{"id":469216,"date":"2024-11-03T09:54:39","date_gmt":"2024-11-03T12:54:39","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=469216"},"modified":"2024-11-03T09:54:39","modified_gmt":"2024-11-03T12:54:39","slug":"o-mundo-encantado-de-clarice-lispector","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-mundo-encantado-de-clarice-lispector\/","title":{"rendered":"O mundo encantado de Clarice Lispector"},"content":{"rendered":"<div class=\"elementor-element elementor-element-7f30e03 elementor-widget elementor-widget-image\" data-id=\"7f30e03\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"image.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"attachment-full size-full\" src=\"https:\/\/blogdomagno.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/WhatsApp-Image-2024-11-02-at-17.43.30.jpeg\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" srcset=\"https:\/\/blogdomagno.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/WhatsApp-Image-2024-11-02-at-17.43.30.jpeg 720w, https:\/\/blogdomagno.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/WhatsApp-Image-2024-11-02-at-17.43.30-300x271.jpeg 300w\" alt=\"\" width=\"720\" height=\"650\" \/><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"elementor-element elementor-element-746f5ae4 elementor-widget elementor-widget-theme-post-content\" data-id=\"746f5ae4\" data-element_type=\"widget\" data-widget_type=\"theme-post-content.default\">\n<div class=\"elementor-widget-container\">\n<div id=\"ub-expand-479c213f-f3b3-443f-a5aa-9a9d27ce165b\" class=\"ub-expand \">\n<div class=\"ub-expand-portion ub-expand-partial\">\n<p>Estou mergulhado na biografia de Clarice Lispector, encantado com sua paix\u00e3o pelo Recife, mesmo nascido em aldeia ucraniana. Como ela escrevia bem. Deixou frases maravilhosas em seus escritos. Falou de tudo. Da vida, da solid\u00e3o, de amores, de desilus\u00f5es, do cotidiano.<\/p>\n<p>Como era humilde! \u201cMinhas desequilibradas palavras s\u00e3o o luxo do meu sil\u00eancio\u201d, sentenciou. Falou, principalmente, do Recife, de Pernambuco. \u201cPernambuco marca tanto a gente que basta dizer que nada, mas nada mesmo nas viagens que fiz por este mundo contribuiu para o que escrevo. Mas Recife continua firme\u201d, escreveu Clarice em A descoberta do Mundo, em trecho destacado por Benjamin Moser na biografia Clarice.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"ub-expand-portion ub-expand-full\">\n<p>Clarice tamb\u00e9m tinha seus medos. \u201cO medo sempre me guiou para o que eu quero; e, porque eu quero, temo\u201d. A solid\u00e3o a perseguia. \u201cSim, minha for\u00e7a est\u00e1 na solid\u00e3o. N\u00e3o tenho medo nem de chuvas tempestivas, nem das grandes ventanias soltas, pois eu tamb\u00e9m sou o escuro da noite\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>Pertencer, para era, era sin\u00f4nimo de viver. \u201cA vida \u00e9 para quem \u00e9 corajoso o suficiente para se arriscar e humilde o bastante para aprender\u201d, nos ensinou. Muitas cidades passaram pela vida de Clarice Lispector, da Ucr\u00e2nia, onde nasceu, at\u00e9 o ensolarado Rio de Janeiro, passando por N\u00e1poles, Berna e Washington.<\/p>\n<p>Entre todos os lugares onde a escritora viveu, o Recife guarda as mem\u00f3rias fundamentais para a forma\u00e7\u00e3o da sua identidade. A inf\u00e2ncia e o in\u00edcio da adolesc\u00eancia desta filha ca\u00e7ula de imigrantes ucranianos ocorreu principalmente pelo bairro da Boa Vista, na Rua da Aurora e pelo Cais.<\/p>\n<p>O Recife de Clarice \u00e9 o centro da efervesc\u00eancia intelectual e cultural do modernismo pernambucano. Perto dali se encontrava a Confeitaria Gl\u00f3ria, palco do assassinato de Jo\u00e3o Pessoa, em 1930. No mesmo ano deste tr\u00e1gico acontecimento que mudaria os rumos da pol\u00edtica nacional com a ascens\u00e3o de Get\u00falio Vargas \u2013 e na mesma vizinhan\u00e7a -, era inaugurada por Jacob Berenstein a primeira Livraria Imperatriz.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nos arredores ficava o Col\u00e9gio Hebreu-I\u00eddiche Brasileiro, onde Clarice estudou at\u00e9 entrar no Gin\u00e1sio Pernambucano, localizado n\u00e3o muito longe, em 1932. Embora o reconhecimento oficial como cidad\u00e3 pernambucana s\u00f3 tenha vindo em novembro de 2020, mais de quatro d\u00e9cadas ap\u00f3s sua morte, Clarice j\u00e1 se declarava como recifense h\u00e1 muito mais tempo.<\/p>\n<p>Foi com essa naturalidade que a autora foi matriculada, ainda adolescente, em um col\u00e9gio carioca, logo ap\u00f3s a mudan\u00e7a da fam\u00edlia para a capital fluminense. Clarice tinha apenas cinco anos de idade quando chegou ao Recife, acompanhada por pai, m\u00e3e e duas irm\u00e3s mais velhas. S\u00f3 deixou a cidade aos 15, j\u00e1 com o prazer pelas letras e o fasc\u00ednio por contar hist\u00f3rias incutido em sua mente.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que Clarice aprendia a ler, j\u00e1 sentia a necessidade de escrever. Foi vivendo no Recife que a pequena Clarice ensaiou seus primeiros escritos. Ao Diario de Pernambuco, chegou a enviar alguns textos para o suplemento infantil que o jornal mantinha na \u00e9poca, mas nunca foram publicados. Por volta dos 9 anos, ap\u00f3s assistir a um espet\u00e1culo no Teatro de Santa Isabel, escreveu uma pe\u00e7a intitulada \u201cPobre menina rica\u201d, que escondeu atr\u00e1s de um m\u00f3vel da casa.<\/p>\n<p>Todo esse material se perdeu com o tempo, mas h\u00e1 comprova\u00e7\u00e3o de sua exist\u00eancia em entrevistas concedidas pela autora. Enquanto viveu na capital pernambucana, Clarice ocupou com a fam\u00edlia, pelo menos, tr\u00eas endere\u00e7os distintos, todos no bairro da Boa Vista, na regi\u00e3o central da cidade. O primeiro e mais conhecido fica junto \u00e0 Pra\u00e7a Maciel Pinheiro, onde h\u00e1 uma est\u00e1tua erguida em sua homenagem.<\/p>\n<p>Na Rua da Imperatriz, ela morou em mais de uma casa. Em uma delas foi vizinha da Livraria Imperatriz, que funciona at\u00e9 hoje no mesmo local.<\/p>\n<p>A menina rica que n\u00e3o se recusa a emprestar um livro \u00e0 protagonista do conto \u201cFelicidade Clandestina\u201d foi inspirada em uma das filhas de Jacob Berenstein, fundador da loja.<\/p>\n<p>O bairro da Boa Vista foi muito ocupado pelos judeus que come\u00e7aram a vir para o Recife no in\u00edcio do s\u00e9culo 20. Os im\u00f3veis eram mais baratos, havia transporte com mais facilidade e era perto do com\u00e9rcio. Tudo isso favorecia que eles se estabelecessem por ali, j\u00e1 que a maioria n\u00e3o tinha recursos e trabalhava como comerciante.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio pai de Clarice era mascate. A primeira escola onde Clarice foi matriculada no Recife foi o Jo\u00e3o Barbalho, em Santo Amaro. Embora nenhum registro da presen\u00e7a da escritora na institui\u00e7\u00e3o tenha sido encontrado por pesquisadores, ela pr\u00f3pria cita o col\u00e9gio na cr\u00f4nica \u201cAs grandes puni\u00e7\u00f5es\u201d, assim como sua conviv\u00eancia com o colega de turma Leopoldo Nachbin, que viria a ser uma refer\u00eancia da matem\u00e1tica no Brasil.<\/p>\n<p>Depois, a aluna passou a estudar no Col\u00e9gio Hebreu \u00cddiche Brasileiro, que hoje funciona com o nome de Col\u00e9gio Israelita Moys\u00e9s Chvarts, na Torre. J\u00e1 em 1932, come\u00e7ou a frequentar o Gin\u00e1sio Pernambucano.<\/p>\n<p>As viv\u00eancias em territ\u00f3rio pernambucano estiveram presentes n\u00e3o s\u00f3 na mem\u00f3ria da escritora, mas tamb\u00e9m em suas obras.<\/p>\n<p>Entre 1967 e 1973, passou a escrever semanalmente cr\u00f4nicas para o Jornal do Brasil, retratando as lembran\u00e7as da inf\u00e2ncia. \u201cEla cita a palavra Recife em nove dessas obras. Ao ler essas cr\u00f4nicas, a gente v\u00ea nitidamente o que ela viveu por aqui voltando aos poucos.<\/p>\n<p>Em \u201cO passeio da fam\u00edlia\u201d, por exemplo, Clarice narra um passeio em fam\u00edlia na regi\u00e3o portu\u00e1ria. \u201cRestos de Carnaval\u201d mostra a menina a observar a efervesc\u00eancia dos dias de folia nas ruas da cidade, enquanto em casa s\u00f3 se agravava o estado de sa\u00fade de sua m\u00e3e, que viria a morrer em 1930, sendo sepultada no Cemit\u00e9rio dos Israelitas do Barro.<\/p>\n<p>J\u00e1 em \u201cBanhos de mar\u201d, ela relembra das idas com o pai at\u00e9 Olinda, onde o cheiro de mar a invadia e embriagava. Depois de adulta, a escritora chegou a visitar Pernambuco outras duas vezes. A primeira, na companhia do ex-marido e do primeiro filho, veio visitar parentes que por aqui ficaram na Avenida Conde da Boa Vista, onde tamb\u00e9m chegou a residir.<\/p>\n<p>Com uma despedida em grande estilo, a autora fez sua \u00faltima viagem ao Recife em 1976, ano anterior a sua morte. Na ocasi\u00e3o, apresentou uma confer\u00eancia no audit\u00f3rio do Banco do Estado de Pernambuco (Bandepe).<\/p>\n<p>Clarice Lispector foi uma ex\u00edmia frasista. Construiu m\u00e1ximas curtas sobre a subjetividade humana numa quantidade quase sem paralelos na literatura brasileira \u2014algo que ajudou a disseminar sua obra, mas colaborou tamb\u00e9m para que alguns cr\u00edticos torcessem o nariz para ela.<\/p>\n<p>Em Perto do cora\u00e7\u00e3o selvagem, escreveu: \u201cContinuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando c\u00edrculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado.\u201d Em A hora da estrela, cravou: \u201cEscrevo como se fosse para salvar a vida de algu\u00e9m. Provavelmente a minha pr\u00f3pria vida.\u201d<\/p>\n<p>Por fim, em \u00c1gua viva deixou essa frase marcante: \u201cA loucura \u00e9 vizinha da mais cruel sensatez.\u201d<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Clarice tamb\u00e9m tinha seus medos. \u201cO medo sempre me guiou para o que eu quero; e, porque eu quero, temo\u201d. A solid\u00e3o a perseguia. \u201cSim, minha for\u00e7a est\u00e1 na solid\u00e3o. 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