{"id":470733,"date":"2024-11-20T16:25:32","date_gmt":"2024-11-20T19:25:32","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=470733"},"modified":"2024-11-20T16:25:32","modified_gmt":"2024-11-20T19:25:32","slug":"o-que-a-negritude-de-machado-de-assis-diz-sobre-como-brasil-lida-com-racismo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/o-que-a-negritude-de-machado-de-assis-diz-sobre-como-brasil-lida-com-racismo-2\/","title":{"rendered":"O que a negritude de Machado de Assis diz sobre como Brasil lida com racismo"},"content":{"rendered":"<div class=\"bbc-1151pbn ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h1 id=\"content\" class=\"bbc-14gqcmb e1p3vdyi0\" tabindex=\"-1\"><\/h1>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-18ywsw9\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/c5d0\/live\/63c8c810-5de9-11ee-881e-05c92f9667be.jpg.webp\" sizes=\"auto, (min-width: 1008px) 760px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/240\/cpsprodpb\/c5d0\/live\/63c8c810-5de9-11ee-881e-05c92f9667be.jpg.webp 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/320\/cpsprodpb\/c5d0\/live\/63c8c810-5de9-11ee-881e-05c92f9667be.jpg.webp 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/480\/cpsprodpb\/c5d0\/live\/63c8c810-5de9-11ee-881e-05c92f9667be.jpg.webp 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/624\/cpsprodpb\/c5d0\/live\/63c8c810-5de9-11ee-881e-05c92f9667be.jpg.webp 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/800\/cpsprodpb\/c5d0\/live\/63c8c810-5de9-11ee-881e-05c92f9667be.jpg.webp 800w\" alt=\"Retrato de Machado de Assis quando ele tinha 57 anos\" width=\"1010\" height=\"569\" \/><\/p>\n<p class=\"bbc-by8ykd\" role=\"text\">Retrato de Machado de Assis quando ele tinha 57 anos<\/p>\n<\/div>\n<\/figure>\n<section class=\"bbc-1vjaf6b\" role=\"region\" aria-labelledby=\"article-byline\"><span class=\"bbc-m04vo2\">Por: <\/span><span class=\"bbc-1ypcc2\">Edison Veiga<\/span><\/p>\n<div><\/div>\n<\/section>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\"><b>No Dia da Consci\u00eancia Negra, a figura de Machado de Assis, um dos maiores \u00edcones da literatura brasileira, \u00e9 um lembrete das contradi\u00e7\u00f5es do racismo no Brasil.<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\"><b>Negro e criado em meio \u00e0 profunda desigualdade social do s\u00e9culo XIX, Machado alcan\u00e7ou um espa\u00e7o majoritariamente branco, mas sua identidade racial foi muitas vezes silenciada ou minimizada pela hist\u00f3ria oficial.<\/b><\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Assinada pelo escriv\u00e3o Olympio da Silva Pereira, a certid\u00e3o de \u00f3bito de Joaquim Maria Machado de Assis, morto aos 69 anos em 29 de setembro de 1908, h\u00e1 115 anos, traz uma informa\u00e7\u00e3o curiosa, sen\u00e3o pol\u00eamica: a nona linha do formul\u00e1rio declara que sua cor era &#8220;branca&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Sobretudo nos \u00faltimos anos, a quest\u00e3o racial daquele que \u00e9 considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos tem se tornado uma bandeira importante para a afirma\u00e7\u00e3o e a valoriza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n<\/div>\n<section class=\"bbc-geybui\" role=\"region\" aria-label=\"Publicidade 2\" aria-hidden=\"true\" data-e2e=\"advertisement\"><\/section>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Mas o que pesquisadores contempor\u00e2neos t\u00eam descoberto \u00e9 que, considerando documentos como a pr\u00f3pria certid\u00e3o de \u00f3bito e cartas antigas, a identidade racial de Machado de Assis \u00e9 um assunto pol\u00eamico desde antes da morte dele.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;N\u00f3s n\u00e3o sabemos at\u00e9 o momento. N\u00e3o h\u00e1 nenhum documento que tenha chegado at\u00e9 n\u00f3s que traga essa informa\u00e7\u00e3o, como o pr\u00f3prio Machado se identificava, como ele se via. Temos depoimentos s\u00f3 de terceiros&#8221;, afirma \u00e0 BBC News Brasil a historiadora Raquel Machado Gon\u00e7alves Campos, professora na Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG) e pesquisadora sobre a vida e a obra do escritor.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Um dos documentos citados por ela \u00e9 a carta enviada pelo poeta portugu\u00eas Gon\u00e7alves Crespo (1846-1883) a Machado, com data de 6 de junho de 1871.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;A Vossa Ex., j\u00e1 eu conhecia de nome h\u00e1 bastante tempo. De nome e por uma certa simpatia que para si me levou quando me disseram que era\u2026 de cor como eu&#8221;, diz trecho da correspond\u00eancia.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">N\u00e3o se sabe como o escritor brasileiro reagiu ao ler a missiva, tampouco se conhece qualquer resposta que ele tenha eventualmente redigido de volta ao portugu\u00eas. A professora Campos pontua que a express\u00e3o &#8220;de cor&#8221; era a mais aceita naquele momento hist\u00f3rico para descrever pessoas negras.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;[O relevante \u00e9 que] Machado \u00e9 visto como um homem \u2018de cor\u2019 por um escritor de seu pr\u00f3prio tempo&#8221;, salienta ela.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Pesquisadora na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a historiador Cristiane Garcia traz outro elemento que pode indicar que o escritor, em vida, se via como negro.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Eu pesquiso Machado de Assis quando jovem. Entre o final de 1854 e in\u00edcio de 1855, Machado de Assis passou a frequentar a tipografia de Francisco de Paula Brito, tip\u00f3grafo, editor e homem de letras, negro como Machado&#8221;, conta ela, \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;A tipografia de Paula Brito foi a respons\u00e1vel pela imprensa negra de meados do s\u00e9culo XIX, no Brasil. N\u00e3o s\u00f3 isso: ali se organizava uma rede de homens negros que se ajudavam e protegiam, pelo menos at\u00e9 os primeiros anos da d\u00e9cada de 1860&#8221;, aponta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;E a condi\u00e7\u00e3o de ser homem negro na sociedade da \u00e9poca \u00e9 uma quest\u00e3o presente na produ\u00e7\u00e3o deles, em alguns jornais que sa\u00edam da tipografia do Paula Brito, no posicionamento pol\u00edtico, entre tantos outros aspectos presentes na trajet\u00f3ria desses homens. Machado de Assis foi um aprendiz desse grupo, cresceu muito com eles. Paula Brito o apresentou para uma rede de sociabilidade que possibilitou a abertura de novos caminhos profissionais para o jovem Machado de Assis.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Pesquisador independente que j\u00e1 descobriu v\u00e1rios textos in\u00e9ditos do escritor, o publicit\u00e1rio Felipe Rissato tamb\u00e9m afirma \u00e0 reportagem que &#8220;n\u00e3o existe uma declara\u00e7\u00e3o de Machado de Assis acerca da cor de sua pele&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Quando fez seu testamento de pr\u00f3prio punho, em 1906, poderia ter inclu\u00eddo esse dado. N\u00e3o que fosse obrigat\u00f3rio. E nada mencionou&#8221;, pontua ele.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Fato \u00e9 que Machado de Assis era mulato, filho de pai pardo, alforriado, e m\u00e3e branca.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Um m\u00eas ap\u00f3s a morte do escritor, o jornalista e escritor Jos\u00e9 Ver\u00edssimo (1857-1916) publicou um obitu\u00e1rio sobre o amigo no Jornal do Commercio, texto este intitulado &#8216;Machado de Assis: impress\u00f5es e reminisc\u00eancias&#8217;.<\/p>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-18ywsw9\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/fcfe\/live\/92d156e0-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp\" sizes=\"auto, (min-width: 1008px) 760px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/240\/cpsprodpb\/fcfe\/live\/92d156e0-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/320\/cpsprodpb\/fcfe\/live\/92d156e0-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/480\/cpsprodpb\/fcfe\/live\/92d156e0-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/624\/cpsprodpb\/fcfe\/live\/92d156e0-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/800\/cpsprodpb\/fcfe\/live\/92d156e0-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp 800w\" alt=\"Machado de Assis aos 25 anos\" width=\"1045\" height=\"1514\" \/><\/p>\n<p class=\"bbc-by8ykd\" role=\"text\">Machado de Assis aos 25 anos<\/p>\n<\/div>\n<\/figure>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Nele consta a seguinte frase: &#8220;mulato, foi de fato um grego da melhor \u00e9poca&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O texto provocou rea\u00e7\u00e3o em outro amigo de Machado, o jornalista, historiador e pol\u00edtico Joaquim Nabuco (1849-1910).<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Ele escreveu uma carta ao Ver\u00edssimo elogiando o obitu\u00e1rio, mas dizendo que ele, Ver\u00edssimo, deveria retirar este trecho para o caso de uma futura publica\u00e7\u00e3o em livro do texto&#8221;, comenta Campos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Eu n\u00e3o o teria chamado mulato e penso que nada lhe doeria mais do que essa s\u00edntese&#8221;, anotou Nabuco.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Rogo-lhe que tire isso, quando reduzir os artigos a p\u00e1ginas permanentes. A palavra n\u00e3o \u00e9 liter\u00e1ria e \u00e9 pejorativa. O Machado para mim era branco, e creio que por tal se tomava: quando houvesse sangue estranho, isso em nada afetava sua perfeita caracteriza\u00e7\u00e3o cauc\u00e1sica. Eu pelo menos s\u00f3 vi nele o grego.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">H\u00e1 outro registro contempor\u00e2neo a Machado sobre como os outros o viam. Trata-se do livro &#8216;Machado de Assis: Estudo comparativo de literatura brasileira&#8217;, publicado em 1897 pelo cr\u00edtico Sylvio Romero (1851-1914).<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Na obra, o autor afirma que Machado de Assis \u00e9 &#8220;um genu\u00edno representante da sub-ra\u00e7a brasileira cruzada, por mais que pare\u00e7a estranho tocar neste ponto&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Mas a cr\u00edtica n\u00e3o existe para ser agrad\u00e1vel aos preconceitos dos homens, que devem ter \u00e2nimo bastante para libertar-se de infundados preju\u00edzos&#8221;, prossegue Romero.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Sim, Machado de Assis \u00e9 um brasileiro em regra, um n\u00edtido exemplar dessa sub-ra\u00e7a americana que constitui o tipo diferencial de nossa etnografia, e sua obra inteira n\u00e3o desmente a sua fisiologia [\u2026]. Com certeza n\u00e3o o molesto, falando assim; e n\u00e3o pode ser por outro modo.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Para Campos, &#8220;dentro da perspectiva racista de Sylvio Romero, ele ataca e diminui o Machado de Assis, qualificando-o como mesti\u00e7o [com a express\u00e3o &#8216;sub-ra\u00e7a brasileira&#8217;]&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Filho de um descendente de escravos alforriados, Francisco Jos\u00e9 de Assis, e de uma lavadeira portuguesa oriunda dos A\u00e7ores, Maria Leopoldina Machado da C\u00e2mara, o escritor foi fotografado algumas vezes \u2014 mas a baixa qualidade das imagens e o fato de serem em preto e branco, dadas as limita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas da \u00e9poca, ainda hoje suscitam debates sobre qual seria a real cor de sua pele.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h2 id=\"Biografias\" class=\"bbc-1lgzob2 eglt09e0\" tabindex=\"-1\">Biografias<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-18ywsw9\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/b201\/live\/a2547070-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp\" sizes=\"auto, (min-width: 1008px) 760px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/240\/cpsprodpb\/b201\/live\/a2547070-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/320\/cpsprodpb\/b201\/live\/a2547070-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/480\/cpsprodpb\/b201\/live\/a2547070-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/624\/cpsprodpb\/b201\/live\/a2547070-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/775\/cpsprodpb\/b201\/live\/a2547070-5de9-11ee-ba14-0385650a0b66.jpg.webp 775w\" alt=\"Machado de Assis em 1904\" width=\"775\" height=\"960\" \/><\/p>\n<p class=\"bbc-by8ykd\" role=\"text\">Machado de Assis em 1904<\/p>\n<\/div>\n<\/figure>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Em artigo publicado nos anais do VI Semin\u00e1rio do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Literatura Brasileira, de agosto de 2020, Raquel Campos analisou a &#8220;cor e a identidade racial&#8221; nas biografias escritas sobre Machado de Assis.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Compilado de confer\u00eancias proferidas entre 1915 e 1917, &#8216;Machado de Assis&#8217;, do advogado, jornalista e cr\u00edtico Alfredo Pujol (1865-1930) traz apenas duas men\u00e7\u00f5es raciais sobre o escritor. Logo no in\u00edcio, ele pontua que seu biografado era filho de &#8220;um casal de gente de cor&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Em seguida, quando ele descreve os primeiros anos de sua carreira de colaborador de jornal, enfatiza sua conviv\u00eancia com &#8220;as agruras criadas pela inferioridade de seu nascimento, pelos preconceitos de cor, pela sua grande pobreza&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">At\u00e9 hoje considerada a mais influente biografia de Machado, a obra de L\u00facia Miguel Pereira (1901-1959), &#8216;Machado de Assis: estudo cr\u00edtico e biogr\u00e1fico&#8217;, de 1936, insiste bastante no aspecto racial do escritor. Segundo a an\u00e1lise de Campos, ela prefere cham\u00e1-lo de &#8220;mulatinho&#8221; mas tamb\u00e9m usa os termos &#8220;mesti\u00e7o&#8221; e &#8220;pardinho&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">A ideia de Pereira era abordar Machado como algu\u00e9m que nasceu com tr\u00eas grandes dificuldades \u2014 a pobreza, a cor e a epilepsia, da qual sofria \u2014 e, mesmo assim, ao superar essas quest\u00f5es, conseguiu vencer e se tornar o maior da literatura brasileira.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Na conversa com a reportagem, a professora Campos ressaltou que essa biografia tem muitas informa\u00e7\u00f5es contestadas, mas que ali est\u00e1 dito que Machado &#8220;n\u00e3o gostava de refer\u00eancias \u00e0 sua cor&#8221;e &#8220;que nunca utilizava a palavra mulato&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Em &#8216;A Vida de Machado de Assis&#8217;, de 1965, o escritor e advogado Luiz Viana Filho (1908-1990) pouco se refere \u00e0 cor e \u00e0 identidade racial de Machado, embora recupere a ideia de que ele era &#8220;como um grego&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Mas h\u00e1 um ponto curioso trazido por esta obra: uma an\u00e1lise do ensa\u00edsta e jornalista Peregrino J\u00fanior (1898-1983) que aborda o &#8220;embranquecimento&#8221; de Machado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Viana Filho v\u00ea com naturalidade que o escritor, &#8220;uma flor da civiliza\u00e7\u00e3o&#8221;, houvesse optado por uma imagem mais caucasiana para ilustrar seu livro &#8216;Poesias Completas&#8217;, de 1901.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Para o bi\u00f3grafo, o &#8220;tempo depurou a fisionomia de Machado, fazendo-o perder gradativamente os tra\u00e7os do mesti\u00e7o&#8221; e &#8220;ao fim da vida dificilmente se dir\u00e1 n\u00e3o ser um ariano&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Em &#8216;Vida e Obra de Machado de Assis&#8217;, de 1981, o jornalista e teatr\u00f3logo Raymundo Magalh\u00e3es J\u00fanior (1907-1981) classifica o escritor como &#8220;amulatado&#8221; e diz que, quando havia ficado noiva dele, Carolina Xavier de Novais (1835-1904) teria afirmado que iria se casar com &#8220;um homem de cor&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O professor de literatura franc\u00eas Jean-Michel Massa (1930-2012), em &#8216;A Juventude de Machado de Assis&#8217;, de 1971, traz um subcap\u00edtulo chamado &#8220;J. M. Machado de Assis, um mesti\u00e7o&#8221;, no qual afirma que ele \u201c\u00e9, parece, mesti\u00e7o\u201d. Mas tamb\u00e9m pontua que &#8220;como muitos brasileiros, n\u00e3o \u00e9 nem um homem de cor, nem,\u00a0<i class=\"bbc-h1y5j7 eih42320\">strictu sensu<\/i>, um homem branco&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8216;Machado de Assis, Um G\u00eanio Brasileiro&#8217;, livro de 2005 escrito pelo jornalista Daniel Piza (1970-2011) foi a \u00faltima das biografias contempladas pela professora Campos em seu artigo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Ela ressalta que, nele, &#8220;s\u00e3o esparsas as alus\u00f5es \u00e0 cor de Machado de Assis, que \u00e9 referido sempre, nessas ocasi\u00f5es, como mulato&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Lendo as biografias com os olhos do presente, chama a aten\u00e7\u00e3o a aus\u00eancia de classifica\u00e7\u00f5es de Machado de Assis como &#8216;negro'&#8221;, pontua a pesquisadora.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Apesar da origem humilde, desde muito cedo Machado teve o acolhimento das pessoas certas para ter a forma\u00e7\u00e3o autodidata que teve, aprendendo l\u00ednguas, como o franc\u00eas, e humanidades, fora dos cursos convencionais. Bem quisto no trabalho como funcion\u00e1rio p\u00fablico, bem como literato, embora n\u00e3o fosse uma unanimidade, Machado adquiriu o status que n\u00e3o se permitia a um homem negro, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, da\u00ed a busca para se come\u00e7ar a entender a inc\u00f3gnita de seu embranquecimento&#8221;, comenta o pesquisador Rissato.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Curioso \u00e9 que tendo acesso \u00e0s suas fotografias originais, vemos claramente os seus tra\u00e7os de homem mulato, o que deixa ainda mais inexplic\u00e1vel a cor &#8216;branca&#8217; indicada em seu atestado de \u00f3bito&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h2 id=\"Compreens\u00f5es-da-identidade-racial\" class=\"bbc-1lgzob2 eglt09e0\" tabindex=\"-1\">Compreens\u00f5es da identidade racial<\/h2>\n<\/div>\n<figure class=\"bbc-1qn0xuy\">\n<div class=\"bbc-18ywsw9\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"bbc-139onq\" src=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/640\/cpsprodpb\/a1f4\/live\/beff0050-5de9-11ee-954a-413268577267.jpg.webp\" sizes=\"auto, (min-width: 1008px) 760px, 100vw\" srcset=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/240\/cpsprodpb\/a1f4\/live\/beff0050-5de9-11ee-954a-413268577267.jpg.webp 240w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/320\/cpsprodpb\/a1f4\/live\/beff0050-5de9-11ee-954a-413268577267.jpg.webp 320w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/480\/cpsprodpb\/a1f4\/live\/beff0050-5de9-11ee-954a-413268577267.jpg.webp 480w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/624\/cpsprodpb\/a1f4\/live\/beff0050-5de9-11ee-954a-413268577267.jpg.webp 624w, https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/ace\/ws\/800\/cpsprodpb\/a1f4\/live\/beff0050-5de9-11ee-954a-413268577267.jpg.webp 800w\" alt=\"Machado de Assis, em foto feita por Marc Ferrez em 1890\" width=\"1395\" height=\"1880\" \/><\/p>\n<p class=\"bbc-by8ykd\" role=\"text\">Machado de Assis, em foto feita por Marc Ferrez em 1890<\/p>\n<\/div>\n<\/figure>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u00c0 reportagem, Campos comenta que &#8220;n\u00e3o sabemos se Machado se considerava negro mas, mais provavelmente no universo da especula\u00e7\u00e3o, considerando os testemunhos que temos, se ele se identificava racialmente provavelmente os termos que ele lidaria seriam &#8216;homem de cor&#8217; ou &#8216;mulato&#8217;, n\u00e3o \u2018negro'&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Ela lembra que, parte de seus pr\u00f3prios estudos, \u00e9 preciso compreender a maneira como as identidades raciais foram entendidas no Brasil do s\u00e9culo 19 e ao longo do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;H\u00e1 uma discuss\u00e3o que atravessa pela quest\u00e3o cultural, o conceito antropol\u00f3gico de cultura que enfatiza muito a singularidade do Brasil como uma na\u00e7\u00e3o mesti\u00e7a&#8221;, afirma.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Sabemos que no s\u00e9culo 19 e no 20, essa mesti\u00e7agem era entendida como fator de inferioridade, obst\u00e1culo ao desenvolvimento nacional. Isso explica o car\u00e1ter racial das pol\u00edticas de imigra\u00e7\u00e3o financiadas pelo Estado brasileiro, que selecionaram as popula\u00e7\u00f5es alvo considerando um ideal de embranquecimento da popula\u00e7\u00e3o nacional.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Nesse contexto, o embranquecimento do maior escritor brasileiro parecia fazer sentido.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;A partir da d\u00e9cada de 1930, o Machado de Assis come\u00e7a a ser visto como mesti\u00e7o, e a\u00ed o grande escritor nacional correspondia justamente a um exemplo da identidade nacional mesti\u00e7a. Machado de Assis passou ent\u00e3o a ser tratado fortemente como mulato&#8221;, acrescenta a professora.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Assim, ao longo de boa parte do s\u00e9culo 20 no Brasil, trat\u00e1-lo como mesti\u00e7o ou mulato parecia ser a maneira entendida como correta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Havia esse ideal de democracia racial brasileira, uma constru\u00e7\u00e3o criada, na verdade, para impedir o combate ao racismo estrutural\u201d, afirma Campos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">\u00c9 como se o Machado pudesse se assumir negro apenas em suas mem\u00f3rias p\u00f3stumas, a bem da verdade. E isto tem tudo a ver com a ascens\u00e3o do movimento negro. \u00c9 por isso que, observa ela, o escritor aparece como negro justamente quando \u00e9 &#8220;descoberto&#8221; pelos Estados Unidos, j\u00e1 nos anos 1960.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Nessa \u00e9poca, Magalh\u00e3es J\u00fanior come\u00e7a a recusar tal classifica\u00e7\u00e3o. Para o cr\u00edtico, o escritor brasileiro poderia ser considerado negro &#8216;do ponto de vista americano&#8217;. J\u00e1 &#8216;segundo os nossos padr\u00f5es&#8217;, seria mulato&#8221;, contextualiza a professora.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Para a especialista, \u00e9 ineg\u00e1vel que, sim, &#8220;houve um processo de embranquecimento de Machado&#8221; e isso est\u00e1 n\u00edtida na pr\u00f3pria certid\u00e3o de \u00f3bito, onde &#8220;fica expl\u00edcito o apagamento da cor&#8221;. Mas esse percurso n\u00e3o pode ser achatado em uma linha reta. \u00c9 permeado de complexidades culturais e sociais. &#8220;Uma quest\u00e3o controversa&#8221;, resume.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">No meio desse ent\u00e3o incipiente debate, a obra &#8216;Machado de Assis e o Hipop\u00f3tamo&#8217;, de 1960, \u00e9 interessante.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Ali, o jornalista e historiador Gondin da Fonseca (1899-1977) considera que levantar a quest\u00e3o da identidade racial de Machado \u00e9 que seria uma conduta racista.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Ele recupera essa perspectiva da democracia racial, dizendo que no Brasil todo mundo tem um pouco de sangue negro, todo mundo \u00e9 mesti\u00e7o, ent\u00e3o n\u00e3o daria para falar que alguns s\u00e3o brancos, outros s\u00e3o negros&#8221;, diz Campos.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O apagamento da cor de Machado de Assis, ent\u00e3o, tamb\u00e9m pode ter obedecido a essa perspectiva anacr\u00f4nica de racismo.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<h2 id=\"Hoje\" class=\"bbc-1lgzob2 eglt09e0\" tabindex=\"-1\">Hoje<\/h2>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Se para o mercado liter\u00e1rio norte-americano, Machado de Assis \u00e9 visto como um escritor negro desde os anos 1960, no Brasil essa perspectiva \u00e9 mais recente. Somente nos \u00faltimos anos, por exemplo, livros escolares passaram a defini-lo assim e as pr\u00f3prias fotografias dele passaram a ser restauradas de forma a enfatizar mais nitidamente aspectos afrodescendentes.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Al\u00e9m de reparar a hist\u00f3ria, tais esfor\u00e7os tamb\u00e9m ecoam pol\u00edticas afirmativas requisitadas pelo menos desde o fim dos anos 1970 pelo movimento negro no Brasil. Em 2021, a Universidade Zumbi dos Palmares lan\u00e7ou a campanha Machado de Assis Real, um abaixo-assinado para que as editoras deixem de imprimir e comercializar livros em que o escritor apare\u00e7a embranquecido.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Reitor da universidade, o advogado e educador Jos\u00e9 Vicente diz \u00e0 BBC News Brasil que a campanha foi realizada porque &#8220;a cada momento em que somos surpreendidos por mais um dos efeitos nocivos do racismo, que tenta apagar nossas exist\u00eancias, nossa hist\u00f3ria, entendemos e reafirmamos nossa miss\u00e3o e temos que agir&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Para ele, o embranquecimento de Machado torna &#8220;percept\u00edvel o reflexo de como o brasileiro enxerga as pessoas negras no pa\u00eds, sempre as colocando em posi\u00e7\u00f5es subordinadas e lhes tirando os pr\u00f3prios feitos&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;A publicidade tem uma enorme responsabilidade com a constru\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio e ao refor\u00e7ar estere\u00f3tipos, ao embranquecer um personagem t\u00e3o ic\u00f4nico do protagonismo negro na literatura temos a dimens\u00e3o de qu\u00e3o doente est\u00e1 nossa sociedade. N\u00e3o havia a possibilidade de nos silenciarmos. Como uma institui\u00e7\u00e3o educacional a Zumbi dos Palmares liderou a\u00e7\u00f5es com o vi\u00e9s de repara\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e conhecimento&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Desde o per\u00edodo p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam sido poucas as iniciativas para o embranquecimento da popula\u00e7\u00e3o negra. O processo de branqueamento pelo qual Machado de Assis veio passando diz respeito ao imagin\u00e1rio social que o povo brasileiro construiu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra, que \u00e9 vista como inferior e incapaz.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">O manifesto divulgado pela campanha sentenciava: &#8220;Machado de Assis era um homem negro. O racismo o retratou como branco&#8221;.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Em 2011, a Caixa Econ\u00f4mica Federal envolveu-se em uma pol\u00eamica ao divulgar um comercial exaltando o fato \u2014 verdadeiro \u2014 de que Machado de Assis mantinha uma caderneta de poupan\u00e7a no banco. O v\u00eddeo foi ao ar com uma gafe: o ator que representava o escritor era branco. A campanha foi retirada do ar, o banco desculpou-se publicamente; no ano seguinte, o mesmo material, reeditado e desta vez com um Machado de Assis negro, voltou a ser exibido.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Machado de Assis tamb\u00e9m consta em verbete da &#8216;Enciclop\u00e9dia Negra&#8217;, livro de 2021 de Fl\u00e1vio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">E vem sendo retratado assim n\u00e3o s\u00f3 em apostilas escolares, mas tamb\u00e9m em eventos p\u00fablicos, como a exposi\u00e7\u00e3o aberta no ano passado no Engenho Massangana, no Recife, que trouxe retratos de Jeff Alan de personalidades negras brasileiras, com destaque para Machado.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">Campos nota que h\u00e1 uma mudan\u00e7a na abordagem. Antes, quando se falava em intelectuais negros do s\u00e9culo 19, Machado n\u00e3o costumava constar no rol que agrupava nomes como Andr\u00e9 Rebou\u00e7as (1838-1898), Luiz Gama (1830-1882) e Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio (1853-1905).<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;At\u00e9 recentemente ele n\u00e3o ocupava esse lugar. Agora, sim&#8221;, pontua ela. &#8220;No Brasil de hoje, ele \u00e9, sim, um escritor negro.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">A professora Campos lembra que, &#8220;enquanto historiadora&#8221; que se debru\u00e7a sobre as quest\u00f5es de cor em Machado, sua fun\u00e7\u00e3o &#8220;n\u00e3o \u00e9 arbitrar essa quest\u00e3o&#8221;, mas sim mostrar como h\u00e1 uma historicidade nessa constru\u00e7\u00e3o. Machado de Assis ora visto como branco, como grego. Machado de Assis de cor. Machado de Assis mulato, mesti\u00e7o. Machado de Assis negro.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;H\u00e1 uma express\u00e3o que diz que Machado de Assis \u00e9 um escritor que nos l\u00ea. Por meio dele podemos pensar uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que dizem respeito \u00e0 hist\u00f3ria do Brasil, inclusive a complexidade de nossa quest\u00e3o racial, marcada por uma popula\u00e7\u00e3o que conheceu e conhece a miscigena\u00e7\u00e3o&#8221;, pontua ela.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;Tamb\u00e9m compreendemos um pouco da hist\u00f3ria da luta antirracista, da discrimina\u00e7\u00e3o racial. Tudo por meio da identidade racial de Machado de Assis&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">&#8220;A reivindica\u00e7\u00e3o de Machado de Assis como negro \u00e9 muito recente. E, insisto, do meu ponto de vista ela se explica por uma modifica\u00e7\u00e3o do que \u00e9 o pr\u00f3prio debate sobre ra\u00e7a, racismo, mesti\u00e7agem e identidade nacional. Isto levou a uma problematiza\u00e7\u00e3o dessa categoria de mulato em conson\u00e2ncia ao mito da democracia racial&#8221;, afirma Campos. &#8220;E levou a uma modifica\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o da identidade racial de Machado de Assis.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"bbc-19j92fr ebmt73l0\" dir=\"ltr\">\n<p class=\"bbc-hhl7in e17g058b0\" dir=\"ltr\">A quest\u00e3o, portanto, \u00e9 mais complicada ainda do que saber se Capitu traiu ou n\u00e3o Bentinho. Estas s\u00e3o as mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Machado de Assis. E n\u00e3o parecem haver vencedores para ficar com as batatas.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assinada pelo escriv\u00e3o Olympio da Silva Pereira, a certid\u00e3o de \u00f3bito de Joaquim Maria Machado de Assis, morto aos 69 anos em 29 de setembro de 1908, h\u00e1 115 anos, traz uma informa\u00e7\u00e3o curiosa, sen\u00e3o pol\u00eamica: a nona linha do formul\u00e1rio declara que sua cor era &#8220;branca&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":470734,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-470733","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/machado-de-assis.webp","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/470733","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=470733"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/470733\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/470734"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=470733"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=470733"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=470733"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}