{"id":407160,"date":"2022-12-25T12:46:28","date_gmt":"2022-12-25T15:46:28","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=407160"},"modified":"2022-12-25T12:46:28","modified_gmt":"2022-12-25T15:46:28","slug":"o-sonho-mora-ao-lado-por-que-tantos-brasileiros-saem-do-pais-para-fazer-medicina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-sonho-mora-ao-lado-por-que-tantos-brasileiros-saem-do-pais-para-fazer-medicina\/","title":{"rendered":"O sonho mora ao lado: por que tantos brasileiros saem do pa\u00eds para fazer Medicina?"},"content":{"rendered":"<div class=\"row visible-lg\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"noticias-single__tags\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-lg-3\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"noticias-single__meta\">\n<div class=\"noticias-single__author\">\n<div>Thais Borges<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-lg-9\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"noticias-single__image\"><picture class=\"noticias-single__picture\"><source srcset=\"https:\/\/correio-cdn1.cworks.cloud\/fileadmin\/_processed_\/e\/a\/csm_Collage_Maker-20-Dec-2022-04.42-PM_53abf49097.jpg\" media=\"(min-width: 420px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"noticias-single__image-source\" src=\"https:\/\/correio-cdn2.cworks.cloud\/fileadmin\/_processed_\/e\/a\/csm_Collage_Maker-20-Dec-2022-04.42-PM_1e0289eb70.jpg\" alt=\"Fernanda, Larissa e Jacqueline est\u00e3o entre baianas e baianos que cruzaram as fronteiras para fazer Medicina em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul\" \/><\/picture><span class=\"noticias-single__image-caption\">Fernanda, Larissa e Jacqueline est\u00e3o entre baianas e baianos que cruzaram as fronteiras para fazer Medicina em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul (Fotos: Acervo pessoal)<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 noticias-single__stick-parent\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-md-7 col-lg-7\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<h1 class=\"noticias-single__title noticias-single__title--desktop noticias-single__title--with-image visible visible-lg\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"noticias-single__description visible-lg\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Argentina, Bol\u00edvia e Paraguai dominam a prefer\u00eancia na Am\u00e9rica do Sul; baianos contam os pr\u00f3s e contras<\/strong><\/div>\n<div class=\"noticias-single__content-area noticias-single__content-area--before-content\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"noticias-single__content is-blocked\">\n<div class=\"noticias-single__content__text js-mediator-article\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Desde crian\u00e7a, a jovem Fernanda Damasceno, 27 anos, nunca teve d\u00favidas de que queria ser m\u00e9dica. &#8220;Nunca tive um plano B&#8221;, lembra. No \u00faltimo dia 3, veio a concretiza\u00e7\u00e3o do sonho, na cola\u00e7\u00e3o de grau em Medicina. &#8220;Foi emocionante, indescrit\u00edvel. Minha m\u00e3e veio para c\u00e1 compartilhar essa conquista que \u00e9 tanto minha quanto dela&#8221;. Natural de Salvador, at\u00e9 alguns anos atr\u00e1s dificilmente Fernanda imaginaria onde viria a se formar: na Universidade Privada Del Este, na Ciudad del Este, no Paraguai.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Assim como ela, milhares de brasileiros t\u00eam atravessado as fronteiras para fazer Medicina nos pa\u00edses vizinhos nos \u00faltimos anos. Se no Brasil os cursos da \u00e1rea s\u00e3o extremamente caros ou extremamente concorridos &#8211; ou, em alguns casos, as duas coisas ao mesmo tempo -, a realidade l\u00e1 fora pode ser mais atrativa. Enquanto em Salvador h\u00e1 faculdades privadas que cobram mensalidade de R$ 12 mil, escolas m\u00e9dicas na Am\u00e9rica do Sul chegam a cobrar 10% disso &#8211; ou nada, nas p\u00fablicas. Al\u00e9m do Paraguai, os pa\u00edses mais procurados s\u00e3o Argentina e Bol\u00edvia.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>&#8220;Eu n\u00e3o conhecia o Paraguai. Vim no primeiro dia j\u00e1 para ficar porque era a possibilidade que eu tinha. Queria muito que desse certo&#8221;,\u00a0<\/strong>conta Fernanda. Quando ela chegou, em 2017, tinha passado por menos de um semestre no Bacharelado Interdisciplinar em Sa\u00fade, na Universidade Federal da Bahia (Ufba).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">O BI de Sa\u00fade, como \u00e9 mais conhecido, exige notas praticamente perfeitas durante os tr\u00eas anos de dura\u00e7\u00e3o, para depois novamente fazer uma sele\u00e7\u00e3o interna, j\u00e1 que as vagas n\u00e3o s\u00e3o garantidas. N\u00e3o \u00e9 incomum que estudantes oriundos desse bacharelado desenvolvam transtornos como depress\u00e3o e ansiedade, como reportagens do CORREIO j\u00e1 mostraram no passado.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Por outro lado, Fernanda conhecia uma colega que estava no Paraguai e decidiu perguntar mais sobre o processo. &#8220;Coloquei na balan\u00e7a se era melhor continuar naqueles tr\u00eas anos de Ufba, sem saber se ia conseguir. Eu n\u00e3o podia pagar uma faculdade (de Medicina) em Salvador. Aqui, eu podia&#8221;, explica. Assim, ela come\u00e7ou a pesquisar e decidiu morar na fronteira, perto de Foz do Igua\u00e7u, justamente pela proximidade com o Brasil.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/1\/3\/csm_WhatsApp_Image_2022-12-06_at_15.44.28_cf4fa54080.jpeg\" width=\"750\" height=\"1000\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Fernanda acaba de se formar em Medicina no Paraguai<\/strong>\u00a0(Foto: Acervo pessoal)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">No come\u00e7o, contando a mensalidade da faculdade e todos os outros gastos de vida &#8211; do aluguel \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o -, ela gastava, em m\u00e9dia, R$ 3 mil. Ao final do curso, com os reajustes de mensalidade, o saldo total ficava em torno de R$ 4,5 mil &#8211; s\u00f3 da faculdade, eram R$ 2,5 mil. Agora, j\u00e1 m\u00e9dica, pretende voltar para Salvador e continuar estudando para prestar a pr\u00f3xima prova do Revalida &#8211; o exame que valida diplomas m\u00e9dicos internacionais no Brasil. No in\u00edcio deste m\u00eas, quase dois mil graduados se submeteram \u00e0 segunda fase da prova, que acontece duas vezes por ano.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">&#8220;Vou voltar para Salvador, mas n\u00e3o sei se vou morar a\u00ed. Quando voc\u00ea mora fora, come\u00e7a a ver um leque de op\u00e7\u00f5es. Meu diploma pode ser revalidado na Espanha, por exemplo, de uma forma menos complicada que no Brasil. Do mesmo jeito que consigo revalidar aqui, consigo em qualquer lugar do mundo que tenha um processo de revalida\u00e7\u00e3o&#8221;, explica Fernanda.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>P\u00fablico<\/strong><br \/>\nO Paraguai desponta como um dos pa\u00edses preferidos tamb\u00e9m por uma forte estrat\u00e9gia de marketing das universidades, em especial nos \u00faltimos anos. Em redes sociais como o TikTok, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil se deparar com v\u00eddeos sobre a rotina de estudos e das aulas nos cursos no pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">H\u00e1 desde estudantes compartilhando conte\u00fado at\u00e9 assessores estudantis como Renata Gomes e Silva, que atua na Universidade Maria Auxiliadora (Umax), onde ela pr\u00f3pria se formou m\u00e9dica h\u00e1 um ano e tr\u00eas meses. Natural de Fortaleza, ela chegou ao pa\u00eds tamb\u00e9m com o objetivo de se graduar, mas teve a oportunidade de se tornar assessora estudantil na institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Hoje, Renata tem uma empresa com seis pessoas. No pr\u00f3ximo semestre, ela planeja fazer um curso preparat\u00f3rio para o Revalida no Brasil, mas vai continuar coordenando a empresa \u00e0 dist\u00e2ncia. A demanda dos brasileiros \u00e9 grande. &#8220;A gente sabe que, no nosso pa\u00eds, s\u00f3 cursa Medicina quem tem um poder aquisitivo muito alto (nas particulares). O pa\u00eds n\u00e3o acolhe nossos sonhos&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">A maioria dos alunos chega at\u00e9 ela, algo em torno de 60%, tem entre 16 e 20 anos. No entanto, h\u00e1 estudantes mais velhos, at\u00e9 na faixa dos 50 e 55 anos, incluindo os que j\u00e1 t\u00eam alguma gradua\u00e7\u00e3o anterior. A busca pelos servi\u00e7os ocorre principalmente para evitar a burocracia. &#8220;\u00c9 muito mais f\u00e1cil confiar em algu\u00e9m que voc\u00ea pesquisou e ver que tem a experi\u00eancia do que vir sozinho. Por isso as assessorias s\u00e3o mais buscadas. Na universidade em que trabalho, o aluno n\u00e3o paga pela assessoria&#8221;, explica ela, que cuida da documenta\u00e7\u00e3o \u00e0 recep\u00e7\u00e3o dos estudantes no aeroporto ou na rodovi\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Renata v\u00ea a presen\u00e7a das universidades nas redes sociais com naturalidade, devido \u00e0 pr\u00f3pria estrat\u00e9gia de marketing.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>&#8220;Tem muita gente que n\u00e3o conhece esse caminho e essa \u00e9 a forma que a gente tem de chegar at\u00e9 as pessoas. A popula\u00e7\u00e3o jovem toda usa, principalmente a classe m\u00e9dia&#8221;,<\/strong>\u00a0completa, referindo-se ao TikTok.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">\n<div class=\"embed-content\">\n<blockquote id=\"v74104952475041570\" class=\"tiktok-embed\" cite=\"https:\/\/www.tiktok.com\/@umaxparaguai\/video\/7110731253543996677\" data-video-id=\"7110731253543996677\"><p><iframe src=\"https:\/\/www.tiktok.com\/embed\/v2\/7110731253543996677?lang=pt-BR&amp;referrer=https%3A%2F%2Fwww.correio24horas.com.br%2Fnoticia%2Fnid%2Fo-sonho-mora-ao-lado-por-que-tantos-brasileiros-saem-do-pais-para-fazer-medicina%2F\" name=\"__tt_embed__v74104952475041570\" sandbox=\"allow-popups allow-popups-to-escape-sandbox allow-scripts allow-top-navigation allow-same-origin\" data-gtm-yt-inspected-13=\"true\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p><\/blockquote>\n<blockquote id=\"v67519126890557220\" class=\"tiktok-embed\" cite=\"https:\/\/www.tiktok.com\/@thalicardozo\/video\/7114324980229262597\" data-video-id=\"7114324980229262597\"><p><iframe src=\"https:\/\/www.tiktok.com\/embed\/v2\/7114324980229262597?lang=pt-BR&amp;referrer=https%3A%2F%2Fwww.correio24horas.com.br%2Fnoticia%2Fnid%2Fo-sonho-mora-ao-lado-por-que-tantos-brasileiros-saem-do-pais-para-fazer-medicina%2F\" name=\"__tt_embed__v67519126890557220\" sandbox=\"allow-popups allow-popups-to-escape-sandbox allow-scripts allow-top-navigation allow-same-origin\" data-gtm-yt-inspected-13=\"true\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">O estudante Matheus Benaia, 23, faz parte da estat\u00edstica dos jovens que chegaram bem jovens ao Paraguai. Ele tinha entre 17 e 18 anos quando entrou na universidade, em 2017. Segundo o estudante, justamente por ser muito novo, ele e os pais acreditaram que seria uma boa oportunidade por considerar uma via mais f\u00e1cil. Ele tinha feito o Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem), mas n\u00e3o conseguiu alcan\u00e7ar a nota de corte para a Universidade Federal da Bahia (Ufba).<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">&#8220;Tentei o vestibular de Medicina no Brasil, por\u00e9m n\u00e3o passei na faculdade que queria. Pensando no sentido de &#8216;n\u00e3o perder mais tempo&#8217; em cursinho, entrei logo na faculdade no Paraguai&#8221;. Matheus chegou a cursar alguns per\u00edodos na Umax de Assun\u00e7\u00e3o, mas mudou para a Universidade Central do Paraguai, na Ciudad del Este. &#8220;Tive problemas pessoais e acabei voltando para o primeiro per\u00edodo&#8221;, conta ele, que \u00e9 de Juazeiro.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">A adapta\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi um problema, nem mesmo com a l\u00edngua espanhola. De acordo com Matheus, pela quantidade de brasileiros nas aulas, professores costumam ajudar. &#8220;Eles traduzem o que falam. Aqui, n\u00f3s falamos um portunhol&#8221;. Ele diz que fazer Medicina no Paraguai \u00e9 uma forma vi\u00e1vel de cursar algo que \u00e9 um sonho.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>&#8220;Por\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 mil maravilhas. Existe a quest\u00e3o de voc\u00ea estar em um pa\u00eds que n\u00e3o \u00e9 o seu. Mas, em rela\u00e7\u00e3o ao curso, \u00e9 basicamente o mesmo ensino e a qualidade do Brasil. L\u00f3gico que algumas mat\u00e9rias mudam, mas a quest\u00e3o dos assuntos universais serve pra tudo&#8221;,<\/strong>\u00a0argumenta.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Ainda assim, ele explica que n\u00e3o pretende terminar a gradua\u00e7\u00e3o l\u00e1. Devido \u00e0s dificuldades do Revalida, Matheus quer fazer uma transfer\u00eancia antes, mas ainda n\u00e3o sabe para qual faculdade.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>Segunda gradua\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nNem todos, por\u00e9m, tinham a Medicina como o maior sonho desde a inf\u00e2ncia. Hoje fazendo o curso na Universidade de Aquino Bol\u00edvia, em Santa Cruz de La Sierra, na Bol\u00edvia, Larissa Oliveira, 29, n\u00e3o apenas se formou em Pedagogia na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) como chegou a atuar na \u00e1rea por tr\u00eas anos. Mas quando uma amiga que planejava fazer a gradua\u00e7\u00e3o m\u00e9dica a convidou para ir junto, ela acabou aceitando e lembrando de uma vontade antiga que tinha sido afastada pelos custos altos do Brasil.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Larissa chegou ao pa\u00eds em 2019 com a amiga que, duas semanas depois, voltou ao Brasil por saudades da fam\u00edlia. &#8220;\u00c9 onde filho chora e m\u00e3e n\u00e3o v\u00ea, porque a gente vai com o objetivo maior, mas a gente amadurece. Voc\u00ea aprende que se n\u00e3o tirar a carne do congelador, voc\u00ea n\u00e3o come. Tem um idioma novo, com o desafio de aprender o idioma e depois o conte\u00fado. S\u00e3o desafios di\u00e1rios, mas Deus coloca pessoas que v\u00e3o dar for\u00e7a, porque a gente vai estar longe de todo mundo&#8221;, conta.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Ela, que nunca tinha visitado a Bol\u00edvia antes e chegou j\u00e1 para ficar, diz que gosta muito do pa\u00eds. Na faculdade, como na maioria das universidades buscadas pelos brasileiros, n\u00e3o havia exig\u00eancia de exame de profici\u00eancia em l\u00edngua espanhola (algumas exigem que os estudantes fa\u00e7am curso do idioma por alguns semestres). A depender do valor do d\u00f3lar, a mensalidade fica entre R$ 1,1 mil e R$ 1,2 mil. Contando tudo, inclusive aluguel e alimenta\u00e7\u00e3o, Larissa estima gastar R$ 3,7 mil por m\u00eas, mas sabe que \u00e9 poss\u00edvel gastar menos &#8211; morar mais longe da faculdade \u00e9 uma alternativa.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/c\/0\/csm_Larissa_estudante_medicina_Bolivia_acervo_pessoal_8ddb57d2aa.jpeg\" width=\"750\" height=\"1000\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Larissa, que j\u00e1 \u00e9 pedagoga, chegou \u00e0 Bol\u00edvia em 2019<\/strong>\u00a0(Foto: Acervo pessoal)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Os brasileiros s\u00e3o presen\u00e7a frente na faculdade dela, que tem muitas turmas de Medicina. &#8220;O conte\u00fado, querendo ou n\u00e3o, \u00e9 o mesmo. S\u00f3 muda o idioma. A diferen\u00e7a que pega para a gente \u00e9 que tem coisas espec\u00edficas do Brasil, como legisla\u00e7\u00e3o do SUS (Sistema \u00danico de Sa\u00fade), que n\u00e3o tem l\u00e1. Mas, no primeiro semestre de anatomia, por exemplo, eu tive contato com um cad\u00e1ver que era para a minha turma. Aqui, em muitas, voc\u00ea tem um cad\u00e1ver para v\u00e1rias turmas. Ent\u00e3o, deu para ter essa experi\u00eancia mais detalhada&#8221;.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">De fato, a Bol\u00edvia foi o primeiro pa\u00eds a despertar esse interesse dos brasileiros. L\u00e1, o fen\u00f4meno n\u00e3o \u00e9 de hoje. Talvez por isso, inclusive, desde o primeiro Revalida, em 2011, a maior parte dos diplomas que se submetem \u00e0 prova s\u00e3o bolivianos &#8211; no caso, muitos de brasileiros com diploma boliviano. &#8220;\u00c9 impressionante o n\u00famero de brasileiros que moram na Bol\u00edvia para fazer Medicina&#8221;, diz a professora Fernanda Rodrigues, professora do curso de Enfermagem da PUC Minas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Ela \u00e9 a autora de uma tese de doutorado, defendida em 2015 na mesma institui\u00e7\u00e3o, sobre a migra\u00e7\u00e3o desses estudantes para o pa\u00eds. De acordo com Fernanda, h\u00e1 todo tipo de realidade envolvida &#8211; pessoas mais ricas e pessoas mais pobres, que n\u00e3o conseguiam pagar por uma particular no Brasil ou que n\u00e3o conseguiam passar no vestibular de uma p\u00fablica, al\u00e9m dos que estavam j\u00e1 na segunda gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Ainda assim, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma pesquisa, at\u00e9 hoje, que tenha identificado a origem desse fluxo migrat\u00f3rio. &#8220;A Bol\u00edvia \u00e9 um pa\u00eds que o boliviano, a moeda, \u00e9 muito desvalorizada em rela\u00e7\u00e3o ao real, embora as duas dependam do d\u00f3lar. Com R$ 1 mil, a pessoa tinha acesso a coisas que, aqui n\u00e3o teria&#8221;, diz.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Em sua pesquisa, a professora identificou diferentes tipos de universidades, especialmente nas cidades de Cochabamba e Santa Cruz de La Sierra, que costumam ser mais visadas por brasileiros. La Paz, a capital, tamb\u00e9m tem escolas m\u00e9dicas, mas \u00e9 menos buscada pela altitude &#8211; trata-se da capital mais alta do mundo. Em altas altitudes, a capacidade de absorver oxig\u00eanio fica reduzida.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>&#8220;As realidades das universidades, quanto \u00e0 estrutura f\u00edsica, s\u00e3o muito variadas. Visitei uma fant\u00e1stica em Cochabamba, a Universidade del Valle, que tinha uma estrutura que muitas no Brasil n\u00e3o t\u00eam. Ao mesmo tempo, fui em outra muito improvisada, pequenininha&#8221;,<\/strong>\u00a0lembra ela, que ressalta as diferen\u00e7as entre os contextos de cada pa\u00eds.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Um dos pontos distintos \u00e9 na titula\u00e7\u00e3o da equipe docente &#8211; algo que \u00e9 apontado por ela e outros especialistas como uma das raz\u00f5es que podem elevar os custos dos cursos no Brasil. Enquanto aqui h\u00e1 exig\u00eancias de professores mestres e doutores, n\u00e3o existe essa obrigatoriedade no pa\u00eds vizinho, segundo a pesquisadora. &#8220;Isso encarece muito o curso. Outra coisa \u00e9 a inser\u00e7\u00e3o desses alunos no servi\u00e7o, porque a Bol\u00edvia n\u00e3o tem servi\u00e7o p\u00fablico de sa\u00fade universal. Eles fazem programas para esses est\u00e1gios acontecerem&#8221;.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Para a professora, h\u00e1 mesmo um preconceito com a forma\u00e7\u00e3o desses profissionais no exterior. Por isso, ela defende o Revalida como um mecanismo para atestar a qualidade desses m\u00e9dicos, ao permitir identificar quem j\u00e1 est\u00e1 pronto e quem n\u00e3o estaria pronto ainda para atuar. H\u00e1 alguns pontos, a exemplo da epidemiologia, que tem estudos particulares do Brasil.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Al\u00e9m disso, de acordo com ela, muitos cursos de Medicina que foram abertos ap\u00f3s o programa Mais M\u00e9dicos t\u00eam uma \u00eanfase maior na sa\u00fade p\u00fablica, algo que n\u00e3o necessariamente estar\u00e1 presente na forma\u00e7\u00e3o no exterior. Alguns desses estudantes precisam fazer algum curso \u00e0 parte. Na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), que tem um processo de revalida\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio, os aprovados precisam passar por at\u00e9 3,5 mil horas de aula de estudos complementares.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Ao mesmo tempo, Fernanda pondera que tamb\u00e9m h\u00e1 cursos de Medicina no Brasil que n\u00e3o oferecem uma forma\u00e7\u00e3o t\u00e3o boa. &#8220;O curso de Medicina virou um neg\u00f3cio&#8221;, diz. &#8220;Acho que esses meninos que v\u00e3o para fora e voltam contribuem muito, especialmente porque, quando retornam, muitos v\u00e3o para os estados de fronteira com a Bol\u00edvia, que s\u00e3o locais muito carentes de profissionais m\u00e9dicos. Se voc\u00ea tira esses profissionais de l\u00e1, o impacto na sa\u00fade \u00e9 muito grande&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>Diploma<\/strong><br \/>\nFisioterapeuta no Brasil, Jacqueline Mota, 32, tamb\u00e9m se formou m\u00e9dica na Bol\u00edvia. Ela chegou em 2014 para estudar na Unifranz, em Cochabamba, mas, antes disso, nunca havia pensado em Medicina.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">\u201cMeu sonho, desde criancinha, era ser fisioterapeuta. N\u00e3o sabia nem falar a palavra direito, mas queria. Durante a faculdade, conheci um menino que tamb\u00e9m era fisioterapeuta e estava terminando Medicina. Ele falava que eu tinha olhar cl\u00ednico de m\u00e9dico e que eu estava me enganando. Ao mesmo tempo, era uma profiss\u00e3o que n\u00e3o estava sendo valorizada\u201d, lembra. Como tinha conclu\u00eddo a primeira gradua\u00e7\u00e3o muito cedo, aos 22, Jacqueline achou que ainda estava a tempo de correr atr\u00e1s da outra gradua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">A institui\u00e7\u00e3o onde ela estudou faz parte do Sistema de Acredita\u00e7\u00e3o Regional de Cursos de Gradua\u00e7\u00e3o do Mercosul e Estados Associados (Arcu-Sul), uma das possibilidades que ela tinha era fazer interc\u00e2mbio no Brasil. Jacqueline escolheu fazer isso justamente durante o internato, per\u00edodo em que cursou em Curitiba (PR).<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Concluiu em 2019, mas, pelas normas do pa\u00eds, ela precisava trabalhar na Bol\u00edvia por tr\u00eas meses, antes de prestar o exame de grado. \u201cQuando fui dar entrada no diploma em 2019, veio a pandemia. A gente ficou presa e passei por repatria\u00e7\u00e3o. Quando abriu para o exame, as fronteiras estavam fechadas, em junho de 2020. Acabei fazendo s\u00f3 em novembro e o diploma veio chegar aqui em 2021\u201d, explica.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/correio24horas\/2022\/12\/20\/Jacqueline_medica_formada_na_Bolivia__2_.jpeg\" width=\"828\" height=\"606\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Jacqueline concluiu o curso no fim de 2019, na Bol\u00edvia\u00a0<\/strong>(Foto: Acervo pessoal)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Hoje, ela est\u00e1 no processo de revalida\u00e7\u00e3o do diploma por dois caminhos: um pelo pr\u00f3prio exame Revalida e outro conhecido como revalida\u00e7\u00e3o simplificada. Jacqueline chegou a tentar a prova este ano, depois que seus documentos chegaram em junho, mas n\u00e3o passou para a segunda fase.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">J\u00e1 o outro processo acontece para cursos que s\u00e3o acreditados pelo Arcu-Sul e na lista da plataforma Carolina Bori, do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o caso da institui\u00e7\u00e3o onde ela estudou.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>\u201cVoc\u00ea envia seu diploma para avalia\u00e7\u00e3o de algumas universidades federais e estaduais. No meu caso, estou pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Eles v\u00e3o ver se a faculdade est\u00e1 dentro do padr\u00e3o, mas ainda tem uma fila imensa de mais de mil pessoas na minha frente. Pode demorar um ano ou mais, ent\u00e3o, enquanto isso, vou tentar a prova\u201d.<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Apesar de satisfeita com a forma\u00e7\u00e3o, ela costuma dizer que agora, especificamente, a Bol\u00edvia n\u00e3o vale tanto a pena. Pela possibilidade de estudar gratuitamente, ela tem recomendado a Argentina. \u201cA Bol\u00edvia \u00e9 um pa\u00eds muito tradicional e a mulher brasileira sofre muito preconceito. At\u00e9 uma mulher que se depila \u00e9 considerada p*ta. \u00c9 um choque cultural grande porque eles s\u00e3o reservados, falam baixo. Eles se incomodam muito com brasileiros\u201d.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Os valores tamb\u00e9m mudaram. Ao chegar no pa\u00eds, o d\u00f3lar custava R$ 2,70. Atualmente, passa de R$ 5,30. \u201cN\u00e3o tem como viver com menos de mil d\u00f3lares. Por esse valor, voc\u00ea consegue se matricular em faculdades da regi\u00e3o Norte ou mesmo de Goi\u00e1s. Hoje, \u00e9 invi\u00e1vel, mas eu n\u00e3o me arrependo de nada\u201d.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>Planejamento<\/strong><br \/>\nAntes de embarcar em um avi\u00e3o rumo a Buenos Aires, na Argentina, em fevereiro deste ano, a estudante Maria Eduarda Neri, 22, tamb\u00e9m chegou a tentar o vestibular para Medicina no Brasil por dois anos &#8211; fora o per\u00edodo como \u2018treineira\u2019 fazendo o Enem antes do terceiro ano do Ensino M\u00e9dio para conhecer a prova. Ela chegou a ser aprovada na Escola Bahiana de Medicina e Sa\u00fade P\u00fablica, cuja mensalidade na \u00e9poca ficava em torno de R$ 5,8 mil &#8211; ao longo dos semestres, h\u00e1 reajustes.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">S\u00f3 que Maria Eduarda n\u00e3o tinha como pagar. Foi quando ela decidiu buscar outras alternativas. \u201cNo Ensino M\u00e9dio, eu tinha um certo preconceito, mas n\u00e3o queria ter a vida de entrar 8h da manh\u00e3 no cursinho, sair 8h da noite e n\u00e3o conseguir lograr (a aprova\u00e7\u00e3o numa faculdade p\u00fablica)\u201d.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Na \u00e9poca, uma conhecida estava estudando no Paraguai e Maria Eduarda come\u00e7ou a procurar por outras universidades. Depois da pesquisa, chegou \u00e0 conclus\u00e3o de que queria ir para a Argentina. Conversou com os pais que, no come\u00e7o, n\u00e3o gostaram muito da ideia da mudan\u00e7a de pa\u00eds, mas acabaram aceitando. \u201cFalei com empresas, fiz planejamento de or\u00e7amento e entreguei para os meus pais. Tivemos essa conversa e vimos que era isso que eu queria para a minha vida. Eu tamb\u00e9m sempre quis fazer um interc\u00e2mbio, mas o d\u00f3lar est\u00e1 caro\u201d, explica.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Com o peso argentino mais atrativo &#8211; R$ 0,31 na \u00faltima semana -, a mensalidade na faculdade dela, a Fundaci\u00f3n Barcel\u00f3, fica em torno de R$ 700.\u00a0 Com tudo, ela estima que gasta R$ 3 mil por m\u00eas, vivendo em uma resid\u00eancia estudantil com quarto individual, banheiro pr\u00f3prio, m\u00f3veis e varanda.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Na Argentina, n\u00e3o existe vestibular, mas os estudantes precisam fazer o chamado \u2018pr\u00e9-grado\u2019- um curso introdut\u00f3rio que, ao final, \u00e9 preciso ser aprovado para come\u00e7ar a Medicina de fato. Com a pandemia, Maria Eduarda conseguiu fazer o pr\u00e9-grado na forma intensiva, em quatro meses, online, ainda no Brasil, no ano passado.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Em fevereiro, come\u00e7ou o primeiro ano da gradua\u00e7\u00e3o, j\u00e1 presencial. \u201cEu sabia um pouco de espanhol do col\u00e9gio e fui vendo aulas no YouTube. Quando comecei o pr\u00e9-grado, me entreguei de verdade ao espanhol, ouvindo m\u00fasicas e vendo filmes em espanhol. Acho que \u00e9 importante saber alguma coisa, porque eles falam muito r\u00e1pido, mesmo que sejam super pacientes\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Na Barcel\u00f3, os professores usam o m\u00e9todo PBL (Metodologia Baseada em Problemas, na sigla em ingl\u00eas), o que obriga os estudantes a chegar nas aulas j\u00e1 tendo estudado por materiais disponibilizados na plataforma da institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>\u201c\u00c9 muito mais voc\u00ea por voc\u00ea do que o professor te explicar o assunto. N\u00e3o tem aquela coisa de slide, voc\u00ea tem que ir atr\u00e1s. \u00c9 um pouco dif\u00edcil se adaptar, mas quando vejo tudo, eu falo \u2018\u00e9 isso que eu quero\u2019, porque tem aulas pr\u00e1ticas desde o primeiro ano\u201d.\u00a0<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Mas nem tudo s\u00e3o flores. Maria Eduarda diz que j\u00e1 se deparou com preconceito &#8211; especialmente de brasileiros que cursam Medicina no Brasil. \u201cMuitas p\u00e1ginas postam que o brasileiro veio para c\u00e1 porque n\u00e3o tem capacidade de passar no vestibular, mas aqui voc\u00ea entende que a educa\u00e7\u00e3o no Brasil \u00e9 muito limitada. Eu n\u00e3o recomendo vir para c\u00e1 para pessoas que acham que v\u00e3o passar em tudo sem se esfor\u00e7ar, porque n\u00e3o \u00e9 assim. Tem professores que viram para os alunos e falam: \u2018o que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui, se n\u00e3o veio estudar\u2019? Tem gente que sofre xenofobia. Ent\u00e3o, a maior dificuldade \u00e9 voc\u00ea ter um psicol\u00f3gico bom para continuar\u201d.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Por isso, h\u00e1 quem tenha mudado os planos no meio do caminho. O estudante Everton (nome fict\u00edcio<em>)<\/em>, 29, acabou transferindo o curso para uma faculdade no Brasil depois de passar por tr\u00eas institui\u00e7\u00f5es na Argentina. No come\u00e7o, quando chegou no fim de 2014, era para estudar na Universidade Nacional de Ros\u00e1rio, que \u00e9 p\u00fablica. Mas uma grave de cinco meses acabou sendo demais para ele, que tinha pressa. Mudou para outra particular e depois, para outra privada &#8211; a Barcel\u00f3 em S\u00e3o Tom\u00e9.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">A situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica influenciou.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>\u201cQuando eu fui, era outra realidade, outro governo. O real estava mais forte, a economia estava mais est\u00e1vel. Era um Brasil com negocia\u00e7\u00f5es com outros pa\u00edses, a economia era outra coisa. No meio do caminho, come\u00e7ou a mudar. Teve a queda da presidente Dilma (Rousseff, em 2016) e mesmo a Argentina tendo um c\u00e2mbio pior que o nosso, o real ficou desvalorizar\u201d,\u00a0<\/strong>conta ele, que ficou de 2014 a 2020 no pa\u00eds.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">No in\u00edcio, alugava um flat por R$ 800, mas saiu pagando R$ 2,5 mil no contrato. A mensalidade do primeiro semestre era R$ 540, mas chegou aos R$ 3 mil &#8211; \u00e0 medida que os semestres avan\u00e7am, \u00e9 poss\u00edvel que os valores passem por reajustes. De repente, o quadro estava bem diferente do que Everton tinha imaginado.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Com a pandemia, por\u00e9m, muitas universidades particulares no Brasil tiveram provas de transfer\u00eancia com muito mais frequ\u00eancia do que antes. Assim, ele decidiu transferir para c\u00e1 e, atualmente, estuda numa faculdade privada de S\u00e3o Paulo. \u201cFoi preciso uma readapta\u00e7\u00e3o total. A Medicina \u00e9 universal, mas tem quest\u00f5es de termo, metodologia de trabalho. O Brasil tem o SUS e doen\u00e7as tropicais, ent\u00e3o tem mat\u00e9rias espec\u00edficas para isso e voc\u00ea tem que fazer\u201d, lista.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Para Everton, Medicina tamb\u00e9m era um sonho de crian\u00e7a. Ele chegou a ser aprovado no vestibular de Odontologia na cidade onde nasceu, na Bahia, e come\u00e7ou a cursar, porque l\u00e1 n\u00e3o tinha o curso de Medicina. Depois de conhecer a Argentina, por\u00e9m, se encantou. \u201cVi a universidade e achei fant\u00e1stica. Era a mesma faculdade de Che Guevara, ent\u00e3o fiquei encantado\u201d.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Ele prefere n\u00e3o se identificar com o nome verdadeiro justamente porque acredita que existe preconceito com pessoas que tiveram forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica no exterior. \u201cA Medicina no Brasil ainda \u00e9 muito vertical. O acesso ainda \u00e9 por quem j\u00e1 tem algu\u00e9m na fam\u00edlia que \u00e9 m\u00e9dico. Tenho colega aqui no Brasil que, desde que come\u00e7ou, j\u00e1 acompanhava o pai, suturava, tinha todo um acesso quem n\u00e3o tinha\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>Exame\u00a0para m\u00e9dicos formados no Brasil divide entidades<\/strong><\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">De forma geral, os m\u00e9dicos que se formam no exterior n\u00e3o s\u00e3o contr\u00e1rios a prestar o Revalida, se quiserem retornar ao Brasil. Na verdade, entre os ouvidos pela reportagem, era comum a ideia de ir al\u00e9m disso: para muitos, o ideal era que brasileiros formados aqui tamb\u00e9m passassem por uma prova como o Revalida &#8211; algo parecido com o que acontece com os bachar\u00e9is em Direito que, para se tornar advogados, precisam ser aprovados no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">No entanto, n\u00e3o h\u00e1 consenso sobre isso entre as principais autoridades m\u00e9dicas.\u00a0 A posi\u00e7\u00e3o do Conselho Federal de Medicina (CFM), \u00e9 de que alguma avalia\u00e7\u00e3o deve ser feita, segundo o conselheiro federal Julio Braga, coordenador da Comiss\u00e3o de Ensino M\u00e9dico do CFM e 2\u00ba vice-corregedor do Cremeb. Ele cita pesquisas que j\u00e1 teriam indicado que a popula\u00e7\u00e3o pensa de maneira semelhante.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>\u201c\u00c9 um desejo da sociedade, dos m\u00e9dicos e dos pol\u00edticos representantes da popula\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0<\/strong><\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Ele considera que o Revalida \u00e9 um m\u00e9todo \u201ctestado, aprovado e pouco criticado\u201d, por ser uma prova de conhecimentos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos. No exame, h\u00e1 at\u00e9 simula\u00e7\u00e3o de atendimento ao paciente.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Na avalia\u00e7\u00e3o dele, os cursos de Medicina do Brasil n\u00e3o destoam da realidade de outros pa\u00edses, quanto aos pre\u00e7os cobrados pelas institui\u00e7\u00f5es particulares. \u201cEles s\u00e3o caros no mundo inteiro. \u00c9 um curso demorado, que tem uma alta taxa de tecnologia, precisa ter equipamentos, sala de aula, laborat\u00f3rios\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Para Braga, n\u00e3o h\u00e1 como baratear os cursos com essas exig\u00eancias. Os que t\u00eam mensalidades mais acess\u00edveis, em sua avalia\u00e7\u00e3o, podem ter fatores como centenas de alunos numa mesma sala, poucas aulas pr\u00e1ticas e laborat\u00f3rios sem recursos.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">\u201cO brasileiro n\u00e3o vai para essa universidade com estrutura melhor. A maioria vai para os cursos mais baratos. Isso est\u00e1 refletido na taxa de aprova\u00e7\u00e3o do Revalida. Quem vem de cursos menores tem taxa de aprova\u00e7\u00e3o menor\u201d.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">J\u00e1 o diretor-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o M\u00e9dica (Abem), o epidemiologista Sandro Schreiber, explica que a entidade n\u00e3o v\u00ea esse caminho como o mais adequado. Para a Abem, o ideal seria fiscalizar os cursos existentes e avaliar os estudantes de maneira progressiva, durante o curso, n\u00e3o ap\u00f3s a forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\"><strong>\u201cA ideia \u00e9 que eles sejam avaliados durante o curso, at\u00e9 para ter tempo h\u00e1bil se precisar recuperar, estudar. Isso precisa ser feito antes, tanto do ponto de vista do aluno quanto do ponto de vista do curso\u201d,<\/strong>\u00a0explica.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">De acordo com ele, um bom curso de gradua\u00e7\u00e3o em Medicina precisa seguir, minimamente, alguns crit\u00e9rios. O primeiro deles \u00e9 ter um corpo docente qualificado, tanto a n\u00edvel de mestrado e doutorado quanto com a diversidade de especialidades e experi\u00eancia cl\u00ednica.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">\u201cOutro crit\u00e9rio \u00e9 ter um curr\u00edculo que d\u00ea conta de olhar para a medicina moderna, que veja a pessoa como um todo e n\u00e3o de forma segmentada. O terceiro \u00e9 que haja uma estrutura de servi\u00e7os de sa\u00fade em quantidade e diversidades suficientes. O ensino precisa muito que o hospital exista, mas tamb\u00e9m precisa da unidade b\u00e1sica de sa\u00fade, do servi\u00e7o de urg\u00eancia e emerg\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">Ainda assim, ele refor\u00e7a que n\u00e3o cabe ao Brasil avaliar cursos de gradua\u00e7\u00e3o de fora. Assim, s\u00f3 resta submeter esses profissionais a uma avalia\u00e7\u00e3o. Para o professor, todos t\u00eam direito a conquistar sonhos e desejos. No entanto, \u00e9 preciso tamb\u00e9m observar com cuidado o que est\u00e1 sendo ofertado.<\/p>\n<p class=\"bodytext\" dir=\"ltr\">\u201cClaro que h\u00e1 bons cursos em todos esses pa\u00edses, por\u00e9m, esse crescimento de oferta nesses pa\u00edses muitas vezes tem cursos de baixa qualidade, especialmente aqueles que n\u00e3o oferecem um treinamento pr\u00e1tico, que \u00e9 fundamental. O Revalida nos parece um meio bastante adequado para saber se a forma\u00e7\u00e3o foi suficiente\u201d, completa.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">\nFonte: Correio<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"paywall-barreiras-subscriber\" class=\"modal hide paywall-barreiras-inread paywall-barreiras--subscriber-wall is-active\" tabindex=\"-1\" role=\"dialog\" data-type=\"subscriber\" data-base-url=\"https:\/\/assine.correio24horas.com.br\/v2\" data-enable-modal=\"false\" data-enable-swg=\"true\" data-sku-plan=\"basic_monthly\" data-chartbeat=\"false\">\n<div class=\"paywall-barreiras-inread__content\">\n<div class=\"paywall-barreiras-inread__header\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Argentina, Bol\u00edvia e Paraguai dominam a prefer\u00eancia na Am\u00e9rica do Sul; baianos contam os pr\u00f3s e contras<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":407161,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[4,1175,7],"tags":[],"class_list":["post-407160","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque","category-educacao","category-nacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/12\/Jacqueline_medica_formada_na_Bolivia__2_.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407160","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=407160"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/407160\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/407161"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=407160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=407160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=407160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}