{"id":40782,"date":"2014-01-25T14:39:13","date_gmt":"2014-01-25T17:39:13","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=40782"},"modified":"2014-01-25T14:39:13","modified_gmt":"2014-01-25T17:39:13","slug":"com-10-milhoes-de-fas-funk-e-hino-de-identidade-para-jovens-brasileiros-da-periferia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/com-10-milhoes-de-fas-funk-e-hino-de-identidade-para-jovens-brasileiros-da-periferia\/","title":{"rendered":"Com 10 milh\u00f5es de f\u00e3s, funk \u00e9 hino de identidade para jovens brasileiros da periferia"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><em>Batid\u00e3o \u00e9 muitas vezes m\u00fasica vulgar, e h\u00e1 at\u00e9 funkeiros que exaltam o crime. Mas g\u00eanero representa como nenhum outro aspira\u00e7\u00f5es das classes C, D e E<\/em><\/h2>\n<div style=\"text-align: justify;\">S\u00e9rgio Martins<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"MC Guim\u00ea\" alt=\"MC Guim\u00ea\" src=\"http:\/\/veja2.abrilm.com.br\/assets\/images\/2014\/1\/200276\/MC-Guime-size-598.jpg?1390662568\" width=\"598\" height=\"336\" data-original=\"http:\/\/veja2.abrilm.com.br\/assets\/images\/2014\/1\/200276\/MC-Guime-size-598.jpg?1390662568\" \/>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tchudum, tch\u00e1, tch\u00e1, tch\u00e1, tch\u00e1, tchudum, tch\u00e1, tch\u00e1, tch\u00e1, tch\u00e1, tchudum&#8230; S\u00e3o 2 horas da manh\u00e3 numa casa noturna de S\u00e3o Paulo e os frequentadores est\u00e3o dan\u00e7ando uma batida eletr\u00f4nica repetitiva. Dali a uma hora e meia, MC Guim\u00ea, o principal nome do funk ostenta\u00e7\u00e3o, far\u00e1 seu show, acompanhado de um DJ e de duas dan\u00e7arinas, e com a participa\u00e7\u00e3o especial do rapper Emicida. No clube vigora uma saud\u00e1vel mistura social, mais rara em S\u00e3o Paulo, onde centro e periferia s\u00e3o muito distantes, do que no Rio. Encontram-se ali jovens de bairros suburbanos \u2014 os meninos com correntes douradas, as meninas com saia bem curtinha, e todos com roupas de grife \u2014 e tamb\u00e9m os chamados \u201cplayboys\u201d. Quando Guim\u00ea finalmente sobe ao palco, a temperatura da casa parece subir. Por quarenta minutos, ele intercala can\u00e7\u00f5es de seu repert\u00f3rio com sucessos de outros funkeiros, canta o rap do quarteto Racionais MC\u2019s e cita o Salmo 23 (\u201cO senhor \u00e9 meu pastor \/ Nada me faltar\u00e1\u201d). Nada falta mesmo: suas letras carregam uma tal profus\u00e3o de marcas \u2014 carros, roupas, perfumes, bebidas \u2014 que at\u00e9 se poderia suspeitar de vultosos contratos de merchandising. N\u00e3o \u00e9 o caso. Para Guim\u00ea, natural da periferia de Osasco, cidade da Grande S\u00e3o Paulo, falar desses objetos de consumo \u2014 e, acima de tudo, adquiri-los \u2014 \u00e9 uma aspira\u00e7\u00e3o realizada, uma senha para a entrada na sociedade. O p\u00fablico n\u00e3o s\u00f3 entende como compartilha o sonho de Guim\u00ea: muitos f\u00e3s, no meio da dan\u00e7a, erguem garrafas de u\u00edsque escoc\u00eas como se fossem trof\u00e9us. Festas e shows assim se repetem por outras cidades e clubes. Como tantos g\u00eaneros musicais que vieram das \u00e1reas urbanas mais pobres, o funk j\u00e1 conquistou parte da classe m\u00e9dia. Mas \u00e9 sobretudo entre a garotada da periferia que ele tem a resson\u00e2ncia de uma\u00a0<em>Marselhesa<\/em>: um hino de cidadania e identidade para os jovens das classes C, D e E.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo estudo do Data Popular, instituto especializado em pesquisas de opini\u00e3o nos estratos emergentes do pa\u00eds, a \u201ccomunidade funk\u201d hoje congrega 10 milh\u00f5es de brasileiros com mais de 16 anos, a maioria das classes C e D. \u00c9 um p\u00fablico fiel: 77% deles escutam funk todos os dias e 50% v\u00e3o a um baile funk pelo menos uma vez por m\u00eas. Esse p\u00fablico se divide quando perguntado sobre o sentido que a m\u00fasica tem em sua vida: 22% consideram que o funk \u00e9 apenas divers\u00e3o, um ritmo bom de dan\u00e7ar. Mas 26% acreditam que os MCs convidam a ambi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o cabem na pista de dan\u00e7a: o funk seria uma forma de supera\u00e7\u00e3o. Em bom momento comercial, o funk representa uma possibilidade de carreira para quem sonha em se tornar MC (sigla em ingl\u00eas de Master of Cerimonies, o cantor do funk e do rap). Uma \u00fanica can\u00e7\u00e3o de sucesso pode garantir boa base financeira, ainda que, como sempre aconteceu no showbiz, existam promessas de estrelato que acabam em fracasso (<em>leia o quadro ao fim da reportagem<\/em>). Mesmo sem o status de um Naldo ou de um Mr. Catra, um funkeiro de algum talento pode garantir mais do que a subsist\u00eancia. \u201cUm MC pode fazer trinta bailes por m\u00eas ao cach\u00ea de 1\u2009000 reais. Em seis meses, ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de montar um negocinho na favela, comprar uma casa e um carro\u201d, calcula o DJ Marlboro, um dos precursores do batid\u00e3o. O sonho de todos, claro, \u00e9 chegar \u00e0s alturas. MC Guim\u00ea fez fama e dinheiro \u2014 ganha em torno de 1,4 milh\u00e3o de reais por m\u00eas e o v\u00eddeo de seu\u00a0<em>Plaqu\u00ea<\/em>\u00a0de 100 tem mais de 42 milh\u00f5es de visualiza\u00e7\u00f5es no YouTube \u2014 sem comercializar discos. Mas as gravadoras descobriram que o funk \u00e9 rent\u00e1vel. Naldo Benny e Anitta trocaram o ritmo mais pesado dos \u201cbatid\u00f5es\u201d pelo funk melody \u2014 vers\u00e3o, digamos, pacificada do funk da periferia carioca \u2014 e com isso alcan\u00e7aram p\u00fablicos mais amplos. Naldo produz os pr\u00f3prios discos, mas tem um contrato de distribui\u00e7\u00e3o com a Sony Music. Anitta \u00e9 do cast da Warner, que mais recentemente contratou MC Ludmilla (ex-MC Beyonc\u00e9). A Universal tem MC Gui, outro exponente do funk ostenta\u00e7\u00e3o. Casas de shows como o Barra Music, no Rio, inclu\u00edram o funk entre as atra\u00e7\u00f5es frequentes. \u201cHoje existe um cuidado maior do funkeiro com a produ\u00e7\u00e3o\u201d, diz Marcos J\u00fanior, diretor art\u00edstico do espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 diferen\u00e7as entre o funk carioca, mais malicioso e sexual (ou mais bandido), e o paulista, que tem mais influ\u00eancia do hip-hop. O chamado \u201cfunk ostenta\u00e7\u00e3o\u201d, que celebra o consumo e o luxo, \u00e9 um produto paulista: suas ra\u00edzes est\u00e3o na Baixada Santista, no litoral de S\u00e3o Paulo, com as produ\u00e7\u00f5es do DJ Baphaphinha e com artistas como MC Boy do Charmes. Como tantos g\u00eaneros populares \u2014 ax\u00e9, sertanejo, tecnobrega \u2014, o funk, em qualquer lugar, irrita ouvintes que se pretendem mais sofisticados. Agora que o purismo nacionalista caiu de moda, ataca-se o funk brasileiro por n\u00e3o ser similar \u00e0 sua matriz americana. Realmente, n\u00e3o h\u00e1 quase nada de James Brown no funk brasileiro de agora. Mas suas origens est\u00e3o nos bailes do Rio de Janeiro dos anos 70, onde se tocavam funk e soul, americanos e brasileiros. Com o tempo, a batida sofreu altera\u00e7\u00f5es. A princ\u00edpio, o ritmo mais comum era o chamado Miami Bass, batida acelerada que surgiu na cidade americana da qual recebeu o nome. Hoje, o funk ganhou um batuque brasileiro, que parece sa\u00eddo dos terreiros de umbanda. A essa inven\u00e7\u00e3o r\u00edtmica se deu o nome de tamborz\u00e3o. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o para a m\u00fasica popular internacional da estatura da bossa nova \u2014 mas tem l\u00e1 sua originalidade. \u201cL\u00e1 fora, o funk \u00e9 reconhecido como a m\u00fasica eletr\u00f4nica brasileira\u201d, defende o cantor Mr. Catra. Muitos MCs n\u00e3o t\u00eam a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o de tempo, mas h\u00e1 criatividade nas suas produ\u00e7\u00f5es, sobretudo na conjuga\u00e7\u00e3o inusitada de samples, que v\u00e3o do grupo americano Talking Heads ao tema do desenho animado\u00a0<em>Tom e Jerry<\/em>. Mais pertinente, ainda que \u00e0s vezes tingido de moralismo estreito, \u00e9 o ataque ao conte\u00fado sexual do funk. Muitas letras s\u00e3o incontestavelmente grosseiras. \u201cSe as pessoas gostam de falar sobre sexo, por que eu n\u00e3o posso cantar a respeito?\u201d, justifica-se Mr. Catra. Ele \u00e9 o cantor de\u00a0<em>Negolossauro rex<\/em>, cuja letra \u00e9 at\u00e9 public\u00e1vel: \u201cVem voc\u00ea, a sua prima, pode chamar a sua amiga \/ Instinto de le\u00e3o, pegada de gorila\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os bailes funk, por seu car\u00e1ter improvisado, tamb\u00e9m configuram um problema urbano. Em S\u00e3o Paulo, a prefeitura proibiu os bailes de rua com carro de som, pela boa raz\u00e3o de que eles perturbavam a paz \u2014 as pessoas na periferia, afinal, trabalham e desejam dormir \u00e0 noite. Ainda mais complicada \u00e9 a intersec\u00e7\u00e3o do funk com a bandidagem, que vigora sobretudo no Rio. Nos anos 90 surgiram nas favelas os chamados \u201cproibid\u00f5es\u201d, bailes protegidos ou patrocinados por fac\u00e7\u00f5es criminosas. O \u201cproibid\u00e3o\u201d tornou-se quase um subg\u00eanero do funk, com letras que exaltam criminosos e, de t\u00e3o recheadas de g\u00edria, parecem falar em c\u00f3digo. Um exemplo \u00e9 \u201ca balinha do Salgueiro\u201d de que fala uma das can\u00e7\u00f5es do repert\u00f3rio do Nego do Borel: trata-se de ecstasy. O elogio aberto ao crime arrefeceu com a tomada de favelas pelas Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora. Em alguns casos, a UPP reprimiu bailes funk. Mas muitos sobrevivem, como o Emo\u00e7\u00f5es, na favela da Rocinha, que voltou \u00e0 atividade ap\u00f3s um ano parado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Veja<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Batid\u00e3o \u00e9 muitas vezes m\u00fasica vulgar, e h\u00e1 at\u00e9 funkeiros que exaltam o crime. 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