{"id":411005,"date":"2023-02-04T10:33:07","date_gmt":"2023-02-04T13:33:07","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=411005"},"modified":"2023-02-04T10:33:07","modified_gmt":"2023-02-04T13:33:07","slug":"circuito-da-luxuria-como-funciona-e-quem-participa-do-turismo-sexual-em-salvador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/circuito-da-luxuria-como-funciona-e-quem-participa-do-turismo-sexual-em-salvador\/","title":{"rendered":"Circuito da lux\u00faria: como funciona e quem participa do turismo sexual em Salvador"},"content":{"rendered":"<div class=\"row visible-lg\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<div class=\"noticias-single__tags\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-lg-3\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"noticias-single__meta\">\n<div class=\"noticias-single__author\">\n<div>Fernanda Santana<\/div>\n<div><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 col-lg-9\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"noticias-single__image\"><picture class=\"noticias-single__picture\"><source srcset=\"https:\/\/correio-cdn1.cworks.cloud\/fileadmin\/_processed_\/0\/9\/csm_Lila_representativa_reportagem_ffdc590e13.jpeg\" media=\"(min-width: 420px)\" \/><img decoding=\"async\" class=\"noticias-single__image-source\" src=\"https:\/\/correio-cdn1.cworks.cloud\/fileadmin\/_processed_\/0\/9\/csm_Lila_representativa_reportagem_291684e33a.jpeg\" alt=\"Circuito da lux\u00faria: como funciona e quem participa do turismo sexual em Salvador\" \/><\/picture><span class=\"noticias-single__image-caption\">(Paula Fr\u00f3es\/CORREIO)<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"col-xs-12 noticias-single__stick-parent\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12 col-md-7 col-lg-7\">\n<div class=\"row\">\n<div class=\"col-xs-12\">\n<h1 class=\"noticias-single__title noticias-single__title--desktop noticias-single__title--with-image visible visible-lg\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<div class=\"noticias-single__description visible-lg\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Pr\u00e1tica que pode envolver crimes tem por tr\u00e1s de guias tur\u00edsticos a donos de barracas, que cobram comiss\u00e3o de at\u00e9 15%<\/strong><\/div>\n<div class=\"noticias-single__content-area noticias-single__content-area--before-content\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"chamada-assinatura\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"noticias-single__content is-blocked\">\n<div class=\"noticias-single__content__text js-mediator-article\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"bodytext\">\u00c0s 17h30 de uma ter\u00e7a-feira de ver\u00e3o, um italiano\u00a0grisalho e vestido de branco\u00a0est\u00e1 \u00e0 espera de algu\u00e9m. Ele e um franc\u00eas s\u00e3o os \u00fanicos clientes deste bar meio pizzaria no Porto da Barra. &#8220;Desculpa a demora, mandei mensagem, mas voc\u00ea n\u00e3o respondeu\u201d. Surge o \u201calgu\u00e9m\u201d: uma baiana, cabelos crespos presos em coque, com vestido florido. Ela tem 29 anos. Ele aparenta mais de 60.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">\u201cFiz muita coisa hoje, matriculei meu filho, fui fazer a unha que estava horr\u00edvel&#8230;\u201d, conta, ao que um gar\u00e7om enche dois copos de cerveja para os clientes. \u201cPara ficar mais gostosa do que voc\u00ea \u00e9, n\u00e9?\u201d, diz o funcion\u00e1rio, que parece conhec\u00ea-la. Os tr\u00eas riem. A reportagem testemunha o papo na mesa ao lado.<\/p>\n<div class=\"teads-adCall\"><\/div>\n<div class=\"single-publicidade\">\n<div id=\"minhabahia_300x250_01\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\">Os dois conversam banalidades, das\u00a0burocracia dos bancos a locais que o italiano precisa conhecer. Ela alterna entre o \u201csenhor\u201d e o &#8220;voc\u00ea&#8221; at\u00e9 induzir ao assunto que os une: \u201cEnt\u00e3o, [voc\u00ea] precisa de companhia\u201d. O estrangeiro retruca. \u201cEu tenho, uma esposa linda.\u00a0Voc\u00ea fica ofendida?\u201d, ele pergunta, em portugu\u00eas com sotaque. \u201cTenho 29 anos, compreendo bastante\u201d, ela responde.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A conversa reflete como o turismo com motiva\u00e7\u00e3o sexual (ou turismo sexual, como \u00e9 mais conhecido) acontece em Salvador, sendo parte de uma teia que envolve de autodeclarados guias de turismo a recepcionistas de hot\u00e9is, vis\u00edvel\u00a0em c\u00f3digos e em aplicativos de namoro.\u00a0O\u00a0per\u00edodo mais movimentado est\u00e1 prestes a come\u00e7ar: as semanas anterior e posterior ao Carnaval.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Turismo (OMT) define\u00a0essa pr\u00e1tica como \u201cviagens com a inten\u00e7\u00e3o&#8221; de sexo pago &#8220;com residentes do destino&#8221;. Pesquisadores incluem rela\u00e7\u00f5es sem natureza comercial, entreposto por abismos econ\u00f4micos.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\">\n<div id=\"internas_300x250_03\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\">Viajar em busca de sexo n\u00e3o \u00e9 crime, mas pode integrar uma zona criminosa: a do ass\u00e9dio e explora\u00e7\u00e3o sexual, adulta e infantil, e o tr\u00e1fico de pessoas.<\/p>\n<h4><strong>A rede do sexo: indica\u00e7\u00e3o a turistas e cobran\u00e7a de comiss\u00e3o\u00a0<\/strong><\/h4>\n<p class=\"bodytext\">Toda rede de turismo \u00e9 solicitada a participar do turismo com motiva\u00e7\u00e3o sexual. A reportagem percorreu, por cinco dias, a regi\u00e3o do Porto da\u00a0Barra e o Pelourinho, points do circuito da busca de turistas por sexo.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Era tarde de quarta, turistas lotavam o Pelourinho e L\u00facio*, \u00e0 porta de uma ag\u00eancia de turismo, contava oito turistas que o procuraram em busca de prostitutas. S\u00f3 em janeiro, o rapaz fez 40 recomenda\u00e7\u00f5es.\u00a0A prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 legalizada, mas lucrar com a prostitui\u00e7\u00e3o alheia\u00a0n\u00e3o &#8211; a pena \u00e9 de at\u00e9\u00a0cinco anos.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\">\n<div id=\"internas_300x250_04\"><\/div>\n<\/div>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cElas [prostitutas] me d\u00e3o 10% por cliente. Para brasileiro, \u00e9 R$ 150. Gringo paga mais caro, R$ 250\u201d<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Morador do Centro Hist\u00f3rico, L\u00facio v\u00ea de mais perto o turismo acionar o sexo \u2013 alguns vizinhos sonham namorar estrangeiros, movidos pela possibilidade de dinheiro em uma realidade de pobreza. Salvador \u00e9, hoje,<a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/ibge-pobreza-e-extrema-pobreza-atingiram-patamares-recordes-em-2021-na-bahia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0a metr\u00f3pole brasileira com mais gente extremamente pobre<\/a>, aponta o Boletim Desigualdade nas Metr\u00f3poles.\u00a0&#8220;Duas conhecidas foram para Portugal agora. Um conhecido foi para ficar com um cara, mas ele n\u00e3o era gay\u201d, ri o rapaz.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">De cinco profissionais do turismo abordados no Pelourinho, s\u00f3 um disse n\u00e3o indicar mulheres ou homens para turistas. O porqu\u00ea: \u201cSou evang\u00e9lico\u201d.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\">\n<div id=\"internas_300x250_05\"><\/div>\n<\/div>\n<p class=\"bodytext\">Em frente ao Terreiro de Jesus, vemos Ailton*, com \u00f3culos espelhados azuis, abordar dois filipinos. Em portunhol, ele pergunta se os rapazes, rostos redondos, \u201cquerem garotas\u201d. Ambos recusam, mas ele continua a recruta.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cEles [turistas] querem \u00e9 isso, mulher e droga\u201d<\/strong>, diz.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">A busca ativa &#8211; de prostitutas por turistas e vice-versa &#8211; chega aos hot\u00e9is, sobretudo os de pequeno e m\u00e9dio porte, onde prostitutas\u00a0entregam\u00a0cart\u00f5ezinhos profissionais nas recep\u00e7\u00f5es. Soa antiquado, mas quem lucra com o sexo quando a cidade est\u00e1 cheia sabe da demanda fora da internet.<\/p>\n<div class=\"single-publicidade\">\n<div id=\"internas_300x250_06\"><\/div>\n<\/div>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cPara mim n\u00e3o vale [indicar prostitutas]. Se eu consigo sugerir pacotes de viagem [a turistas], ganho uma porcentagem das empresas\u201d<\/strong>, conta Cl\u00e1udio.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">O recepcionista de uma hospedaria no Porto da Barra \u00e9 da \u00e9poca \u2013 recente, durou at\u00e9 2010 &#8211; em que recep\u00e7\u00f5es de hot\u00e9is apresentavam card\u00e1pios de prostitutas a visitantes.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O presidente da Associa\u00e7\u00e3o da Ind\u00fastria de Hot\u00e9is na Bahia, Luciano Torres, diz que n\u00e3o cabe \u00e0 entidade fiscalizar essas situa\u00e7\u00f5es, mas que o\u00a0<em>trade\u00a0<\/em>discute o turismo sexual, pois &#8220;esse problema acontece em alta ou baixa esta\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Rivanete Rodrigues, presidente do Sindicato de Guias de Turismo da Bahia, defende a categoria: \u201cTemos um c\u00f3digo de \u00e9tica e o guia n\u00e3o pode praticar esse tipo de turismo. N\u00e3o vamos dizer que n\u00e3o existe porque, em toda profiss\u00e3o, tem aqueles&#8230; mas afirmo que esse tipo de conduta \u00e9 de guias ilegais\u201d.<\/p>\n<h4><strong>A prostitui\u00e7\u00e3o em busca de &#8216;gringos&#8217; e os riscos\u00a0<\/strong><\/h4>\n<p class=\"bodytext\">Janeiro se despede e novas vizinhas chegam para Sofia. Semana passada, ela sabia de tr\u00eas prostitutas em apartamentos na Barra. Agora, s\u00e3o 28. \u201cEm fevereiro, chove gringo\u201d, ri a jovem, em um flat.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">No m\u00eas passado, Sasha, 20 anos e cabelos cacheados pretos, atendeu 50 turistas, quatro deles &#8220;gringos&#8221;, intermediados por sites &#8211; a representa\u00e7\u00e3o moderna dos cafet\u00f5es. Ela tem o contato telef\u00f4nico compartilhado com um barraqueiro e o recepcionista de uma pousada do Porto da Barra.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8220;\u00c9 s\u00f3 eles te verem com um gringo, que chegam para perguntar se podem te indicar para algu\u00e9m&#8221;<\/strong>, explica a jovem. N\u00e3o fazem isso de gra\u00e7a: ganham\u00a0porcentagem de 15% por programa arranjado.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Por uma hora com Sasha, estrangeiros pagam R$ 350. Brasileiros, R$ 250. A principal credencial \u00e0 qual ela recorre s\u00e3o quatro idiomas: fala portugu\u00eas, ingl\u00eas, espanhol e italiano.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cVamos aprendendo conversando com eles. O interesse de atender estrangeiro, europeu, \u00e9 100% pela possibilidade de ir para fora\u201d<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Para a presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Prostitutas da Bahia, F\u00e1tima Medeiros, onde h\u00e1 rela\u00e7\u00f5es conscientes, ela n\u00e3o v\u00ea v\u00edtimas.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">H\u00e1 20 ver\u00f5es, Lila fez o movimento sonhado por Sofia &#8211; do Brasil rumo \u00e0 Europa, impulsionada pelo turismo. A baiana, uma mulher transg\u00eanero, conheceu um italiano e partiu\u00a0com a promessa de trabalhar com ele. \u00c0 \u00e9poca, ela estava desempregada. &#8220;Mas chegando l\u00e1, a gente se desentendeu&#8221;.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/_processed_\/6\/8\/csm_Lila_representativa_5_67ee59b297.jpeg\" width=\"1000\" height=\"622\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Lila deixou Salvador em um ver\u00e3o h\u00e1 20 anos, depois de conhecer italiano<\/strong>\u00a0(Foto: Paula Fr\u00f3es\/CORREIO)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">O desentendimento foi um dos empurr\u00f5es da vida para a prostitui\u00e7\u00e3o, somada \u00e0 exaust\u00e3o com o mercado formal de trabalho. Ao olhar para tr\u00e1s, ela avalia:<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8220;N\u00e3o era prostitui\u00e7\u00e3o porque a gente n\u00e3o dava esse nome \u00e0 coisa. Era uma coisa muito sutil, porque o objetivo era essa grande ilus\u00e3o de estar com um estrangeiro era ir para fora&#8221;<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Sentada em uma cafeteria da Barra, sob um salto dourado, Lila atende \u00e0 chamada do telefone. \u00c9 o noruegu\u00eas que ela atendeu, h\u00e1 uma hora, em um hotel, por acaso o primeiro cliente estrangeiro em duas semanas da sua temporada de ver\u00e3o em Salvador. Neste m\u00eas, ela volta para a Europa.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8220;Para mulheres cisg\u00eanero, \u00e9 mais f\u00e1cil [arranjar cliente]. N\u00f3s somos muito mais expostas e eu sou bastante criteriosa&#8221;<\/strong>, diz Lila, que considera o Brasil &#8220;atrasado&#8221; quanto \u00e0 regulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho de quem vive do sexo &#8211; mulheres e homens.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Como elas, os garotos de programa se avolumam na Barra. Segundo Adson, um deles, al\u00e9m dos sites,\u00a0h\u00e1 territ\u00f3rios para atrair clientes. No Porto, quem &#8220;quer gringo&#8221;, sabe onde ficar: pr\u00f3ximo a uma bandeira colorida.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Os principais clientes dele, no ver\u00e3o, s\u00e3o turistas casados. H\u00e1 uma semana, um ingl\u00eas o chamou para acompanh\u00e1-lo em Londres. Ele negou, conhece esse enredo: em 2017, convidado por um cliente lusitano, terminou v\u00edtima de tr\u00e1fico de pessoas em Portugal. Conseguiu voltar para Salvador\u00a0depois de um ano e meio como\u00a0prostituto, em um\u00a0s\u00f3t\u00e3o de uma barbearia.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8220;Tomaram meu passaporte. Compravam para mim as coisas e eu pagava o dobro. Ficavam amea\u00e7ando minha fam\u00edlia aqui. Eu mandava um dinheirinho para eles, e tinha que trabalhar mais&#8221;<\/strong>, conta Adson, vizinho de outro garoto de programa no pr\u00e9dio onde mora, em um ponto central entre o Porto e o Farol da Barra.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">No edif\u00edcio vizinho, calcula ele, est\u00e3o hospedados 20 garotos de programa interessados em aproveitar o fluxo de clientes em circula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em 2022, o Minist\u00e9rio dos Direitos Humanos e da Cidadania recebeu, via Disque 100, 103 den\u00fancias relacionadas a tr\u00e1fico internacional de pessoas &#8211; 7 dos traficados teriam partido da Bahia, sendo o maior polo emissor o estado de S\u00e3o Paulo (10 pessoas). Os n\u00fameros podem estar subnotificados: 35 das 103 queixas, por exemplo, n\u00e3o apresentam sequer o local da den\u00fancia.<\/p>\n<h4><strong>Ter\u00e7a-feira no Porto: morma\u00e7o, \u2018ofertas\u2019 e a ideia de Brasil sexual\u00a0<\/strong><\/h4>\n<p class=\"bodytext\">Pr\u00f3ximo ao meio-dia, o morma\u00e7o toma conta da areia do Porto da Barra lotada e Peter, alem\u00e3o de 1,9 m de altura, passa pela balaustrada.\u00a0Alem\u00e3es, franceses, italianos e chilenos \u00a0s\u00e3o os estrangeiros mais frequentes na Bahia neste ver\u00e3o. \u00c9 a quarta vez, em 25 anos, de Peter em Salvador, onde desembarcam tr\u00eas milh\u00f5es de visitantes (o equivalente a toda a popula\u00e7\u00e3o local) at\u00e9 mar\u00e7o.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cA primeira vez era bem diferente, tudo era talvez mais expl\u00edcito. Havia prostitutas por aqui literalmente oferecendo sexo\u201d<\/strong>, recorda.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Ainda h\u00e1, mas principalmente prostitutos. No fim de tarde, aqueles que n\u00e3o tiveram um bom dia de trabalho, v\u00e3o para a balaustrada do Porto. A busca por clientes acontece na base de c\u00f3digos: olhar no fundo dos olhos dos homens \u00e9 um deles;\u00a0pegar nos pr\u00f3prios \u00f3rg\u00e3os genitais, outro.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O alem\u00e3o Peter reconhece as possibilidades da regi\u00e3o. \u201cSabemos que o Porto da Barra \u00e9 um hotspot [ponto central ]do sexo. Ele \u00e9 conhecido por isso entre quem j\u00e1 viajou para c\u00e1\u201d, compartilha Peter. No in\u00edcio de janeiro, um<a href=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/noticia\/nid\/youtuber-norte-americano-grava-videos-estimulando-turismo-sexual-em-salvador\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0norte-americano gravou v\u00eddeos na capital baiana<\/a>\u00a0estimulando o turismo sexual: em alguns deles,\u00a0mulheres s\u00e3o perguntadas sobre qual\u00a0tamanho de p\u00eanis preferem.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">A Pol\u00edcia Federal (PF) monitora campanhas online que associem o Brasil ao sexo, mas n\u00e3o compartilhou dados desse trabalho.\u00a0No \u00faltimo levantamento, de 2015, 3.350 sites citavam o Brasil como destino sexual.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Quando a entrevista termina, Peter insinua um convite \u00e0 rep\u00f3rter: \u201cVoc\u00ea \u00e9 linda, mas n\u00e3o toparia \u00a0uma cerveja comigo, tenho idade para ser seu pai\u201d.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O que talvez ele veja em mim n\u00e3o \u00e9 a imagem de uma s\u00f3 mulher. Nos anos 70, \u00e9poca de Ditadura Militar, o pa\u00eds passa a ser anunciado pelo governo federal como para\u00edso da alegria. E \u00e9ramos n\u00f3s, biqu\u00edni no corpo, as protagonistas dos p\u00f4steres de divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cO governo quer vender a praia, mas usa o corpo de uma mulher? Ent\u00e3o, na verdade, ele est\u00e1 vendendo a mulher\u201d<\/strong>, explica Cassiana Gabrielle, que no Doutorado pela Universidade Federal da Bahia estudou o turismo sexual em Salvador.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">A estrat\u00e9gia de comercializar um Brasil atrelado ao sexo reverbera em quest\u00f5es sociais, econ\u00f4micas e hist\u00f3ricas. \u201cIsso tem a ver com o fato de o racismo, classicismo e o machismo estarem na base do pa\u00eds, a\u00a0apropria\u00e7\u00e3o sobre corpos negros, ind\u00edgenas e posteriormente dos brancos, e um imagin\u00e1rio social\u00a0sobre uma sexualidade desbragada\u201d, continua Gabrielle, professora da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (Ufscar).<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Pa\u00edses como Tail\u00e2ndia e M\u00e9xico s\u00e3o igualmente populares entre turistas que viajam pelo sexo. Em Amsterdam, capital da Holanda, prostitutas e prostitutos se exibem por tr\u00e1s de um vidro.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Em Salvador, clima tropical e ideia de uma vida baseada em &#8220;festa, praia, pregui\u00e7a e sexualidade&#8221; facilitam a coloca\u00e7\u00e3o da cidade como um dos centros do turismo sexual. O Rio de Janeiro ainda \u00e9 o principal, no Brasil, seguido pela capital baiana e Fortaleza.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O poder p\u00fablico baiano n\u00e3o possui campanhas espec\u00edficas sobre o turismo sexual, mas diz promover a\u00e7\u00f5es como vistorias para controle de qualidade em meios de hospedagem e \u00a0contra a explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescente e o ass\u00e9dio sexual.<\/p>\n<h4><strong>Investindo nos aplicativos\u00a0<\/strong><\/h4>\n<p class=\"bodytext\">Quem usa aplicativos de encontros logo reconhece a quantidade de turistas online pela quantidade de bandeiras de pa\u00edses do lado dos nomes e descri\u00e7\u00f5es dos perfis, com informa\u00e7\u00f5es como as datas de\u00a0in\u00edcio e fim da viagem.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">Essas plataformas atualizaram os m\u00e9todos do turismo sexual. Instalado no destino, ou antes disso, o turista muda sua localiza\u00e7\u00e3o e o aplicativo faz a varredura.\u00a0Homens negros s\u00e3o os mais assediados.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cEles v\u00eam o corpo negro na primeira foto e a primeira pergunta de alguns \u00e9: &#8216;you r scoter?&#8217;<\/strong>&#8220;, conta Marcos.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Em bom portugu\u00eas: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 garoto de programa?&#8221;. O baiano, que responde negativamente, tem experi\u00eancias de ver\u00e3o com turistas, nacionais e internacionais, &#8220;mas sem inten\u00e7\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<table class=\"table\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.correio24horas.com.br\/fileadmin\/user_upload\/print_de_asse__dio.jpeg\" width=\"738\" height=\"684\" \/><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td class=\"text-center\"><strong>Proposta enviada por estrangeiro a Roger\u00a0<\/strong>(Foto: Acervo Pessoal)<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p class=\"bodytext\">Neste ver\u00e3o, chamou a aten\u00e7\u00e3o de Roger, homem negro e frequente em apps de namoro, o fato de \u201celes [turistas] estarem mapeando a cidade antes de vir\u201d.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>&#8220;N\u00e3o havia esse aviso pr\u00e9vio. [Dizem] elogios exagerados sobre a beleza negra. V\u00e3o demonstrando que est\u00e3o dispostos a investir para nos ter. Seja com dinheiro ou proposta de moradia em seus pa\u00edses\u201d<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">A reportagem questionou os apps mais famosos de relacionamento. O Tinder respondeu que \u201ctais comportamentos\u201d (turismo sexual e ass\u00e9dio sexual) violam seus\u00a0 termos de uso e\u00a0que utiliza \u201ctecnologias de ponta\u201d para remover perfis suspeitos (n\u00e3o estimou quantos). O Grindr n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p class=\"bodytext\">O ass\u00e9dio de turistas a nativos se estende\u00a0\u00e0s\u00a0ruas. Em um turno de dez horas, Marcelo* convida banhistas do Porto da Barra a conhecerem a hamburgueria onde ele trabalha. Fora do expediente, ele prefere frequentar praias vizinhas.<\/p>\n<blockquote>\n<p class=\"bodytext\"><strong>\u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 estrangeiro, muito turista daqui fica em cima. J\u00e1 chegaram no meu ouvido para oferecer dinheiro por um boquete [sexo oral]\u201d<\/strong>, justifica o jovem negro de 20 anos, trajado de regata e bermuda tactel.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"bodytext\">Faz menos de um m\u00eas que ele recebeu, de um massagista, a oferta de se prostituir para \u00a0turistas. Antes, passaria por um teste. \u201cEle me ofereceu R$ 300 para ir l\u00e1 atr\u00e1s e a gente ver um neg\u00f3cio [transar]&#8230;\u201d, lembra.\u00a0O rapaz n\u00e3o aceitou, mas, como &#8220;os olhos n\u00e3o escondem o que a gente v\u00ea por aqui&#8221;, sabe de colegas que talvez por necessidade\u00a0se renderiam ao neg\u00f3cio de ganhar em moeda estrangeira.<\/p>\n<p><em>*Todos os nomes, exceto o da pesquisadora Cassiana Gabrielle,\u00a0foram modificados a pedido dos entrevistados<\/em>.<\/p>\n<\/div>\n<div id=\"paywall-barreiras-trial\" class=\"modal hide paywall-barreiras-inread paywall-barreiras--trial-wall is-active\" tabindex=\"-1\" role=\"dialog\" data-type=\"trial\" data-base-url=\"https:\/\/assine.correio24horas.com.br\/v2\" data-enable-modal=\"false\" data-enable-swg=\"true\" data-sku-plan=\"basic_monthly\" data-chartbeat=\"false\">\n<div class=\"paywall-barreiras-inread__content\">\n<div class=\"paywall-barreiras-inread__header\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pr\u00e1tica que pode envolver crimes tem por tr\u00e1s de guias tur\u00edsticos a donos de barracas, que cobram comiss\u00e3o de at\u00e9 15%<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":411006,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[345,6,7],"tags":[],"class_list":["post-411005","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entretenimento","category-municipios","category-nacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/garota-de-programa.jpeg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/411005","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=411005"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/411005\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/411006"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=411005"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=411005"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=411005"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}