{"id":40952,"date":"2014-01-27T04:34:28","date_gmt":"2014-01-27T07:34:28","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=40952"},"modified":"2014-01-27T04:34:28","modified_gmt":"2014-01-27T07:34:28","slug":"ex-escravos-lembram-rotina-em-fazenda-nazista-no-interior-de-sp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ex-escravos-lembram-rotina-em-fazenda-nazista-no-interior-de-sp\/","title":{"rendered":"Ex-escravos lembram rotina em fazenda nazista no interior de SP"},"content":{"rendered":"<div>\n<h1><span style=\"font-size: 14px; line-height: 1.5em;\">Gibby Zobel<\/span><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/wscdn.bbc.co.uk\/worldservice\/assets\/images\/2014\/01\/25\/140125131231__72403566_footballteam.jpg\" width=\"624\" height=\"351\" \/><\/div>\n<\/div>\n<p>Em uma fazenda no interior de S\u00e3o Paulo, 160 km a oeste da capital, um time de futebol posa para uma foto comemorativa. Mas o que torna a imagem extraordin\u00e1ria \u00e9 o s\u00edmbolo na bandeira do time &#8211; uma su\u00e1stica.<\/p>\n<p>A foto, provavelmente, foi tirada ap\u00f3s a ascens\u00e3o nazista na Alemanha, na d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<ul>\n<li><a href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2011\/07\/110720_mengele_diarios_bg.shtml\">Di\u00e1rios de Mengele no Brasil ser\u00e3o leiloados nos EUA<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2012\/08\/120815_sobrevivente_holocausto_lgb.shtml\">Brasileiro conta como sua vida cruzou com a do &#8216;nazista mais procurado do mundo&#8217;<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2011\/05\/110518_rainhasilvia_nazismo_bg.shtml\">Rainha Silvia da Su\u00e9cia pede investiga\u00e7\u00e3o sobre passado nazista de pai no Brasil<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<h2>T\u00f3picos relacionados<\/h2>\n<div>\n<ul>\n<li><a href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/topicos\/brasil\">Brasil<\/a>,<\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/topicos\/historia\">Hist\u00f3ria<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&#8220;Nada explicava a presen\u00e7a dessa su\u00e1stica aqui&#8221;, conta Jos\u00e9 Ricardo Rosa Maciel, ex-dono da remota fazenda Cruzeiro do Sul, perto de Campina do Monte Alegre, que encontrou a foto, por acaso, um dia.<\/p>\n<p>Mas essa foi, na verdade, sua segunda e intrigante descoberta. A primeira tinha ocorrido no chiqueiro.<\/p>\n<p>&#8220;Um dia, os porcos quebraram uma parede e fugiram para o campo&#8221;, ele disse. &#8220;Notei que os tijolos tinham ca\u00eddo. Achei que estava tendo alucina\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<p>Na parte debaixo de cada tijolo estava gravada uma su\u00e1stica.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/wscdn.bbc.co.uk\/worldservice\/assets\/images\/2014\/01\/25\/140125131229__72400234_tatao.jpg\" width=\"624\" height=\"400\" \/><\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que no per\u00edodo que antecedeu a Segunda Guerra, o Brasil tinha fortes v\u00ednculos com a Alemanha Nazista. Os dois pa\u00edses eram parceiros comerciais e o Brasil tinha o maior partido fascista fora da Europa, com mais de 40 mil integrantes.<\/p>\n<p>Mas levou anos para que Maciel, com o aux\u00edlio do historiador Sidney Aguillar Filho, conhecesse a terr\u00edvel hist\u00f3ria que conectava sua fazenda aos fascistas brasileiros.<\/p>\n<h2>A\u00e7\u00e3o Integralista<\/h2>\n<p>Filho descobriu que a fazenda tinha pertencido aos Rocha Miranda, uma fam\u00edlia de industriais ricos do Rio de Janeiro. Tr\u00eas deles &#8211; o pai, Renato, e dois filhos, Ot\u00e1vio e Osvaldo &#8211; eram membros da A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira (AIB), organiza\u00e7\u00e3o de extrema direita simpatizante do Nazismo.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia \u00e0s vezes organizava eventos na fazenda, recebendo milhares de membros do partido. Mas tamb\u00e9m existia no lugar um campo brutal de trabalhos for\u00e7ados para crian\u00e7as negras abandonadas.<\/p>\n<p>&#8220;Descobri a hist\u00f3ria de 50 meninos com idades em torno de 10 anos que tinham sido tirados de um orfanato no Rio&#8221;, conta o historiador. &#8220;Foram tr\u00eas levas. O primeiro grupo, em 1933, tinha dez (crian\u00e7as)&#8221;.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"Aloysio Silva\" src=\"http:\/\/wscdn.bbc.co.uk\/worldservice\/assets\/images\/2014\/01\/25\/140125131227__72401037_aloisiosilva1.jpg\" width=\"304\" height=\"405\" \/>Aloysio Silva era conhecido apenas pelo n\u00famero 23<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Osvaldo Rocha Miranda solicitou a guarda legal dos \u00f3rf\u00e3os, segundo documentos encontrados por Filho. O pedido foi atendido.<\/p>\n<p>&#8220;Ele enviou seu motorista, que nos colocou em um canto&#8221;, conta Aloysio da Silva, um dos primeiros meninos levados para trabalhar na fazenda, hoje com 90 anos de idade.<\/p>\n<p>&#8220;Osvaldo apontava com uma bengala &#8211; &#8216;Coloca aquele no canto de l\u00e1, esse no de c\u00e1&#8217;. De 20 meninos, ele pegou dez&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ele prometeu o mundo &#8211; que ir\u00edamos jogar futebol, andar a cavalo. Mas n\u00e3o tinha nada disso. Todos os dez tinham de arrancar ervas daninhas com um ancinho e limpar a fazenda. Fui enganado&#8221;.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as eram espancadas regularmente com uma palmat\u00f3ria. N\u00e3o eram chamadas pelo nome, mas por n\u00fameros. Silva era o n\u00famero 23.<\/p>\n<p>C\u00e3es de guarda mantinham as crian\u00e7as na linha.<\/p>\n<p>&#8220;Um se chamava Veneno, o macho. A f\u00eamea se chamava Confian\u00e7a&#8221;, conta Silva, que ainda mora na regi\u00e3o. &#8220;Evito falar sobre esse assunto&#8221;.<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/wscdn.bbc.co.uk\/worldservice\/assets\/images\/2014\/01\/25\/140125131226__72392771_nazibranding2.jpg\" width=\"624\" height=\"351\" \/>At\u00e9 as vacas da fazenda recebiam a su\u00e1stica<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Argemiro dos Santos \u00e9 outro dos sobreviventes. Quando menino, foi encontrado nas ruas e levado para um orfanato. Um dia, Rocha Miranda veio busc\u00e1-lo.<\/p>\n<div>\n<div>\n<h3>Integralismo Brasileiro<\/h3>\n<div>\n<div>\n<p>O Integralismo brasileiro foi um movimento pol\u00edtico fascista fundado no pa\u00eds em 1932<\/p>\n<p>Adotou alguns dos conceitos b\u00e1sicos do Fascismo europeu &#8211; uma ala paramilitar uniformizada, demonstra\u00e7\u00f5es de rua e ret\u00f3rica anti-Marxista<\/p>\n<p>Pregava o nacionalismo como identidade espiritual compartilhada<\/p>\n<p>Apesar de seu slogan &#8211; &#8220;Uni\u00e3o de todas as ra\u00e7as e povos&#8221; &#8211; muitos dos seus integrantes eram antisemitas<\/p>\n<p>O movimento foi incorporado pelo presidente Get\u00falio Vargas, que instaurou uma ditadura no Brasil em 1937<\/p>\n<p>Inicialmente, o Brasil adotou posi\u00e7\u00e3o de neutralidade na Segunda Guerra Mundial, mas em 1942 se uniu aos Aliados.<\/p>\n<p>Vargas foi for\u00e7ado a deixar o posto em 1945, suicidando-se<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a Segunda Guerra, v\u00e1rios nazistas fugiram para a Am\u00e9rica do Sul &#8211; o not\u00f3rio Josef Mengele conseguiu evitar captura durante d\u00e9cadas e morreu no Brasil em 1979<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Eles n\u00e3o gostavam de negros&#8221;, conta Santos, hoje com 89 anos.<\/p>\n<p>&#8220;Havia castigos, deixavam a gente sem comida ou nos batiam com a palmat\u00f3ria. Do\u00eda muito. Duas batidas, \u00e0s vezes. O m\u00e1ximo eram cinco, porque uma pessoa n\u00e3o aguentava&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Eles tinham fotografias de Hitler e voc\u00ea era obrigado a fazer uma sauda\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o entendia nada daquilo&#8221;.<\/p>\n<p>Alguns dos descendentes da fam\u00edlia Rocha Miranda dizem que seus antepassados deixaram de apoiar o Nazismo antes da Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>Maurice Rocha Miranda, sobrinho-bisneto de Ot\u00e1vio e Osvaldo, tamb\u00e9m nega que as crian\u00e7as eram mantidas na fazenda como &#8220;escravos&#8221;.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0\u00a0<em>Folha de S\u00e3o Paulo<\/em>, ele disse que os \u00f3rf\u00e3os na fazenda &#8220;tinham de ser controlados mas nunca foram punidos ou escravizados&#8221;.<\/p>\n<p>O historiador Sidney Aguillar Filho, no entanto, acredita nas hist\u00f3rias dos sobreviventes. E apesar da passagem do tempo, ambos Silva e Santos &#8211; que nunca mais se encontraram desde o tempo em que viveram na fazenda &#8211; fazem relatos muito parecidos e perturbadores de suas experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Para os \u00f3rf\u00e3os, os \u00fanicos momentos de alegria eram os jogos de futebol contra times de trabalhadores das fazendas locais, como aquele em que foi tirada a foto onde se v\u00ea a bandeira com a su\u00e1stica. (O futebol tinha papel fundamental na ideologia integralista.)<\/p>\n<div>\n<div><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/wscdn.bbc.co.uk\/worldservice\/assets\/images\/2014\/01\/25\/140125131224__72403563_argemiroandmedal.jpg\" width=\"304\" height=\"405\" \/>Argemiro Santos ainda guarda a medalha de ouro que ganhou<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>&#8220;A gente se reunia para bater bola e a coisa foi crescendo&#8221;, diz Santos. &#8220;T\u00ednhamos campeonatos, \u00e9ramos bons de futebol.&#8221;<\/p>\n<p>Mas depois de v\u00e1rios anos, ele n\u00e3o aguentava mais.<\/p>\n<p>&#8220;Tinha um port\u00e3o (na fazenda) e um dia eu o deixei aberto&#8221;, ele conta. &#8220;Naquela noite, eu fugi. Ningu\u00e9m viu&#8221;.<\/p>\n<p>Santos voltou ao Rio onde, aos 14 anos de idade, passou a dormir na rua e trabalhar como vendedor de jornais. Em 1942, quando Brasil declarou guerra contra a Alemanha, Santos se alistou na Marinha como taifeiro, servindo mesas e lavando lou\u00e7a.<\/p>\n<p>Depois de trabalhar para nazistas, Santos passou a lutar contra eles.<\/p>\n<p>&#8220;Estava apenas prestando um servi\u00e7o para o Brasil&#8221;, explica. &#8220;N\u00e3o sentia \u00f3dio por Hitler, n\u00e3o sabia quem ele era&#8221;.<\/p>\n<p>Santos saiu em patrulha pela Europa e depois passou um per\u00edodo, ainda durante a guerra, trabalhando em navios que ca\u00e7avam submarinos na costa brasileira.<\/p>\n<p>Hoje, Santos \u00e9 conhecido, na comunidade onde vive, pelo apelido de Marujo. E se orgulha de um certificado e uma medalha que recebeu em reconhecimento por seus servi\u00e7os durante a guerra.<\/p>\n<p>Mas ele tamb\u00e9m \u00e9 famoso por suas proezas futebol\u00edsticas, jogando como meio de campo em v\u00e1rios grandes times brasileiros na d\u00e9cada de 1940.<\/p>\n<p>&#8220;Naquela \u00e9poca, n\u00e3o existiam jogadores profissionais, \u00e9ramos todos amadores&#8221;, diz. &#8220;Joguei para o Fluminense, Botafogo, Vasco da Gama&#8230; Os jogadores eram todos vendedores de jornais e lustradores de sapatos&#8221;.<\/p>\n<p>Hoje, Santos vive uma vida tranquila com a esposa, Guilhermina, no sudoeste do Brasil. Eles est\u00e3o casados h\u00e1 61 anos.<\/p>\n<p>&#8220;Eu gosto de tocar meu trompete, de sentar na varanda e tomar uma cerveja gelada. Tenho muitos amigos e eles sempre aparecem para bater papo&#8221;, conta.<\/p>\n<p>As lembran\u00e7as do tempo dif\u00edcil que passou na fazenda, no entanto, s\u00e3o dif\u00edceis de apagar.<\/p>\n<p>&#8220;Quem diz que sempre teve uma vida boa desde que nasceu est\u00e1 mentindo&#8221;, diz Santos. &#8220;Na vida de todo mundo acontecem coisas ruins&#8221;.<\/p>\n<p>Fonte: BBC Brasil<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma fazenda no interior de S\u00e3o Paulo, 160 km a oeste da capital, um time de futebol posa para uma foto comemorativa. 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