{"id":397093,"date":"2022-08-29T10:56:54","date_gmt":"2022-08-29T13:56:54","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=397093"},"modified":"2022-08-29T10:56:54","modified_gmt":"2022-08-29T13:56:54","slug":"aos-dez-anos-lei-de-cotas-confirma-sucesso-e-se-aprimora-contra-fraudes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/aos-dez-anos-lei-de-cotas-confirma-sucesso-e-se-aprimora-contra-fraudes\/","title":{"rendered":"Aos dez anos, Lei de Cotas confirma sucesso e se aprimora contra fraudes"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1 class=\"title\"><\/h1>\n<h2 class=\"description\">Elabora\u00e7\u00e3o do movimento negro, legisla\u00e7\u00e3o aumentou em 400% a presen\u00e7a de pretos e pardos nas universidades<\/h2>\n<div class=\"details-bar\">\n<div class=\"author-time\">\n<div class=\"author\">Igor Carvalho<\/div>\n<div class=\"place-and-time\"><\/div>\n<div class=\"place translated-links\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure>\n<div class=\"img-container\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/3ac5df2c4deb9c48f87625f23ca7ab52.jpeg\" alt=\"\" \/><\/div><figcaption>Combate \u00e0s fraudes nas universidades \u00e9 feito pelas comiss\u00f5es de heteroidentifica\u00e7\u00e3o &#8211; Foto: Marcelo Casall\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<\/header>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"text-content\">\n<p>&#8220;Eu sempre acreditei que era um caminho natural, sair do ensino m\u00e9dio e entrar no ensino superior, mas eu n\u00e3o sabia como isso era poss\u00edvel. De certo modo, o que entend\u00edamos \u00e9 que o ensino superior n\u00e3o \u00e9 para todo mundo&#8221;. Essa \u00e9 a mem\u00f3ria que o soci\u00f3logo Wellington Lopes, de 28 anos, tinha sobre sua ideia de acessar uma universidade\u00a0em 2013. \u00c0s v\u00e9speras de sair do Ensino M\u00e9dio, Lopes ainda n\u00e3o conhecia a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/08\/28\/movimento-negro-e-esquerda-querem-revisao-da-lei-de-cotas-apos-eleicao-congresso-racista\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lei 12.711, conhecida como Lei de Cotas<\/a>, promulgada em 29 de agosto de 2012.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s um ano de estudos na Uneafro, rede de cursinhos populares que prepara jovens de periferia para vestibulares, Lopes conseguiu uma vaga, usando\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefatoba.com.br\/2022\/04\/18\/a-lei-12-711-2012-trouxe-uma-transformacao-importante-nas-universidades-afirma-dyane-brito\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a Lei de Cotas<\/a>, para Ci\u00eancias Sociais na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), onde se formou em 2018. Hoje, \u00e9 volunt\u00e1rio da organiza\u00e7\u00e3o e milita para garantir a manuten\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Uma pessoa pobre e de quebrada ingressar no ensino superior\u00a0faz parecer mais poss\u00edvel para todo mundo. Outras pessoas, inclusive da minha fam\u00edlia, entraram no ensino superior\u00a0ap\u00f3s o meu ingresso&#8221;, explica o soci\u00f3logo.<\/p>\n<p>::\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/08\/28\/movimento-negro-e-esquerda-querem-revisao-da-lei-de-cotas-apos-eleicao-congresso-racista\">Movimento negro e esquerda querem revis\u00e3o da Lei de Cotas ap\u00f3s elei\u00e7\u00e3o: &#8220;Congresso racista&#8221;<\/a>\u00a0::<\/p>\n<p>Quando a Lei de Cotas foi criada, j\u00e1 havia programas de reserva de vagas para a popula\u00e7\u00e3o negra em 80% das universidades p\u00fablicas do pa\u00eds. A pioneira foi a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), que adotou o modelo em 2003.<\/p>\n<p>A lei\u00a0foi fruto da luta e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefatopb.com.br\/2022\/01\/24\/in-visibilidades-negras-ou-historias-de-vidas-silenciadas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">elabora\u00e7\u00e3o do movimento negro<\/a>. Ainda em 1983, o ent\u00e3o senador<a href=\"https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/especiais\/arquivo-s\/senador-abdias-nascimento-uma-vida-dedicada-a-luta-contra-o-racismo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0Abdias do Nascimento<\/a>\u00a0apresentou o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/proposicoesWeb\/fichadetramitacao?idProposicao=190742\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Projeto de Lei 1.332<\/a>, que previa a cria\u00e7\u00e3o de 20% de cotas para mulheres e negros no servi\u00e7o p\u00fablico e nas universidades.<\/p>\n<p>&#8220;Os africanos n\u00e3o vieram para o Brasil livremente, como resultado de sua pr\u00f3pria decis\u00e3o ou op\u00e7\u00e3o. Vieram acorrentados, sob toda sorte de viol\u00eancias f\u00edsicas e morais; eles e seus descendentes trabalharam mais de quatro s\u00e9culos construindo este pa\u00eds. N\u00e3o tiveram, no entanto, a m\u00ednima compensa\u00e7\u00e3o por esse gigantesco trabalho realizado&#8221;,\u00a0<a href=\"https:\/\/issuu.com\/institutopesquisaestudosafrobrasile\/docs\/biografia-abdias\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">afirmava Abdias do Nascimento, na justificativa do Projeto de Lei<\/a>.<\/p>\n<p>&#8220;Fazem-se necess\u00e1rias, portanto, medidas concretas para implementar o direito constitucional da igualdade racial, garantida aos brasileiros negros pela Constitui\u00e7\u00e3o. Este Projeto de Lei atinge apenas tr\u00eas dimens\u00f5es da discrimina\u00e7\u00e3o racial contra o negro no Brasil: nas oportunidades e remunera\u00e7\u00e3o do trabalho, na educa\u00e7\u00e3o e no tratamento policial&#8221;, encerra o parlamentar.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a reserva de cotas nas universidades\u00a0como medida de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica\u00a0passou a figurar na agenda do movimento negro brasileiro. Hoje, a conquista \u00e9 celebrada.<\/p>\n<p>&#8220;A Lei de Cotas foi a pol\u00edtica mais efetiva j\u00e1 constru\u00edda\u00a0no sentido de produzir uma diversidade e fazer com que grupos, que historicamente estavam fora das universidades, chegassem at\u00e9 esses espa\u00e7os. \u00c9 um balan\u00e7o positivo e as cotas devem continuar\u00a0para a constru\u00e7\u00e3o da igualdade&#8221;, afirma a professora Z\u00e9lia Amador, militante hist\u00f3rica do movimento negro e integrante da coordena\u00e7\u00e3o nacional da Coaliz\u00e3o Negra por Direitos.<\/p>\n<p>Antes de ser implementada, a Lei de Cotas enfrentou resist\u00eancia de diversos setores da\u00a0sociedade. Em abril de 2008, um grupo de 113 intelectuais, artistas e pol\u00edticos assinaram uma carta recha\u00e7ando a reserva de vagas para negros e ind\u00edgenas nas universidades, como Caetano Velos, Gerald Thomas, Nelson Motta, Ferreira Gullar, Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro e\u00a0Lilia Schwarcz, entre outros.<\/p>\n<p>&#8220;As cotas raciais (\u2026) ocultam uma realidade tr\u00e1gica e desviam as aten\u00e7\u00f5es dos desafios imensos e das urg\u00eancias, sociais e educacionais (\u2026) passam uma fronteira brutal no meio da maioria absoluta dos brasileiros (\u2026) um Estado racializado estaria dizendo (caso as cotas vigorassem) aos cidad\u00e3os que a utopia da igualdade fracassou&#8221;, dizia a carta.<\/p>\n<p>No impulso dado pela carta, o DEM foi ao Supremo Tribunal Federal (STF) exigindo que o sistema de cotas raciais fosse proibido no pa\u00eds. \u00c0 \u00e9poca, o partido escolheu a Universidade de Bras\u00edlia (UNB), que havia institu\u00eddo a a\u00e7\u00e3o afirmativa em 2003.<\/p>\n<p>&#8220;Houve muita resist\u00eancia ao processo de cria\u00e7\u00e3o das cotas raciais, inclusive artistas de esquerda, que foram contra, diziam que ia dividir a sociedade brasileira, rompendo com uma &#8216;democracia racial&#8217;. \u00c9 o oposto, a cota n\u00e3o isola, ela permite que um grupo inteiro se movimente&#8221;, afirma Lopes, que lembra ter vivido, ainda em 2015, o clima belicoso de enfrentamento \u00e0s cotas e cotistas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Quando eu entro, ainda existia um rancor com o processo das cotas raciais. As rela\u00e7\u00f5es com alunos e professores eram violentas&#8221;, recorda o soci\u00f3logo, que enfrentava dificuldades fora do espa\u00e7o da universidade. &#8220;As rela\u00e7\u00f5es brancas se protegiam no Mato Grosso do Sul, nunca fui acolhido l\u00e1. \u00c9 um estado que esmaga a popula\u00e7\u00e3o negra de todas as formas, a hist\u00f3ria do Mato Grosso do Sul \u00e9 a hist\u00f3ria do colonizador branco e agropecuarista.&#8221;<\/p>\n<p>As an\u00e1lises futuristas e catastrofistas esbarram no bom desempenho das cotas como pol\u00edtica p\u00fablica no pa\u00eds. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), entre 2010 e 2019, o n\u00famero de negros nas universidades do pa\u00eds cresceu 400%. O Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Teixeira (Inep) de 2018 mostra que a participa\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas no ensino superior aumentou 842%, entre 2010 e 2017.<\/p>\n<p>Embora sejam 56% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, negros ainda ocupam apenas 38% das vagas nas universidades do pa\u00eds. Apesar do \u00edndice, o pesquisador Jo\u00e3o Feres, coordenador do\u00a0<a href=\"https:\/\/gemaa.iesp.uerj.br\/projeto\/acao-afirmativa-e-o-debate-na-grande-midia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Grupo de Estudos Multidisciplinares de A\u00e7\u00e3o Afirmativa (Gemaa)<\/a>, da UERJ, celebra as conquistas da pol\u00edtica p\u00fablica.<\/p>\n<p>&#8220;A experi\u00eancia com a Lei de Cotas no Brasil \u00e9 excelente. Todos os estudos mostram que aumentou muito a participa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe outra raz\u00e3o razo\u00e1vel\u00a0que n\u00e3o seja as cotas\u00a0para explicar esse aumento enorme. Dito isso, os estudos do Gemaa mostram que a Lei de Cotas melhorou a forma como as cotas eram aplicadas, as tornaram mais inclusivas. Antes da lei, as cotas eram apenas para estudantes pobres, n\u00e3o inclu\u00eda ind\u00edgenas&#8221;, conta Feres.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images03.brasildefato.com.br\/3e3e83f965a12723791a1e5c86c78866.jpeg\" \/><br \/>\nWellington Lopes, ao lado de Fernando Haddad, que era ministro da Educa\u00e7\u00e3o, quando a Lei de Cotas foi implementada no Brasil \/ Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Combatendo fraudes<\/p>\n<p>Com o passar dos anos,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/03\/26\/por-mais-50-anos-conheca-a-opiniao-de-parlamentares-sobre-a-lei-de-cotas-que-completa-10-anos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o sucesso dos n\u00fameros de acesso da popula\u00e7\u00e3o negra nas universidades<\/a>\u00a0passaram a dividir o notici\u00e1rio da Lei de Cotas com as tentativas de fraude. Por conta disso, algumas institui\u00e7\u00f5es de ensino superior come\u00e7aram a adotar as bancas de heteroidentifica\u00e7\u00e3o, que avalia a autenticidade da declara\u00e7\u00e3o do candidato sobre seu pertencimento \u00e0 categoria de preto, pardo ou ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Hoje, 64 das 69 universidades federais do pa\u00eds j\u00e1 possuem sua comiss\u00e3o de heteroidentifica\u00e7\u00e3o, de acordo com levantamento da Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o\u00a0em parceria com a Universidade Federal de Ouro Preto. A banca n\u00e3o est\u00e1 prevista no texto da Lei de Cotas, mas precisou ser incorporada \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o. Entre 2003 e 2020, as universidade federais receberam quatro mil den\u00fancias de fraudes, segundo a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadores Negros.<\/p>\n<p>&#8220;As comiss\u00f5es s\u00e3o reivindica\u00e7\u00e3o do movimento negro, \u00e9 a forma que temos de garantir a lisura do processo. \u00c9 a forma que temos de garantir que o sujeito que acessar\u00e1 as cotas \u00e9 o negro. As comiss\u00f5es garantem que as vagas n\u00e3o sejam desviadas do seu sujeito de direito&#8221;, explica Z\u00e9lia Amador, da Coaliz\u00e3o Negra por Direitos.<\/p>\n<p>Em audi\u00eancia p\u00fablica,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=hxh9UnpftRo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">promovida pelo Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU), em 26 de junho deste ano<\/a>, em respeito aos 10 anos da Lei de Cotas, Alfredo Macedo Gomes, Reitor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro da Diretoria Executiva da Associa\u00e7\u00e3o Nacional das Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior (Andifes), defendeu as comiss\u00f5es de heteroidentifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A presen\u00e7a nas universidades das comiss\u00f5es de heteroidentifica\u00e7\u00e3o foram eficientes. As universidades evolu\u00edram nesse ponto, em rela\u00e7\u00e3o ao m\u00e9todo anterior, que era a autoidentifica\u00e7\u00e3o. Essas comiss\u00f5es deram uma grande contribui\u00e7\u00e3o para garantir que a lei mantenha seu foco&#8221;, finalizou o reitor da UFPE.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o passar dos anos,\u00a0o sucesso dos n\u00fameros de acesso da popula\u00e7\u00e3o negra nas universidades\u00a0passaram a dividir o notici\u00e1rio da Lei de Cotas com as tentativas de fraude. 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