{"id":414202,"date":"2023-03-13T07:27:59","date_gmt":"2023-03-13T10:27:59","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=414202"},"modified":"2023-03-13T07:27:59","modified_gmt":"2023-03-13T10:27:59","slug":"tres-anos-de-pandemia-pacientes-com-covid-longa-e-sequelas-nao-conseguem-tratamento-no-sus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/tres-anos-de-pandemia-pacientes-com-covid-longa-e-sequelas-nao-conseguem-tratamento-no-sus\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas anos de pandemia: pacientes com covid longa e sequelas n\u00e3o conseguem tratamento no SUS"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1 class=\"title\"><\/h1>\n<h2 class=\"description\">Um ter\u00e7o pode ter sequelas sem saber; dados apontam mais de 3 mil mortes por causas p\u00f3s covid-19 em 2021<\/h2>\n<div class=\"details-bar\">\n<div class=\"author-time\">\n<div class=\"author\">Laura Scofield, Raphaela Ribeiro, Bianca Muniz e Rafael Oliveira\u00a0<span class=\"article-source\"><a href=\"https:\/\/apublica.org\/2023\/03\/3-anos-de-pandemia-pacientes-com-covid-longa-e-sequelas-nao-conseguem-tratamento-no-sus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia P\u00fablica<\/a><\/span><\/div>\n<div class=\"place-and-time\">\n<div class=\"place\">|<\/div>\n<p><time class=\"date\" datetime=\"2023-03-11T18:08:13 -03\"><\/time><\/div>\n<div class=\"place translated-links\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure>\n<div class=\"img-container\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images01.brasildefato.com.br\/8be3ca78cf2b9db4c6bd4e48066153e1.jpeg\" alt=\"\" \/><\/div><figcaption>Apesar de prefeituras terem criado centros de reabilita\u00e7\u00e3o p\u00f3s-covid, como a de Niter\u00f3i, na foto, pacientes reclamam da dificuldade de conseguir atendimento no SUS &#8211; Prefeitura de Niter\u00f3i<\/figcaption><\/figure>\n<\/header>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"text-content\">\n<p>Kellyane Vaz, 30, da cidade de Palmas (TO), n\u00e3o dirige desde o dia 7 de junho de 2020, quando passou a apresentar sequelas neurol\u00f3gicas desencadeadas pela covid-19. Naquela noite, estava deitada quando come\u00e7ou a sentir suas pernas tremerem \u2014 havia sido diagnosticada com o v\u00edrus em 22 de maio, 16 dias antes. Poucos segundos depois, perdeu a for\u00e7a e j\u00e1 n\u00e3o conseguia nem segurar o celular.<\/p>\n<p>No dia seguinte, ela foi internada no Hospital Geral de Palmas, onde ficou na ala neurol\u00f3gica por dez dias. \u201cO tremor n\u00e3o passava, eu continuava com as pernas tremendo, n\u00e3o tinha dom\u00ednio sobre a perna nem for\u00e7a nos bra\u00e7os. Sentia muita dor no corpo todo. Parecia que os ossos estavam desmanchando\u201d, contou em outubro de 2020 \u00e0 Ag\u00eancia P\u00fablica.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns dias, a reportagem procurou Kellyane mais uma vez. Em entrevista, ela disse que voltou a caminhar normalmente e est\u00e1 com a mem\u00f3ria normal, mas \u201ca quest\u00e3o da coordena\u00e7\u00e3o motora ficou comprometida\u201d. \u201cAinda sinto fraqueza nos membros superiores, nos bra\u00e7os, \u00e0s vezes ainda falta for\u00e7a\u201d, explicou.<\/p>\n<p>A falta de coordena\u00e7\u00e3o motora e for\u00e7a nos bra\u00e7os continua a impedindo de dirigir. \u201cEu dirigi umas duas vezes [desde que sa\u00ed do hospital] e tive uma crise de p\u00e2nico por n\u00e3o conseguir ter os movimentos r\u00e1pidos que eu precisava, trocar marcha, virar volante, o b\u00e1sico\u201d, apontou Kellyane. \u201cAcaba que voc\u00ea fica dependente de terceiros\u201d, lamentou.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Prefeitura-de-Assis_SP.jpg?resize=750%2C540&amp;ssl=1\" \/><br \/>\nUm ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o brasileira pode ter sequelas da covid sem saber \/ Prefeitura de Assis<\/p>\n<p>Assim como Kellyane, cerca de \u2153 das pessoas que tiveram a doen\u00e7a podem estar enfrentando a \u201ccovid longa\u201d, muitas sem nem saber, de acordo com estudo conduzido pelo Instituto Todos pela Sa\u00fade (ITpS). Entre os sintomas que podem indicar a exist\u00eancia da s\u00edndrome p\u00f3s-covid est\u00e3o problemas neurol\u00f3gicos, respirat\u00f3rios e gastrointestinais prolongados.<\/p>\n<p>Para o pesquisador cient\u00edfico do ITpS, Vanderson Sampaio, devido \u00e0 variedade de sintomas da s\u00edndrome p\u00f3s-covid, seu diagn\u00f3stico \u00e9 dif\u00edcil. Ele aponta que as sequelas s\u00e3o mais comuns entre as pessoas que foram infectadas com as primeiras cepas do v\u00edrus, em parte porque n\u00e3o havia vacina\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, e tamb\u00e9m destaca que algumas das pessoas com sequelas \u201cpodem precisar de um suporte adicional de servi\u00e7o de sa\u00fade\u201d, o que indica a necessidade do sistema p\u00fablico se preparar para essa demanda.<\/p>\n<p>O infectologista Max Igor Lopes, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, relata que a medicina ainda n\u00e3o sabe como o covid-19 causa tantas sequelas, o que explica parte da dificuldade de identificar e tratar a doen\u00e7a. As sequelas nem sempre aparecem logo ap\u00f3s a infec\u00e7\u00e3o, e podem surgir depois de meses. Sem o marco temporal definido, fica dif\u00edcil estabelecer a rela\u00e7\u00e3o entre causa e consequ\u00eancia, explica. \u201cTem pessoas que est\u00e3o lidando ainda com a dificuldade, n\u00e3o conseguem trabalhar ou se concentrar, e parece que isso \u00e9 um problema delas, folga, falta de compromisso, mas n\u00e3o. Como n\u00e3o existe uma ferramenta adequada para confirmar que isso est\u00e1 acontecendo, eles sofrem com a dificuldade m\u00e9dica de conseguir definir esses sintomas e altera\u00e7\u00f5es\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) classificar o surto de covid-19 como \u201cpandemia\u201d, a vacina\u00e7\u00e3o em massa conseguiu reduzir drasticamente a quantidade de mortes e casos graves da doen\u00e7a, mas, em um pa\u00eds que teve ao menos 37 milh\u00f5es de casos, \u00e9 poss\u00edvel que milh\u00f5es de pacientes sigam sofrendo com as sequelas provocadas pela infec\u00e7\u00e3o. Os danos afetam tanto pessoas que tiveram casos graves e precisaram ser internadas e intubadas, quanto pacientes que tiveram sintomas leves.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">\u201cSe n\u00e3o tivesse condi\u00e7\u00f5es, eu teria morrido\u201d<\/p>\n<p>Quando conversou com a P\u00fablica pela primeira vez, em outubro de 2020, Francisca Benedita, 46, ainda estava fazendo fisioterapia intensiva para voltar a andar sozinha, depois de enfrentar um caso grave de covid-19. Moradora de Fortaleza (CE), ela se infectou com a doen\u00e7a em maio daquele ano, chegou a ficar em coma e foi intubada. Conseguiu vencer a fase aguda da doen\u00e7a, mas encarou uma longa jornada para retomar as atividades b\u00e1sicas do dia a dia.<\/p>\n<p>Hoje, Francisca retomou o trabalho de vendedora e a pr\u00e1tica de atividade f\u00edsica, mas ainda n\u00e3o se livrou completamente das sequelas causadas pela doen\u00e7a. Suas tomografias, feitas periodicamente, seguem registrando manchas em seus pulm\u00f5es. Se ela tem que caminhar um pouco mais r\u00e1pido, fica ofegante e precisa se sentar \u201ccomo se tivesse corrido 300 quil\u00f4metros\u201d. As dores de cabe\u00e7a e no corpo seguem sendo quase di\u00e1rias, Francisca tem ainda hoje dificuldade para dormir e passa por epis\u00f3dios de queda de cabelo. Os banhos tiveram que ser encurtados, porque ela sente mal estar quando passa muito tempo no chuveiro. Al\u00e9m disso, a vendedora desenvolveu um quadro de press\u00e3o alta \u2013 que n\u00e3o tinha antes da covid \u2013 e passou a ter intoler\u00e2ncia a alguns alimentos que costumava comer normalmente.<\/p>\n<p>Francisca conta ainda que \u00e0s vezes se sente mal, como se estivesse com \u201cuma depress\u00e3o\u201d. \u201cTem dias que eu sinto algo, preciso desabafar, como se fosse uma depress\u00e3o. Eu acho que isso tamb\u00e9m faz parte do quadro e as pessoas deviam ser ouvidas, acompanhadas. Eu sinto coisas que eu n\u00e3o sei explicar, que eu n\u00e3o sentia antes. Se eu tivesse um acompanhamento legal de um hospital talvez eu entendesse o que \u00e9\u201d, explicou.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica da fam\u00edlia, Raquel Soeiro, pesquisadora da Unicamp, aponta que a falta de orienta\u00e7\u00e3o sobre as sequelas leva os pacientes a um \u201cciclo vicioso\u201d. \u201cEles n\u00e3o conseguem mais fazer as atividades que eles faziam antes e a\u00ed v\u00e3o deprimindo. E muitas vezes as pessoas n\u00e3o acreditam neles, acham que o que eles relatam n\u00e3o \u00e9 verdade, que \u00e9 da cabe\u00e7a deles, ent\u00e3o eles v\u00e3o ficando pior ainda. Isso eu tenho visto muito\u201d, explicou. Ela apontou tamb\u00e9m que tem havido uma \u201cdemanda enorme\u201d por tratamentos de sa\u00fade mental por parte dos pacientes com sequelas.<\/p>\n<p>Por n\u00e3o conseguir se tratar pelo SUS, o tratamento de Francisca, que incluiu v\u00e1rias sess\u00f5es de fisioterapia e envolve consultas com um pneumologista e com um cardiologista at\u00e9 hoje, foi todo feito no particular. Perguntada como seria se n\u00e3o tivesse condi\u00e7\u00f5es de arcar com os altos custos do tratamento, ela foi categ\u00f3rica: \u201cEu teria morrido, porque o que eu gastei de dinheiro, o quanto a minha fam\u00edlia me ajudou\u2026 Se n\u00e3o tivesse condi\u00e7\u00f5es, como que eu ia pagar a fisioterapia? Fora os rem\u00e9dios, as vitaminas, porque eu sa\u00ed do hospital com uma ficha imensa de medica\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o ia me recuperar\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Sampaio, do ITpS, ressalta que a covid longa tem um aspecto cr\u00f4nico, o que impacta diretamente no volume de atendimentos no sistema de sa\u00fade. \u201cA gente tem pessoas com sequelas cr\u00f4nicas que v\u00e3o necessitar de atendimento especializado. Aquela pessoa que, por exemplo, tem um problema gastrointestinal grave, n\u00e3o vai ser atendida numa Unidade B\u00e1sica de Sa\u00fade (UBS). Ela vai requerer atendimento hospitalar, \u00e0s vezes cirurgia ou uma consulta eletiva com especialistas, que j\u00e1 est\u00e3o sobrecarregados com a demanda reprimida que vem do per\u00edodo mais cr\u00edtico da pandemia e de pessoas com outras doen\u00e7as graves. Esse montante se soma agora com as pessoas que t\u00eam s\u00edndrome p\u00f3s-covid\u201d, explicou ele.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">Cansa\u00e7o e fadiga podem seguir por anos ap\u00f3s covid<\/p>\n<p>Quando a pandemia de coronav\u00edrus estourou h\u00e1 tr\u00eas anos, Cl\u00e1udia Almeida, 50, n\u00e3o teve como fugir. Agente municipal de sa\u00fade, baseada em Maca\u00e9 (RJ), Cl\u00e1udia trabalhava num ambiente prop\u00edcio para contrair o v\u00edrus: um posto de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Em abril de 2020, Cl\u00e1udia come\u00e7ou a demonstrar os primeiros sintomas da infec\u00e7\u00e3o. Em seguida veio o teste positivo. O caso de Cl\u00e1udia escalonou r\u00e1pido, em pouco tempo seu pulm\u00e3o perdeu 35% da capacidade. Os dias que se seguiram foram longos e Cl\u00e1udia achou que n\u00e3o fosse se recuperar. No auge da infec\u00e7\u00e3o, ela j\u00e1 n\u00e3o conseguia mais andar e falar. \u201cFiquei de cama direto, porque n\u00e3o conseguia me alimentar mais, n\u00e3o conseguia fazer mais nada\u201d, diz.<\/p>\n<p>Quando a P\u00fablica conversou com Cl\u00e1udia, em outubro de 2020, a agente de sa\u00fade j\u00e1 tinha superado a doen\u00e7a, mas enfrentava uma nova luta: as sequelas da covid.<\/p>\n<p>Cl\u00e1udia continuou sentindo falta de ar, fadiga extrema e \u201cpress\u00e3o no peito\u201d. Os sintomas acenderam um sinal de alerta em seu m\u00e9dico, que lhe pediu, em maio daquele ano, que realizasse alguns exames, mas \u201cat\u00e9 hoje nenhum dos exames foi chamado\u201d, explicou \u00e0 reportagem em nova entrevista, h\u00e1 alguns dias. \u201cVoc\u00ea chega l\u00e1 e eles d\u00e3o o n\u00famero de protocolo para aguardar vaga. Agora eles falam que tem que pedir um novo pedido de exame, tem que voltar no m\u00e9dico\u201d.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-img-caption\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Foto2_3-anos-de-pandemia-pacientes-com-covid-longa-e-sequelas-nao-conseguem-tratamento-no-SUS.jpg?resize=840%2C560&amp;ssl=1\" \/><br \/>\nPequeno n\u00famero de centros voltados especificamente \u00e0 reabilita\u00e7\u00e3o p\u00f3s-covid n\u00e3o d\u00e1 conta da demanda da popula\u00e7\u00e3o \/\u00a0Prefeitura de Contagem<\/p>\n<p>Sem tempo e com a alta demanda do SUS, a agente de sa\u00fade recorreu aos amigos e conhecidos, atrav\u00e9s de uma vaquinha virtual, para custear os exames na rede particular. \u201cFoi quando o m\u00e9dico come\u00e7ou a achar as sequelas\u201d, relembra.<\/p>\n<p>Os exames feitos por Cl\u00e1udia apontaram a exist\u00eancia de uma inflama\u00e7\u00e3o no pulm\u00e3o e de problemas que afetam a funcionalidade do cora\u00e7\u00e3o, gerando altera\u00e7\u00f5es nos batimentos card\u00edacos. Meses depois de constatada a disfun\u00e7\u00e3o, Cl\u00e1udia recebeu em junho de 2021 a indica\u00e7\u00e3o do transplante de marcapasso definitivo.<\/p>\n<p>Hoje, tr\u00eas anos depois, Cl\u00e1udia ainda convive com as sequelas da covid, que a impactam f\u00edsica, mental e profissionalmente. O cansa\u00e7o e a fadiga extrema a afastaram do trabalho no in\u00edcio de 2021. Em 2022, Cl\u00e1udia voltou \u00e0 rotina, agora em uma fun\u00e7\u00e3o administrativa, que n\u00e3o exige o mesmo esfor\u00e7o f\u00edsico de antes, quando realizava visitas domiciliares aos pacientes do SUS.<\/p>\n<p>A fadiga extrema e o cansa\u00e7o, frutos do alcance da infec\u00e7\u00e3o no pulm\u00e3o, poderiam ter sido controlados com a realiza\u00e7\u00e3o de fisioterapia pulmonar adequada, uma ferramenta m\u00e9dica indicada para as sequelas da covid-19. Cl\u00e1udia chegou a procurar o tratamento pelo SUS em 2021, mas achou que os exerc\u00edcios n\u00e3o estavam ajudando e desistiu. Como os sintomas ainda persistem, Cl\u00e1udia pensa em procurar novamente a fisioterapia pulmonar, dessa vez pela rede particular.<\/p>\n<p>Para a fisioterapeuta Liliane Patr\u00edcia de Souza, doutora em Ci\u00eancias da Reabilita\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e vice-coordenadora do Projeto Respirar, voltado \u00e0 reabilita\u00e7\u00e3o da capacidade pulmonar, quanto mais r\u00e1pido o paciente procura ajuda, mais r\u00e1pido ele consegue reverter a sequela. O Projeto Respirar j\u00e1 atendeu mais de 300 pacientes, que hoje n\u00e3o apresentam mais dificuldade pulmonar e fadiga.<\/p>\n<p>Entretanto, Liliane afirma que o tratamento n\u00e3o \u00e9 acess\u00edvel a todos; o pequeno n\u00famero de centros voltados especificamente \u00e0 reabilita\u00e7\u00e3o p\u00f3s-covid n\u00e3o d\u00e1 conta da demanda da popula\u00e7\u00e3o. Ela diz ainda que n\u00e3o \u00e9 o custo que impede que o tratamento seja mais aplicado, visto que os treinos s\u00e3o simples e baratos, mas sim a falta de profissionais capacitados.<\/p>\n<p>Apesar da diminui\u00e7\u00e3o dos casos graves de covid-19 gra\u00e7as \u00e0 cobertura vacinal, o Projeto Respirar continua atendendo pacientes com covid longa. Os sintomas mudaram, mas duas sequelas continuam as mesmas: cansa\u00e7o e fadiga extrema. \u201c\u00c9 por isso que a reabilita\u00e7\u00e3o pulmonar tem um papel t\u00e3o importante, porque a gente reabilita o pulm\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o e os m\u00fasculos\u201d, afirma.<\/p>\n<p>De acordo com Liliane, \u201cat\u00e9 hoje a gente v\u00ea que as pessoas t\u00eam uma dificuldade para reconhecerem a covid longa, porque falta de ar n\u00e3o \u00e9 uma coisa mensur\u00e1vel. O cansa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 uma coisa mensur\u00e1vel. \u00c9 muito dif\u00edcil ter que provar que voc\u00ea realmente est\u00e1 cansado\u201d.<\/p>\n<p>Max Igor Lopes aponta que uma das sequelas j\u00e1 diretamente ligadas \u00e0 covid longa \u00e9 a S\u00edndrome da Fadiga Cr\u00f4nica, que gera justamente a sensa\u00e7\u00e3o de cansa\u00e7o constante. \u201c\u00c9 uma falta de for\u00e7a, como se a bateria n\u00e3o carregasse. Ou como aquela bateria viciada que carrega, mas descarrega muito f\u00e1cil. O sono n\u00e3o \u00e9 reparador, a pessoa est\u00e1 sempre cansada, n\u00e3o consegue se manter muito tempo numa atividade\u201d, afirmou ele.<\/p>\n<p>Os dois ressaltam a necessidade de que o conhecimento sobre o tema seja organizado para a gera\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que propiciem um atendimento transversal e uma investiga\u00e7\u00e3o mais aprofundada das sequelas, a fim de garantir preven\u00e7\u00e3o e tratamento.<\/p>\n<p class=\"ckeditor-subtitle\">N\u00e3o existe protocolo federal com orienta\u00e7\u00f5es sobre o tema<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio do Grupo T\u00e9cnico de Sa\u00fade do governo de transi\u00e7\u00e3o, publicado em dezembro do ano passado, reconhece a necessidade da cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas espec\u00edficas para o tratamento das sequelas da covid-19. No t\u00f3pico sobre a doen\u00e7a, os especialistas chamados pelo atual governo para avaliar a gest\u00e3o sanit\u00e1ria do presidente Jair Bolsonaro (PL) escreveram que havia \u201cdados insuficientes e imprecisos\u201d sobre a \u201cincid\u00eancia de covid longa\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO sistema de sa\u00fade hoje n\u00e3o est\u00e1 preparado para lidar com esses pacientes. N\u00e3o existe um banco de dados sobre sequelas originadas a partir de uma doen\u00e7a base, e isso vale para covid tamb\u00e9m\u201d, comenta o pesquisador do ITpS.<\/p>\n<p>Dados preliminares do Sistema de Informa\u00e7\u00e3o sobre Mortalidade do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade apontam mais de tr\u00eas mil \u00f3bitos relacionados a causas posteriores \u00e0 covid-19 no ano de 2021. \u201cAo contr\u00e1rio do que muita gente pensa, n\u00e3o \u00e9 um problema \u2018s\u00f3 de sequela\u2019, \u00e9 um problema que tamb\u00e9m pode levar a \u00f3bito. Isso \u00e9 grave\u201d, avalia Sampaio.<\/p>\n<p>A P\u00fablica tamb\u00e9m ouviu Fernando Pigatto, presidente do Conselho Nacional de Sa\u00fade (CNS), membro da C\u00e2mara T\u00e9cnica de Acompanhamento da covid-19 e que tamb\u00e9m participou do GT de Transi\u00e7\u00e3o. Pigatto diz que houve iniciativas locais para dar atendimento \u00e0s pessoas, \u201cmas falta uma pol\u00edtica nacional constru\u00edda com participa\u00e7\u00e3o que ajude a orientar os estados e munic\u00edpios e disponibilize recursos para eles\u201d.<\/p>\n<p>A reportagem questionou o Minist\u00e9rio sobre a aus\u00eancia de uma pol\u00edtica federal com orienta\u00e7\u00f5es sobre a covid longa. Em nota, a pasta afirma que \u201co acompanhamento das pessoas nessa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 realizado nos servi\u00e7os da Aten\u00e7\u00e3o Prim\u00e1ria\u201d do Sistema \u00danico de Sa\u00fade e que \u201corienta estados e munic\u00edpios no manejo e assist\u00eancia aos pacientes com condi\u00e7\u00f5es p\u00f3s-covid por meio dos materiais informativos aos profissionais de sa\u00fade com orienta\u00e7\u00f5es e protocolos de atendimento. Al\u00e9m disso, presta todo o suporte necess\u00e1rio aos gestores locais do SUS\u201d.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m conta que o financiamento do SUS no governo anterior afetou a constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas na pandemia e, por consequ\u00eancia, as medidas relacionadas \u00e0 covid longa. \u201cForam retirados mais de R$ 600 bilh\u00f5es do SUS nos \u00faltimos anos, mesmo que tenham sido colocados em custos emergenciais no per\u00edodo da pandemia\u201d.<\/p>\n<p>Embora a portaria 377\/2022 institu\u00edsse a destina\u00e7\u00e3o de recursos aos munic\u00edpios para estruturar \u201cfluxos para o acolhimento das pessoas que tiveram diagn\u00f3stico de covid-19, de forma a garantir o monitoramento e a identifica\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es p\u00f3s-covid\u201d e \u201cproceder ao monitoramento de casos de condi\u00e7\u00f5es p\u00f3s-covid na APS\u201d, o presidente da CNS afirma que os repasses n\u00e3o foram efetivos no seu objetivo. De acordo com mat\u00e9ria do UOL, munic\u00edpios do Maranh\u00e3o apresentaram \u201canomalias e distor\u00e7\u00f5es\u201d no recebimentos de recursos para terapias p\u00f3s-covid: 93% do valor repassado para os munic\u00edpios ficaram com 19 cidades maranhenses.<\/p>\n<p>A m\u00e9dica e pesquisadora da Unicamp, Raquel Soeiro, destaca que um protocolo \u00e9 muito importante para auxiliar estados e munic\u00edpios. \u201cSe o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade envia um protocolo, cada munic\u00edpio tem a governabilidade para adapt\u00e1-lo de acordo com a sua capacidade, mas existe uma diretriz\u201d, explicou Soeiro.<\/p>\n<p>Max Igor Fontes sugere ainda que as autoridades nacionais sanit\u00e1rias se atentem \u00e0 preven\u00e7\u00e3o das sequelas, n\u00e3o apenas ao tratamento, especialmente pensando em grupos de risco para a s\u00edndrome p\u00f3s-covid, como as mulheres. Ele indica tentar disponibilizar tratamento e diagn\u00f3stico, com antivirais, por exemplo.<\/p>\n<p>J\u00e1 Raquel Soeiro destacou um entre os poucos esfor\u00e7os de capacita\u00e7\u00e3o dos profissionais da sa\u00fade acerca do cuidado dos pacientes com a covid longa: um curso \u00e0 dist\u00e2ncia promovido pela Universidade Federal do Maranh\u00e3o, com carga hor\u00e1ria de 45 horas. O curso j\u00e1 foi ofertado duas vezes, em 2021 e 2022, e ofereceu ao todo 20 mil vagas. De acordo com o site do projeto, o material busca ensinar sobre \u201cas consequ\u00eancias e impactos da covid-19 sobre a sa\u00fade dos indiv\u00edduos afetados assim como reconhecer estrat\u00e9gias de reabilita\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00f5es quanto \u00e0s necessidades de interven\u00e7\u00e3o aos usu\u00e1rios do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) que se infectaram pelo SARS-Cov-2\u201d.<\/p>\n<p>Ainda assim, h\u00e1 muito desconhecimento sobre o tema. Uma das principais queixas dos pacientes \u00e9 n\u00e3o terem os sintomas que apresentam reconhecidos pelos m\u00e9dicos como sequelas da covid-19. Soeiro aponta que a covid longa tem sido muito estudada no meio acad\u00eamico, mas que \u201cos m\u00e9dicos ainda est\u00e3o bem perdidos e n\u00e3o tem muita resposta pra dar pros pacientes\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um ter\u00e7o pode ter sequelas sem saber; dados apontam mais de 3 mil mortes por causas p\u00f3s covid-19 em 2021<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":414203,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,12],"tags":[],"class_list":["post-414202","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-municipios","category-saude"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/teste-covid1.webp","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/414202","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=414202"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/414202\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/414203"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=414202"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=414202"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=414202"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}