{"id":404108,"date":"2022-11-21T05:38:23","date_gmt":"2022-11-21T08:38:23","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=404108"},"modified":"2022-11-21T05:38:23","modified_gmt":"2022-11-21T08:38:23","slug":"a-bahia-que-atrai-e-que-afasta-no-classico-antirracista-um-defeito-de-cor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/a-bahia-que-atrai-e-que-afasta-no-classico-antirracista-um-defeito-de-cor\/","title":{"rendered":"A Bahia que atrai e que afasta no cl\u00e1ssico antirracista \u2018Um Defeito de Cor\u2019"},"content":{"rendered":"<h1 class=\"noticias-single__title noticias-single__title--desktop  visible visible-lg\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"noticias-single__description visible-lg\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Ana Maria Gon\u00e7alves relembra &#8216;chamado&#8217; de Jorge Amado e assalto em Itaparica no caminho de romance hist\u00f3rico sobre Lu\u00edsa Mahin, hero\u00edna negra do s\u00e9culo 19<\/strong><\/div>\n<div class=\"noticias-single__content-area noticias-single__content-area--before-content\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"chamada-assinatura\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"noticias-single__content\">\n<div class=\"noticias-single__content__text js-mediator-article\">\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Um chamado indireto de Jorge Amado e um assustador assalto na Ilha de Itaparica est\u00e3o na g\u00eanese de um dos maiores cl\u00e1ssicos da literatura brasileira, lan\u00e7ado e aclamado neste s\u00e9culo 21, mas que reconstr\u00f3i a Bahia, o Brasil e at\u00e9 parte da \u00c1frica do s\u00e9culo 19, quando a chaga da escravid\u00e3o estava mais aberta que o mar. \u2018Um Defeito de Cor\u2019, da mineira Ana Maria Gon\u00e7alves, \u00e9 um romance hist\u00f3rico (portanto, uma fic\u00e7\u00e3o) que acompanha a personagem Kehinde desde o Reino do Daom\u00e9 (atual Benim), onde nasceu, passando por seu sequestro para o outro lado do Atl\u00e2ntico, ainda crian\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Escravizada, se torna Lu\u00edsa Mahin, iniciando uma ca\u00e7ada de d\u00e9cadas para tentar reencontrar seu filho, o advogado Luiz\u00a0Gama, patrono da Aboli\u00e7\u00e3o da Escravid\u00e3o no pa\u00eds. Ele existiu, ela provavelmente, e a hist\u00f3ria do Brasil que o livro narra \u00e9 a mais real e palp\u00e1vel poss\u00edvel.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"minhabahia_300x250_01\" data-google-query-id=\"CIeV2YjvvvsCFWywlQIdwPUG9w\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/44585206\/c24h_minhabahia_300x250_01_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p class=\"bodytext\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/correio-cdn2.cworks.cloud\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2022\/11\/19\/um-defeito-de-cor.jpg\" \/><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Primeira edi\u00e7\u00e3o do livro foi lan\u00e7ada em 2006; pesquisa na Bahia durou dois anos<\/strong>\u00a0(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Em quase mil p\u00e1ginas, a autora apresenta uma hero\u00edna inquebrant\u00e1vel, imersa num ambiente hostil em que, diversas situa\u00e7\u00f5es, foi violentada e quase eliminada. No entorno dessas viv\u00eancias (dif\u00edcil de ler em v\u00e1rios momentos), est\u00e1 o Brasil e sua hist\u00f3ria poucas vezes descrita num livro de forma t\u00e3o realista, crua, cruel.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">\u201cPara mim era muito importante que n\u00e3o fosse a hist\u00f3ria da escravid\u00e3o, ou a hist\u00f3ria de uma escravizada. \u00c9 a nossa hist\u00f3ria contada por uma escravizada. Porque n\u00e3o d\u00e1 pra continuar colocando nesses nichos; \u00e9 sobre todos os brasileiros. A diferen\u00e7a \u00e9 que ela \u00e9 contada a partir do ponto de vista de uma mulher escravizada, e n\u00e3o do homem branco escravizador, como sempre foi\u201d, explica a autora, que n\u00e3o fez quest\u00e3o de criar uma personagem indefect\u00edvel. Muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"minhabahia_300x250_01\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cen\u00e1rios<\/strong><br \/>\nDas coisas que mais impressionam est\u00e3o as descri\u00e7\u00f5es dos cen\u00e1rios onde a personagem vai passando &#8211; especialmente Salvador, onde ocorre a maior parte dos incidentes. Questionei a autora sobre como conseguiu criar certa visibilidade de forma t\u00e3o eficaz, e a resposta foi simples: gastando seu olhar \u2018estrangeiro\u2019 e muita sola de sapato.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cPor ser um lugar que eu n\u00e3o conhecia, eu observava muito. Andava dias inteiros procurando pr\u00e9dios que fossem do s\u00e9culo 19, casas que eu pudesse colocar os personagens para morar, ent\u00e3o, era uma pesquisa quase que etnogr\u00e1fica de Salvador, e por isso quem \u00e9 da cidade a reconhece por esse olhar fresco\u201d<\/strong>, explica.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Foi na Rua do Carmo, por exemplo, que decidiu colocar para morar os mu\u00e7urumins &#8211; escravizados adeptos do Islamismo que, sob a lideran\u00e7a da hero\u00edna, promoveriam a Revolta dos Mal\u00eas. \u201cEnt\u00e3o, era o dia inteiro observando os lugares, as pessoas, como elas andavam, como falavam\u201d, e da\u00ed tamb\u00e9m sa\u00edam inspira\u00e7\u00f5es para os perfis descritos.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"minhabahia_300x250_01\"><\/div>\n<\/div>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<p class=\"bodytext\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/correio-cdn3.cworks.cloud\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2022\/11\/19\/Ana_Maria_Goncalves_Divulgacao.jpg\" \/><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\n<p class=\"text-center\"><strong>Ana Maria Gon\u00e7alves se mudou para a Bahia em 2001, onde fez pesquisas que resultaram\u00a0em romance hist\u00f3rico aclamado<\/strong>\u00a0(Foto: Divulga\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\"><strong>G\u00eanese<\/strong><br \/>\nObra-prima de nascen\u00e7a, \u2018Um Defeito de Cor\u2019 teve como g\u00eanese outro cl\u00e1ssico, este envolvido em uma jogada do destino: numa biblioteca, por acaso, Ana Maria Gon\u00e7alves se deparou com \u2018Bahia de Todos-os-Santos: Guia de ruas e mist\u00e9rios\u2019, livro no qual Jorge Amado, em determinado trecho, parecia fazer um convite \u00e0 autora, ent\u00e3o interessada em escrever sobre a Revolta dos Mal\u00eas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">O chamado foi prontamente atendido, em 2001, quando desembarcou por aqui em dia oportuno. \u201cEu nunca tinha vindo a Salvador. Cheguei aqui num dia 1\u00ba de fevereiro, fui para a Festa de Iemanj\u00e1 no dia 2, e me apaixonei pela cidade. A\u00ed fui para Itaparica, porque eu tinha acabado de ler \u2018Viva o Povo Brasileiro\u2019, de Jo\u00e3o Ubaldo. Me apaixonei por uma casa e deu tudo certo. Em duas semanas, voltei pra S\u00e3o Paulo, fechei a vida l\u00e1 e vim embora pra Bahia escrever\u201d, conta a autora, que iniciava ali alguns anos de gesta\u00e7\u00e3o da obra, lan\u00e7ada em 2006 pela editora Record.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"minhabahia_300x250_01\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Parte dessa saga \u00e9 contada na abertura do livro, e para quem j\u00e1 come\u00e7ou a ler, uma revela\u00e7\u00e3o: \u201cO pr\u00f3logo \u00e9 todo verdade, exceto pelo manuscrito. Todo o resto, a fam\u00edlia, fotos, tudo \u00e9 absolutamente verdade\u201d, nos conta Ana Maria, quando menciono o relato do assalto.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Ilha do medo<\/strong><br \/>\nA escritora morava sozinha numa casa em Itaparica quando, certa noite, o local foi invadido. O incidente, citado no pref\u00e1cio, ajudou a mudar os rumos de como a hist\u00f3ria seria contada, mas n\u00e3o s\u00f3 isso: tamb\u00e9m fez a autora se mudar para Salvador e trocar at\u00e9 de religi\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cEu sou mineira, era cat\u00f3lica apost\u00f3lica romana, tinha uma ideia de longe do que era candombl\u00e9, e eu acho que essa quest\u00e3o do assalto me ajudou a converter. Tem aquela m\u00fasica do Caetano que diz \u2018quem \u00e9 ateu e viu milagres como eu\u2019, e esse epis\u00f3dio foi muito doido. Eu tava escrevendo sozinha, \u00e0 noite, em casa, e de repente senti um tapa no rosto, do nada. Eu olhei e n\u00e3o tinha ningu\u00e9m. Na hora que virei, tomei outro tapa no lado oposto. Levantei, meio que automaticamente, peguei a CPU do computador [com rascunhos do livro] e fui para o quarto, e apaguei\u201d<\/strong>, relembra a autora.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Quando acordou na manh\u00e3 seguinte, uma amiga batia \u00e0 porta do quarto, desesperada. Bandidos tinham levado quase tudo da casa, menos o computador, que dormiu com a dona. \u201cLogo que eu acordei, a minha m\u00e3e de santo hoje, com quem eu tava conversando sobre o candombl\u00e9, pra colocar no livro, me telefona dizendo tamb\u00e9m que tinha sido acordada de madrugada pra me proteger. Ent\u00e3o, me converti \u00e0 religi\u00e3o, a Salvador\u201d, relata. Ana Maria conta ainda que naquela noite, segundo o delegado que atendeu \u00e0 sua ocorr\u00eancia, uma mulher havia sido estuprada na vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" style=\"text-align: justify;\">Os mist\u00e9rios que atraem quem \u00e9 de fora, a viol\u00eancia que assusta, afasta e faz v\u00edtimas quem est\u00e1 dentro, todas essas amb\u00edguas primazias da Bahia est\u00e3o em \u2018Um Defeito de Cor\u2019. Apesar de fic\u00e7\u00e3o, \u00e9 um livro de pura mem\u00f3ria, mas n\u00e3o s\u00f3 de coisas tr\u00e1gicas como o racismo, a escravid\u00e3o e as viol\u00eancias que deles decorrem, mas tamb\u00e9m de pot\u00eancias como afroempreendedorismo, feminismos, associativismo para superar o despotismo, e a demonstra\u00e7\u00e3o da incr\u00edvel pluralidade dos povos africanos para aqui arrastados, trazendo consigo diferentes l\u00ednguas, culturas, estilos de vida, religi\u00f5es\u2026 Al\u00e9m de dor, atravessaram o Atl\u00e2ntico grande parte das ideias e saberes que nos formam, que nos tornam baianos, brasileiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Correio<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Maria Gon\u00e7alves relembra &#8216;chamado&#8217; de Jorge Amado e assalto em Itaparica no caminho de romance hist\u00f3rico sobre Lu\u00edsa Mahin, hero\u00edna negra do s\u00e9culo 19<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":404109,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-404108","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/um-defeito-de-cor.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/404108","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=404108"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/404108\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/404109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=404108"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=404108"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=404108"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}