{"id":43653,"date":"2014-02-10T11:15:36","date_gmt":"2014-02-10T14:15:36","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=43653"},"modified":"2014-02-10T11:15:36","modified_gmt":"2014-02-10T14:15:36","slug":"brasil-pais-de-justiceiros-e-justicados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/brasil-pais-de-justiceiros-e-justicados\/","title":{"rendered":"Brasil, pa\u00eds de justiceiros e justi\u00e7ados"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><em>Do garoto preso pelo pesco\u00e7o com uma tranca de bicicleta, no Rio, \u00e0 matan\u00e7a no pres\u00eddio de Pedrinhas, a barb\u00e1rie avan\u00e7a onde falta o Estado<\/em><\/h2>\n<div style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Marcello Erthal<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" title=\"Adolescente preso a um poste com uma tranca de bicicleta, no Flamengo, Zona Sul do Rio\" alt=\"Adolescente preso a um poste com uma tranca de bicicleta, no Flamengo, Zona Sul do Rio\" src=\"http:\/\/veja2.abrilm.com.br\/assets\/images\/2014\/2\/202377\/tranca-adolescente-flamengo-12-size-598.jpg?1391550560\" width=\"598\" height=\"336\" data-original=\"http:\/\/veja2.abrilm.com.br\/assets\/images\/2014\/2\/202377\/tranca-adolescente-flamengo-12-size-598.jpg?1391550560\" \/>Adolescente preso a um poste com uma tranca de bicicleta, no Flamengo, Zona Sul do Rio\u00a0(Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div>\u201cO Rio viveu, nos \u00faltimos tempos, uma fic\u00e7\u00e3o. A ostensiva propaganda do Estado para promover as Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs) anestesiou a percep\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o sobre a criminalidade\u201d, afirma a pesquisadora Ana Paula Miranda<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Execu\u00e7\u00f5es em pra\u00e7a p\u00fablica, linchamentos e puni\u00e7\u00f5es decididas por grupos \u00e0 revelia da lei s\u00e3o pr\u00e1ticas incompat\u00edveis com a civiliza\u00e7\u00e3o. Ao longo da \u00faltima semana, a popula\u00e7\u00e3o do Estado do Rio, bombardeada pela propaganda oficial que alardeia vit\u00f3rias sobre a criminalidade, foi confrontada com situa\u00e7\u00f5es em que a barb\u00e1rie se fez presente igualmente numa \u00e1rea nobre da capital e na desfavorecida Baixada Fluminense. No bairro do Flamengo, a poucos metros da resid\u00eancia oficial do comandante da Pol\u00edcia Militar do Estado, autointitulados \u201cjusticeiros\u201d castigaram e expuseram como trof\u00e9u um jovem de 15 anos, deixado atado pelo pesco\u00e7o a um poste, com uma tranca de bicicleta. Cinco dias depois, vieram \u00e0 tona imagens da execu\u00e7\u00e3o a sangue frio de um jovem acusado de praticar assaltos em Belford Roxo. Os dois epis\u00f3dios t\u00eam o impacto de um pouso for\u00e7ado no Brasil real, onde grupos que fazem injusti\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os e cad\u00e1veres desconhecidos do sistema judici\u00e1rio n\u00e3o s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es at\u00edpicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Justi\u00e7ados e justiceiros n\u00e3o est\u00e3o, definitivamente, extintos no Brasil. Ambos inaceit\u00e1veis, os casos da \u00faltima semana chocam por raz\u00f5es bastante distintas. No encontro de um jovem atado pelo pesco\u00e7o a um poste, o espanto est\u00e1 no local onde ocorreu o crime, a fatia mais policiada, iluminada e bem cuidada da capital. A morte do jovem na Baixada, sentenciado \u00e0 morte por pistoleiros, ocorrida em 23 de janeiro, tinha tudo para entrar para a lista de crimes de autoria desconhecida, arquivados com as pilhas de inqu\u00e9ritos inconclusos da Pol\u00edcia Civil. Um detalhe, no entanto, fez do caso uma exce\u00e7\u00e3o: um celular captou 18 segundos de um v\u00eddeo revelado pelo jornal\u00a0<em>Extra<\/em>, transformando o que seria um \u201cacerto de contas de bandidos\u201d em um foco de indigna\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos dois casos, a press\u00e3o popular e a difus\u00e3o dos casos pelas redes sociais obrigaram a pol\u00edcia a passar os inqu\u00e9ritos para o topo da pilha. A 9\u00aa DP (Catete) corre para encontrar os &#8220;playboys&#8221;\u00a0que castigaram o adolescente no Flamengo. E o pistoleiro da Baixada, identificado como Douglas Idael Pereira Ramos, teve pris\u00e3o preventiva decretada pela Justi\u00e7a no dia seguinte \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o das imagens. S\u00f3 ent\u00e3o a lei passou a valer em favor de Igor de Oliveira Falc\u00e3o, de 20 anos, o executado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para a pesquisadora Jacqueline Sinhoretto, do departamento de Sociologia da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (Ufscar), que estudou os justi\u00e7amentos no Estado de S\u00e3o Paulo nas d\u00e9cadas de 80 e 90, o caso da tranca de bicicleta usada como instrumento de tortura choca pela viol\u00eancia, n\u00e3o pela novidade. \u201cA pr\u00e1tica punitiva persiste no Brasil e \u00e9 permeada pela viol\u00eancia f\u00edsica desproporcional. De certa forma, uma parte da popula\u00e7\u00e3o entende aquilo como compreens\u00edvel\u201d, afirma, ajudando tamb\u00e9m a explicar o aplauso do abuso por uma parte da popula\u00e7\u00e3o e dos usu\u00e1rios de redes sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Registros de linchamentos dispon\u00edveis nos bancos de dados do N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia da USP (NEV), feitos apenas com base em casos noticiados, mostram que, no Estado de S\u00e3o Paulo, as puni\u00e7\u00f5es impostas por grupos a indiv\u00edduos acusados de algum crime beiravam as centenas na d\u00e9cada de 80, passando a uma dezena nos \u00faltimos anos catalogados. O estudo tem, atualmente, os registros at\u00e9 2010, quando foram noticiados e catalogados dez linchamentos em solo paulista. \u00c9 certo que os dados s\u00e3o apenas uma fra\u00e7\u00e3o do universo de linchados. Como se sabe, os executados ou castigados dos grupos de exterm\u00ednio, dos tribunais do tr\u00e1fico e das mil\u00edcias n\u00e3o t\u00eam visibilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.5em;\">A persist\u00eancia das condena\u00e7\u00f5es \u00e0 margem do Estado e dos linchamentos em pra\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o deve, no entanto, ser entendida como se houvesse aceita\u00e7\u00e3o ampla da sociedade. Ainda que exista um endosso \u00e0 barb\u00e1rie at\u00e9 entre autoridades, como na manifesta\u00e7\u00e3o do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), para quem, no Flamengo, o justiceiro \u201cpraticou um ato corajoso\u201d e deu \u201cuma surra num vagabundo\u201d, tamb\u00e9m houve, nesse caso, uma onda de rep\u00fadio \u00e0s pr\u00e1ticas medievais. No Facebook, veio primeiro o aplauso a quem \u201ccombateu o crime\u201d. Em seguida, surgiu uma onda de convite aos \u201cbloqueios m\u00fatuos\u201d, proposta pelos que n\u00e3o aceitam a a\u00e7\u00e3o de justiceiros. \u201cA popula\u00e7\u00e3o brasileira progressivamente rejeita as puni\u00e7\u00f5es violentas, formais ou informais. Tanto que crescem as den\u00fancias por abuso policial. N\u00e3o se pode mais, impunemente, afirmar que \u2018bandido bom \u00e9 bandido morto\u2019\u201d, diz Jacqueline.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de ter avan\u00e7ado no plano institucional \u2013 com leis e apoio a \u00f3rg\u00e3os de direitos humanos \u2013, o pa\u00eds convive com pr\u00e1ticas violentas. \u201cAinda somos um pa\u00eds que imp\u00f5e e aceita penas degradantes\u201d, alerta Jacqueline. A pesquisadora conecta a a\u00e7\u00e3o de &#8220;justiceiros&#8221;\u00a0\u00e0 trag\u00e9dia em curso no pres\u00eddio de Pedrinhas, no Maranh\u00e3o. \u201cSob o controle do Estado, ocorrem mortes, decapita\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas que o arcabou\u00e7o institucional tenta eliminar, mas persistem pelas m\u00e3os de grupos de linchadores e matadores dentro do sistema carcer\u00e1rio\u201d, lembra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Festejar a barb\u00e1rie, ou achar que o crime contra o criminoso \u00e9 algo que pode tornar um lugar menos violento, \u00e9 um comportamento que vai al\u00e9m da ingenuidade. A cada justi\u00e7amento o Brasil fica mais pr\u00f3ximo de algo como o Afeganist\u00e3o, onde voltou a existir, no ano passado, a pena de apedrejamento para adult\u00e9rio. Bolsonaro, Jos\u00e9 Sarney \u2013 que comemorou o fato de, no Maranh\u00e3o, a viol\u00eancia &#8220;n\u00e3o sair dos pres\u00eddios&#8221; \u2013 e uma ala das autoridades, no entanto, insistem no caminho inverso. Mant\u00eam vivos, assim, ideais como o do deputado estadual fluminense e inspetor de pol\u00edcia Jos\u00e9 Goginho, o Sivuca. Em meio \u00e0 onda de sequestro no Rio de Janeiro nos anos 80 e 90, Sivuca defendia abertamente que a pol\u00edcia matasse sequestradores e outros bandidos e os enterrasse \u201cem p\u00e9, para n\u00e3o ocupar espa\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong style=\"line-height: 1.5em;\">Crimes \u2013<\/strong><span style=\"line-height: 1.5em;\">\u00a0Pelo menos dois depoimentos tomados pela Pol\u00edcia Civil indicam que, no Flamengo, o aumento dos assaltos motivou um levante de gangues que, supostamente, querem proteger moradores do bairro. Dois detidos na \u00faltima segunda-feira deram depoimentos nesse sentido, admitindo integrar uma &#8220;patrulha&#8221; contra roubos no bairro. O menor preso pelo pesco\u00e7o a um poste tamb\u00e9m relatou ter sido acusado de roubos. H\u00e1, de fato, um aumento nos roubos de carros (50,1% a mais, na compara\u00e7\u00e3o dos meses de outubro de 2013 e 2012), (passaram de 1.762 para 2.645 registros no Estado), a pedestres (subiram 38,2%) e os assaltos em \u00f4nibus (67,7%). Tamb\u00e9m cresceram roubos a resid\u00eancia, com aumento de 89 para 120 casos (34,8%). Os crimes e os criminosos, nesse caso, est\u00e3o bem menos armados e s\u00e3o muito menos organizados que as fac\u00e7\u00f5es de traficantes encasteladas nos morros. Mas t\u00eam, em contrapartida, impacto muito mais imediato e direto na sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. Assaltos s\u00e3o combatidos, em todo o mundo, com policiamento em locais e hor\u00e1rios de maior incid\u00eancia dos ataques. \u201cCoibir roubos de rua \u00e9 algo simples, que se faz com uma satura\u00e7\u00e3o de policiamento onde sabe-se que o crime vai ocorrer. O problema \u00e9 que nem isso a pol\u00edcia sabe\u201d, critica o soci\u00f3logo Claudio Beato, professor da UFMG e coordenador do Centro de Estudos de Criminalidade e Seguran\u00e7a P\u00fablica (Crisp). \u00a0<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem acompanha de perto o desenrolar da luta contra o crime n\u00e3o chega a se espantar com assaltos ou mesmo com um levante de justiceiros. \u201cO Rio viveu, nos \u00faltimos tempos, uma fic\u00e7\u00e3o. A ostensiva propaganda do Estado para promover as Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs) anestesiou a percep\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o sobre a criminalidade\u201d, afirma a professora de Antropologia Ana Paula Miranda, pesquisadora do Instituto de Estudos Comparados em Administra\u00e7\u00e3o Institucional de Conflitos da UFF (Ineac).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moradora do Flamengo \u2013 bairro no centro da discuss\u00e3o sobre a\u00e7\u00e3o de justiceiros na cidade \u2013, Ana Paula tem, como os demais cariocas, a percep\u00e7\u00e3o de que os roubos ocorrem com frequ\u00eancia preocupante nas ruas. O fato de um grupo tentar promover \u2018justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os\u2019, segundo ela, n\u00e3o chega a ser uma novidade na realidade brasileira. O local ao que o jovem foi encontrado, na Zona Sul, este sim, produziu a rea\u00e7\u00e3o de estupefa\u00e7\u00e3o da sociedade. \u201cNo mesmo bairro, no Morro Azul (uma favela da regi\u00e3o), encontrar algu\u00e9m preso pelo pesco\u00e7o n\u00e3o criaria tanta como\u00e7\u00e3o, infelizmente. Linchamentos e execu\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma quest\u00e3o antiga que o Brasil n\u00e3o conseguiu resolver. N\u00e3o se pode esquecer que o caso ocorre em uma cidade com \u00e1reas controladas por mil\u00edcias e onde, de tempos em tempos, surgem hist\u00f3rias de grupos de exterm\u00ednio\u201d, alerta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte: Veja<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"fb-recomendar-artigo\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do garoto preso pelo pesco\u00e7o com uma tranca de bicicleta, no Rio, \u00e0 matan\u00e7a no pres\u00eddio de Pedrinhas, a barb\u00e1rie avan\u00e7a onde falta o Estado<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":43654,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[327],"tags":[],"class_list":["post-43653","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-multimidia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/guri.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43653"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43653\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43654"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}