{"id":432979,"date":"2023-09-28T06:37:45","date_gmt":"2023-09-28T09:37:45","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=432979"},"modified":"2023-09-28T06:37:45","modified_gmt":"2023-09-28T09:37:45","slug":"michael-lowy-morte-de-lider-da-guerrilha-armada-no-chile-sepultou-a-esperanca-de-resistencia-a-ditadura-de-pinochet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/michael-lowy-morte-de-lider-da-guerrilha-armada-no-chile-sepultou-a-esperanca-de-resistencia-a-ditadura-de-pinochet\/","title":{"rendered":"Michael L\u00f6wy: morte de l\u00edder da guerrilha armada no Chile sepultou a esperan\u00e7a de resist\u00eancia \u00e0 ditadura de Pinochet"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1 class=\"title\"><\/h1>\n<h2 class=\"description\">Em entrevista ao Brasil de Fato, pensador marxista fala DE seu novo livro &#8220;Setembro vermelho&#8221; sobre o golpe chileno<\/h2>\n<div class=\"details-bar\">\n<div class=\"author-time\">\n<div class=\"author\">Leandro Melito\u00a0 rasil de Fato<\/div>\n<div class=\"place-and-time\"><\/div>\n<div class=\"place translated-links\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure>\n<div class=\"img-container\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/d31faefafba5a7e572fe606da5e3b92a.jpeg\" alt=\"\" \/><\/div><figcaption>Michael L\u00f6wy trabalha como diretor de pesquisas no Centre National de la Recherche Scientifique em Paris, na Fran\u00e7a &#8211; Vanessa Nicolav \/ Autonomia Liter\u00e1ria<\/figcaption><\/figure>\n<\/header>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"text-content\">\n<p>Ap\u00f3s o 11 de setembro de 1973 no Chile, havia ainda uma esperan\u00e7a da esquerda mundial em rela\u00e7\u00e3o ao processo de resist\u00eancia armada no pa\u00eds\u00a0por meio das a\u00e7\u00f5es organizadas pelo Movimento de Esquerda Revolucion\u00e1ria (MIR), que estava disposto a defender o legado de Salvador Allende (1908-1973).\u00a0Com\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/09\/12\/batalha-do-la-moneda-do-ultimo-discurso-ao-golpe-fatal-os-ultimos-momentos-de-salvador-allende\">o golpe em andamento<\/a>, o presidente chileno\u00a0teria transmitido um recado a Miguel Enriquez, l\u00edder do MIR, atrav\u00e9s\u00a0de sua filha e conselheira pol\u00edtica no governo, Beatriz Allende: \u201cDiga a Miguel que agora \u00e9 a vez dele\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO pr\u00f3prio Allende achava isso, porque a \u00faltima mensagem que ele mandou pro Miguel Enriquez era a seguinte: a minha via do caminho pac\u00edfico, n\u00e3o deu certo, agora \u00e9 a tua\u201d, aponta Michel L\u00f6wy, co-autor com Olivier Besancenot de\u00a0<em><a href=\"https:\/\/autonomialiteraria.com.br\/loja\/teoria-politica\/setembro-vermelho-o-golpe-de-estado-no-chile-em-1973-da-conspiracao-as-primeiras-resistencias\/\">Setembro vermelho: o golpe de Estado no Chile em 1973, da conspira\u00e7\u00e3o \u00e0s primeiras resist\u00eancias<\/a><\/em>\u00a0(Autonomia Liter\u00e1ria, 2023), lan\u00e7ado no dia 21 de setembro, mesmo m\u00eas em que se completou 50 anos do golpe militar no pa\u00eds latino americano.<\/p>\n<p>Pensador marxista brasileiro radicado na Fran\u00e7a, onde trabalha como diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique, L\u00f6wy concedeu uma entrevista ao\u00a0<strong>Brasil de Fato<\/strong>\u00a0em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u201cEu tinha muito essa ilus\u00e3o de que o MIR era um movimento de resist\u00eancia enorme que ia talvez at\u00e9 poder derrubar a ditadura, talvez ia ser um grande combate. N\u00e3o foi. E a gente se deu conta disso quando morreu o Miguel Enriquez. Quer dizer, para n\u00f3s foi um golpe t\u00e3o duro, talvez at\u00e9 mais do que o de setembro. Ou seja, eu j\u00e1 tinha muito essa esperan\u00e7a, essa ilus\u00e3o de que o MIR ia ser capaz de talvez reproduzir o que foi a Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, alguma coisa assim. Ent\u00e3o foi realmente uma decep\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>No livro, os autores retratam o epis\u00f3dio de 11 de setembro de 1973 da perspectiva da resist\u00eancia, em uma narrativa que classificam como um documento hist\u00f3rico-ficcional, para\u00a0 homenagear \u201cesses que n\u00e3o s\u00e3o para n\u00f3s simplesmente v\u00edtimas, mas s\u00e3o combatentes contra o golpe, contra a ditadura, contra Pinochet e sua corja\u201d, afirma Low\u00ff.<\/p>\n<p>Os autores estiveram no Chile neste 11 de setembro de 2023 onde fizeram o lan\u00e7amento do livro em espanhol e acompanharam as atividades em torno da efem\u00e9ride do Golpe de 1973. Apesar das a\u00e7\u00f5es do governo de Gabriel Boric em torno da mem\u00f3ria das v\u00edtimas do regime militar e do an\u00fancio de que vai manter as buscas pelos desaparecidos, Low\u00ff considera que \u00e9 fundamental para a esquerda resgatar a mem\u00f3ria do projeto socialista da Unidade Popular, partido de Salvador Allende.<\/p>\n<p>\u201cO discurso oficial, o que se v\u00ea mais ao n\u00edvel das institui\u00e7\u00f5es, \u00e9 a defesa da mem\u00f3ria das v\u00edtimas. Que \u00e9 importante, n\u00e3o estou criticando isso. Mas s\u00f3 a esquerda mais radical \u00e9 que retoma o tema do que foi o projeto socialista.\u201d A posi\u00e7\u00e3o de Michael L\u00f6wy na \u00e9poca dos acontecimentos, como militante da Quarta Internacional na Fran\u00e7a, era de um apoio cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao governo de Salvador Allende. Hoje, com o distanciamento hist\u00f3rico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quele per\u00edodo, ele considera que o governo da Unidade Popular foi um processo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u201cFoi um processo revolucion\u00e1rio diferente dos outros, claro, com problemas, limites, contradi\u00e7\u00f5es, como qualquer processo. Mas foi um aut\u00eantico processo revolucion\u00e1rio que foi interrompido pelo golpe.\u201d Ao refletir sobre a efem\u00e9ride do 11 de setembro, L\u00f6wy destaca que a principal li\u00e7\u00e3o dessa experi\u00eancia para a luta de classes \u00e9 que as classes dominantes s\u00f3 toleram a democracia enquanto n\u00e3o tiverem seus privil\u00e9gios amea\u00e7ados.<\/p>\n<p>\u201cPor isso que n\u00f3s somos anticapitalistas, pois achamos que o capitalismo \u00e9 um sistema profundamente antidemocr\u00e1tico, que n\u00e3o hesita em lan\u00e7ar m\u00e3o de golpes militares e fascismo se os seus interesses estiverem amea\u00e7ados.\u201d<\/p>\n<p>Leia a entrevista:<\/p>\n<p><strong>Brasil de Fato: Pensando no 11 de setembro de 73, voc\u00ea est\u00e1 lan\u00e7ando pela Autonomia Liter\u00e1ria, junto com Olivier Besancenot, o livro Setembro vermelho, em que voc\u00eas abordam esse epis\u00f3dio de uma perspectiva da resist\u00eancia. Como surgiu o projeto desse livro?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Michael L\u00f6wy:<\/strong>\u00a0Bom, vou partir da nossa subjetividade, a minha e a do Oliver Besancenot. Para n\u00f3s dois, essa hist\u00f3ria da Unidade Popular, da resist\u00eancia, a hist\u00f3ria do MIR [Movimento de Esquerda Revolucion\u00e1ria], de Salvador Allende, isso faz parte da nossa identidade pol\u00edtica, digamos. N\u00f3s temos o Chile no cora\u00e7\u00e3o, por assim dizer. Eu h\u00e1 50 anos e ele, que \u00e9 mais jovem, mais recente, mas tamb\u00e9m de maneira muito forte.<\/p>\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o do\u00a050\u00ba anivers\u00e1rio do golpe, n\u00f3s t\u00ednhamos vontade de fazer alguma coisa para marcar o evento. A gente n\u00e3o quis fazer um livro de hist\u00f3ria cient\u00edfica porque j\u00e1 existem v\u00e1rios livros muito bons. Ent\u00e3o resolvemos fazer uma coisa um pouco diferente, uma esp\u00e9cie de mistura entre hist\u00f3ria, semi fic\u00e7\u00e3o, gibi, cen\u00e1rio de teatro, cen\u00e1rio de filme&#8230; Um pouco a mistura disso tudo, sobretudo em forma de di\u00e1logos, justamente para dar tamb\u00e9m a dimens\u00e3o subjetiva dos acontecimentos. Da parte dos criminosos, conspiradores golpistas, e da parte do Allende e de seus companheiros. Ent\u00e3o esse \u00e9 o esp\u00edrito com que a gente escreveu esse livro. Tampouco \u00e9 um texto de teoria pol\u00edtica querendo tirar as li\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00f3s achamos que as li\u00e7\u00f5es do que foi essa experi\u00eancia cabe \u00e0 esquerda chilena, aos revolucion\u00e1rios chilenos. O nosso esp\u00edrito era de contar o que aconteceu, uma esp\u00e9cie de relato direto, acess\u00edvel para um p\u00fablico amplo e em forma viva de di\u00e1logos, sem essa pretens\u00e3o de dar li\u00e7\u00f5es: \u201cAllende devia ter feito isso,\u00a0 a esquerda devia ter feito aquilo\u201d. N\u00e3o temos essa arrog\u00e2ncia. N\u00f3s queremos simplesmente contar o que aconteceu\u00a0e cada um tira as suas conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 claro, a gente pode dizer que h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o geral dessa hist\u00f3ria, dessa experi\u00eancia, mas que vale para a luta de classes em geral. E essa li\u00e7\u00e3o \u00e9 que para as oligarquias dominantes, para o imperialismo, a democracia s\u00f3 \u00e9 toler\u00e1vel enquanto\u00a0ela n\u00e3o mexe com os privil\u00e9gios do andar de cima. Se alguma coisa for em cima dos seus privil\u00e9gios, a\u00ed pronto, se fecha a democracia. Ent\u00e3o, isso \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria que a gente v\u00ea muitas vezes no curso do s\u00e9culo XX at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Bom, ent\u00e3o nosso esp\u00edrito era uma homenagem. Quer dizer, era uma den\u00fancia da conspira\u00e7\u00e3o imperialista, da oligarquia chilena, dos militares. E uma homenagem aos que lutaram contra o golpe, inclusive Salvador Allende, que aparece naquela famosa fotografia com o fuzil no ombro. E, claro, todos que combateram no Pal\u00e1cio La Moneda [sede do governo chileno] e que tentaram organizar a resist\u00eancia, os cord\u00f5es industriais. Essa primeira resist\u00eancia tamb\u00e9m a gente relata.<\/p>\n<p>A nossa inten\u00e7\u00e3o \u00e9 dar uma homenagem a esses que n\u00e3o s\u00e3o para n\u00f3s simplesmente v\u00edtimas, mas s\u00e3o combatentes contra o golpe, contra a ditadura, contra Pinochet e sua corja. \u00c9 isso. Esse \u00e9 o esp\u00edrito com o qual a gente fez esse modesto livro. Modesto tanto pelas propor\u00e7\u00f5es, como pelo seu car\u00e1ter humano, uma contribui\u00e7\u00e3o para esse 50\u00ba anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00eas deram um foco grande nessa dimens\u00e3o subjetiva, na constru\u00e7\u00e3o de di\u00e1logos, e fizeram tamb\u00e9m uma narrativa cronol\u00f3gica, em especial em rela\u00e7\u00e3o ao dia 11 de setembro, com base em pesquisa e entrevistas. Como foi a pesquisa documental para esse livro?<\/strong><\/p>\n<p>Mais uma vez, n\u00e3o \u00e9 um livro cient\u00edfico, baseado numa grande pesquisa de documentos, mas n\u00f3s consultamos alguns livros, sobretudo um que justamente faz o relato da primeira resist\u00eancia. N\u00f3s entrevistamos duas ou tr\u00eas pessoas que a gente conhecia, a come\u00e7ar pela Carmen Castilho, companheira de Miguel Enr\u00edquez, que \u00e9 um testemunho de primeira m\u00e3o. E ela \u00e9 um dos personagens da hist\u00f3ria tamb\u00e9m. E tamb\u00e9m entrevistamos uma companheira, a Helena Pina [Maria Pina Valenzuela, vulgo Helena], que era uma militante nossa da Liga Comunista Revolucion\u00e1ria na Fran\u00e7a durante muitos anos, tamb\u00e9m foi respons\u00e1vel da nossa livraria em Paris [La Br\u00e8che]\u00a0e era uma grande amiga nossa. E ela tinha sido militante de um grupo trotskista no Chile nessa \u00e9poca, ou seja, na \u00e9poca da Unidade Popular, embora tivesse tamb\u00e9m simpatias pelo MIR e ela tamb\u00e9m nos contou as suas experi\u00eancias, no dia golpe e tal. Ent\u00e3o, ela tamb\u00e9m \u00e9 um dos personagens da hist\u00f3ria, mas os personagens principais obviamente s\u00e3o o presidente Allende, seus conselheiros, sua guarda pessoal, etc.<\/p>\n<p><strong>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua perspectiva pessoal, como militante da Quarta Internacional. Como voc\u00ea acompanhou esse processo que se desenvolveu no Chile durante o governo Allende e o que representou para voc\u00ea, na \u00e9poca, esse golpe de 1973?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s acompanhamos na Fran\u00e7a com muito interesse e esperan\u00e7a a Unidade Popular, mas temos uma certa dist\u00e2ncia cr\u00edtica. Eu, por exemplo, escrevi um artiguinho na \u00e9poca, em 1972, de cr\u00edtica da pol\u00edtica econ\u00f4mica da Unidade Popular, que eu at\u00e9 tinha esquecido, e um amigo chileno me enviou recentemente, e eu reli. Cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que n\u00e3o tinha entendido nada [risos]. Por qu\u00ea? Bom, o artigo era uma cr\u00edtica e at\u00e9 tinha certa legitimidade, mas era um pouco no esp\u00edrito &#8220;mas o que eles est\u00e3o esperando para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o ao socialismo mais depressa?&#8221;, \u201cPor que n\u00e3o expropriam mais os capitalistas e tal?&#8221;, como se fosse t\u00e3o simples.<\/p>\n<p>E, sobretudo, n\u00e3o digo nada sobre o verdadeiro problema, que \u00e9 como proteger esse processo de uma tentativa de golpe que o imperialismo estava preparando. Quer dizer, a \u00fanica quest\u00e3o verdadeira, eu n\u00e3o coloco. Ent\u00e3o, realmente estava fora de foco. Fa\u00e7o minha autocr\u00edtica. Bom, dito isso, a gente seguia muito a linha do MIR na \u00e9poca, era um pouco a nossa refer\u00eancia. Ent\u00e3o, era um pouco apoio cr\u00edtico, \u00e0s vezes mais cr\u00edtica, \u00e0s vezes mais apoio. Quando veio o golpe, foi em parte uma surpresa. Em parte tamb\u00e9m n\u00e3o, porque muitos de n\u00f3s, pelo menos, j\u00e1 consider\u00e1vamos essa hip\u00f3tese. Mas foi um golpe. Foi um impacto duro para toda a esquerda, n\u00e3o s\u00f3 para n\u00f3s. Toda a esquerda na Europa tinha se identificado muito com a Unidade Popular, com o processo no Chile e alguns companheiros, na Quarta, tiraram uma conclus\u00e3o que eu acho superficial, dizendo n\u00e3o, mas o Allende devia ter feito isso, devia ter feito aquilo, a culpa \u00e9 dele, n\u00e3o sei o que.<\/p>\n<p>Hoje em dia eu acho esse papo realmente furado. Quer dizer, a verdade \u00e9 que cada vez mais estou convencido, os meus companheiros na Quarta tamb\u00e9m, em geral, que o que houve com a Unidade Popular, com o Allende, foi um verdadeiro processo revolucion\u00e1rio. Foi um processo revolucion\u00e1rio diferente dos outros, claro, com problemas, limites, contradi\u00e7\u00f5es, como qualquer processo.<\/p>\n<p>Mas foi um aut\u00eantico processo revolucion\u00e1rio que foi interrompido pelo golpe. Ent\u00e3o essa \u00e9 a an\u00e1lise que a gente faz hoje em dia. Depois do golpe, a minha convic\u00e7\u00e3o, e de outros companheiros tamb\u00e9m, era que \u201cagora \u00e9 a vez da resist\u00eancia armada, agora \u00e9 a vez do MIR\u201d.<\/p>\n<p>E o pr\u00f3prio Allende achava isso porque a \u00faltima mensagem que ele mandou pro Miguel Enr\u00edquez era a seguinte: \u201ca minha via, do caminho pac\u00edfico, n\u00e3o deu certo, agora \u00e9 a tua\u201d. Ent\u00e3o eu tinha muito essa ilus\u00e3o de que o MIR era um movimento de resist\u00eancia enorme que ia talvez at\u00e9 poder derrubar a ditadura, talvez ia ser um grande combate. N\u00e3o foi, n\u00e3o foi. E a gente se deu conta disso quando morreu o Miguel Enr\u00edquez. Quer dizer, para n\u00f3s foi um golpe t\u00e3o duro, talvez at\u00e9 mais do que o de setembro. Ou seja, eu j\u00e1 tinha muito essa esperan\u00e7a, essa ilus\u00e3o de que o MIR ia ser capaz de talvez reproduzir o que foi a revolu\u00e7\u00e3o cubana, alguma coisa assim. Nada. Ent\u00e3o foi realmente uma decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O livro traz essa\u00a0 tentativa de resist\u00eancia ap\u00f3s o golpe de setembro. Os cord\u00f5es industriais, as tentativas do MIR, voc\u00eas d\u00e3o essa dimens\u00e3o. Havia uma expectativa tamb\u00e9m de um apoio cubano?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Esse apoio cubano era o seguinte: Cuba tinha mandado armas, n\u00e3o sei exatamente quantas, um estoquezinho de armas. E o Allende disse n\u00e3o, se eu distribuir isso, vai ter um golpe militar, ent\u00e3o n\u00e3o posso. Ficaram l\u00e1. No dia do golpe, o Allende liberou e uma parte foi entregue para o pessoal dos cord\u00f5es industriais, tem uma cena em que vem um caminh\u00e3o com os fuzis da embaixada. Bom, mas era tarde. De qualquer maneira, eu acho que nem que se tivesse havido mais armas, isso n\u00e3o teria mudado, porque aquele pessoal n\u00e3o estava organizado como uma tropa, n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es militares para enfrentar o ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, houve essa tentativa. Houve a primeira tentativa de resist\u00eancia importante no Pal\u00e1cio de La Moneda, que durou horas. Cinco, seis horas de combate. Eles resistiram heroicamente, muitos morreram. Enfim, foi\u00a0uma primeira batalha e depois houve a continua\u00e7\u00e3o e os cord\u00f5es industriais tamb\u00e9m. Uma tentativa, mas n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es. Ent\u00e3o, n\u00f3s preferimos homenagear esses camaradas combatentes que lutaram, n\u00e3o ficaram de bra\u00e7os cruzados e tentaram resistir.<\/p>\n<p><strong>Trazendo para os dias de hoje, essa efem\u00e9ride de 50 anos do golpe, olhando especificamente para o Chile, que est\u00e1 com o governo de esquerda, passou por um processo bastante intenso de mobiliza\u00e7\u00e3o popular e chegou a construir uma nova Constituinte, terminou n\u00e3o sendo aprovada, mas existe esse embate na sociedade chilena. O que voc\u00ea avalia nesse processo? Como voc\u00ea acha que as experi\u00eancias da esquerda, da Unidade Popular, reverberam nesse momento?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00f3s estivemos no Chile agora, eu e o Olivier Besancenot, para apresentar a edi\u00e7\u00e3o chilena do nosso livro. Tivemos conversas com companheiros da esquerda chilena e a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 complicada. Eu diria, comparando com o Brasil, que o governo de esquerda do Chile do Boric est\u00e1 na defensiva e os que eu chamo neofascistas est\u00e3o na ofensiva.<\/p>\n<p>No Brasil, em compara\u00e7\u00e3o, eu diria que \u00e9 um pouquinho o contr\u00e1rio. A esquerda no governo, o Lula est\u00e1 um pouco na ofensiva, os bolsonaristas na defensiva. Eu estou simplificando, mas acho que \u00e9 essa diferen\u00e7a. O Boric est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, ele n\u00e3o controla o Parlamento. Houve aquele maravilhoso levante popular dirigido pelas mulheres, uma coisa realmente extraordin\u00e1ria. Primeira vez na hist\u00f3ria que a gente tem uma verdadeira semi-insurrei\u00e7\u00e3o popular dirigida pelas mulheres. Eu acho que daqui para diante vai ser cada vez mais assim, j\u00e1 aconteceu tamb\u00e9m no Ir\u00e3, tamb\u00e9m foram as mulheres. Foi uma coisa extraordin\u00e1ria, que ainda tem continuidade.<\/p>\n<p>Quando a gente esteve l\u00e1 Santiago, na v\u00e9spera do 11, houve uma manifesta\u00e7\u00e3o de mulheres em torno do Pal\u00e1cio La Moneda, todas vestidas de negro, com uma vela. Impressionante, dezenas de milhares de mulheres, de todas as classes, de todas as idades. Realmente impressionante. Ent\u00e3o tem esse potencial de mobiliza\u00e7\u00e3o das mulheres, que \u00e9 extraordin\u00e1rio. Agora o estalido, como dizia, essa semi insurrei\u00e7\u00e3o, a vit\u00f3ria da esquerda na Constituinte, a reda\u00e7\u00e3o de uma Constituinte bastante avan\u00e7ada, acabaram sendo rejeitados. Ent\u00e3o houve uma derrota agravada pelo fato que a nova Constituinte eleita \u00e9 controlada pelos neofascistas, pelos pinochetistas, isso \u00e9 um desastre. Ent\u00e3o o governo de esquerda j\u00e1 n\u00e3o era muito radical, est\u00e1 bem na defensiva.<\/p>\n<p>O Boric, no dia 11 de setembro, fez algumas declara\u00e7\u00f5es modestas, dizendo \u201ctemos que reclamar a heran\u00e7a do Allende, que era um democrata e um homem que lutou pela justi\u00e7a social\u201d, n\u00e3o falou em socialismo, e \u201cn\u00e3o podemos ficar neutros diante do que foi o golpe Pinochet\u201d. A\u00ed a direita caiu em cima: \u201c isso \u00e9 um discurso partid\u00e1rio, voc\u00ea est\u00e1 dividindo a na\u00e7\u00e3o\u201d. Uma coisa realmente terr\u00edvel. Ent\u00e3o a esquerda est\u00e1 na defensiva e os fascistas na ofensiva. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 complicada e a esquerda mais radical est\u00e1 fora do governo e faz cr\u00edticas, em parte com raz\u00e3o, mas \u00e0s vezes de maneira um pouco sect\u00e1ria. Est\u00e1 muito dividida, fragmentada. Os partid\u00e1rios do MIR, por exemplo, da heran\u00e7a do MIR, s\u00e3o os dez ou 15 grupinhos muito simp\u00e1ticos, mas n\u00e3o t\u00eam peso. Est\u00e1 muito fragmentado, contrariamente ao Brasil. Ent\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o complicada, mas tem um grande potencial, que \u00e9 o do movimento das mulheres, dos pobladores, dos mapuches, uma parte da classe oper\u00e1ria, dos sindicatos. H\u00e1 um potencial, mas por enquanto os fascistas \u00e9 que est\u00e3o na ofensiva.<\/p>\n<p><strong>No livro voc\u00eas trazem a quest\u00e3o da mem\u00f3ria em rela\u00e7\u00e3o a esse per\u00edodo, a partir dessa perspectiva subjetiva. O Chile trabalhou a mem\u00f3ria desse per\u00edodo de uma maneira diferente da que a gente trabalhou aqui no Brasil. Queria que voc\u00ea falasse um pouco sobre a import\u00e2ncia de trazer a mem\u00f3ria desse per\u00edodo, de que outras formas a gente pode olhar para que ela n\u00e3o se perca, para que a gente possa realmente aprender com esses epis\u00f3dios?<\/strong><\/p>\n<p>Veja, n\u00f3s achamos, Olivier e eu, que a mem\u00f3ria \u00e9 uma coisa muito importante para o movimento oper\u00e1rio, para o socialismo e para a revolu\u00e7\u00e3o. Sem mem\u00f3ria do passado, n\u00e3o vai haver luta pelo futuro. Ent\u00e3o, \u00e9 muito importante a gente, digamos, salvaguardar a mem\u00f3ria dos nossos lutadores. Foram vencidos, precisamos salvaguardar a mem\u00f3ria deles. Uma das formas que se faz isso o Chile \u00e9 a [partir] das v\u00edtimas, o que \u00e9 leg\u00edtimo. Quer dizer, a come\u00e7ar pelo Allende e por todos que foram torturados, assassinados e desaparecidos. Ent\u00e3o, h\u00e1 todo um trabalho de mem\u00f3ria em cima disso no Chile, muito importante.<\/p>\n<p>Por exemplo, n\u00f3s visitamos um antigo centro de tortura, Villa Grimaldi, agora uma esp\u00e9cie de museu dos crimes da ditadura. \u00c9 muito impactante e muito emotivo. Tem tamb\u00e9m desenhos feitos pelos sobreviventes. \u00c9 o lugar onde ficavam as mulheres. \u00c9 muito impressionante a que ponto esses golpistas eram selvagens, criminais, torturadores, uma coisa terr\u00edvel, pior do que no Brasil. Ent\u00e3o, essa parte da mem\u00f3ria est\u00e1 muito presente, inclusive no discurso oficial do Boric. Voc\u00ea v\u00ea que o Boric lan\u00e7ou agora um programa de procura dos desaparecidos, que \u00e9 uma coisa que aparece muito nas manifesta\u00e7\u00f5es, \u00e9 o cartaz com uma fotografia dizendo &#8220;donde est\u00e1?&#8221;. Onde \u00e9 que est\u00e3o os nossos desaparecidos? Que \u00e9 compreens\u00edvel, embora n\u00e3o seja muito concreto, porque muitos foram jogados no mar, desapareceram.<\/p>\n<p>No entanto \u00e9 essa batalha:\u00a0onde est\u00e3o os desaparecidos? E o Boric responde a isso, dizendo \u201cvamos procurar, vamos criar uma comiss\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o, tem fossas comuns\u201d.\u00a0 Ent\u00e3o essa parte est\u00e1 muito presente, as v\u00edtimas, den\u00fancia dos crimes da ditadura.<\/p>\n<p>O que falta um pouco \u00e9 a mem\u00f3ria do projeto socialista da Unidade Popular, porque o Allende realmente queria o socialismo, n\u00e3o queria um capitalismo mais democrata. Ele queria realmente chegar ao socialismo, mas por uma via pac\u00edfica, sem a guerra fria. Infelizmente, n\u00e3o foi poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, isso quem resgata mais \u00e9 a esquerda mais radical. O discurso oficial, o que se v\u00ea mais ao n\u00edvel das institui\u00e7\u00f5es, \u00e9 a defesa, a mem\u00f3ria das v\u00edtimas. Que \u00e9 importante, n\u00e3o estou criticando isso. Mas s\u00f3 a esquerda mais radical \u00e9 que retoma o tema do que foi o projeto socialista. Ent\u00e3o, os meus amigos, o pessoal que publicou o nosso livro, junto com o nosso livro eles publicaram um outro livrinho que chama Allende revolucion\u00e1rio. Ent\u00e3o eles analisam o processo do Allende e da Unidade Popular do ponto de vista do projeto socialista, que era um projeto revolucion\u00e1rio. Ent\u00e3o, isso eu acho muito importante, e uma parte da esquerda mais radical que est\u00e1 fazendo isso.<\/p>\n<p><strong>O Brasil tinha uma liga\u00e7\u00e3o com o Chile. Depois que houve o golpe aqui muitos foram para o Chile, existia uma coopera\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea v\u00ea isso hoje em dia ou acha que isso se perdeu um pouco?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Com efeito, havia milhares de brasileiros exilados no Chile na \u00e9poca da Unidade Popular. Depois veio o golpe, tiveram que fugir, se refugiar nas embaixadas. Alguns foram assassinados. H\u00e1 cinco ou seis brasileiros que foram assassinados pela ditadura [chilena]. Dois deles eram ligados \u00e0 Quarta Internacional. Houve agora um encontro de brasileiros no Chile, daqueles que tinham estado l\u00e1 na \u00e9poca.<\/p>\n<p>Eu participei, embora n\u00e3o tivesse estado l\u00e1, encontrei com eles, conversamos. H\u00e1 essa essa rela\u00e7\u00e3o forte, hist\u00f3rica digamos, entre a esquerda brasileira, por exemplo, o pessoal todo que fundou a Teoria da Depend\u00eancia no Brasil, Theotonio dos Santos, V\u00e2nia Bambirra, Ruy Mauro Marini e todos eles estiveram exilados no Chile. Todos eles viveram a experi\u00eancia da Unidade Popular, essa rela\u00e7\u00e3o era realmente muito, muito forte.<\/p>\n<p>Hoje em dia isso um pouco se perdeu. Claro, aqui se conhece a experi\u00eancia chilena. Se tem uma ideia, mais ou menos, se acompanha o que est\u00e1 acontecendo no Chile. Mas n\u00e3o vejo assim uma conex\u00e3o t\u00e3o direta como chegou a haver nos anos 70, porque a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente. S\u00e3o dois governos de esquerda, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se entendem muito, porque t\u00eam posi\u00e7\u00f5es diferentes sobre alguns problemas, enfim, n\u00e3o vou entrar nos detalhes.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 um discurso diferente do Boric e do Lula. E a esquerda radical no Chile n\u00e3o conhece o que se passa no Brasil e vice versa. Hoje em dia, infelizmente, h\u00e1 menos rela\u00e7\u00e3o e eu acho que seria bom tentar reativar, digamos, no quadro latino americano, restabelecer v\u00ednculos entre a esquerda brasileira e a esquerda mais avan\u00e7ada nos outros pa\u00edses. No campo, no caso do movimento campon\u00eas, isso existe atrav\u00e9s da Via Campesina. Mas no quadro propriamente dos movimentos pol\u00edticos \u00e9 muito menos.<\/p>\n<p><strong>O Brasil lidou de forma diferente do Chile em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mem\u00f3ria do per\u00edodo autorit\u00e1rio.\u00a0 Tivemos a Comiss\u00e3o da Verdade, uma demanda hist\u00f3rica que tinha sido cumprida por parte dos familiares das v\u00edtimas. Mas isso teve muita resist\u00eancia, gerou insatisfa\u00e7\u00e3o no meio militar e talvez tenha contribuindo inclusive para esse processo do fascismo mais recente do Bolsonaro. Como voc\u00ea v\u00ea essa quest\u00e3o da mem\u00f3ria no Brasil em rela\u00e7\u00e3o a esse per\u00edodo?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Pois \u00e9, o Brasil tem uma caracter\u00edstica que \u00e9 um pouco negativa, que \u00e9 um dos poucos pa\u00edses onde houve ditadura militar que\u00a0quando terminou, ficou uma total impunidade. N\u00e3o houve puni\u00e7\u00e3o dos criminosos da ditadura, enquanto que no Chile, alguma coisa houve, n\u00e3o muito. Pinochet, por exemplo, escapou. Mas o chefe da pol\u00edcia pol\u00edtica est\u00e1 na cadeia e n\u00e3o vai sair t\u00e3o cedo. Bom, aqui nada. Ent\u00e3o isso \u00e9 um problema. Houve a Comiss\u00e3o da Verdade, que foi importante. Foi muito justo, um avan\u00e7o, uma das coisas boas que fez o PT no governo. Agora, efetivamente, os militares n\u00e3o engoliram isso, eles n\u00e3o est\u00e3o dispostos a reconhecer que o golpe n\u00e3o foi leg\u00edtimo e que os crimes que eles cometeram s\u00e3o realmente sinistros. Isso \u00e9 um problema grave.<\/p>\n<p>O Bolsonaro agitou isso, levantou a bandeira esfarrapada da ditadura, justificou tudo, a tortura, todos os crimes da ditadura. Uma das coisas tristes \u00e9 que apesar disso, ele foi eleito. N\u00e3o acho que foi eleito por causa disso. Mas os eleitores dele n\u00e3o davam bola. Achavam que isso era um detalhe sem import\u00e2ncia. Qualquer coisa que ele dissesse, eles n\u00e3o davam bola. Precisamos matar 30.000 comunistas, &#8220;ah, ele exagerou um pouco&#8221;. \u00c9 complicado, o neofascismo no Brasil \u00e9 complicado. Mas a Comiss\u00e3o da Verdade fez um trabalho muito bom. N\u00e3o sei se as For\u00e7as Armadas v\u00e3o conseguir se libertar dessa heran\u00e7a pesada. N\u00e3o sei. N\u00e3o sei se \u00e9 s\u00f3 a velha guarda que mant\u00e9m isso ou se \u00e9 todo ex\u00e9rcito, n\u00f3s vamos ver no futuro.<\/p>\n<p>Mas enfim, fica uma li\u00e7\u00e3o do Chile, do Brasil, de toda a hist\u00f3ria Am\u00e9rica Latina: no capitalismo constantemente vai haver novos golpes, novos fascismos, n\u00e3o vai parar. Agora o neofascismo chegou no centro, tamb\u00e9m nos Estados Unidos. Por isso que n\u00f3s somos anticapitalistas, pois achamos que o capitalismo \u00e9 um sistema profundamente antidemocr\u00e1tico, que n\u00e3o hesita em lan\u00e7ar m\u00e3o de golpes militares e fascismo se os seus interesses estiverem amea\u00e7ados.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu participei, embora n\u00e3o tivesse estado l\u00e1, encontrei com eles, conversamos. H\u00e1 essa essa rela\u00e7\u00e3o forte, hist\u00f3rica digamos, entre a esquerda brasileira, por exemplo, o pessoal todo que fundou a Teoria da Depend\u00eancia no Brasil, Theotonio dos Santos, V\u00e2nia Bambirra, Ruy Mauro Marini e todos eles estiveram exilados no Chile. 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