{"id":400053,"date":"2022-10-02T08:53:26","date_gmt":"2022-10-02T11:53:26","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=400053"},"modified":"2022-10-02T08:53:26","modified_gmt":"2022-10-02T11:53:26","slug":"comunidade-na-chapada-vive-ha-tres-seculos-com-casamento-entre-primos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/comunidade-na-chapada-vive-ha-tres-seculos-com-casamento-entre-primos\/","title":{"rendered":"Comunidade na Chapada vive h\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos com casamento entre primos"},"content":{"rendered":"<div class=\"row visible-lg\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"noticias-single__tags\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-lg-3\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"noticias-single__meta\">\n<div class=\"noticias-single__author\">\n<div>Andr\u00e9 Uz\u00eada<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-lg-9\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"noticias-single__image\"><picture class=\"noticias-single__picture\"><source srcset=\"https:\/\/correio-cdn1.cworks.cloud\/fileadmin\/_processed_\/5\/f\/csm_matogrosso5_d314713749.jpg\" media=\"(min-width: 420px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"noticias-single__image-source\" src=\"https:\/\/correio-cdn1.cworks.cloud\/fileadmin\/_processed_\/5\/f\/csm_matogrosso5_a04e93af90.jpg\" alt=\"Comunidade na Chapada vive h\u00e1 tr\u00eas s\u00e9culos com casamento entre primos\" \/><\/picture><span class=\"noticias-single__image-caption\">(Foto: Acervo da fam\u00edlia)<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 noticias-single__stick-parent\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-md-7 col-lg-7\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<h1 class=\"noticias-single__title noticias-single__title--desktop noticias-single__title--with-image visible visible-lg\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"noticias-single__description visible-lg\" style=\"text-align: justify;\">Povoado portugu\u00eas de Mato Grosso, em Rio de Contas, virou atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica pela hist\u00f3ria e rela\u00e7\u00f5es entre parentes da fam\u00edlia Mafra<\/div>\n<div class=\"noticias-single__content-area noticias-single__content-area--before-content\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"chamada-assinatura\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"noticias-single__content\">\n<div class=\"noticias-single__content__text js-mediator-article\">\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">A 1.500 metros de altitude, na regi\u00e3o sudoeste da Chapada Diamantina, o dito popular de que \u201ccunhado nem parente \u00e9\u201d se desmancha no ar. Quase todos os 1,2 mil habitantes da comunidade portuguesa de Mato Grosso, em Rio de Contas, se ramificam da mesma \u00e1rvore geneal\u00f3gica.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um costume, t\u00e3o antigo quanto o pr\u00f3prio povoado, de primos se casarem entre si, perpetuando os la\u00e7os de sangue. \u201cN\u00e3o se sabe dizer exatamente quando essa tradi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou. Atualmente, muitos casamentos j\u00e1 se estabelecem entre pessoas de outros locais, mas ainda h\u00e1 os que mantiveram o modelo familiar\u201d, explica Ana Ang\u00e9lica Mafra, de 44 anos. Ela mesma se casou com seu primo de primeiro grau, Valdeck Mafra, de 59. Juntos t\u00eam uma filha, de 23.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"sosevnocorreio_300x250_01\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">A fam\u00edlia Mafra \u00e9, justamente, o m\u00e1ximo divisor comum entre todos os descendentes lusos de Mato Grosso. Quando os recenseadores do IBGE percorrerem as ruas de pedra para aplicar question\u00e1rios do Censo 2022, boa parte dos moradores indicar\u00e1 o sobrenome nos fichamentos \u2014 outros, tamb\u00e9m comuns, convergem \u00e0 mesma origem, como \u201cFreire\u201d, \u201cOliveira\u201d e \u201cSilva\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cA fam\u00edlia Mafra \u00e9 dominante. S\u00e3o portugueses que vieram no per\u00edodo do ciclo do ouro em Rio de Contas, ainda no s\u00e9culo XVIII. Muitos j\u00e1 estavam no Brasil, nos garimpos de Minas Gerais, e migraram quando souberam da descoberta do metal nesta regi\u00e3o\u201d<\/strong>, conta Shirlene Mafra, doutora em Mem\u00f3ria e Linguagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">A descoberta do ouro aconteceu em 1710, durante uma expedi\u00e7\u00e3o encampada pelo bandeirante Sebasti\u00e3o Raposo no leito do Rio Brumado. Antes, na \u00e1rea onde hoje \u00e9 a cidade de Rio de Contas, havia um povoado de negros alforriados e fugidos chamado Pouso dos Criolos.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"internas_300x250_03\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">A cobi\u00e7a pela riqueza trouxe r\u00e1pido desenvolvimento \u00e0 regi\u00e3o, na qual, por ser um quilombo, vivia propositadamente isolada de outras freguesias. Em 1718, no ponto mais alto da Serra do Barbalho, foi erguida a comunidade portuguesa, inicialmente com o nome jesu\u00edta de Santo Ant\u00f4nio de Mato Grosso.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"internas_300x250_04\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Uma das hip\u00f3teses que explicaria o in\u00edcio da tradi\u00e7\u00e3o para os casamentos consangu\u00edneos seria um senso eug\u00eanico de preserva\u00e7\u00e3o do sangue europeu para n\u00e3o misturar com o dos negros escravizados, trazidos para trabalhar no garimpo. Hoje, em Rio de Contas, existem tamb\u00e9m duas \u00e1reas quilombolas preservadas: Barra e Bananal \u2014 nenhuma delas mant\u00e9m casamentos entre familiares.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Embora a tese do isolamento tenha for\u00e7a como suposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 comprova\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que a sustente \u00e0 luz da ci\u00eancia. \u00a0\u201cEstas comunidades se relacionam de forma intensa h\u00e1 muito tempo, inclusive com ajuda m\u00fatua. N\u00e3o h\u00e1 um sentimento de segrega\u00e7\u00e3o, embora a gente entenda que, l\u00e1 atr\u00e1s, a escravid\u00e3o era um ponto de separa\u00e7\u00e3o. Hoje existe uma ressignifica\u00e7\u00e3o muito forte e um sentimento de uni\u00e3o e pertencimento de quilombolas e portugueses\u201d, pontua Shirlene.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"internas_300x250_05\"><\/div>\n<\/div>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cAlgumas das minhas melhores mem\u00f3rias s\u00e3o as grandes festas que aconteciam no povoado. E era sempre comum ver pessoas dos quilombos ali entre a gente, interagindo e participando das rela\u00e7\u00f5es sociais\u201d<\/strong>, completa o engenheiro el\u00e9trico Jos\u00e9 Roberto Mafra, 48 anos, hoje morando em S\u00e3o Bernardo do Campo (SP).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Seguindo o abeced\u00e1rio matrimonial, ele tamb\u00e9m se casou com uma parente, embora j\u00e1 tenha se divorciado. Saudosista do seu \u201clugar no mundo\u201d mant\u00e9m uma p\u00e1gina no Facebook sobre Mato Grosso. \u201cA energia el\u00e9trica s\u00f3 chegou l\u00e1 em 1987. Desde ent\u00e3o, muita coisa mudou com a chegada das influ\u00eancias externas. Algumas tradi\u00e7\u00f5es portuguesas foram se perdendo e, hoje, por exemplo, enfrentamos problemas s\u00e9rios de som alto que tiram a costumeira tranquilidade do lugar\u201d, cita.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Tradi\u00e7\u00e3o galega<\/strong><br \/>\nA pesquisadora Nereida \u2014 tamb\u00e9m uma Mafra \u2014 tentou rastrear a origem do sobrenome em Portugal, durante a pesquisa para o doutorado. \u201cAchei que encontraria muitas refer\u00eancias \u00e0 nossa fam\u00edlia por l\u00e1, mas foi uma decep\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existem fam\u00edlias Mafras na cidade de Mafra. N\u00e3o localizei tamb\u00e9m rela\u00e7\u00f5es entre os habitantes com a migra\u00e7\u00e3o para Rio de Contas\u201d, pontua.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"internas_300x250_06\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Em sua pesquisa, no entanto, Nereida encontrou fortes ind\u00edcios de que os migrantes da Chapada podem ter vindo da Gal\u00edcia \u2014 entre o norte de Portugal e o noroeste da Espanha, pa\u00eds do qual a regi\u00e3o pertence.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cO fen\u00f3tipo das mulheres de Mato Grosso \u00e9 muito parecido com as galegas. Estatura mediana, pele branca, cabelo e olhos claros\u201d<\/strong>, relaciona.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">A compara\u00e7\u00e3o se estende a outras \u00e1reas, como a Arquitetura e a Lingu\u00edstica. \u201cExiste um tipo de cerca de pedra que se encontra em nossa comunidade, que \u00e9 muito semelhante ao confeccionado na Gal\u00edcia. E \u00e9 um formato muito pr\u00f3prio. Outro ponto \u00e9 o tipo de portugu\u00eas falado em Mato Grosso. A palavra \u2018varrer\u2019, por exemplo, \u00e9 falado \u2018barrer\u2019. \u00c9 uma forma do galego, em substituir o v pelo b\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Nereida tamb\u00e9m pontua a cultura do quintal. \u201cOs galegos costumam plantar hortali\u00e7as em seus terrenos e, ainda hoje, \u00e9 esse tipo de atividade desenvolvida em Mato Grosso\u201d.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p class=\"bodytext\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/correio-cdn3.cworks.cloud\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2022\/10\/01\/familia_mafra_rio_de_contas_foto_acervo_da_familia.jpg\" \/><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Parte do cl\u00e3 Mafra reunido\u00a0<\/strong>(Foto: Acervo da fam\u00edlia)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">A comunidade portuguesa, essencialmente agr\u00e1ria, abastece tanto Rio de Contas quanto Livramento de Nossa Senhora com produ\u00e7\u00e3o de tangerina (chamada por l\u00e1 de laranja ponc\u00e3), caf\u00e9 e flores \u2014 os dois \u00faltimos, se intensificam no inverno.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Virou tamb\u00e9m ponto tur\u00edstico pela preserva\u00e7\u00e3o da arquitetura, do ch\u00e3o de pedra e, literalmente, pela hospitalidade familiar que oferece ao visitante.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">***<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Povoado tem incid\u00eancia de doen\u00e7as cong\u00eanitas<\/strong><br \/>\nOs la\u00e7os consangu\u00edneos misturados por tr\u00eas s\u00e9culos trouxeram uma frequ\u00eancia de doen\u00e7as autoss\u00f4micas recessivas para a comunidade. Essas m\u00e1s forma\u00e7\u00f5es acontecem quando h\u00e1 uma forte combina\u00e7\u00e3o de genes n\u00e3o dominantes de pais e m\u00e3es, pr\u00f3prio em reprodu\u00e7\u00e3o entre familiares.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">\u201cOs relacionamentos consangu\u00edneos aumentam a chance de um casal ter filhos com condi\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas recessivas. E, quanto maior o n\u00famero de casamentos consangu\u00edneos entre os ancestrais do mesmo lado da fam\u00edlia em comum do casal, maior a chance. Quanto mais pr\u00f3ximo for o grau de parentesco, maior a chance de filhos com condi\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas recessivas. Por exemplo, no caso de primos de primeiro grau, o risco \u00e9 maior do que para casal de primos de segundo grau\u201d, explica Larissa Souza Mario Bueno, m\u00e9dica geneticista.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Entre os casos mais conhecidos destas doen\u00e7as est\u00e3o a fibrose c\u00edstica, a anemia falciforme e a fenilceton\u00faria (quando o f\u00edgado n\u00e3o consegue processar tipos espec\u00edficos de amino\u00e1cidos). No teste do pezinho \u00e9 poss\u00edvel avaliar essas enfermidades.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEu e meu esposo s\u00f3 tivemos uma filha, que nasceu saud\u00e1vel, e tive medo de ter outros. A gente v\u00ea muitos casos de crian\u00e7as com defici\u00eancias em Mato Grosso (comunidade de Rio de Contas). Nunca houve um estudo detalhado, mas muito se fala dessa rela\u00e7\u00e3o\u201d, conta Ana Mafra.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando sabemos que os pais s\u00e3o portadores para uma \u00fanica condi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica recessiva, o risco para filhos afetados por esta condi\u00e7\u00e3o \u00e9 de 25% a cada gesta\u00e7\u00e3o. Hoje dispomos de testes gen\u00e9ticos para identificar variantes causadoras de condi\u00e7\u00f5es recessivas, o que \u00e9 especialmente \u00fatil para aconselhamento reprodutivo dos casais consangu\u00edneos, permitindo o diagn\u00f3stico da condi\u00e7\u00e3o de portadores mesmo antes de terem um filho afetado\u201d, explica a doutora Larissa Bueno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Correio<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um costume, t\u00e3o antigo quanto o pr\u00f3prio povoado, de primos se casarem entre si, perpetuando os la\u00e7os de sangue. \u201cN\u00e3o se sabe dizer exatamente quando essa tradi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou. Atualmente, muitos casamentos j\u00e1 se estabelecem entre pessoas de outros locais, mas ainda h\u00e1 os que mantiveram o modelo familiar\u201d, explica Ana Ang\u00e9lica Mafra, de 44 anos. 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