{"id":449690,"date":"2024-04-06T17:00:41","date_gmt":"2024-04-06T20:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=449690"},"modified":"2024-04-06T17:00:41","modified_gmt":"2024-04-06T20:00:41","slug":"quem-foi-joaquim-de-almeida-ex-escravizado-que-virou-traficante-de-escravos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/quem-foi-joaquim-de-almeida-ex-escravizado-que-virou-traficante-de-escravos\/","title":{"rendered":"Quem foi Joaquim de Almeida, ex-escravizado que virou traficante de escravos"},"content":{"rendered":"<div class=\"bbc-1151pbn ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h1 id=\"content\" class=\"bbc-14gqcmb e1p3vdyi0\" tabindex=\"-1\"><\/h1>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-1gazxmd\"><picture><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/d8a0\/live\/b5c50eb0-e1fd-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg\" sizes=\"auto, (min-width: 1008px) 760px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/240\/cpsprodpb\/d8a0\/live\/b5c50eb0-e1fd-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/320\/cpsprodpb\/d8a0\/live\/b5c50eb0-e1fd-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/480\/cpsprodpb\/d8a0\/live\/b5c50eb0-e1fd-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/624\/cpsprodpb\/d8a0\/live\/b5c50eb0-e1fd-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/800\/cpsprodpb\/d8a0\/live\/b5c50eb0-e1fd-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg 800w\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o mostra como eram embarcados os africanos escravizados na costa da \u00c1frica\" width=\"1314\" height=\"789\" \/><\/picture><\/div><figcaption class=\"bbc-1jsyunq e6i104o0\" dir=\"ltr\">Ilustra\u00e7\u00e3o mostra como eram embarcados os africanos escravizados na costa da \u00c1frica<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<section class=\"bbc-1vjaf6b\" role=\"region\" aria-labelledby=\"article-byline\"><span class=\"bbc-m04vo2\">Por: <\/span><span class=\"bbc-1ypcc2\">Edison Veiga<\/span><\/section>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Entre os s\u00e9culos 16 e 19, pelo menos\u00a0<a class=\"focusIndicatorReducedWidth bbc-n8oauk e1p3sufg0\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/brasil-57575496\">4 milh\u00f5es de homens, mulheres e crian\u00e7as foram trazidos, \u00e0 for\u00e7a, do continente africano para o territ\u00f3rio brasileiro<\/a>. A imensa maioria deles morreu em condi\u00e7\u00f5es subumanas, depois de uma vida prec\u00e1ria de pesados trabalhos for\u00e7ados. Uma pequena propor\u00e7\u00e3o\u00a0<a class=\"focusIndicatorReducedWidth bbc-n8oauk e1p3sufg0\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/resources\/idt-sh\/lutapelaabolicao\">conseguiu a sonhada liberdade<\/a>. Uma minoria irris\u00f3ria acabou ganhando dinheiro e ascendendo socialmente. Joaquim de Almeida \u00e9 um desses curiosos e raros casos \u2014 e sua vida tem um enredo rico em complexidade.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Ele nasceu no antigo pa\u00eds Mahi, uma \u00e1rea dominada pelo reino de Daom\u00e9, na \u00c1frica Ocidental, regi\u00e3o dos atuais Benim e Togo.\u00a0<a class=\"focusIndicatorReducedWidth bbc-n8oauk e1p3sufg0\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/articles\/cndkrkw9pyjo\">Escravizado, foi mandado ao Brasil.\u00a0<\/a>Depois de alguns anos, contudo, Almeida conseguiu a alforria e &#8220;mudou de lado&#8221;: tornou-se ele pr\u00f3prio um empreendedor do lucrativo neg\u00f3cio do tr\u00e1fico negreiro.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Muito bem-sucedido, diga-se. De acordo com o rec\u00e9m-lan\u00e7ado livro\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 eih42320\">&#8216;oaquim de Almeida: A hist\u00f3ria do africano traficado que se tornou traficante de africanos<\/i>, do antrop\u00f3logo espanhol radicado no Brasil Luis Nicolau Par\u00e9s, nove anos depois de libertado, Almeida j\u00e1 era considerado um &#8220;homem de neg\u00f3cios atl\u00e2ntico&#8221; e acumulava uma fortuna que o punha entre os 10% mais ricos da Bahia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Conforme conta Par\u00e9s \u00e0 BBC News Brasil, foram muitas as dificuldades encontradas para contar a trajet\u00f3ria desse personagem, em raz\u00e3o &#8220;da escassez de fontes historiogr\u00e1ficas, pois os africanos escravizados ou libertos raramente deixavam rastros documentais&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<section class=\"bbc-geybui\" role=\"region\" aria-label=\"Publicidade 2\" aria-hidden=\"true\" data-e2e=\"advertisement\"><\/section>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Se, por um lado, sua inusitada ascens\u00e3o social gerou alguns registros, por outro, o fato de ele participar de atividades clandestinas, como o tr\u00e1fico de escravizados atl\u00e2ntico no seu per\u00edodo ilegal, favoreceu seu silenciamento e invisibilidade&#8221;, diz o antrop\u00f3logo, que \u00e9 professor na Universidade Federal da Bahia. &#8220;Foi preciso garimpar por mais de dez anos em diversos arquivos, no Brasil, na Europa e na \u00c1frica, para juntar as pe\u00e7as que permitiram reconstituir aspectos parciais de sua trajet\u00f3ria.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">A data de nascimento de Almeida \u00e9 uma lacuna que persiste. Mas muito provavelmente ele \u00e9 da primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo 19. &#8220;N\u00e3o conhecemos sua data de nascimento. As tradi\u00e7\u00f5es orais sustentam que ele foi escravizado, ainda crian\u00e7a, em tempos do rei Adandozan [que governou o Daom\u00e9 de 1797 a 1818], portanto antes de 1818, quando esse rei foi deposto. Assim, podemos especular que ele nasceu na primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo&#8221;, comenta Par\u00e9s.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;H\u00e1 ind\u00edcios, n\u00e3o conclusivos, de que ele teria sido escravizado por volta de 1814 e sabemos que comprou sua carta de liberdade em 1830&#8221;, detalha. &#8220;Conhecemos tamb\u00e9m a data de \u00f3bito, na cidade de Agou\u00e9 [atual Benim], em 11 de maio de 1857.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-150aj0n\"><picture><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/b508\/live\/6cbc3300-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg\" sizes=\"auto, (min-width: 1008px) 760px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/240\/cpsprodpb\/b508\/live\/6cbc3300-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/320\/cpsprodpb\/b508\/live\/6cbc3300-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/480\/cpsprodpb\/b508\/live\/6cbc3300-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/624\/cpsprodpb\/b508\/live\/6cbc3300-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/668\/cpsprodpb\/b508\/live\/6cbc3300-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg 668w\" alt=\"Reprodu\u00e7\u00e3o da assinatura de Joaquim de Almeida\" width=\"668\" height=\"201\" \/><\/picture><\/div><figcaption class=\"bbc-1jsyunq e6i104o0\" dir=\"ltr\">Reprodu\u00e7\u00e3o da assinatura de Joaquim de Almeida<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h2 id=\"Inf\u00e2ncia-e-chegada-ao-Brasil\" class=\"bbc-1f03ibc eglt09e0\" tabindex=\"-1\">Inf\u00e2ncia e chegada ao Brasil<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-4quw3x e1rfboeq7\" dir=\"ltr\">\n<section class=\"e1rfboeq6 bbc-12e4ke4 e1s8ztj50\" role=\"region\" aria-labelledby=\"podcast-promo\">\n<div class=\"bbc-bjn8wh eveec6k2\"><\/div>\n<\/section>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Segundo as pesquisas do antrop\u00f3logo, Almeida nasceu na aldeia de Hoko, no pa\u00eds Mahi, ao norte do reino do Daom\u00e9, na margem ocidental do rio Ouem\u00e9. Sua l\u00edngua nativa era o mahigbe e ele era da fam\u00edlia Azima. Provavelmente ele tamb\u00e9m dominava os idiomas nag\u00f4 e iorub\u00e1, considerando o entroncamento regional de onde ele vinha.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">A tradi\u00e7\u00e3o oral d\u00e1 conta que Almeida se tornou escravo quanto tinha entre 8 e 12 anos. Ele teria sido vendido por seu irm\u00e3o mais velho, Bibi Sokpa. &#8220;Nesse tempo, reza a narrativa, todos se envolviam no tr\u00e1fico, e, quando havia epidemias, secas ou fome, as crian\u00e7as eram enviadas do interior \u00e0 praia pra serem vendidas&#8221;, escreve Par\u00e9s, no livro.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Uma outra vers\u00e3o relata que Sokpa ca\u00e7ava elefantes e, por ter matado um que estava destruindo as planta\u00e7\u00f5es da capital do reino, o monarca Adandozan quis recompens\u00e1-lo com a oportunidade de trabalhar no Brasil, onde seria feitor \u2014 o supervisor, o capataz \u2014 a servi\u00e7o de Manoel Joaquim de Almeida, capit\u00e3o do mar, senhor de escravos e traficante negreiro que mantinha boas rela\u00e7\u00f5es com o rei africano.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Sokpa alegou cansa\u00e7o e velhice e disse que mandaria o irm\u00e3o no lugar.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Esta segunda narrativa \u00e9 incongruente, pois atestaria que Joaquim de Almeida chegou ao Brasil j\u00e1 como homem-livre \u2014 o que n\u00e3o \u00e9 verdade, afinal os documentos de alforria dele, datados de 1830, existem.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Par\u00e9s encontrou uma certid\u00e3o de batismo datada de 4 de setembro de 1814 que pode ser o primeiro registro da presen\u00e7a de Almeida no territ\u00f3rio brasileiro. Ocorreu na freguesia de Santo Ant\u00f4nio Al\u00e9m do Carmo, em Salvador, onde morava o traficante de escravos Manoel Joaquim de Almeida e, no texto, dizia que o batizado era &#8220;Joaquim, adulto, escravo de Manoel Joaquim&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-150aj0n\"><picture><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/19a6\/live\/8cbeee90-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg\" sizes=\"auto, (min-width: 1008px) 760px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/240\/cpsprodpb\/19a6\/live\/8cbeee90-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/320\/cpsprodpb\/19a6\/live\/8cbeee90-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/480\/cpsprodpb\/19a6\/live\/8cbeee90-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/624\/cpsprodpb\/19a6\/live\/8cbeee90-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/800\/cpsprodpb\/19a6\/live\/8cbeee90-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.jpg 800w\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o mostra interior de um navio negreiro\" width=\"979\" height=\"691\" \/><\/picture><\/div><figcaption class=\"bbc-1jsyunq e6i104o0\" dir=\"ltr\">Ilustra\u00e7\u00e3o mostra interior de um navio negreiro<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Tudo indica que Almeida tenha sido um dos primeiros escravizados \u00e0 servi\u00e7o de Manoel Joaquim de Almeida. Para o antrop\u00f3logo, esse fato, aliado ao dado de que foram mais de 15 anos de trabalhos, devem ter criado uma cerca amizade entre os dois. O africano provavelmente ganhou a camaradagem de seu senhor ao demonstrar lealdade, comprometimento e boa \u00edndole.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Al\u00e9m disso, o fato de ele dominar idiomas africanos e ter o que se convencionou chamar de &#8220;l\u00edngua geral&#8221;, ou seja, uma boa comunica\u00e7\u00e3o interafricana, com tr\u00e2nsito multicultural, fez de Almeida um parceiro importante nas negocia\u00e7\u00f5es escravagistas de seu senhor. Tudo indica que ele tenha sido int\u00e9rprete nas transa\u00e7\u00f5es de compra e venda e o fato de ele ser africano dava vantagem nos acordos, pois transmitia alto grau de confian\u00e7a.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O antrop\u00f3logo tamb\u00e9m aventa a hip\u00f3tese de que Almeida, dado seu conhecimento lingu\u00edstico e cultural, tenha assumido fun\u00e7\u00f5es de controle e vigil\u00e2ncia dos escravizados, sendo o respons\u00e1vel por dar as ordens a bordo e tamb\u00e9m nos barrac\u00f5es em que eles ficavam confinados antes do embarque ou ap\u00f3s o desembarque.<\/p>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-150aj0n\"><picture><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/3569\/live\/19dc8810-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.png\" sizes=\"auto, (min-width: 1008px) 760px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/240\/cpsprodpb\/3569\/live\/19dc8810-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.png 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/320\/cpsprodpb\/3569\/live\/19dc8810-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.png 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/480\/cpsprodpb\/3569\/live\/19dc8810-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.png 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/624\/cpsprodpb\/3569\/live\/19dc8810-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.png 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/764\/cpsprodpb\/3569\/live\/19dc8810-e1fe-11ee-860f-4b0b053e4cd0.png 764w\" alt=\"O antrop\u00f3logo Par\u00e9s\" width=\"764\" height=\"506\" \/><\/picture><\/div><figcaption class=\"bbc-1jsyunq e6i104o0\" dir=\"ltr\">O antrop\u00f3logo espanhol Luis Nicolau Par\u00e9 lan\u00e7ou o livro &#8216;Joaquim de Almeida: A hist\u00f3ria do africano traficado que se tornou traficante de africanos&#8217;<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h2 id=\"Livre-e-empreendedor\" class=\"bbc-1f03ibc eglt09e0\" tabindex=\"-1\">Livre e empreendedor<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">De acordo com documento do cart\u00f3rio do tabeli\u00e3o Manoel Pinto da Cunha, preservado no Arquivo P\u00fablico da Bahia, a carta de alforria de Almeida foi assinada em 30 de junho de 1830, na casa de seu ent\u00e3o senhor Manoel Joaquim de Almeida. O africano comprou a liberdade entregando a Manoel um feixe de notas no total de 600 mil r\u00e9is \u2014 dinheiro que provavelmente ele havia acumulado nos trabalhos paralelos que realizava quando participava das empreitadas atl\u00e2nticas a mando do capit\u00e3o do mar Manoel.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">A liberdade propiciou a ele que seguisse a carreira aprendida com seu senhor &#8212; ou seja, Joaquim de Almeida se converteu, ele pr\u00f3prio, em traficante de escravos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;[Ele] \u00e9 um personagem fascinante&#8221;, afirma \u00e0 BBC News Brasil o historiador Carlos da Silva Junior, professor na Universidade Estadual de Feira de Santana e presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Estudos Africanos. &#8220;\u00c9 importante dizer: Joaquim de Almeida \u00e9 um exemplo do que o Estado e as institui\u00e7\u00f5es liberais contempor\u00e2neas celebram como o empreendedor, o self-made-man.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Ele saiu da escravid\u00e3o \u00e0 liberdade e alcan\u00e7ou prosperidade econ\u00f4mica agenciando o transporte de seres humanos atrav\u00e9s do Atl\u00e2ntico. No capitalismo, ningu\u00e9m alcan\u00e7a grande proje\u00e7\u00e3o sem explorar a vida de outras pessoas. Foi assim com Joaquim de Almeida, no passado, \u00e9 assim como muita gente hoje&#8221;, acrescenta o historiador.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">No livro, Par\u00e9s demonstra como o ex-escravizado galgou posi\u00e7\u00f5es sociais na Bahia daquele tempo, sendo que ainda em 1831 foi padrinho de batismo de um cativo e, at\u00e9 1838 j\u00e1 acumulava 16 afilhados, o que denotaria prest\u00edgio.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O historiador Nielson Bezerra, professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro, diz \u00e0 BBC News Brasil que o caso de Almeida &#8220;\u00e9 muito peculiar porque ele fez fortuna&#8221; e teve neg\u00f3cios &#8220;na Bahia, em Cuba e na \u00c1frica&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;[Sua trajet\u00f3ria] mostra essas interconex\u00f5es do [com\u00e9rcio do] Atl\u00e2ntico&#8221;, analisa ele, lembrando que Almeida tinha uma &#8220;vis\u00e3o capitalista&#8221; da escravid\u00e3o. &#8220;A\u00ed vem a ideia do empreendimento, do empreendedor. E ele se tornou um grande empreendedor&#8221;, acrescenta o historiador.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Mas o cen\u00e1rio, a partir de 1831, n\u00e3o era t\u00e3o favor\u00e1vel \u00e0 importa\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra escravizada como havia sido nos primeiros anos de Almeida no Brasil. Isto porque em 7 de novembro daquele ano foi promulgada a chamada Lei Feij\u00f3 que, entre outras limita\u00e7\u00f5es ao uso de trabalho for\u00e7ado proibia a importa\u00e7\u00e3o de africanos escravizados &#8212; em 1850, uma legisla\u00e7\u00e3o seria ainda mais rigorosa quanto ao tr\u00e1fico negreiro, a Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Ora, a atividade de Almeida havia se transformado em ilegal. Ele n\u00e3o se resignou \u2014 tornou-se um traficante clandestino, fazendo contrabando de escravizados.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Para isso, contou tanto com o aprendizado do neg\u00f3cio, principalmente na d\u00e9cada de 1820, quanto tamb\u00e9m com a rede de contatos que havia constru\u00eddo com africanos livres na costa africana e tamb\u00e9m no Brasil. Havia todo um esquema para driblar a legisla\u00e7\u00e3o \u2014 e Almeida recorreu a todos os subterf\u00fagios para exercer sua atividade.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Em 1934 foi enquadrado e feito r\u00e9u por contrabando. Contando com boa assessoria jur\u00eddica, conseguiu comprovar que eram &#8220;falsas&#8221; as declara\u00e7\u00f5es. No ano seguinte, foi absolvido e o caso encerrado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Um aspecto instigante e complicado de sua biografia \u00e9 a passagem que ele fez da condi\u00e7\u00e3o de escravizado para o envolvimento no lucrativo com\u00e9rcio do tr\u00e1fico atl\u00e2ntico&#8221;, analisa Par\u00e9s. &#8220;De fato, enquanto cativo de um capit\u00e3o negreiro, ele j\u00e1 participava dessa atividade antes de sua emancipa\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, o que se destaca no caso de Almeida \u00e9 que, uma vez emancipado, al\u00e9m do com\u00e9rcio em pequena escala, ele conseguiu participar do grande neg\u00f3cio do tr\u00e1fico ilegal.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Transitando pela Bahia e atuando como feitor na costa africana, conduzindo os comboios humanos e juntando os carregamentos para o embarque, ele passou a suprir alguns dos mais poderosos negociantes das pra\u00e7as da Bahia, Recife e Cuba&#8221;, acrescenta. &#8220;Sua capacidade de articula\u00e7\u00e3o internacional e mobilidade social \u00e9 realmente not\u00e1vel e demonstra a ag\u00eancia, iniciativa e habilidade de alguns libertos para operar em circunst\u00e2ncias definitivamente adversas.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Autor do livro &#8216;Cativos do Reino: a circula\u00e7\u00e3o de escravos entre Portugal e Brasil&#8217;, o historiador Renato Pinto Venancio, professor na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) lembra \u00e0 BBC News Brasil que &#8220;casos de ascens\u00e3o social de ex-escravos&#8221; merecem ser melhor estudados.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;\u00c9 importante conhecer esses casos-limite da escravid\u00e3o, em que o sujeito nasce escravo e, depois morre milion\u00e1rio&#8221;, comenta. &#8220;Mas tamb\u00e9m \u00e9 importante n\u00e3o perder de vista a excepcionalidade desses casos. [&#8230;] A grande maioria dos libertos morria na mis\u00e9ria e era enterrado como indigente.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-150aj0n\"><picture><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/e48c\/live\/8fb65ca0-e1fe-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg\" sizes=\"auto, (min-width: 1008px) 760px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/240\/cpsprodpb\/e48c\/live\/8fb65ca0-e1fe-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/320\/cpsprodpb\/e48c\/live\/8fb65ca0-e1fe-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/480\/cpsprodpb\/e48c\/live\/8fb65ca0-e1fe-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/624\/cpsprodpb\/e48c\/live\/8fb65ca0-e1fe-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/800\/cpsprodpb\/e48c\/live\/8fb65ca0-e1fe-11ee-8bf3-195418ba9285.jpg 800w\" alt=\"Agou\u00e9 vista do mar\" width=\"1127\" height=\"462\" \/><\/picture><\/div><figcaption class=\"bbc-1jsyunq e6i104o0\" dir=\"ltr\">Agou\u00e9 vista do mar<\/p>\n<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h2 id=\"Volta-\u00e0-\u00c1frica\" class=\"bbc-1f03ibc eglt09e0\" tabindex=\"-1\">Volta \u00e0 \u00c1frica<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Na \u00c1frica, Joaquim era Zoki Zata. E suas viagens traficantes tamb\u00e9m constru\u00edam ra\u00edzes na costa do continente. Em 1835, construiu uma capela em Zokikome, dedicada a Nosso Senhor Bom Jesus da Reden\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio bairro, ali\u00e1s, em Agou\u00e9, havia sido fundado por Zoki e seus seguidores. Zokikome significa &#8220;o bairro de Zoki&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O antrop\u00f3logo Par\u00e9s ressalta que este \u00e9 um &#8220;outro aspecto relevante&#8221;: a religiosidade desses africanos retornados da escravid\u00e3o brasileira. &#8220;Sem esquecer suas tradi\u00e7\u00f5es ancestrais, eles adotavam o catolicismo [&#8230;] como forma de agregar recursos espirituais complementares&#8221;, pontua. &#8220;Almeida \u00e9 lembrado, por seus descendentes, como o introdutor do catolicismo no litoral africano e por ter constru\u00eddo, d\u00e9cadas antes da chegada das miss\u00f5es europeias, uma capela sob a invoca\u00e7\u00e3o de Nosso Senhor da Reden\u00e7\u00e3o, o mesmo nome da irmandade cat\u00f3lica de homens pretos da qual participara na Bahia.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Essa forma de abrasileiramento cultural, assumindo as formas da religi\u00e3o dominante, facilitou sua mobilidade social numa sociedade escravocrata que tendia a marginaliz\u00e1-lo. Por\u00e9m, de volta na \u00c1frica, ele tamb\u00e9m formou uma grande fam\u00edlia polig\u00e2mica na contram\u00e3o da ortodoxia crist\u00e3 e nos moldes das chefias locais&#8221;, ressalta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Ainda nos anos 1830 Zoki Zata ergueu sua casa na \u00c1frica. Gradualmente, ele come\u00e7ava a ficar mais tempo l\u00e1 do que no Brasil. Segundo as pesquisas de Par\u00e9s, em 1840 ele j\u00e1 estava oficialmente sediado em Agou\u00e9, de onde centralizava neg\u00f3cios da Bahia e mantinha rela\u00e7\u00f5es com lideran\u00e7as locais. A correspond\u00eancia lhe era endere\u00e7ada sob as refer\u00eancias de &#8220;capit\u00e3o&#8221; e &#8220;ilustr\u00edssimo senhor&#8221;, o que denota o respeito social que ele havia conquistado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">De 1838 a 1842, sua resid\u00eancia foi cont\u00ednua no territ\u00f3rio africano. Ent\u00e3o morou por dois anos novamente na Bahia. Sua \u00faltima viagem ao Brasil teria sido em 1845.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Em 1849, o oficial da Marinha inglesa Frederick E. Forbes (1819-1851) descreveu Almeida como &#8220;o residente mais rico de Uid\u00e1, origin\u00e1rio do pa\u00eds Mahi, vendido como escravo, retornou da Bahia e \u00e9 hoje um traficante de escravos de grande escala&#8221;. No ano seguinte, Forbes escreveu mais sobre ele, classificando-o de &#8220;um homem astuto e notoriamente inteligente, educado no Brasil no per\u00edodo de sua escravid\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Em 1850, com a Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s, o cerco antiescravista passa a se fechar contra pessoas como Almeida. Almeida experimentou um decl\u00ednio de sua fortuna, mas mesmo assim segue envolvido em neg\u00f3cios com traficantes.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Passou tamb\u00e9m a diversificar suas atividades, atuando tamb\u00e9m no com\u00e9rcio de tabaco e azeite de dend\u00ea. Em 1852, Almeida perdeu grande parte do seu patrim\u00f4nio em um inc\u00eandio. Ele afirmou, exagerando, que havia ficado &#8220;com apenas a camisa que vestia&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Par\u00e9s entende, contudo, que desde o reestabelecimento na \u00c1frica at\u00e9 a morte, o grande projeto de Almeida era formar uma grande fam\u00edlia &#8220;nos moldes africanos&#8221;, diz o antrop\u00f3logo &#8212; ou seja, como um chefe africano de seu tempo, tendo a vida familiar baseada na poligamia, numerosa descend\u00eancia e agrega\u00e7\u00e3o de escravizados, seguindo um padr\u00e3o dos &#8220;grandes homens&#8221; das sociedades iorub\u00e1s. As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o desencontradas, mas tudo indica que ele reconheceu como leg\u00edtimos 34 filhos, mas teve outras dezenas, com muitas mulheres diferentes \u2014 h\u00e1 indica\u00e7\u00f5es de que eram pelo menos 80.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Escreveu o antrop\u00f3logo e etn\u00f3logo Pierre Verger (1902-1996) que &#8220;percebemos em Joaquim de Almeida o retorno aos valores africanos, seja no af\u00e3 de procriar in\u00fameros filhos como no de ser enterrado em sua pr\u00f3pria casa, com cerim\u00f4nias que nada t\u00eam a ver com o catolicismo&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">De acordo com a tradi\u00e7\u00e3o oral, Almeida teve uma &#8220;boa morte&#8221;, tendo morrido na praia, jogando adji enquanto aguardava a chegada de um navio negreiro. Adji \u00e9 um jogo de c\u00e1lculo popular na \u00c1frica Ocidental. Outra vers\u00e3o afirma que o africano teve uma morte causada por feiti\u00e7o de um inimigo, depois de um desentendimento decorrente de uma d\u00edvida.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Ficou sua singular hist\u00f3ria.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;A vida de Joaquim de Almeida apresenta numerosos aspectos de interesse e, na verdade, em termos narrativos, sua biografia funciona como fio condutor que me permite abordar uma s\u00e9rie de tem\u00e1ticas historiogr\u00e1ficas interrelacionadas, como a vida dos libertos na Bahia oitocentista, o movimento de retorno a \u00c1frica, o tr\u00e1fico de escravizados no per\u00edodo ilegal ou os pormenores do com\u00e9rcio atl\u00e2ntico que permitiu aos retornados se constituir numa elite local em terras africanas&#8221;, comenta Par\u00e9s.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O antrop\u00f3logo conta que, em sua pesquisa, tentou &#8220;decifrar as aparentes motiva\u00e7\u00f5es e contradi\u00e7\u00f5es&#8221; do personagem, &#8220;abrasileirado e transgressor, cat\u00f3lico e polig\u00e2mico, liberto e traficante, oprimido e opressor, negro em terra de branco e &#8216;branco&#8217; em terra de negro, um ap\u00e1trida atl\u00e2ntico na era dos nacionalismos&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Para ele, &#8220;\u00e9 preciso insistir na excepcionalidade da trajet\u00f3ria de Joaquim de Almeida, um caso raro e singular de relativo sucesso econ\u00f4mico numa sociedade classista, racista e desigual que marginalizava a maioria dos negros, escravizados ou libertos&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O pesquisador afirma que essa trajet\u00f3ria \u00fanica &#8220;oferece uma janela privilegiada para acessar o mundo de uma minoria de libertos africanos que, com seus descendentes, conseguiu retornar \u00e0 \u00c1frica e se afian\u00e7ar como um grupo diferenciado&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-150aj0n\"><picture><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/3638\/live\/92c7bb50-e1fe-11ee-9410-0f893255c2a0.jpg\" sizes=\"auto, (min-width: 1008px) 760px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/240\/cpsprodpb\/3638\/live\/92c7bb50-e1fe-11ee-9410-0f893255c2a0.jpg 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/320\/cpsprodpb\/3638\/live\/92c7bb50-e1fe-11ee-9410-0f893255c2a0.jpg 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/480\/cpsprodpb\/3638\/live\/92c7bb50-e1fe-11ee-9410-0f893255c2a0.jpg 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/624\/cpsprodpb\/3638\/live\/92c7bb50-e1fe-11ee-9410-0f893255c2a0.jpg 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/741\/cpsprodpb\/3638\/live\/92c7bb50-e1fe-11ee-9410-0f893255c2a0.jpg 741w\" alt=\"T\u00famulo de Joaquim de Almeida\" width=\"741\" height=\"805\" \/><\/picture>\n<p class=\"bbc-kaivkm\" role=\"text\">T\u00famulo de Joaquim de Almeida<\/p>\n<\/div>\n<\/figure>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h2 id=\"Consci\u00eancia-racial\" class=\"bbc-1f03ibc eglt09e0\" tabindex=\"-1\">Consci\u00eancia racial<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O historiador Venancio recomenda cuidado ao dizer que africanos tamb\u00e9m traficavam escravos africanos. Ele afirma que, na \u00e9poca, n\u00e3o havia &#8220;essa identidade continental&#8221;, ent\u00e3o o que coexistiam eram &#8220;v\u00e1rias etnias e reinos com identidades pr\u00f3prias e que entravam em conflitos&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Ent\u00e3o afirmar sobre o &#8216;envolvimento de africanos&#8217; no tr\u00e1fico de escravos \u00e9 tamb\u00e9m injusto ou, em parte, equivocado. Foram pequenas fra\u00e7\u00f5es da classe dominante local que se envolveram com o tr\u00e1fico de escravos&#8221;, frisa o historiador. &#8220;A imensa maioria dos africanos foi v\u00edtima do tr\u00e1fico de escravos.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Ele ainda atenta para o fato de que &#8220;os africanos nunca constru\u00edram navios para o envio atl\u00e2ntico de escravos ao Novo Mundo&#8221;, &#8220;quem fez isso foram os europeus&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Silva Junior ressalta que uma hist\u00f3ria como a de Almeida tem de ser vista como exce\u00e7\u00e3o. &#8220;Segundo o site Slave Voyages [banco de dados internacional de documentos ligados ao tr\u00e1fico escravagista], o Brasil recebeu mais de 5 milh\u00f5es de africanos durante toda a dura\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico negreiro. [&#8230;] Desses, apenas uma pequena parcela, irris\u00f3ria mesmo, teve envolvimento efetivo no com\u00e9rcio atl\u00e2ntico de escravizados. E um n\u00famero ainda menor prosperou como Joaquim de Almeida.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Por outro lado, o historiador comenta que &#8220;a participa\u00e7\u00e3o africana no tr\u00e1fico \u00e9 assunto para l\u00e1 de conhecido&#8221;. &#8220;Almeida n\u00e3o foi o primeiro, embora tenha sido um dos mais pr\u00f3speros que se tem not\u00edcia&#8221;, diz. &#8220;Esse foi o mundo que parte significativa deles conheceu, nos dois lados do Atl\u00e2ntico.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Perguntado pela reportagem se encontrou alguma indica\u00e7\u00e3o de obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia de Almeida sobre o fato de ele, depois de ter sido escravizado, passar a ganhar a vida como explorador escravagista, Par\u00e9s afirma que &#8220;as evid\u00eancias s\u00e3o silenciosas a esse respeito&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Cabe notar, por\u00e9m, que ao mesmo tempo que Almeida se engajava no nefando neg\u00f3cio do tr\u00e1fico de gente, ele atuou como procurador, na Bahia, na concess\u00e3o de v\u00e1rias cartas de liberdade a escravizados&#8221;, ressalta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;\u00c9 preciso lembrar que a escraviza\u00e7\u00e3o era uma institui\u00e7\u00e3o legal e basilar, n\u00e3o apenas no Brasil imp\u00e9rio, mas tamb\u00e9m nas sociedade africanas em que Almeida tinha nascido&#8221;, pontua. &#8220;Nosso julgamento moral condenat\u00f3rio do com\u00e9rcio de escravizados certamente n\u00e3o responde aos mesmos valores e referenciais que prevaleciam na primeira metade do oitocentos, embora as vozes dos movimentos emancipacionistas j\u00e1 fossem bem aud\u00edveis.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O antrop\u00f3logo concorda, entretanto, que Almeida &#8220;obviamente estava informado do debate e tomou suas decis\u00f5es&#8221;. E afirma que um dos desafios &#8220;\u00e9 entender esse paradoxo da v\u00edtima que se torna algoz&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Silva Junior contextualiza que &#8220;essa consci\u00eancia racial \u00e9 um fen\u00f4meno mais tardio&#8221;. &#8220;Ali\u00e1s, essa cobran\u00e7a \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o racista, pois ningu\u00e9m cobra consci\u00eancia racial dos capitalistas brancos na Inglaterra do s\u00e9culo 19 que exploravam os oper\u00e1rios brancos das f\u00e1bricas. Nem l\u00e1 atr\u00e1s e nem agora.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Essa quest\u00e3o das identidades raciais \u00e9 teoria do s\u00e9culo 19. A ideia de \u00c1frica e africano \u00e9 uma ideia ex\u00f3gena, uma identidade atribu\u00edda. Os africanos se auto-identificavam com suas identidades \u00e9tnicas, seus povos, suas conex\u00f5es lingu\u00edsticas&#8221;, pontua o historiador Bezerra.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre os s\u00e9culos 16 e 19, pelo menos\u00a04 milh\u00f5es de homens, mulheres e crian\u00e7as foram trazidos, \u00e0 for\u00e7a, do continente africano para o territ\u00f3rio brasileiro. A imensa maioria deles morreu em condi\u00e7\u00f5es subumanas, depois de uma vida prec\u00e1ria de pesados trabalhos for\u00e7ados. Uma pequ<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":449692,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-449690","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/escravos-preto.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/449690","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=449690"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/449690\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/449692"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=449690"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=449690"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=449690"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}