{"id":424628,"date":"2023-07-01T10:36:24","date_gmt":"2023-07-01T13:36:24","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=424628"},"modified":"2023-07-01T10:36:24","modified_gmt":"2023-07-01T13:36:24","slug":"que-fim-teve-maria-quiteria-heroina-nao-foi-incorporada-ao-exercito-e-morreu-no-anonimato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/que-fim-teve-maria-quiteria-heroina-nao-foi-incorporada-ao-exercito-e-morreu-no-anonimato\/","title":{"rendered":"Que fim teve Maria Quit\u00e9ria?\u00a0Hero\u00edna n\u00e3o foi incorporada ao Ex\u00e9rcito e morreu no anonimato"},"content":{"rendered":"<section class=\"an-padrao container\">\n<div class=\"mdc-layout-grid\">\n<div class=\"mdc-layout-grid__inner\">\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-12-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet col-a\">\n<div class=\"box \">\n<header>\n<h1 class=\"titulo\" style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 class=\"linha-fina noticia\" style=\"text-align: justify;\">Com sua hist\u00f3ria recuperada principalmente no s\u00e9culo seguinte, imagem de Quit\u00e9ria \u00e9 disputada hoje por grupos que v\u00e3o dos militares aos movimentos feministas<\/h2>\n<\/header>\n<div class=\"comp assinatura-abertura tipo-2\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"nome\">Thais Borges<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<article id=\"noticia\" class=\"noticia container\">\n<div class=\"banner ad-sticky-left\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"ad-sticky__wrap\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"content mdc-layout-grid\">\n<div class=\"main mdc-layout-grid__inner\">\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp img-lightbox\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"abre-lightbox\">\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" id=\"img-3\" src=\"https:\/\/midias.correio24horas.com.br\/2023\/06\/30\/maria-quiteria-heroina-da-independencia-da-bahia-morreu-no-anonimato-1792969-article.png\" alt=\"Maria Quit\u00e9ria, hero\u00edna da Independ\u00eancia da Bahia, morreu no anonimato\" width=\"600\" height=\"433\" \/><figcaption>Maria Quit\u00e9ria, hero\u00edna da Independ\u00eancia da Bahia, morreu no anonimato. Cr\u00e9dito: Domenico Failutti\/Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"ads-paragrafo\">\n<div class=\"ads-paragrafo__wrap no-shift-mrec_destaque-paragrafo\">\n<div id=\"internas_336x280_01\" data-google-query-id=\"CIWm5LbP7f8CFXBR3QIdEigBrw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/44585206\/d_c24h_internas_336x280_0__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>\u201cAssim como ela nos mostrou de maneira t\u00e3o not\u00e1vel os sentimentos do mais exaltado patriotismo, da mesma sorte o Imperador recompensou seu valor, concedendo-lhe o soldo de alferes por decreto e ordenando (\u2026) que dessem todas as suas provid\u00eancias cada um pela sua reparti\u00e7\u00e3o, para o seu regresso \u00e0 Bahia na primeira embarca\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A ordem de D. Pedro I, publicada no equivalente ao Di\u00e1rio Oficial nos tempos do imp\u00e9rio, era um pren\u00fancio do que se seguiria: a baiana Maria Quit\u00e9ria, reconhecida como hero\u00edna em sua luta pela Independ\u00eancia, deveria voltar para casa na primeira oportunidade. Ela n\u00e3o seria nem mesmo integrada aos quadros do Ex\u00e9rcito rec\u00e9m-criado, nem mesmo ao Batalh\u00e3o dos Periquitos do qual fez parte e o qual tinha sido incorporado \u00e0 for\u00e7a militar.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>&#8220;Essa passagem do of\u00edcio do imperador \u00e9 como um &#8216;muito obrigado pelo seu servi\u00e7o, mas a gente n\u00e3o quer que voc\u00ea continue mobilizada, armada no p\u00f3s-guerra&#8221;, diz o historiador da arte Nathan Gomes, que pesquisou Maria Quit\u00e9ria na forma\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio nacional em seu mestrado em Estudos Brasileiros na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), defendido no ano passado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>De acordo com ele, havia uma grande preocupa\u00e7\u00e3o, por parte do governo e das elites, com um contingente de pessoas &#8211; muitas delas pobres, escravizados e ind\u00edgenas &#8211; que estavam agora armadas e politizadas. &#8220;O que acontece quando a guerra acaba? O caso de Maria Quit\u00e9ria \u00e9 um pouco nesse sentido tamb\u00e9m. \u00c9 importante que ela volte para casa, para esse lugar esperado para uma mulher. Ent\u00e3o ela volta para a Bahia, se casa e tem uma filha&#8221;, adianta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp destacado destacado--autor\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"destacado__wrap\">\n<header>\n<div class=\"autor\">por<\/p>\n<h4>Nathan Gomes<\/h4>\n<\/div>\n<\/header>\n<p><q>&#8220;O que acontece quando a guerra acaba? O caso de Maria Quit\u00e9ria \u00e9 um pouco nesse sentido tamb\u00e9m. \u00c9 importante que ela volte para casa, para esse lugar esperado para uma mulher. Ent\u00e3o ela volta para a Bahia, se casa e tem uma filha&#8221;<\/q><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>A vida de Maria Quit\u00e9ria depois do 2 de Julho se pareceria, portanto, com a de tantas outras mulheres da \u00e9poca. Por isso, ainda h\u00e1 um certo mist\u00e9rio sobre aspectos de sua vida ap\u00f3s a guerra. O que se sabe \u00e9 que, quando ela morreu, em 1853, aos 61 anos, estava vivendo no anonimato. A historiadora Marianna Farias, mestranda em Hist\u00f3ria na Universidade Federal da Bahia (Ufba), conta que a documenta\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito reconheceu e informou a morte de Quit\u00e9ria sem nenhuma pompa ou cerim\u00f4nia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>&#8220;Por isso a gente fala que, sim, foi uma morte no esquecimento. Esse \u00e9 o destino de muitos her\u00f3is e hero\u00ednas da independ\u00eancia, infelizmente. Muitas mulheres s\u00e3o esquecidas&#8221;, diz ela, que desenvolve pesquisa sobre Maria Quit\u00e9ria.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Para Marianna, ficar an\u00f4nima dificilmente teria sido uma escolha da hero\u00edna. &#8220;Acho que foi realmente pelas circunst\u00e2ncias da vida dela, que levaram a esse destino com falta de condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, at\u00e9 porque o soldo era uma mis\u00e9ria, e falta de apoio&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><b>Floreios<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Mesmo entre os fatos mais conhecidos sobre a vida de Maria Quit\u00e9ria, h\u00e1 inconsist\u00eancias. Ainda assim, \u00e9 sabido que Maria Quit\u00e9ria, nascida numa fazenda em S\u00e3o Jos\u00e9 das Itapororocas (localidade que hoje \u00e9 distrito de Feira de Santana e que leva seu nome), se alistou no Batalh\u00e3o dos Periquitos, um dos batalh\u00f5es de guerra, em 1822.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"banner mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"banner__wrap container\">\n<div class=\"banner__content no-shift\">\n<div id=\"internas_336x280_02\" data-google-query-id=\"COm00rfP7f8CFU5Q3QIdgEoJrw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/44585206\/d_c24h_internas_336x280_1__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Quando demonstrou interesse inicialmente, foi logo repreendida pelo pai, que n\u00e3o autorizou a empreitada. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o a impediu de fugir para a casa da irm\u00e3 com um plano maior. Quit\u00e9ria se vestiu com as roupas do cunhado e se apresentou com o nome dele para que pudesse se alistar. Foi assim que nasceu o soldado Jos\u00e9 Medeiros.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Estima-se que ela tenha passado cerca de seis meses com a identidade masculina, entre os 10 em que permaneceu no front de batalha. \u201cAo contr\u00e1rio do que muita gente pensa, ela j\u00e1 lutou com sua identidade revelada. A identidade do soldado Medeiros foi s\u00f3 para ela se alistar no batalh\u00e3o\u201d, explica a historiadora Marianna Farias.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Sabe-se que ela atuou em ao menos tr\u00eas frentes principais: o batalh\u00e3o que protege a Ilha de Mar\u00e9; depois vai para Itapu\u00e3 e participa da batalha de Piraj\u00e1 e, por fim, estava no grupo que foi atacado na estrada da Pituba por soldados portugueses.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>\u00a0\u201cTem muitas biografias que floreiam muito a hist\u00f3ria da vida dela. O historiador tem que juntar as pecinhas e reconstruir o hist\u00f3rico, mas com filtro, e isso n\u00e3o era feito nas d\u00e9cadas de 1940, 50. Quando ela volta para a Bahia, muitos bi\u00f3grafos dizem que a fam\u00edlia recebeu muito bem, outros dizem que recebeu muito mal. N\u00e3o tem como afirmar nem uma coisa, nem outra\u201d, diz Marianna.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp destacado destacado--autor\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"destacado__wrap\">\n<header>\n<div class=\"autor\">por<\/p>\n<h4>Marianna Farias<\/h4>\n<\/div>\n<\/header>\n<p><q>&#8220;Tem muitas biografias que floreiam muito a hist\u00f3ria da vida dela. O historiador tem que juntar as pecinhas e reconstruir o hist\u00f3rico mas com filtro e isso n\u00e3o era feito nas d\u00e9cadas de 1940, 50. Quando ela volta para a Bahia, muitos bi\u00f3grafos dizem que a fam\u00edlia recebeu muito bem, outros dizem que recebeu muito mal. N\u00e3o tem como afirmar nem uma coisa, nem outra&#8221;<\/q><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Mesmo o encontro com o imperador n\u00e3o conseguiu fugir desses \u201cfloreios\u201d. \u201cEssa cerim\u00f4nia tem uns contornos m\u00edticos. Um detalhe muito citado \u00e9 de que ela teria pedido uma carta ao imperador pedindo desculpas ao pai por ter fugido. Essa carta nunca foi encontrada\u201d, pontua o historiador da arte Nathan Gomes.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>J\u00e1 na Bahia, Quit\u00e9ria se casou com o lavrador Gabriel Pereira de Brito. Foi seu segundo casamento j\u00e1 que, durante a guerra, ela se casara com Jo\u00e3o Jos\u00e9 Lu\u00eds, morto pouco depois. Com Gabriel, teve uma filha: Lu\u00edsa Maria da Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Depois, pouco se sabe sobre seus caminhos. \u00c9 conhecido que ela ficou vi\u00fava e que, ap\u00f3s a morte de seu pai, entrou em uma disputa judicial pela heran\u00e7a. A situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 se resolveu quase uma d\u00e9cada depois da morte de Maria Quit\u00e9ria. A partir da\u00ed, quase n\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre descendentes ou parentes dela.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><b>Relatos<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Como destaca o professor Helder Maia, docente de Literatura Comparada na Universidade de Lisboa e na USP, existem apenas tr\u00eas textos escritos por pessoas que conheceram Maria Quit\u00e9ria em vida. O mais importante deles, em sua avalia\u00e7\u00e3o, \u00e9 o da escritora inglesa Maria Graham, que conhece Quit\u00e9ria na ocasi\u00e3o em que ela viaja ao Rio de Janeiro para receber a medalha de hero\u00edna.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"banner mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"banner__wrap container\">\n<div class=\"banner__content no-shift\">\n<div id=\"internas_336x280_03\" data-google-query-id=\"CPr017jP7f8CFfRV3QId3TINrA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/44585206\/d_c24h_internas_336x280_2__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Nesse relato, h\u00e1 um desenho feito por um amigo de Maria Graham que \u00e9 muito questionado porque mostraria uma Quit\u00e9ria embranquecida. Al\u00e9m disso, h\u00e1 um relato do poeta baiano Ladislau Titara, escrito pouco ap\u00f3s sua morte e que destaca a ideia da \u201camazona brasileira\u201d &#8211; quase como o que entendemos hoje como a Mulher Maravilha. \u201cEssas constru\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e liter\u00e1rias de Maria Quit\u00e9ria sempre v\u00e3o tentar construir a ideia de hero\u00edna, de valorizar o campo de batalha\u201d, explica Maia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Para a maioria dos pesquisadores, o principal livro j\u00e1 escrito sobre Maria Quit\u00e9ria \u00e9 a sua biografia de 1953, assinada por Pereira Reis J\u00fanior, pelo centen\u00e1rio de sua morte. Esse livro, inclusive, foi fruto de um financiamento do governo federal, na \u00e9poca do \u00faltimo governo de Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>\u00c9 no s\u00e9culo 20 &#8211; tanto pelo centen\u00e1rio da independ\u00eancia quanto pelo centen\u00e1rio da morte dela &#8211; que sua hist\u00f3ria \u00e9 revisitada e incorporada com mais frequ\u00eancia \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es pela data. \u201cNesse per\u00edodo, se publicam muitos textos liter\u00e1rios, ela come\u00e7a a aparecer em livros did\u00e1ticos e existe uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es do governo\u201d, acrescenta o professor.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><b>Desaparecimento<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Um dos aspectos importantes que costuma desaparecer nos textos acerca de Quit\u00e9ria, segundo Maia, \u00e9 o fato de que ela viveu como homem por cerca de seis meses. Ao mesmo tempo, em documentos como o feito por Maria Graham, a cadete \u00e9 dita como algu\u00e9m \u201cmasculina o suficiente para ser entendida como homem\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Para ele, Quit\u00e9ria pode ter vivido um tr\u00e2nsito de g\u00eanero &#8211; n\u00e3o necessariamente de identidade. A maioria das narrativas, por\u00e9m, ignora o fato de ela ter vivido como homem ou reduz o per\u00edodo apenas a um disfarce. \u201cTemos que ter cuidado porque estamos falando de uma personagem do s\u00e9culo 18 e a transmasculinidade \u00e9 um debate contempor\u00e2neo. Me soa problem\u00e1tico dizer que algu\u00e9m vive seis, sete meses como homem e isso n\u00e3o afeta em nada a sua identidade. Quando vemos o testemunho de Maria Graham, existe alguma coisa ali que a gente n\u00e3o consegue nomear, mas precisa perceber de uma forma diferente\u201d, pondera.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp img-lightbox\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"abre-lightbox\">\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" id=\"img-29\" src=\"https:\/\/midias.correio24horas.com.br\/2023\/06\/30\/primeiro-desenho-de-maria-quiteria-foi-publicado-no-livro-de-maria-graham-1792979-article.png\" alt=\"Primeiro desenho de Maria Quit\u00e9ria foi publicado no livro de Maria Graham\" width=\"600\" height=\"741\" \/><figcaption>Primeiro desenho de Maria Quit\u00e9ria foi publicado no livro de Maria Graham. Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Al\u00e9m de apenas terem sido incorporadas ao Ex\u00e9rcito brasileiro em 1992, as mulheres s\u00f3 tiveram a possibilidade de ir \u00e0 guerra a partir de 2012, com um decreto sancionado pela ent\u00e3o presidenta Dilma Rousseff que permitiu o ingresso no ensino militar b\u00e9lico.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>\u201cLonge de mim dizer que ela (Quit\u00e9ria) teria vivido como uma pessoa trans. N\u00e3o \u00e9 isso. Mas se a gente pensar que o ex\u00e9rcito \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que produz masculinidades hegem\u00f4nicas e violentas, tem algo a mais sobre o que a gente repete de que seria apenas um disfarce sobre a guerra\u201d, explica.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp destacado destacado--autor\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"destacado__wrap\">\n<header>\n<div class=\"autor\">por<\/p>\n<h4>Helder Maia<\/h4>\n<\/div>\n<\/header>\n<p><q>&#8220;Longe de mim dizer que ela (Quit\u00e9ria) teria vivido como uma pessoa trans. N\u00e3o \u00e9 isso. Mas se a gente pensar que o ex\u00e9rcito \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que produz masculinidades hegem\u00f4nicas e violentas, tem algo a mais sobre o que a gente repete de que seria apenas um disfarce sobre a guerra&#8221;<\/q><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"banner mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"banner__wrap container\">\n<div class=\"banner__content no-shift\">\n<div id=\"internas_336x280_04\" data-google-query-id=\"CP7klLrP7f8CFZVP3QIdzLkHsA\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/44585206\/d_c24h_internas_336x280_3__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Outro aspecto que \u00e9 questionado por historiadores \u00e9 a representa\u00e7\u00e3o nas primeiras pinturas feitas de Quit\u00e9ria. Nas primeiras, \u00e9 poss\u00edvel ver uma mulher embranquecida &#8211; em pinturas de 1823 e 1824, inclusive, a pele branca \u00e9 contornada por tra\u00e7os rosados. Os cabelos parecem ser lisos e olhos claros.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>No entanto, Maria Quit\u00e9ria foi uma mulher parda com tra\u00e7os ind\u00edgenas. \u201cO s\u00e9culo 19 vai retratar Maria Quit\u00e9ria totalmente branca. Tem desenho dela ruiva. E muito masculinizada \u00c9 uma vis\u00e3o inglesa sobre Maria Quit\u00e9ria\u201d, conta a historiadora Marianna Farias.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>J\u00e1 no s\u00e9culo 20, por\u00e9m, h\u00e1 uma mudan\u00e7a na forma de olhar a independ\u00eancia &#8211; tanto por parte do estado quanto dos brasileiros. Surge uma tend\u00eancia de valorizar o nativo, os ind\u00edgenas e o povo que participou dos confrontos. Ela come\u00e7a a ser retratada como uma mulher de pele mais escurecida, mais feminina e com caracter\u00edsticas menos europeias.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>\u201cS\u00e3o constru\u00e7\u00f5es. N\u00e3o d\u00e1 para pegar a primeira gravura feita sobre ela e achar que \u00e9 um reflexo da realidade\u201d, completa Marianna.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp img-lightbox\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"abre-lightbox\">\n<figure><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" id=\"img-37\" src=\"https:\/\/midias.correio24horas.com.br\/2023\/06\/30\/primeiras-imagens-de-maria-quiteria-a-retratavam-como-uma-mulher-branca-como-nestas-imagens-de-1824-e-1823--1792975-article.jpg\" alt=\"Primeiras imagens de Maria Quit\u00e9ria a retratavam como uma mulher branca, como nestas imagens de 1824 e 1823. \" width=\"600\" height=\"400\" \/><figcaption>Primeiras imagens de Maria Quit\u00e9ria a retratavam como uma mulher branca, como nestas imagens de 1824 e 1823. . Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><b>Esquecimento<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Quanto ao esquecimento, por\u00e9m, o historiador da arte Nathan Gomes \u00e9 mais cauteloso. Para ele, h\u00e1 dois aspectos a serem levados em conta. \u201cDe fato, em vida, teve um esquecimento sim. Provavelmente nos desfiles do 2 de Julho tinha, localmente, um reavivamento dessa atua\u00e7\u00e3o dela\u201d, pondera.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Al\u00e9m disso, no centen\u00e1rio da independ\u00eancia, houve uma grande movimenta\u00e7\u00e3o com a inaugura\u00e7\u00e3o do Museu Paulista &#8211; hoje Museu do Ipiranga. \u00c9 neste per\u00edodo que \u00e9 pintada a imagem que talvez seja a mais conhecida de Quit\u00e9ria. Esse quadro, que tem 2,2 metros de altura, foi posto no sal\u00e3o de honra do museu, ao lado do quadro O Grito do Ipiranga e de frente ao retrato da imperatriz Leopoldina. \u201cEu considero a inaugura\u00e7\u00e3o desse retrato como inaugura\u00e7\u00e3o dessa mem\u00f3ria\u201d, diz Gomes.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Hoje, a imagem de Quit\u00e9ria \u00e9 disputada por dois movimentos tidos como contradit\u00f3rios: os militares, atrav\u00e9s do Ex\u00e9rcito, e os movimentos feministas. \u201cO Ex\u00e9rcito puxa para si, mas mesmo depois dessa comemora\u00e7\u00e3o toda, n\u00e3o tinha mudado nada para as mulheres no Ex\u00e9rcito. Tem a\u00ed uma contradi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m esse lugar de disputa em torno da mem\u00f3ria dela, o que faz dela uma mem\u00f3ria viva em disputa\u201d, acrescenta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp paragrafo cXenseParse\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><i>O projeto Bahia livre: 200 anos de independ\u00eancia \u00e9 uma realiza\u00e7\u00e3o do jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador<\/i><\/p>\n<\/div>\n<div id=\"single_bot_piano\" class=\"mdc-layout-grid__cell mdc-layout-grid__cell--span-6-desktop mdc-layout-grid__cell--span-8-tablet comp\" style=\"text-align: justify;\">Fonte: Correio<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com sua hist\u00f3ria recuperada principalmente no s\u00e9culo seguinte, imagem de Quit\u00e9ria \u00e9 disputada hoje por grupos que v\u00e3o dos militares aos movimentos feministas<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":424629,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[327,6],"tags":[],"class_list":["post-424628","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-multimidia","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2023\/07\/maria-quiteria.webp","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/424628","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=424628"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/424628\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/424629"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=424628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=424628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=424628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}