{"id":452212,"date":"2024-05-05T08:20:37","date_gmt":"2024-05-05T11:20:37","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=452212"},"modified":"2024-05-05T08:20:37","modified_gmt":"2024-05-05T11:20:37","slug":"joao-candido-revolucionario-em-vida-e-post-mortem-a-relevancia-do-lider-da-revolta-da-chibata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/joao-candido-revolucionario-em-vida-e-post-mortem-a-relevancia-do-lider-da-revolta-da-chibata\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o C\u00e2ndido, revolucion\u00e1rio em vida e post-mortem: a relev\u00e2ncia do l\u00edder da Revolta da Chibata"},"content":{"rendered":"<header>\n<h1 class=\"title\"><\/h1>\n<h2 class=\"description\">At\u00e9 depois de morto o almirante negro \u00e9 capaz de mexer com as bases arcaicas da Rep\u00fablica brasileira<\/h2>\n<div class=\"details-bar\">\n<div class=\"author-time\">\n<div class=\"author\">S\u00edlvia Capanema<\/div>\n<div class=\"place-and-time\"><\/div>\n<div class=\"place translated-links\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<figure>\n<div class=\"img-container\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/images02.brasildefato.com.br\/dbacd7483050088adc350042d7bf2533.webp\" alt=\"\" \/><\/div><figcaption>Fotografia publicada na imprensa da \u00e9poca, com coloriza\u00e7\u00e3o digital. &#8211; S\u00edlvia Capanema e Rafael Guimar\u00e3es\/site \u201cRio antigo\u201d<\/figcaption><\/figure>\n<\/header>\n<div class=\"content\">\n<div class=\"text-content\">\n<p>\u201cUm her\u00f3i do povo\u201d, essas s\u00e3o as palavras de Adalberto C\u00e2ndido, 85 anos, filho ca\u00e7ula do marinheiro Jo\u00e3o C\u00e2ndido, homem que ficou conhecido como almirante negro ao liderar uma revolta de marujos subalternos contra o uso da chibata, em 1910, 2 d\u00e9cadas depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p>A frase foi publicada na imprensa brasileira na semana passada, em resposta \u00e0 carta do almirante\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/02\/26\/pec-dos-militares-na-politica-mourao-junta-oposicao-para-frear-mudancas-em-candidaturas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcos Sampaio Olsen<\/a>\u00a0que pediu aos parlamentares brasileiros que n\u00e3o aprovem o projeto de lei de autoria do deputado Lindbergh Farias (PT-SP) e apresentado \u00e0 comiss\u00e3o da cultura por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/11\/09\/nao-sou-mais-a-unica-somos-uma-bancada-agora-afirma-benedita-da-silva-sobre-criacao-da-frente-negra-no-congresso\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Benedita da Silva<\/a>\u00a0(PT-RJ), inscrevendo o nome do ex-marinheiro no livro de her\u00f3is da p\u00e1tria.<\/p>\n<p>Na missiva, o comandante chama os marujos de \u201cabjetos marinheiros\u201d que quebraram a hierarquia na Marinha para exigir \u201cvantagens corporativas e ileg\u00edtimas\u201d.<\/p>\n<p>Os marujos, assim como os oficiais rebeldes na\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefatopr.com.br\/2024\/04\/29\/o-almirante-negro-ainda-assombra-a-marinha-do-brasil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Revolta da Armada de 1893<\/a>, tomaram o poder dos principais navios de guerra e apontaram as armas contra a sede do poder federal para exigir o fim dos castigos corporais, melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e sal\u00e1rios, substitui\u00e7\u00e3o dos chefes autorit\u00e1rios. Diziam ser \u201ccidad\u00e3os brasileiros e republicanos\u201d e n\u00e3o \u201cescravos de oficiais\u201d, em seus diferentes comunicados.<\/p>\n<p>Naquele tempo, a revolta sacudiu a Rep\u00fablica, ao revelar as condi\u00e7\u00f5es indignas dos pra\u00e7as da Marinha, elogiando sua boa conduta. Em maioria negros, pardos, oriundos do Norte e do Nordeste do Brasil, os marinheiros alcan\u00e7aram simpatia de grande parte da imprensa nacional e internacional. Foram defendidos por Ruy Barbosa no Senado, anistiados, mas depois tra\u00eddos e muitos expulsos da Marinha.<\/p>\n<p>Houve uma segunda revolta, envolvendo fuzileiros navais, sem a participa\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o C\u00e2ndido e seus companheiros, que acreditavam na anistia e protegeram os navios de guerra. Mas foram presos na noite de Natal. Tentaram matar Jo\u00e3o C\u00e2ndido de desidrata\u00e7\u00e3o nas celas da Ilha das Cobras, onde a maioria dos presos sucumbiu, enquanto centenas de homens foram enviados para trabalhos for\u00e7ados no Acre, a chamada \u201cSib\u00e9ria Brasileira\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o C\u00e2ndido e 9 sobreviventes ficaram presos por dois anos, sendo absolvidos pelo Tribunal de Guerra em 1912, como demonstro no meu livro\u00a0<em>Jo\u00e3o C\u00e2ndido e os navegantes negros: a revolta da chibata e a segunda aboli\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0(Mal\u00ea).<\/p>\n<p>Nesse trabalho, que \u00e9 uma vers\u00e3o atualizada da minha tese de doutorado e de mais de 10 anos de pesquisa, mostro tamb\u00e9m como foi a vida de Jo\u00e3o C\u00e2ndido depois da revolta. Assim como os autores que tentaram escrever sobre o tema, ele foi perseguido, impedido de trabalhar tamb\u00e9m na Marinha mercante, passando grande parte da sua vida na mis\u00e9ria, com filhos para criar em S\u00e3o Jo\u00e3o de Meriti, na Baixada Fluminense.<\/p>\n<p>O poeta surrealista franc\u00eas Benjamin P\u00e9ret tentou escrever sobre o tema, mas o manuscrito do seu livro, que se chamaria\u00a0<em>O Potemkim brasileiro<\/em>, em analogia com a importante subleva\u00e7\u00e3o dos marinheiros russos de 1905, foi destru\u00eddo pela pol\u00edcia pol\u00edtica de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2018\/08\/30\/artigo-a-deposicao-de-vargas-e-as-licoes-da-historia-recente\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vargas<\/a>\u00a0e o autor foi expulso do Brasil na d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o C\u00e2ndido, no mesmo per\u00edodo, foi salvo da morte por jornalistas, que lhe organizaram campanhas de doa\u00e7\u00f5es e conseguiram que ele fosse internado no hospital para tratar da sa\u00fade. O marinheiro, sem conseguir emprego formal, nem aux\u00edlio da Marinha, diferente dos oficiais rebeldes de 1893 que retomaram seus graus e vantagens na Armada e fora dela, tornou-se vendedor de peixe no mercado da pra\u00e7a XV at\u00e9 quase o fim da vida.<\/p>\n<p>No final dos anos 1950, o jornalista Edmar Morel foi atr\u00e1s do marujo, reconhecido pelo povo nas ruas do Rio de Janeiro, mas que ainda n\u00e3o tinha um \u201clugar na hist\u00f3ria\u201d. O livro\u00a0<em>A revolta da chibata<\/em>\u00a0tornou-se um best seller e batizou o levante. Para Morel, Jo\u00e3o C\u00e2ndido era um \u201cher\u00f3i da ral\u00e9\u201d. No meio da Marinha, os historiadores navais escreviam textos chamando os marujos de \u201cferas embarcadas\u201d, cuja hist\u00f3ria deveria constar nos \u201canais da criminologia\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o C\u00e2ndido foi patrono dos marinheiros que formaram a Associa\u00e7\u00e3o dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFNB) no in\u00edcio dos anos 1960, no contexto do \u201cintervalo democr\u00e1tico\u201d e das demandas por direitos sociais, distribui\u00e7\u00e3o de terras, redu\u00e7\u00e3o da pobreza, reflex\u00e3o pol\u00edtica e cultural que marcam\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/04\/01\/o-golpe-militar-devastou-todo-o-processo-de-avancos-que-tomava-conta-do-pais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">os anos antes do golpe civil e militar de 1964<\/a>.<\/p>\n<p>Os jovens marujos da AMFNB fazem vaquinhas para ajudar Jo\u00e3o C\u00e2ndido, um homem de mais de 80 anos, mas \u00e9 o governador do Rio Grande do Sul,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/01\/22\/artigo-stedile-leonel-brizola-um-estadista-que-nos-faz-falta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonel Brizola<\/a>, que finalmente concede uma aposentadoria para o marujo que nasceu em 1880 no Estado, filho de escravizados. \u00c9 com essa pens\u00e3o, bastante desvalorizada com o tempo, que o marujo vive at\u00e9 1969, quando morre aos 89 anos.<\/p>\n<p>Quase 10 anos depois, Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc imortalizam Jo\u00e3o C\u00e2ndido no samba censurado pela ditadura, reconhecendo que o \u201cnavegante negro\u201d tinha por \u201cmonumento as pedras pisadas do cais\u201d. Bel\u00edssima letra que resume a falta de reconhecimento da hist\u00f3ria oficial brasileira com a mem\u00f3ria dos \u201cher\u00f3is do povo\u201d.<\/p>\n<p>A carta do comandante Olsen, 114 anos depois da revolta, provocou numerosas rea\u00e7\u00f5es de intelectuais, jornalistas, representantes dos movimentos negros e sociais. Diante disso, cabe perguntar: qual teria sido o destino do marujo se n\u00e3o tivesse sofrido\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2023\/03\/31\/aos-59-anos-do-golpe-forcas-armadas-vivem-desgaste-de-imagem-apos-associacao-com-bolsonaro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">persegui\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas<\/a>\u00a0por toda vida e at\u00e9 depois da morte?<\/p>\n<p>Tal carta, por si s\u00f3, j\u00e1 revela um grande problema. Em que medida \u00e9 leg\u00edtimo num pa\u00eds democr\u00e1tico as autoridades das For\u00e7as Armadas intervirem em decis\u00f5es pol\u00edticas? O conte\u00fado do documento \u00e9 ainda mais grave, revela os problemas mais s\u00e9rios do Brasil: o autoritarismo de classe e a heran\u00e7a escravista.<\/p>\n<p>Depois de novembro de 1910, nenhum marinheiro mais foi chibateado na Marinha brasileira e as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e forma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m melhoraram. O Brasil foi o \u00faltimo pa\u00eds do atl\u00e2ntico a abolir a escravid\u00e3o e foi tamb\u00e9m o \u00faltimo pa\u00eds a abolir os castigos corporais na Marinha de guerra.<\/p>\n<p>Por esse feito, Jo\u00e3o C\u00e2ndido pode ser reconhecido\u00a0<a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2024\/04\/27\/filho-de-joao-candido-rebate-marinha-meu-pai-e-um-heroi-popular\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00e0 altura de Zumbi dos Palmares<\/a>\u00a0e outros. T\u00e3o importante quanto isso \u00e9 ver que as rea\u00e7\u00f5es \u00e0 carta do oficial da Armada trouxe \u00e0 tona um debate sobre o papel das For\u00e7as Armadas no Brasil, discuss\u00e3o que merece ser feita no anivers\u00e1rio de 70 anos do Golpe Militar. At\u00e9 depois de morto, Jo\u00e3o C\u00e2ndido ainda \u00e9 capaz de mexer com as bases arcaicas da Rep\u00fablica brasileira.<\/p>\n<p><em>*\u00a0Silvia Capanema \u00e9 professora adjunta (Ma\u00eetresse de conf\u00e9rences) na Universidade de Paris 13- Sorbonne Paris Nord desde 2010 e doutora em Hist\u00f3ria pela \u00c9cole des Hautes \u00c9tudes en Sciences Sociales (EHESS). \u00c9 autora de &#8220;Jo\u00e3o C\u00e2ndido e os navegantes negros: a revolta da chibata e a segunda aboli\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 depois de morto o almirante negro \u00e9 capaz de mexer com as bases arcaicas da Rep\u00fablica brasileira<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":452213,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-452212","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/joao-candido.webp","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/452212","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=452212"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/452212\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/452213"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=452212"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=452212"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=452212"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}