"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=376917"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=376917"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=376917"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}