{"id":42161,"date":"2014-02-02T09:21:57","date_gmt":"2014-02-02T12:21:57","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=42161"},"modified":"2014-02-03T14:40:41","modified_gmt":"2014-02-03T17:40:41","slug":"ditadura-militar-atuou-para-proteger-agentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ditadura-militar-atuou-para-proteger-agentes\/","title":{"rendered":"Ditadura militar atuou para proteger agentes"},"content":{"rendered":"<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><em><strong>Ex\u00e9rcito enviou ao SNI lista de colaboradores que queria abrigar no servi\u00e7o p\u00fablico federal<span style=\"line-height: 1.5em;\">\u00a0<\/span><\/strong><\/em><\/li>\n<\/ul>\n<div id=\"metadata\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>THIAGO HERDY<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.5em;\">O Ex\u00e9rcito brasileiro tentou proteger de repres\u00e1lias um grupo de 49 agentes de \u00f3rg\u00e3os estaduais que colaboraram ativamente com a ditadura militar e se notabilizavam \u201cpor seu engajamento pessoal ou funcional com o ide\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o de 1964\u201d. Um documento localizado pelo GLOBO aponta a preocupa\u00e7\u00e3o com a seguran\u00e7a de indiv\u00edduos considerados colaboradores do regime ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o, em 1982, de governadores de oposi\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro (Leonel Brizola), S\u00e3o Paulo (Franco Montoro), Minas Gerais (Tancredo Neves) e Goi\u00e1s (\u00cdris Rezende).<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"article-body\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Assinado pelo Comando de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE) e com difus\u00e3o restrita ao Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI), o texto cita o nome de funcion\u00e1rios que o pr\u00f3prio Ex\u00e9rcito considerava \u201calvos naturais de persegui\u00e7\u00f5es\u201d, em fun\u00e7\u00e3o de suas \u201cconvic\u00e7\u00f5es e posicionamentos\u201d durante o regime militar, sugerindo que fossem incorporados ao funcionalismo federal (que, na \u00e9poca, ainda estava sob comando militar do general Figueiredo). O documento foi produzido em 1983, no fim da ditadura. Especialistas ouvidos pelo GLOBO informam se tratar de registro raro, por n\u00e3o ser comum a exposi\u00e7\u00e3o de colaboradores do regime em documentos oficiais.<\/p>\n<p>Entre os 49 citados, pelo menos 16 est\u00e3o vivos e 11 j\u00e1 morreram. N\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre o restante. A maior parte prestava servi\u00e7os em unidades do Departamento de Pol\u00edcia Pol\u00edtica e Social (Dops) do Rio de Janeiro (24), de S\u00e3o Paulo (13) e de Goi\u00e1s (6). S\u00e3o citados tamb\u00e9m um funcion\u00e1rio do Paran\u00e1 e outro do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>A lista refor\u00e7a a participa\u00e7\u00e3o de nomes j\u00e1 conhecidos pelo envolvimento com a repress\u00e3o aos organismos de esquerda no Brasil, como o delegado mineiro Thacir Omar Menezes; os detetives cariocas Jos\u00e9 Paulo Boneschi e Ricardo Wilke; o legista Harry Shibata e o delegado paulista Aparecido Calandra \u2014 que ainda hoje nega ser o \u201cCapit\u00e3o Ubirajara\u201d, codinome a ele atribu\u00eddo por pelo menos uma dezena de presos pol\u00edticos que o reconheceram anos depois de terem sido submetidos a sess\u00f5es de tortura. O documento tamb\u00e9m traz nomes at\u00e9 ent\u00e3o desconhecidos por sua rela\u00e7\u00e3o com o regime.<\/p>\n<p>H\u00e1 funcion\u00e1rios que no passado foram acusados de cometer atos de viol\u00eancia e homic\u00eddios na ditadura, como Theobaldo Lisboa, citado no livro \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d como respons\u00e1vel pela pr\u00e1tica de tortura durante interrogat\u00f3rio no Dops; Jos\u00e9 Muniz de Souza, acusado de matar um banc\u00e1rio em uma blitz, em S\u00e3o Paulo; Lourival Gaeta, respons\u00e1vel pela morte do militante Frederico Eduardo Mayr, em 1972; e Jos\u00e9 Xavier do Bonfim, acusado de participar do assassinato de dois militantes de esquerda no interior de Goi\u00e1s, em 1973.<\/p>\n<p>Na lista tamb\u00e9m s\u00e3o citados agentes que cuidavam da documenta\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia e que teriam sido incorporados ao funcionalismo federal para cuidar dos arquivos dos Dops. Em S\u00e3o Paulo e Rio, por exemplo, os pap\u00e9is foram transferidos \u00e0 Pol\u00edcia Federal. Em Minas, os documentos foram incinerados por um dos nomes citados na lista: o delegado Ediraldo Brand\u00e3o, que se aposentou em 2002 e atualmente \u00e9 advogado em Belo Horizonte. N\u00e3o foi poss\u00edvel confirmar sua ida para o funcionalismo federal.<\/p>\n<p>\u2014 Quando os governadores foram eleitos, havia uma preocupa\u00e7\u00e3o sobre o que fazer com os aparatos repressivos montados nos estados. Muitos torturadores foram abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte, principalmente os mais truculentos. Mas, por uma quest\u00e3o de estrat\u00e9gia, \u00e9 natural que alguns funcion\u00e1rios tenham sido levados para a \u00e1rea federal, principalmente aqueles que cuidavam dos arquivos \u2014 afirma o historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).<\/p>\n<p>\u00c9 consenso entre especialistas a ocorr\u00eancia do que Fico chama de \u201csaneamento dos arquivos\u201d dos Dops, isto \u00e9, a sele\u00e7\u00e3o pr\u00e9via e a destrui\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is sens\u00edveis ao regime.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 algo que se percebe claramente quando pesquisamos os arquivos do Rio e de S\u00e3o Paulo \u2014 afirma.<\/p>\n<p>Para o historiador da UFMG Rodrigo Patto S\u00e1 Motta, o documento confirma \u201co quadro de interven\u00e7\u00e3o federal nas pol\u00edcias pol\u00edticas estaduais, para reduzir o \u2018preju\u00edzo\u2019 da redemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Note que o documento foi bastante sigiloso, pois era comum esses documentos serem difundidos para v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os. Ele foi produzido pela mais feroz das ag\u00eancias de repress\u00e3o, o CIE, e enviado apenas para a Ag\u00eancia Central do SNI, o que evidencia n\u00e3o ter se tratado de coisa corriqueira \u2014 avalia.<\/p>\n<p>Autora de livro sobre ditadura na Am\u00e9rica Latina, a historiadora Carolina Silveira Bauer cita o medo que militares tinham de vir a ser responsabilizados pelos abusos cometidos.<\/p>\n<p>\u2014 Eles consideravam um perigo a \u201cargentiniza\u00e7\u00e3o\u201d da transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica brasileira, isto \u00e9, o risco de serem levados \u00e0 Justi\u00e7a. Por isso essa atitude de resguardo de figuras diretamente vinculadas com a repress\u00e3o \u2014 diz a pesquisadora.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: O Globo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Ex\u00e9rcito brasileiro tentou proteger de repres\u00e1lias um grupo de 49 agentes de \u00f3rg\u00e3os estaduais que colaboraram ativamente com a ditadura militar e se notabilizavam \u201cpor seu engajamento pessoal ou funcional com o ide\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o de 1964\u201d. 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