{"id":46492,"date":"2014-02-25T09:18:02","date_gmt":"2014-02-25T12:18:02","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=46492"},"modified":"2014-02-25T09:18:02","modified_gmt":"2014-02-25T12:18:02","slug":"ciume-usado-como-alibi-para-crimes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/ciume-usado-como-alibi-para-crimes\/","title":{"rendered":"Ci\u00fame usado como \u00e1libi para crimes"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-46493\" alt=\"c749c0176a2aa735b98df3bce2153ee5\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/c749c0176a2aa735b98df3bce2153ee5-300x146.jpg\" width=\"300\" height=\"146\" \/><\/p>\n<p>H\u00e1 um abismo sem fundo entre aquilo que separa o amor da barb\u00e1rie. H\u00e1 tamb\u00e9m um sentimento que insiste, apesar do absurdo, em associar os dois. \u201cFoi ci\u00fame\u201d \u00e9 uma das frases rainhas entre aqueles que, ainda com a roupa suja de sangue, chegam \u00e0s delegacias ap\u00f3s matar a pr\u00f3pria mulher. \u201cFoi ci\u00fame\u201d \u00e9 ainda uma fala que parte da sociedade usa para explicar para si mesma uma viol\u00eancia que n\u00e3o pode ser justificada \u2013 e, ao agir assim, essa sociedade faz eco com o assassino e termina culpando a v\u00edtima. \u201cFoi ci\u00fame\u201d: a frase usada por Marcos Aur\u00e9lio Barbosa da Silva, 24 anos, no momento em que era interrogado pelo delegado Jo\u00e3o Gaspar, do Departamento Homic\u00eddios e de Prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Pessoa (DHPP), j\u00e1 havia sido dita v\u00e1rias vezes naquele local. Marcos tentava justificar o assassinato, na madrugada do dia 17, da professora Sandra L\u00facia Fernandes, 48 anos, e do filho dela, Icau\u00e3 Rodrigues, 10. Recorria, como os outros, a uma esp\u00e9cie de \u00e1libi na tentativa de encobrir o indiz\u00edvel do seu ato. Teria visto Sandra beijar outro homem. O depoimento, \u00e9 claro, repercutiu na imprensa e redes sociais: logo, surgiram manchetes como \u201cNamorado enciumado mata professora e filho a facadas.\u201d<\/p>\n<p>\u201cFui a primeira pessoa que teve contato com Marcos ap\u00f3s ele ter cometido os assassinatos. Por minha experi\u00eancia, n\u00e3o acredito que Sandra tenha beijado nem ficado com ningu\u00e9m. Ele trouxe essa hist\u00f3ria para fazer a defesa dele. E mesmo que isso tivesse acontecido, n\u00e3o serviria para explicar o que ele fez\u201d, diz Jo\u00e3o Gaspar, delegado h\u00e1 15 anos. Ele aponta: Marcos blindou-se de um fato cruel. Sandra n\u00e3o est\u00e1 aqui para questionar seu depoimento. Amigas da professora que conviveram com o casal \u2013 junto h\u00e1 mais de dois anos \u2013 apontam para um comportamento que demonstrava elevada inseguran\u00e7a do rapaz.<\/p>\n<p>\u201cFicamos juntos das 16h \u00e0s 23h no domingo, fomos para os Quatro Cantos, para o Alto da S\u00e9. Ela estava muito feliz por ter passado em um curso de direito, estava cheia de planos. Eles estavam bem. N\u00e3o existe isso de beijo em outro homem. Sandra era apaixonada por ele. Acho que Marcos tinha, na verdade, inveja da vida dela\u201d, diz a professora Maria Goretti Morais.<\/p>\n<p>\u201cEla dizia que ele vivia perto, nunca se afastava dela. Um dia, est\u00e1vamos no Mercado da Boa Vista, com v\u00e1rios amigos, e de repente ele foi embora. Depois, retornou. Perguntei a ela o que tinha acontecido, ela falou que era ci\u00fame dele\u201d, conta Maria de Lourdes Florentino da Silva, amiga muito pr\u00f3xima a Sandra. Feminista atuante, a professora n\u00e3o compactuava nem alimentava o sentimento: quando Marcos desaparecia, ela continuava com os amigos.<\/p>\n<p>\u201cO ci\u00fame deve ser lido como mecanismo de controle sobre a mulher\u201d, diz a pesquisadora Ana Paula Portella, autora do estudo\u00a0<em>Configura\u00e7\u00f5es de homic\u00eddios de mulheres em Pernambuco<\/em>, onde analisa casos de homic\u00eddios de homens e de mulheres ocorridos no Estado de 2004 a 2012. Para ela, os homens instrumentalizam o ci\u00fame e o usam como escudo. Muitas vezes esse sentimento \u00e9 entendido como sinal de amor pelas mulheres. \u201cO ci\u00fame \u00e9 um elemento important\u00edssimo, porque pode ser sinal de que a rela\u00e7\u00e3o vai degringolar para a viol\u00eancia. \u00c9 pisca-alerta para cair fora.\u201d<\/p>\n<p>O uso do sentimento como escudo \u00e9 visto com preocupa\u00e7\u00e3o pela advogada Andr\u00e9a Campos, uma das coordenadoras do N\u00facleo de Estudos de G\u00eanero Izaelma Tavares, da Universidade Cat\u00f3lica de Pernambuco (Izaelma foi assassinada com oito tiros pelo marido, o policial civil Eduardo Moura Mendes, na frente do filho de 5 anos). \u201cA passionaliza\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie ajuda a perpetuar a barb\u00e1rie\u201d, observa. \u201cQuando colocamos o ci\u00fame no meio desses assassinatos, os associamos \u00e0 trag\u00e9dia rom\u00e2ntica. H\u00e1 uma beleza que atrai muita gente, que deixa de enxergar a barb\u00e1rie. Transforma-se o crime em algo fascinante, e deixa-se de combat\u00ea-lo.\u201d<\/p>\n<p>Coordenador do N\u00facleo de Apoio \u00e0 Mulher do Minist\u00e9rio P\u00fablico de Pernambuco, o promotor de justi\u00e7a Jo\u00e3o Maria Rodrigues Filho v\u00ea fragilidade no discurso do ci\u00fame como \u00e1libi. Para ele, \u00e9 antes de tudo a certeza da posse. \u201cA mulher sente ci\u00fame tamb\u00e9m, mas ela n\u00e3o tem esse sentimento de propriedade.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 um abismo sem fundo entre aquilo que separa o amor da barb\u00e1rie. 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