{"id":388289,"date":"2022-05-16T05:02:14","date_gmt":"2022-05-16T08:02:14","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=388289"},"modified":"2022-05-16T05:02:14","modified_gmt":"2022-05-16T08:02:14","slug":"sitio-do-pilar-a-descoberta-arqueologica-no-recife-que-marca-a-historia-de-todo-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/sitio-do-pilar-a-descoberta-arqueologica-no-recife-que-marca-a-historia-de-todo-o-brasil\/","title":{"rendered":"S\u00edtio do Pilar: a descoberta arqueol\u00f3gica no Recife que marca a hist\u00f3ria de todo o Brasil"},"content":{"rendered":"<header class=\"grid_12 prefix_2\">\n<div class=\"tituloNoticia\">\n<h1 class=\"tituloNoticiaDet\"><\/h1>\n<h2 class=\"subTituloDet\">Mais de 130 ossadas, algumas do final do s\u00e9culo XVI e in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, est\u00e3o sendo analisadas para entender os h\u00e1bitos e conhecer quem eram as pessoas que viviam na \u00e1rea<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"descricaoNoticia\">\n<aside class=\"dataAutor\">Por<strong>\u00a0Isabelle Barbosa<\/strong><\/aside>\n<\/div>\n<div class=\"spacerLine mobileNao\"><\/div>\n<div class=\"spacer40 mobileNao\"><\/div>\n<\/header>\n<div class=\"imgPadrao grid_12 prefix_2\"><a id=\"imgPrincipalNoticia\" title=\"Esqueleto do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar  - Foto: Foto: Melissa Fernandes\/Folha de Pernambuco\" href=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/img\/pc\/450\/450\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-28-at-142014.jpeg\" rel=\"gallery\"><picture><source srcset=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/img\/pc\/450\/450\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-28-at-142014.jpeg\" media=\"(max-width: 940px)\" \/><source srcset=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/img\/pc\/1100\/1\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-28-at-142014.jpeg.webp\" type=\"image\/webp\" \/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/img\/pc\/1100\/1\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-28-at-142014.jpeg\" alt=\"Esqueleto do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar\" \/><\/picture><\/a><\/div>\n<div class=\"imgPadrao grid_12 prefix_2\"><small class=\"legendaFoto\">Esqueleto do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar\u00a0&#8211;\u00a0<em>Foto: Melissa Fernandes\/Folha de Pernambuco<\/em><\/small><\/div>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<div class=\"spacer40 mobileNao\"><\/div>\n<article class=\"grid_8 prefix_2 textoArea\">Cr\u00e2nios, f\u00eamures, costelas, dentes. Ossos podem contar a hist\u00f3ria e os h\u00e1bitos de uma determinada popula\u00e7\u00e3o e, consequentemente, de um local. Com base num arsenal de mais de\u00a0<strong>130 esqueletos<\/strong>, cientistas buscam revelar como era a vida dos primeiros habitantes do Recife, num achado arqueol\u00f3gico que pode ser o maior cemit\u00e9rio colonial do Brasil.<\/p>\n<p>Uma descoberta que, a partir do passado na Capital pernambucana, termina por revelar partes at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidas da pr\u00f3pria hist\u00f3ria de todo o Pa\u00eds. Esse \u00e9 um\u00a0<strong>marco para o Recife\u00a0<\/strong>e um passo indispens\u00e1vel para avan\u00e7ar em um verdadeiro descobrimento enquanto na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>S\u00edtio do Pilar<\/strong>, como foi batizado o terreno, est\u00e1 na comunidade hom\u00f4nima, no Bairro do Recife, \u00e1rea central da cidade. No espa\u00e7o, foram encontradas mais de 130 ossadas, algumas do final do s\u00e9culo XVI e in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, al\u00e9m de cerca de 200 mil fragmentos e objetos que est\u00e3o sendo analisados para entender os h\u00e1bitos e conhecer detalhes sobre quem eram as pessoas que viviam no local, nas d\u00e9cadas de 1500 e 1600.<\/p>\n<div><\/div>\n<div class=\"dn_imagemComLegenda full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/upload\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-28-at-142014-2.jpeg\" alt=\"Esqueleto do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar\" \/><small class=\"dn_legendaImg\">Esqueleto do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar. Foto:\u00a0Melissa Fernandes\/Folha de Pernambuco<\/small><\/div>\n<p>O que esqueletos, em sua maioria, de mais de 1,70 metro podem dizer sobre o passado? Como fragmentos de utens\u00edlios de lou\u00e7a exp\u00f5em as prefer\u00eancias est\u00e9ticas de um povo? E mais, o que o fato de apenas um beb\u00ea estar enterrado em um caix\u00e3o, enquanto os corpos &#8220;adolescentes e adultos&#8221; eram amontoados um sobre o outro, diz sobre os ritos de uma comunidade?<\/p>\n<p>Por enquanto, essas perguntas seguem sem respostas, mas as possibilidades instigam todos que est\u00e3o \u00e0 frente desse processo de escava\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o arqueol\u00f3gica, coordenado pelas historiadoras e professoras da\u00a0<strong>Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE)<\/strong>\u00a0Ana Nascimento e Suely Luna.<\/p>\n<p>Ao lado da sua equipe, Ana tamb\u00e9m viu emergir da terra, depois de muito escavar, al\u00e9m dos esqueletos, ru\u00ednas de um antigo forte que estava soterrado, localizado, mais precisamente, na quadra 45.<\/p>\n<p>\u201cExistia um forte no local e, ap\u00f3s escava\u00e7\u00f5es, n\u00f3s identificamos parte da base dele. Em cima dos escombros, foi constru\u00edda uma igreja (Nossa Senhora do Pilar, de 1680), que est\u00e1 de p\u00e9 at\u00e9 hoje. Al\u00e9m disso, temos data\u00e7\u00f5es de esqueletos que s\u00e3o do final do s\u00e9culo XVI e in\u00edcio do XVII\u201d, afirma Ana.<\/p>\n<div><\/div>\n<div class=\"dn_imagemComLegenda full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/upload\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-28-at-141749-1.jpeg\" alt=\"Historiadora Ana Nascimento na base do Forte de S\u00e3o Jorge\" \/><small class=\"dn_legendaImg\">Historiadora Ana Nascimento na base do Forte de S\u00e3o Jorge. Foto:\u00a0Melissa Fernandes\/Folha de Pernambuco<\/small><\/div>\n<p><strong>Como come\u00e7aram as descobertas<\/strong><\/p>\n<p>As pesquisas na \u00e1rea come\u00e7aram em 2010, ap\u00f3s uma avalia\u00e7\u00e3o para a<strong>\u00a0constru\u00e7\u00e3o de habitacionais\u00a0<\/strong>destinados \u00e0 popula\u00e7\u00e3o carente da regi\u00e3o. Por se tratar de um bairro tombado pelo\u00a0<strong>Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan)<\/strong>, a Prefeitura do Recife contratou, \u00e0 \u00e9poca, os servi\u00e7os da Funda\u00e7\u00e3o Serid\u00f3 que, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), realizou vistoria arqueol\u00f3gica e descobriu os primeiros vest\u00edgios de um poss\u00edvel cemit\u00e9rio colonial na \u00e1rea.<\/p>\n<p>O processo de constru\u00e7\u00e3o das moradias foi ent\u00e3o interrompido e as buscas, ampliadas. O espa\u00e7o foi dividido em seis quadras (25, 40, 45, 46, 55 e 60). A Funda\u00e7\u00e3o Serid\u00f3 manteve contrato de pesquisa do S\u00edtio at\u00e9 2013 e, nesse per\u00edodo, foram encontrados cerca de 30 esqueletos, que atualmente est\u00e3o em laborat\u00f3rios da UFPE para estudo e an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Dois anos depois, no fim de 2015, a Funda\u00e7\u00e3o Apol\u00f4nio Salles (Fadurpe), entidade formada por docentes da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), assumiu a responsabilidade do estudo do S\u00edtio do Pilar e j\u00e1 resgatou mais de 100 esqueletos at\u00e9 o momento. O contrato da equipe segue at\u00e9 mar\u00e7o de 2023, e a Prefeitura do Recife estima investimento de R$ 1,3 milh\u00e3o na contrata\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es para trabalhos de pesquisa na \u00e1rea.<\/p>\n<p><strong>Forte de S\u00e3o Jorge e enterramentos antes do per\u00edodo holand\u00eas<\/strong><\/p>\n<p>Historiador e professor do Departamento de Hist\u00f3ria da UFRPE e respons\u00e1vel pela pesquisa hist\u00f3rica do S\u00edtio do Pilar,\u00a0<strong>Bruno Miranda\u00a0<\/strong>lembra que iconografias datadas do\u00a0<strong>in\u00edcio do s\u00e9culo XVII<\/strong>, per\u00edodo anterior \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o holandesa (1630), j\u00e1 apontavam naquela \u00e1rea a exist\u00eancia de um forte portugu\u00eas, denominado Forte de S\u00e3o Jorge. Respons\u00e1vel pelos levantamentos cartogr\u00e1ficos e documentais do espa\u00e7o, ele conta que o local era ilustrado nas imagens com estrutura semelhante \u00e0 de um castelo, devido \u00e0s muralhas muito elevadas.<\/p>\n<p>\u201cEra uma fortifica\u00e7\u00e3o para a defesa do caminho entre Recife e Olinda, e usado como prote\u00e7\u00e3o para o que adentrava no Porto. Cruzava fogo com outra fortifica\u00e7\u00e3o no arrecife para impedir que embarca\u00e7\u00f5es entrassem na \u00e1rea\u201d, afirma Bruno.<\/p>\n<p>As representa\u00e7\u00f5es da \u00e9poca tamb\u00e9m mostram que, nas proximidades dessa estrutura militar, fora do cerco habitado, havia um espa\u00e7o frequentemente simbolizado por uma cruz, sinal usado para indicar \u00e1reas de sepultamentos.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 indica\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de um cemit\u00e9rio no local em alguns documentos hist\u00f3ricos. Os registros mais antigos s\u00e3o de antes da chegada dos holandeses. Ent\u00e3o, temos material n\u00e3o somente arqueol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m iconogr\u00e1fico para dizer que a \u00e1rea era usada para enterramentos antes da chegada dos holandeses\u201d, informa o historiador.<\/p>\n<div class=\"dn_imagemComLegenda full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/upload\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-26-at-175119-1.jpeg\" alt=\"\" \/><small class=\"dn_legendaImg\">Em destaque vermelho est\u00e1 a representa\u00e7\u00e3o da cruz, sinal usado para indicar \u00e1rea de sepultamento. Foto: Desenho oriunfo do Arquivo Nacional, Haia<\/small><\/div>\n<p>Bruno Miranda diz que ainda n\u00e3o h\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o de quais povos foram enterrados naquele espa\u00e7o. \u201cN\u00e3o cravaria o local apenas como cemit\u00e9rio militar at\u00e9 que se tenha um perfil dos enterrados. Al\u00e9m disso, precisamos fazer a data\u00e7\u00e3o das ossadas para realizar a cronologia\u201d, pontua.<\/p>\n<p><strong>Novos enterramentos ap\u00f3s dom\u00ednio holand\u00eas<\/strong><\/p>\n<p>Os sepultamentos no<strong>\u00a0S\u00edtio do Pilar<\/strong>\u00a0n\u00e3o se limitaram ao per\u00edodo anterior \u00e0 invas\u00e3o holandesa. Em uma outra quadra escavada pelos pesquisadores da UFRPE, a 25, foram encontrados esqueletos em baixa profundidade &#8211; cerca de um metro &#8211; ou seja, em local de aterro provindo do processo de urbaniza\u00e7\u00e3o da \u00e1rea. J\u00e1 os indiv\u00edduos datados do final do s\u00e9culo XVI foram localizados no istmo (camada de areia original e que est\u00e1 numa profundidade abaixo de 2 metros da superf\u00edcie).<\/p>\n<p>Miranda explica que, diante da presen\u00e7a holandesa no Recife, a partir de 1630, e da expans\u00e3o habitacional daquela \u00e1rea portu\u00e1ria, o<strong>\u00a0Forte de S\u00e3o Jorge<\/strong>\u00a0passou a ter um outro uso, tornando-se um hospital onde soldados e trabalhadores doentes do ancoradouro eram levados e podem ter morrido, sendo sepultados no terreno do S\u00edtio do Pilar.<\/p>\n<p>\u201cTemos muitas perguntas para responder, mas j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel dizer que o uso do hospital pelos holandeses tem uma conex\u00e3o com as ossadas encontradas. Ou seja, houve um incremento da pr\u00e1tica de enterramentos naquele local\u201d.<\/p>\n<div class=\"dn_imagemComLegenda full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/upload\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-28-at-142021.jpeg\" alt=\"Esqueletos do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar\" \/><small class=\"dn_legendaImg\">Ossos do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar. Foto:\u00a0Melissa Fernandes\/Folha de Pernambuco<\/small><\/div>\n<p>O hospital funcionou durante parte substancial da presen\u00e7a holandesa, mas at\u00e9 agora n\u00e3o se sabe at\u00e9 quando ocorreram os sepultamentos no S\u00edtio. H\u00e1 a hip\u00f3tese de que a popula\u00e7\u00e3o local tenha perdido a refer\u00eancia de que naquele espa\u00e7o havia enterramentos, sendo o terreno posteriormente aterrado e constru\u00e7\u00f5es, feitas sobre ele.<\/p>\n<p><strong>Escava\u00e7\u00f5es e as descobertas da quadra 55\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Tr\u00eas das seis quadras do S\u00edtio (40, 46 e 25) j\u00e1 foram exploradas totalmente e liberadas para uso da Prefeitura do Recife. A 45, onde est\u00e1 o forte, foi parcialmente verificada; assim como a 55, que est\u00e1 sendo analisada atualmente, faltando ainda a de n\u00famero 60.<\/p>\n<p>Para efetuar a escava\u00e7\u00e3o e o estudo dos ossos encontrados, foi convidada a bioarque\u00f3loga, doutora em Antropologia Biol\u00f3gica pela Universidade de Coimbra (Portugal) e professora do Departamento de Arqueologia da Universidade Federal do Piau\u00ed, Claudia Cunha, que usou a metodologia \u201cantropologia do terreno\u201d para identificar a \u00e1rea.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma metodologia que procura recolher o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00f5es de cada esqueleto e do terreno. Detalhes sobre como eram as pessoas fisicamente, sexo, altura, idade, al\u00e9m das doen\u00e7as que est\u00e3o marcadas no esqueleto\u201d.<\/p>\n<div class=\"dn_imagemComLegenda full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/upload\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-29-at-142135_1.jpeg\" alt=\"\" \/><small class=\"dn_legendaImg\">Esqueleto\u00a0do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar. Na imagem, a bioarque\u00f3loga Claudia Cunha. Foto: Melissa Fernandes\/Folha de Pernambuco<\/small><\/div>\n<p>Na<strong>\u00a0quadra 55<\/strong>, foram encontrados ossos em n\u00edveis mais profundos de escava\u00e7\u00e3o, abaixo de 2 metros de profundidade. De acordo com a bioarque\u00f3loga, dos 102 esqueletos achados no local,<strong>\u00a0apenas\u00a0dois eram de mulheres<\/strong>. E todos foram enterrados em mortalhas.<\/p>\n<p>\u201cNotamos que era um cemit\u00e9rio muito organizado. A maioria das pessoas foi enterrada com os p\u00e9s voltados para o mar, todos enfileirados. Essa ordena\u00e7\u00e3o \u00e9 de um cemit\u00e9rio supervisionado, planejado\u201d.<\/p>\n<p>Dois dos esqueletos encontrados na \u00e1rea mais profunda da quadra 55 j\u00e1 foram datados e s\u00e3o do final do s\u00e9culo XVI e in\u00edcio do s\u00e9culo XVII. \u201cNo n\u00edvel mais baixo, est\u00e3o os mortos mais antigos. Ap\u00f3s a zona ser aterrada, vinham outros mortos, e assim por diante. O que a gente sabe a partir disso \u00e9 que os esqueletos mais antigos encontrados at\u00e9 agora s\u00e3o da \u00e9poca da funda\u00e7\u00e3o do Recife\u201d.<\/p>\n<p><strong>Estatura dos esqueletos pode revelar indiv\u00edduos<\/strong><\/p>\n<p>Claudia informou, ainda, que um grande n\u00famero de esqueletos encontrados na quadra 55 s\u00e3o de indiv\u00edduos com mais de 1,70 m de altura. Entre eles, o de uma jovem adolescente de 14 anos, com 1,76 m.<\/p>\n<p>\u201cProvavelmente, n\u00e3o eram daqui. A m\u00e9dia de estatura n\u00e3o \u00e9 da popula\u00e7\u00e3o brasileira, nem portuguesa e nem ind\u00edgena. A gente vai proceder a an\u00e1lise dos dentes para saber exatamente de onde essas pessoas vieram\u201d, afirma.<\/p>\n<p>A partir dos dentes, explica ela, \u00e9 poss\u00edvel realizar uma an\u00e1lise que leva em conta\u00a0<strong>52 caracter\u00edsticas<\/strong>\u00a0da denti\u00e7\u00e3o humana. \u201cA partir dessas caracter\u00edsticas, a gente aplica uma an\u00e1lise estat\u00edstica comparando os dentes de uma pessoa com a base de dados mundial que tem cerca de 30 mil indiv\u00edduos de todas as partes do planeta. O teste me diz que popula\u00e7\u00e3o esse indiv\u00edduo \u00e9 mais pr\u00f3ximo biologicamente\u201d.<\/p>\n<div class=\"dn_imagemComLegenda full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/upload\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-19-at-124208.jpeg\" alt=\"Esqueleto do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar\" \/><small class=\"dn_legendaImg\">Esqueleto do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar. Foto: Claudia Cunha\/ N\u00facleo de Ensinos e Pesquisas Arqueol\u00f3gicas<\/small><\/div>\n<p><strong>Esqueleto de beb\u00ea \u00e9 encontrado na quadra 25<\/strong><\/p>\n<p>No \u00faltimo dia 18 de abril, durante a escava\u00e7\u00e3o da \u00e1rea 25, foi encontrado o primeiro esqueleto de um beb\u00ea, com idade entre quatro e seis meses de vida. Ele foi enterrado sobre outro indiv\u00edduo que j\u00e1 estava no espa\u00e7o e encontrado em meio a ru\u00ednas de um caix\u00e3o com base de ferro e confeccionado com pregos artesanais. O cr\u00e2nio estava esmagado, possivelmente pela press\u00e3o do solo.<\/p>\n<p>Segundo Claudia Cunha, o beb\u00ea deve ter\u00a0<strong>morrido h\u00e1 mais de cem anos<\/strong>. Uma investiga\u00e7\u00e3o nos ossos da crian\u00e7a poder\u00e1 informar sobre a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o que vivia ali.<\/p>\n<p>\u201cA olho nu, n\u00e3o conseguimos verificar o sexo de crian\u00e7as em material esqueletizado, mas vamos fazer uma an\u00e1lise gen\u00e9tica de fragmento dos ossos nos Estados Unidos. Pela an\u00e1lise de is\u00f3topos, poderemos verificar a alimenta\u00e7\u00e3o da m\u00e3e, que \u00e9 absorvida pela crian\u00e7a por meio do leite materno\u201d, explica.<\/p>\n<div class=\"dn_imagemComLegenda full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/upload\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-28-at-142322_1.jpeg\" alt=\"Esqueletos do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar\" \/><small class=\"dn_legendaImg\">Esqueleto do beb\u00ea encontrado no S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar. Foto:\u00a0Melissa Fernandes\/Folha de Pernambuco<\/small><\/div>\n<p>Diferente da quadra 55, onde os esqueletos estavam ordenados, a 25, onde a crian\u00e7a foi encontrada n\u00e3o segue uma padroniza\u00e7\u00e3o r\u00edgida de enterramentos, sendo identificados indiv\u00edduos em posi\u00e7\u00f5es diferentes e muito pr\u00f3ximos uns dos outros.<\/p>\n<p>\u201cA constru\u00e7\u00e3o desse cemit\u00e9rio acompanha a constru\u00e7\u00e3o da ilha. Na medida que ela ia crescendo para cima e para os lados, o cemit\u00e9rio ia acompanhando. Os achados s\u00e3o um registro material de como a cidade nasceu e cresceu. A expectativa \u00e9 que o S\u00edtio do Pilar se torne o maior cemit\u00e9rio colonial do pa\u00eds em n\u00famero de indiv\u00edduos\u201d.<\/p>\n<p>As data\u00e7\u00f5es e demais an\u00e1lises refinadas do achado arqueol\u00f3gico est\u00e3o sendo feitas por radiocarbono no laborat\u00f3rio Beta Analytics, nos Estados Unidos. A professora Caroline Borges, do Departamento de Hist\u00f3ria da UFRPE, \u00e9 a respons\u00e1vel pela an\u00e1lise de is\u00f3topos que tamb\u00e9m ser\u00e1 feita nos Estados Unidos. Esta an\u00e1lise trar\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre a alimenta\u00e7\u00e3o das pessoas enterradas no Pilar.<\/p>\n<p><strong>An\u00e1lise e armazenamento dos achados\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>O espa\u00e7o de armazenagem do material encontrado no terreno do Pilar \u00e9 o laborat\u00f3rio do<strong>\u00a0N\u00facleo de Ensino e Pesquisas Arqueol\u00f3gicas (Neparq)<\/strong>, da UFRPE. A respons\u00e1vel pelo acervo \u00e9 a historiadora e professora da institui\u00e7\u00e3o Suely Luna, coordenadora geral do projeto.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dela e dos demais arque\u00f3logos envolvidos, outros 10 estudantes de gradua\u00e7\u00e3o e especializa\u00e7\u00e3o realizam pesquisa, cataloga\u00e7\u00e3o, higieniza\u00e7\u00e3o e guarda dos achados no laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os esqueletos est\u00e3o armazenados em v\u00e1rias bandejas identificadas, que ficam numa sala com refrigera\u00e7\u00e3o em temperatura m\u00e9dia em torno de 25\u00ba C e com pouca luz para evitar o processo de<strong>\u00a0ressecamento dos ossos<\/strong>.<\/p>\n<div class=\"dn_imagemComLegenda full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/upload\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-28-at-141749.jpeg\" alt=\"Fragmentos do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar\" \/><small class=\"dn_legendaImg\">\u00a0Professora Suely Luna, historiadora da UFRPE. Foto:\u00a0Melissa Fernandes\/Folha de Pernambuco<\/small><\/div>\n<p>J\u00e1 os cerca de\u00a0<strong>200 mil fragmentos<\/strong>\u00a0<strong>e pe\u00e7as\u00a0<\/strong>encontrados est\u00e3o catalogados, fotografados e separados em embalagens pl\u00e1sticas, dentro de caixas organizadoras que ultrapassam mil unidades. Elas est\u00e3o acomodadas em v\u00e1rias prateleiras de uma outra sala do laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Foram achadas lou\u00e7as em cer\u00e2mica e em outros materiais; cachimbos; embalagens de vidro; faian\u00e7as portuguesas do final do s\u00e9culo XVI; garrafas de champanhe, gin e vinho de diferentes nacionalidades. H\u00e1, ainda, balas de canh\u00e3o pequenas e a metade de uma bala de canh\u00e3o m\u00e9dia.<\/p>\n<p>\u201cNa regi\u00e3o onde est\u00e1 o Pilar, havia estruturas de antigas casas do s\u00e9culo XIX que foram derrubadas \u00e0 medida em que houve um abandono da regi\u00e3o. Esse material encontrado n\u00e3o est\u00e1 associado aos enterramentos, mas conta as mudan\u00e7as de h\u00e1bitos e a hist\u00f3ria do local. Temos pe\u00e7as bel\u00edssimas que j\u00e1 conseguimos restaurar. A gente consegue reconstituir a partir de desenhos. \u00c9 um trabalho muito grande\u201d, informa Suely Luna.<\/p>\n<div class=\"dn_imagemComLegenda full\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/upload\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-28-at-142013-1.jpeg\" alt=\"Fragmentos do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar\" \/><small class=\"dn_legendaImg\">Fragmentos do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar. Foto:\u00a0Melissa Fernandes\/Folha de Pernambuco<\/small><\/div>\n<p>\u201cPara al\u00e9m dos vest\u00edgios, fragmentos e ossos, n\u00f3s estamos contando a hist\u00f3ria de pessoas que viveram naquele local e que foram apagadas. Queremos falar e entender o cotidiano delas, que \u00e9 o mais importante. A\u00a0<strong>UFRPE<\/strong>\u00a0\u00e9 hoje a guardi\u00e3 desse material. Tudo que a gente faz fica disponibilizado para o Iphan, porque \u00e9 patrim\u00f4nio de todos n\u00f3s. Nosso desejo \u00e9 que seja exposto para a popula\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Sobre a possibilidade de ampliar o acesso do material ao p\u00fablico em geral, a Prefeitura do Recife informou, por meio de nota, que estuda transformar o S\u00edtio do Pilar em um\u00a0<strong>parque arqueol\u00f3gico<\/strong>, mas n\u00e3o deu detalhes da proposta.<\/p>\n<p>\u201cA gest\u00e3o municipal est\u00e1 formando um grupo de estudos que inclui o Instituto Pel\u00f3pidas Silveira, a URB e a secretaria de Infraestrutura para definir quais ser\u00e3o os pr\u00f3ximos passos. A ideia \u00e9 preservar o material e a \u00e1rea e construir novas alternativas para a execu\u00e7\u00e3o dos habitacionais planejados, conciliando a preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico com a necessidade de cria\u00e7\u00e3o de moradias\u201d, informa a prefeitura da cidade.<\/p>\n<div class=\"dn_galeria_noticia\">\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<div id=\"noticia_galeria\" class=\"royalSlider rsDefault rsHor rsWithThumbs rsWithThumbsHor\">\n<div class=\"rsOverflow grab-cursor\">\n<div class=\"rsContainer\">\n<div class=\"rsSlide \"><img decoding=\"async\" class=\"rsImg rsMainSlideImage\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/img\/pc\/780\/780\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-29-at-142605-1.jpeg?c=1\" \/><\/div>\n<div class=\"rsSlide \"><img decoding=\"async\" class=\"rsImg rsMainSlideImage\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/img\/pc\/780\/780\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-28-at-142021-1_1.jpeg?c=1\" \/><\/div>\n<div class=\"rsSlide \"><img decoding=\"async\" class=\"rsImg rsMainSlideImage\" src=\"https:\/\/cdn.folhape.com.br\/img\/pc\/780\/780\/dn_arquivo\/2022\/04\/whatsapp-image-2022-04-29-at-142605.jpeg?c=1\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"rsFullscreenBtn\">\n<div class=\"rsFullscreenIcn\">Esqueleto do S\u00edtio Arqueol\u00f3gico do Pilar. Foto: Melissa Fernandes\/Folha de Pernambuco<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"clear\">Fonte: FolhaPE<\/div>\n<div class=\"dn_galeria_noticia\">\n<div class=\"spacer30\"><\/div>\n<\/div>\n<section class=\"bannerBillboardDetalhe\">\n<div id=\"middle\"><\/div>\n<\/section>\n<div class=\"clear\"><\/div>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais de 130 ossadas, algumas do final do s\u00e9culo XVI e in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, est\u00e3o sendo analisadas para entender os h\u00e1bitos e conhecer quem eram as pessoas que viviam na \u00e1rea<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":388290,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-388289","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/esqueleto.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/388289","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=388289"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/388289\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/388290"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=388289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=388289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=388289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}