{"id":46628,"date":"2014-02-26T01:43:19","date_gmt":"2014-02-26T04:43:19","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=46628"},"modified":"2014-02-26T01:43:19","modified_gmt":"2014-02-26T04:43:19","slug":"escrivao-admite-que-houve-tortura-nas-dependencias-do-doi-codi-paulista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/escrivao-admite-que-houve-tortura-nas-dependencias-do-doi-codi-paulista\/","title":{"rendered":"Escriv\u00e3o admite que houve tortura nas depend\u00eancias do DOI-Codi paulista"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"><em><strong><span style=\"line-height: 1.5em;\">Em um interrogat\u00f3rio que durou cerca de duas horas e meia, Lopes demorou a admitir que houve tortura no DOI-Codi &#8211; o que s\u00f3 ocorreu depois de uma hora e 40 minutos de depoimento<\/span><\/strong><\/em><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"abanoticia\">O ex-escriv\u00e3o de pol\u00edcia Manoel Aur\u00e9lio Lopes, de 77 anos, admitiu nesta segunda-feira (25\/2), em depoimento perante as comiss\u00f4es Nacional e Estadual da Verdade, a pr\u00e1tica de tortura nas depend\u00eancias do Destacamento de Opera\u00e7\u00f5es de Informa\u00e7\u00f5es do Centro de Opera\u00e7\u00f5es de Defesa Interna (DOI-Codi), na Rua Tut\u00f3ia, na \u00e9poca do regime militar. Segundo a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), Lopes foi o segundo agente p\u00fablico a admitir a pr\u00e1tica de torturas. O primeiro foi Walter Jacarand\u00e1, durante audi\u00eancia em agosto do ano passado, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Em um interrogat\u00f3rio que durou cerca de duas horas e meia, Lopes demorou a admitir que houve tortura no DOI-Codi \u2013 o que s\u00f3 ocorru depois de uma hora e 40 minutos de depoimento.<\/p>\n<p>O ex-escriv\u00e3o foi convidado a depor por ter assinado o auto sobre a muni\u00e7\u00e3o apreendida com o militante pol\u00edtico Arnaldo Cardoso Rocha, preso e morto em 1973. Lopes admitiu a exist\u00eancia de tortura ap\u00f3s a vi\u00fava, Iara Xavier Pereira, ter implorado a ele informa\u00e7\u00f5es sobre o companheiro, que foi torturado no DOI-Codi. \u201cO m\u00e1ximo que vi foi usarem latas de leite em p\u00f3, e o cidad\u00e3o, nu, subir com os dois p\u00e9s nessas latas e ficar encostado na parede, segurando duas folhas de papel com os bra\u00e7os abertos. Essa a\u00ed eu assisti. Quando n\u00e3o aguentavam mais, ca\u00edam da lata e recebiam os golpes. Dos [casos de tortura] femininos, nunca participei. Vi a pessoa do sexo feminino sentada na cadeira, ao lado da cadeira do drag\u00e3o\u201d, contou Lopes.<\/p>\n<p>Mais tarde, ele disse aos jornalistas que presenciou sess\u00f5es de tortura de militantes pol\u00edticos no DOI-Codi por curiosidade. \u201cPara responder sinceramente, fui ver como \u00e9 que funcionava isso [tortura]. E fiquei decepcionado, mas nunca agi. Fiquei decepcionado porque vi onde um ser humano \u00e9 colocado e para qu\u00ea. Naquele tempo, h\u00e1 40 anos, o pessoal n\u00e3o tinha a flexibilidade mental que voc\u00eas t\u00eam hoje\u201d, afirmou Lopes.<\/p>\n<p>O que o ex-policial contou ter visto nessa experi\u00eancia foram \u201cduas mesas, um cano, um camarada nu, preso, com os bra\u00e7os [amarrados]&#8221;. &#8220;\u00c9 o chamado \u2018pendura\u2019. Sa\u00ed da sala sem saber o que pensava no momento. Mas gravei aquela cena\u201d, disse aos jornalistas. \u201cVi e assisti movido pela curiosidade.\u201d<\/p>\n<p>Lopes ressaltou que nunca denunciou os casos de tortura por causa do trabalho. Indagado se o que ele fazia era do tipo \u201celes faziam o trabalho deles, e eu, o meu\u201d, respondeu que era o que de fato acontecia, j\u00e1 que \u201cn\u00e3o via outra forma\u201d de faz\u00ea-lo. \u201c\u00c9 o trabalho, n\u00e9?\u201d, enfatizou.<\/p>\n<p>Durante o interrogat\u00f3rio, Lopes mencionou a exist\u00eancia de uma \u201ccaixinha\u201d para os agentes que trabalhavam no DOI-Codi. Segundo ele, \u201cesse presentinho\u201d, ou \u201cessa casquinha\u201d, correspondia a cerca de 25 cruzeiros (moeda da \u00e9poca). \u201cEra um presente para quem ia trabalhar l\u00e1\u201d, disse o ex-escriv\u00e3o, sem confirmar se o pagamento era mensal e destinado aos agentes por preso que chegava ao local. \u201cA gente retirava a verba do gabinete do secret\u00e1rio [de Seguran\u00e7a da \u00e9poca]. A gente tinha que ir l\u00e1 pessoalmente\u201d, revelou. O dinheiro era entregue por um tesoureiro, na pr\u00f3pria sede da Secretaria de Seguran\u00e7a que, na \u00e9poca, ficava na Avenida Higien\u00f3polis.<\/p>\n<p>Sobre a morte do militante Arnaldo Rocha, o ex-escriv\u00e3o pouco falou. Perguntado sobre um documento assinado por ele, que identifica a muni\u00e7\u00e3o encontrada com Rocha no momento da pris\u00e3o, no dia 15 de mar\u00e7o de 1973, Lopes disse que n\u00e3o reconhecia o atestado, nem sua assinatura no papel, sugerindo que o documento pode ter sido modificado. \u201cN\u00e3o me recordo. Montaram, a meu ver, esse documento.\u201d Segundo ele, no DOI-Codi, dificilmente, os escriv\u00e3es tinham acesso ao material apreendido com os presos pol\u00edticos e n\u00e3o costumavam participar dos interrogat\u00f3rios. \u201cO escriv\u00e3o, naquela \u00e9poca, basicamente s\u00f3 transcrevia.\u201d<\/p>\n<p>Pela vers\u00e3o oficial, Rocha e mais dois militantes da Alian\u00e7a Libertadora Nacional (ALN), Francisco Emmanuel Penteado e Francisco Seiko Okama, estavam conversando na Rua Caquito, na Penha, quando uma patrulha policial passou e deu ordem de pris\u00e3o. De acordo com o registro oficial, os tr\u00eas reagiram \u00e0 abordagem e foram mortos em confronto com os policiais. Essa vers\u00e3o sempre foi contestada pela fam\u00edlia. A vi\u00fava de Rocha, que tinha pedido a exuma\u00e7\u00e3o do corpo, pediu tamb\u00e9m o aprofundamento da investiga\u00e7\u00e3o, o que resultou na audi\u00eancia da CNV, hoje, em S\u00e3o Paulo. O laudo feito ap\u00f3s a exuma\u00e7\u00e3o do corpo concluiu que n\u00e3o houve confronto e que Rocha foi morto ap\u00f3s ser torturado no DOI-Codi.<\/p>\n<p>O documento sobre a muni\u00e7\u00e3o apreendida, que tem a assinatura do ex-escriv\u00e3o Lopes, foi lavrado apenas quatro dias depois da morte de Rocha e diz que ele portava documentos de identidade e carteira de habilita\u00e7\u00e3o com o nome falso de Jos\u00e9 Carlos Spinelli, al\u00e9m de um rev\u00f3lver Taurus, calibre 38.<\/p>\n<p>Para Iara Xavier, o depoimento de Lopes pouco contribuiu para a investiga\u00e7\u00e3o da morte de Rocha, embora tenha sido positivo o fato de ele ter comparecido voluntariamente \u00e0 audi\u00eancia p\u00fablica. Para ela, o ex-escriv\u00e3o escondeu informa\u00e7\u00f5es sobre o caso.<\/p>\n<p>O coordenador da Comiss\u00e3o da Verdade de S\u00e3o Paulo, Ivan Seixas, concordou com Iara, tamb\u00e9m suspeitando que Lopes tenha escondido detalhes sobre a morte de Rocha. \u201cNo caso do Arnaldo [Rocha], ele [Lopes] n\u00e3o falou nada porque sabe que pode se comprometer\u201d, disse Seixas. No entanto, ele considerou importante o depoimento do ex-escriv\u00e3o \u201cpor oficializar o que todo mundo sempre disse: que havia uma caixinha para a repress\u00e3o e por confirmar que havia tortura\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEssa caixinha existiu. Quando eu estava preso, um carcereiro me falou: &#8216;voc\u00ea me deu US$ 300\u2019. E eu disse que n\u00e3o tinha dado nada a ele, que ele tinha \u00e9 assaltado a minha casa. E o carcereiro me falou: \u2018n\u00e3o estou falando da sua casa. Estou falando da caixinha. A gente recebe uma grana por pessoa que \u00e9 presa\u2019\u201d, contou Ivan Seixas \u00e0 Ag\u00eancia Brasil. De acordo com Seixas, investiga\u00e7\u00f5es feitas pela Comiss\u00e3o da Verdade indicam que essas \u201ccaixinhas\u201d eram pagas por empres\u00e1rios que financiavam a ditadura.<\/p><\/div>\n<div><a style=\"line-height: 1.5em;\" href=\"http:\/\/twitter.com\/pepontocom\" target=\"blank\">F<\/a>onte: Ag\u00eancia Brasil<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um interrogat\u00f3rio que durou cerca de duas horas e meia, Lopes demorou a admitir que houve tortura no DOI-Codi &#8211; o que s\u00f3 ocorreu depois de uma hora e 40 minutos de depoimento<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-46628","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-justica"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46628","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46628"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46628\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}