{"id":47560,"date":"2014-03-03T08:33:19","date_gmt":"2014-03-03T11:33:19","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=47560"},"modified":"2014-03-03T08:33:19","modified_gmt":"2014-03-03T11:33:19","slug":"artista-plastica-resistiu-a-ditadura-com-frase-em-nome-da-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/artista-plastica-resistiu-a-ditadura-com-frase-em-nome-da-liberdade\/","title":{"rendered":"Artista pl\u00e1stica resistiu \u00e0 ditadura com frase em nome da liberdade"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em><strong>Artista pl\u00e1stica enfrentou militares e grafou em painel na UFMG mensagem de resist\u00eancia<\/strong><\/em><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"line-height: 1.5em;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"abanoticia\">\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td><img decoding=\"async\" title=\"Yara em frente \u00e0 sua obra na reitoria da universidade: cenas da Inconfid\u00eancia e a frase reproduzida sob o olhar dos militares. Foto: Ramon Lisboa\/Divulga\u00e7\u00e3o\" alt=\"Yara em frente \u00e0 sua obra na reitoria da universidade: cenas da Inconfid\u00eancia e a frase reproduzida sob o olhar dos militares. Foto: Ramon Lisboa\/Divulga\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/imgsapp.diariodepernambuco.com.br\/app\/noticia_127983242361\/2014\/03\/02\/492132\/20140302104037590805u.jpg\" border=\"0\" \/><\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Yara em frente \u00e0 sua obra na reitoria da universidade: cenas da Inconfid\u00eancia e a frase reproduzida sob o olhar dos militares. Foto: Ramon Lisboa\/Divulga\u00e7\u00e3o<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>13 de outubro de 1969. O pa\u00eds vive \u00e0 sombra do Ato Institucional n\u00famero 5 (AI-5). A autonomia universit\u00e1ria est\u00e1 na berlinda. Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) os alunos encaram o regime enfrentando aos gritos, esbarr\u00f5es e cadeiradas as incurs\u00f5es militares. Assim fora um ano antes durante a invas\u00e3o da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas (Fafich) e da Faculdade de Medicina. Em 1966, foi a vez da Faculdade de Direito. O corpo docente vive em suspense. No Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o, todos os dias, professores s\u00e3o mandados de volta para casa. O reitor da UFMG, Gerson Boson, que nesse dia, a convite do governo americano, costura na Universidade de Houston a forma\u00e7\u00e3o de um Centro Interamericano de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o na UFMG, \u00e9 a mais nova v\u00edtima. Em meio \u00e0 agenda internacional, \u00e9 informado de que foi \u201caposentado compulsoriamente\u201d pela Junta Militar no exerc\u00edcio da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Em Belo Horizonte, no momento em que se torna p\u00fablica a \u201ccassa\u00e7\u00e3o acad\u00eamica\u201d de Boson, no sagu\u00e3o da reitoria, a artista pl\u00e1stica e professora da Escola de Belas Artes Yara Tupynamb\u00e1, que tem um metro e meio de altura, est\u00e1 sobre um andaime. Observada por dois fardados armados, esbarra em um problema para terminar a sua obra: como grafar, naquele ambiente, a frase encomendada por Gerson Boson, toque final de seu maior painel sobre a Inconfid\u00eancia Mineira?. \u201cCondi\u00e7\u00e3o primeira para a cultura \u00e9 a liberdade\u201d, repete Yara mentalmente. \u201cV\u00e3o me deixar? V\u00e3o me prender?\u201d, interroga-se a artista. \u201cDes\u00e7o do andaime e encerro pelo dia\u201d, recorda-se ela 45 anos depois. De volta para casa, Yara, ent\u00e3o com 37 anos, consulta o pai, Ot\u00e1vio Gordilho, diretor da Rede Ferrovi\u00e1ria Federal, um udenista convicto. Ouve a bronca: \u201cN\u00e3o te avisei para n\u00e3o mexer com comunista? Mexeu? Agora voc\u00ea tem de cumprir a sua palavra\u201d.<\/p>\n<p>No dia seguinte, de novo montada sobre o andaime, Yara continua observada. A presen\u00e7a ostensiva de militares na reitoria assim seguiria pelos pr\u00f3ximos dois meses, at\u00e9 a nomea\u00e7\u00e3o do novo reitor, Marcelo Vasconcelos Coelho, em 13 de dezembro de 1969. M\u00e3o tr\u00eamula, come\u00e7a a grafar. \u201cCondi\u00e7\u00e3o primeira para a \u2026\u201d. Vem um coronel que naqueles dias entra e sai da reitoria com desenvoltura. \u201cEle me pergunta o que vou escrever\u201d. Yara ri meio amarelo, e diz: \u201cEspera um minutinho, j\u00e1 estou acabando\u201d.<\/p>\n<p>O painel a Inconfid\u00eancia Mineira que acabava de concluir ap\u00f3s dois anos de exaustiva pesquisa e trabalho, \u00e9 um marco em sua carreira. Poucos dias depois de assumir a reitoria da UFMG, em fevereiro de 1967, Gerson Boson a chamara: \u201cProfessora, quero que pinte um quadro de Tiradentes\u201d. Yara indagou-lhe: \u201cOnde vai ficar?\u201d. Boson explicou: \u201cNo sagu\u00e3o da reitoria\u201d. Em um insight muito espont\u00e2neo, a artista retrucou, sem de fato dimensionar o tamanho da tarefa: \u201cVamos fazer a Inconfid\u00eancia Mineira\u201d. Na \u00e9poca, Yara ministrava as aulas no curso de belas-artes pela manh\u00e3. No hor\u00e1rio da tarde ficaria encarregada da nova tarefa. \u201cQuando vi o tamanho da parede, ca\u00ed em mim\u201d, conta.<\/p>\n<p>Por um ano Yara pesquisou. Leu os Autos da devassa, estudou os costumes, os trajes, o mobili\u00e1rio do s\u00e9culo 18. Fez croquis. Mas a ideia mestra, o fio condutor que amarraria o painel, n\u00e3o vinha. Ao longo daquele ano de 1967, toda vez que se encontrava com Gerson Boson pelos corredores da UFMG, ouvia a pergunta: \u201cComo est\u00e1 o trabalho?\u201d. Em mar\u00e7o de 1968, Yara voltou a Ouro Preto para colher mais material e desenhar mais objetos da \u00e9poca. \u201cTrabalhei o dia inteiro. Fui me deitar \u00e0 noite, mas \u00e0s 3h acordei. Enxerguei a primeira cena. Tinha de come\u00e7ar com Felipe dos Santos. Cena a cena vieram \u00e0 minha mente. As mulheres chorando, o encontro dos inconfidentes, Maria I com os decretos, as ideias chegaram concatenadas\u201d, explica a artista.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, nos meses seguintes, o painel ganhou forma e enredo. Em outubro de 1969, v\u00e9spera do afastamento compuls\u00f3rio de Gerson Boson, a obra ganhava as \u00faltimas pinceladas. E ali, naquele momento, sob o olhar atento fardado, Yara termina de grafar: \u201cCondi\u00e7\u00e3o primeira para a cultura \u00e9 a liberdade\u201d. Nos termos de Maria Ottilia Lopes Boson, de 86 anos, vi\u00fava de Gerson Boson: \u201cAchamos que eles n\u00e3o iriam deixar a frase. A Yara a defendeu com unhas e dentes\u201d. A partir da\u00ed, por uma semana, o ir e vir de Yara Tupynamb\u00e1 \u00e0 Escola de Belas Artes passou a ter a companhia ostensiva de militares. \u201cDurou um tempo, mas passou\u201d, diz a artista. A obra n\u00e3o.<\/p>\n<p>Discurso em tempos dif\u00edceis<\/p>\n<p>Em substitui\u00e7\u00e3o ao professor Alu\u00edsio Pimenta \u2013 que desde a sua posse ,em 21 de fevereiro de 1964, v\u00e9spera do golpe militar, acumulou muitos embates em defesa da autonomia universit\u00e1ria com o general Carlos Lu\u00eds Guedes, comandante da 4\u00aa Divis\u00e3o de Infantaria de Minas Gerais \u2013, Gerson Boson assumiu a reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 22 de fevereiro de 1967. Catedr\u00e1tico de direito internacional p\u00fablico da Faculdade de Direito, politicamente Boson tinha liga\u00e7\u00f5es com o governo Israel Pinheiro, muito pr\u00f3ximo ao ex-presidente da Rep\u00fablica, \u00e0quela altura cassado, Juscelino Kubistchek.<\/p>\n<p>O discurso de Boson proferido na posse dava a dimens\u00e3o de sua concep\u00e7\u00e3o de cultura: \u201cAspirar \u00e0 cultura significa efetivamente participar e intervir em tudo quanto, na natureza e na hist\u00f3ria, \u00e9 essencial ao mundo\u201d. Para isso, \u00e9 preciso liberdade: \u201cCondi\u00e7\u00e3o primeira e fundamental da cultura \u00e9 a liberdade, como atuante e individual espontaneidade do esp\u00edrito humano\u201d.<\/p>\n<p>Eram tempos dif\u00edceis. O regime autorit\u00e1rio-militar endurece a cada nova edi\u00e7\u00e3o de atos institucionais. E a UFMG, percebida nas hostes militares como \u201cantro de comunistas e de subversivos\u201d, est\u00e1 na linha de frente. Em 9 de julho de 1964, o reitor Alu\u00edsio Pimenta chega a ser deposto em nome \u201cde interven\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria\u201d do general Guedes. Foi nomeado um interventor. Pimenta retomou a cadeira dias depois, comandando a universidade em tens\u00e3o permanente com o Ex\u00e9rcito. Enfrentou, por exemplo, em 1966, o s\u00edtio da Pol\u00edcia Militar \u00e0 Faculdade de Direito, na Pra\u00e7a Afonso Arinos, durante um encontro de estudantes. N\u00e3o \u00e0 toa, foi \u201caposentado\u201d com base no AI-5.<\/p>\n<p>Foram muitas as investidas do regime \u00e0 UFMG. Em 1968, mais de 200 estudantes foram presos numa invas\u00e3o da Faculdade de Medicina, na Avenida Alfredo Balena, que come\u00e7ou com uma batalha nas ruas e terminou dentro do pr\u00e9dio da escola. Em 5 de outubro de 1968, foi a vez da invas\u00e3o da Faculdade de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas (Fafich). A Pol\u00edcia Militar cercou o pr\u00e9dio para prender l\u00edderes estudantis. Democrata, Boson era tido pelo regime como \u201comisso\u201d, por n\u00e3o respaldar a a\u00e7\u00e3o militar e a \u201cca\u00e7a subsersiva\u201d ao corpo docente e discente.<\/p>\n<p>Em ato de Junta Militar que governou com a doen\u00e7a de Arthur da Costa e Silva, Gerson Boson foi aposentado compulsoriamente em 13 de outubro de 1969, sem concluir o seu mandato de reitor. \u201cEu tinha 15 anos. Ele ficou muito abatido. O epis\u00f3dio mexeu muito com as nossas vidas, pois a academia era a vida dele\u201d, conta a filha Patr\u00edcia Boson. D\u00e9cadas mais tarde, Gerson Boson conseguiu anular o ato na Justi\u00e7a. Mesmo depois de muito pesquisar, ele morreu em 2001, aos 87 anos, sem encontrar o documento nem identificar quem foram os signat\u00e1rios.<\/p><\/div>\n<div>\n<div>Fonte: Estado de Minas<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artista pl\u00e1stica enfrentou militares e grafou em painel na UFMG mensagem de resist\u00eancia<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":47561,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-47560","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cotidiano"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/dona.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47560","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47560"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47560\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47561"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47560"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47560"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47560"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}