{"id":479400,"date":"2025-02-19T00:47:35","date_gmt":"2025-02-19T03:47:35","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=479400"},"modified":"2025-02-19T16:32:18","modified_gmt":"2025-02-19T19:32:18","slug":"os-vaqueiros-e-a-inventiva-dos-sertoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/os-vaqueiros-e-a-inventiva-dos-sertoes\/","title":{"rendered":"Os vaqueiros e a inventiva dos sert\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por: Robson Rodrigues de Souza<\/strong><\/p>\n<p><strong>Para o A\u00e7\u00e3o Popular (AP)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00e3o antigo quanto a pr\u00f3pria ocupa\u00e7\u00e3o colonial portuguesa, o of\u00edcio de vaqueiro remonta aos anos de 1550, quando os primeiros cascos de gado pisaram o solo sul-americano sob o c\u00e9u das Terras Brasilis. No governo de Tom\u00e9 de Souza, o gado era solto nos engenhos de cana-de-a\u00e7\u00facar do litoral, confundindo-se com a do\u00e7ura da riqueza colonial. Contudo, a multiplica\u00e7\u00e3o desenfreada dos animais logo transformou a b\u00ean\u00e7\u00e3o em tormento, os canaviais, sufocados pelo tropel de cascos, tomavam graves preju\u00edzos. A Coroa Portuguesa, ent\u00e3o, decreta a proibi\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o de gado a menos de 70 quil\u00f4metros do litoral, expulsando os rebanhos para as entranhas do sert\u00e3o. Assim, como um rio que rompe barragens, as boiadas partiram em dire\u00e7\u00e3o ao desconhecido, conduzidas por homens cujos costumes culturais inventariam os Sert\u00f5es.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-479409 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro-velho-375x500.jpg\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro-velho-375x500.jpg 375w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro-velho-225x300.jpg 225w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro-velho-768x1024.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro-velho-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro-velho-160x213.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro-velho-640x853.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro-velho.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No S\u00e9culo XVI, com a desterro do gado do litoral, o rio Itapicuru torna-se uma via natural para a interioriza\u00e7\u00e3o do gado. Os primeiros currais surgem nas margens do rio, marcando o in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio que ligaria o litoral ao sert\u00e3o baiano. Pelas veredas secas do Nordeste, os vaqueiros desbravaram l\u00e9guas de caatinga, desenhando com suor e couro uma geografia humana at\u00e9 ent\u00e3o indomada. A cada lua, a cada riacho atravessado, nascia a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o do couro\u201d, sociedade moldada pela aspereza do sol, pela linguagem dos animais e pela arte de sobreviver onde a terra parece negar a vida. Ao longo do extenso horizonte entre a Casa da Torre e o Itapicuru, vilas surgiram como o verde brota no sert\u00e3o ap\u00f3s uma tormenta, espalhando a gen\u00e9tica dos cavaleiros da coroa sertaneja, fundidos a golpes das intemp\u00e9ries nas terras da avers\u00e3o humana. Ali, o vaqueiro era ao mesmo tempo cart\u00f3grafo, poeta e guerreiro, transformando ch\u00e3o \u00e1rido em p\u00e1tria.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-479410 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueirinho-335x500.jpg\" alt=\"\" width=\"335\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueirinho-335x500.jpg 335w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueirinho-201x300.jpg 201w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueirinho-768x1147.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueirinho-1028x1536.jpg 1028w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueirinho-160x239.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueirinho-640x956.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueirinho.jpg 1071w\" sizes=\"auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XVII, a fam\u00edlia D\u2019\u00c1vila, dona da Casa da Torre, consolidou seu poder ao expandir dom\u00ednios pelas margens do rio Itapicuru, erguendo \u201ccasas-de-fazenda\u201d que funcionavam como n\u00facleos administrativos e defensivos. Essas estruturas, misto de baluartes e centros produtivos, deram origem a povoados estrat\u00e9gicos, como Monte Santo, fundado em 1775 como arraial religioso ap\u00f3s a descoberta de uma cruz supostamente milagrosa no alto da Serra Picuara\u00e7\u00e1, (hoje Monte Santo tem uma das maiores e mais tradicionais festas religiosas da Bahia).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-479411 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueira-335x500.jpg\" alt=\"\" width=\"335\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueira-335x500.jpg 335w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueira-201x300.jpg 201w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueira-768x1147.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueira-1028x1536.jpg 1028w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueira-160x239.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueira-640x956.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueira.jpg 1071w\" sizes=\"auto, (max-width: 335px) 100vw, 335px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no s\u00e9culo XVIII, a bacia do Itapicuru solidificou-se como eixo econ\u00f4mico do sert\u00e3o, integrando feiras de gado, como a movimentada Capim Grosso, a incipientes aglomerados como Uau\u00e1. A pecu\u00e1ria, alicerce dessa economia, teceu rotas comerciais que levavam couro, carne seca e queijo para os mercados de Salvador e Recife, enquanto Uau\u00e1, inicialmente um pequeno entreposto, ascendeu como ponto vital de descanso para tropeiros e vaqueiros em tr\u00e2nsito para cidades da regi\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-479412 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro1-620x465.jpg\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"465\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro1-620x465.jpg 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro1-300x225.jpg 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro1-768x576.jpg 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro1-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro1-80x60.jpg 80w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro1-118x88.jpg 118w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro1-160x120.jpg 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro1-640x480.jpg 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro1.jpg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas fazendas que margeavam o Itapicuru, o gado n\u00e3o era apenas riqueza, mas moeda viva, s\u00edmbolo de poder que sustentava uma sociedade rigidamente estratificada. Os &#8220;senhores da terra&#8221;, donos de latif\u00fandios que se perdiam no horizonte, comandavam imp\u00e9rios particulares, enquanto os vaqueiros, muitas vezes agregados ou moradores que recebiam permiss\u00e3o para criar alguns bois pr\u00f3prios em troca de servi\u00e7os, eram a for\u00e7a motriz dessa engrenagem. A rela\u00e7\u00e3o, embora revestida de um \u2019paternalismo\u2019 que simulava la\u00e7os de lealdade, era profundamente desigual, em troca de sal\u00e1rios \u00ednfimos ou da &#8220;partilha&#8221; onde o vaqueiro tinha direito a um quarto das crias de cinco em cinco anos. Os vaqueiros entregavam jornadas extenuantes, riscos di\u00e1rios na caatinga e submiss\u00e3o a um sistema que os mantinha \u00e0 margem da prosperidade. Essa din\u00e2mica, por\u00e9m, n\u00e3o apagava seu papel central, pois eles eram quem dominava os segredos do sert\u00e3o, garantindo a sobreviv\u00eancia do gado, e, por extens\u00e3o, do poder dos coron\u00e9is.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O VAQUEIRO E A F\u00c9 NA TERRA.<br \/>\nEram eles os cronistas do sert\u00e3o, os que marcavam o compasso da vida sob um c\u00e9u de contradi\u00e7\u00f5es, anunciavam as cheias fugidias que traziam esperan\u00e7a, enfrentavam as secas esfaimadas que engoliam sonhos, organizavam as festas de santos, onde o sagrado e o profano dan\u00e7avam ao som do p\u00e9 de bode, e lideravam as preces coletivas a um Deus que, muitas vezes, parecia surdo. Vestiam armaduras talhadas na aspereza do couro: o gib\u00e3o, escudo contra espinhos cortantes, o guarda-peito ornado \u00e0 luz do sol inclemente, as perneiras amarradas como bandagens de guerra, recebendo os golpes dos galhos das pereiras adelga\u00e7adas, o chap\u00e9u de couro de abas curtas, coroa do sertanejo. Nos cintos, punhais cintilantes, que viriam a ser as adagas dos cangaceiros e na m\u00e3o direita a guiada, uma lan\u00e7a com ponta de a\u00e7o afiado, instrumento de comando t\u00e3o simb\u00f3lico quanto o cetro de um rei. Ao avan\u00e7ar pela caatinga, seu traje ganhava as cores da terra, o p\u00f3 vermelho dos curundunduns grudava-lhes na pele, o perfume das flores do quebra fac\u00e3o misturava-se ao suor, e os espinhos de jurema preta escreviam hist\u00f3rias de cicatrizes nas suas roupas. N\u00e3o havia distin\u00e7\u00e3o entre homem e sert\u00e3o, o vaqueiro era geografia viva, uma extens\u00e3o da terra que o moldara em corpo e alma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas noites de lua cheia, quando o c\u00e9u virava um manto de prata, reuniam-se em torno de fogueiras que cuspiam labaredas dan\u00e7antes. Ali, entre o chiar dos grilos e o uivo dos ventos, narravam odes das sombras, hist\u00f3rias de currais assombrados por bois mandingueiros, de amores proibidos que atravessavam rios secos, de milagres t\u00e3o improv\u00e1veis quanto chuva em agosto. O berrante feito de chifres, pendurado no ombro, n\u00e3o era instrumento musical, era o elo entre sua gera\u00e7\u00e3o matreira e seus ancestrais ibericos. Seu lamento agudo ecoava como um fado sertanejo, entoando saudades das terras deixadas no litoral, das terras ent\u00e3o conquistadas a ferro e fome, das terras prometidas al\u00e9m do horizonte, onde talvez repousasse um sert\u00e3o menos cruel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi nesse arib\u00e9 de hist\u00f3rias que se forjou o alicerce das primeiras cidades. Cada curral transformado em povoado, cada casa-de-fazenda erguida como forte, cada feira de gado que germinou pra\u00e7a p\u00fablica, como a nossa S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, tudo carregava a marca invis\u00edvel das m\u00e3os calejadas dos vaqueiros. Enquanto o Brasil oficial nascia nas cartas jesu\u00edticas e nos decretos reais, o Brasil profundo brotava ali, na capricho cotidiano daqueles homens que, sem saber, escreviam com seus rol\u00f3s e berrantes a \u2018Constitui\u00e7\u00e3o\u2019 do sert\u00e3o. Her\u00f3is sem est\u00e1tuas, protagonistas de um poema \u00fanico, tornaram-se os arquitetos de um Brasil ainda em gesta\u00e7\u00e3o, \u00e1spero, r\u00fastico e indom\u00e1vel como eles pr\u00f3prios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">RELA\u00c7\u00d5ES DE TRABALHO E SANGUE<br \/>\nA teia de poder no sert\u00e3o se entrela\u00e7ava por fios de afeto calculado. Era pr\u00e1tica comum entre os coron\u00e9is oferecer um filho ao vaqueiro para batizar, transformando-o em compadre, la\u00e7o sagrado que, nas entrelinhas, era algema dourada. O gesto, aparentemente generoso, sacramentava uma servid\u00e3o disfar\u00e7ada de fam\u00edlia, o vaqueiro, agora &#8220;parente&#8221; simb\u00f3lico, dificilmente reivindicaria sal\u00e1rios atrasados ou romperia com o cl\u00e3 que o &#8220;honrara&#8221;. Em troca, ganhava o status de pequena nobreza r\u00fastica, o direito de exibir no sobrenome a migalha de um ilustre. Muitos repetiam o ritual na dire\u00e7\u00e3o inversa, batizando um filho do patr\u00e3o, numa dan\u00e7a de compadrios cruzados que perpetuava a ilus\u00e3o de igualdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu pai, vaqueiro desde os 15 anos, desconfiou desse teatro de cordialidade. Enquanto outros aceitavam a honra de ser &#8220;tio&#8221; do filho do coronel em troca de d\u00edvidas perp\u00e9tuas, ele arquitetou sua pr\u00f3pria inventiva. Aos 35 anos, n\u00e3o quis gado, terras ou ouro, preferiu um cora\u00e7\u00e3o. Maria Dasdores, a filha mais bonita do senhor Milton Rodrigues, herdeira da temida linhagem do Coronel Pombo Rodrigues, fugiu com ele numa noite sem lua, levando apenas um vestido amarrotado e uma B\u00edblia. N\u00e3o houve tiros ou persegui\u00e7\u00f5es \u00e9picas, mas a aud\u00e1cia de um amor que desafiou s\u00e9culos de hierarquia foi seu grito de independ\u00eancia. Com a mesma ast\u00facia que usava para desviar boiadas de precip\u00edcios, ele transformou o alvoro\u00e7o em alicerce, o casamento, inicialmente visto como ofensa, tornou-se ponte entre dois mundos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto velhos compadres morriam pobres e leais aos patr\u00f5es, meu pai ergueu seu pr\u00f3prio legado, n\u00e3o com as armadilhas do sangue fict\u00edcio, mas com o sangue quente de quem ousou reescrever as regras. Seu curral nunca foi o maior, mas cada res marcada com seu ferro carregava um verso intang\u00edvel, o de que mesmo no sert\u00e3o im\u00f3vel, um homem pode ser dono do pr\u00f3prio passo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">SABEDORIA E TRADI\u00c7\u00d5ES HEREDIT\u00c1RIAS<br \/>\nA transmiss\u00e3o do saber vaqueiro n\u00e3o se dava por escrituras, mas pelo sangue e pelo vento. De pai para filho, flu\u00edam t\u00e9cnicas, al\u00e9m da pratica, uma cosmogonia inteira, os velhos, s\u00e1bios ambulantes do sert\u00e3o, ensinavam a ler o mundo em c\u00f3digos que a ci\u00eancia jamais decifraria. Nas noites sob o v\u00e9u estrelado, desvendavam as constela\u00e7\u00f5es do catingueiro, mapas celestes onde a Ursa Maior virava &#8220;Rastro do Boi Desgarrado&#8221; e o Cruzeiro do Sul anunciava a hora de migrar. Durante o dia, revelavam os segredos das ervas que sangram cura, as batatas de umbuzeiro pra matar a sede, o juazeiro que cicatriza feridas abertas, das ora\u00e7\u00f5es que amansavam fogo, rezas trazidas da heran\u00e7a ib\u00e9rica, e das trilhas de redemoinho, aquelas que s\u00f3 existem entre o nascer e o pino do sol, quando a sombra \u00e9 breve como a vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O vaqueiro n\u00e3o dominava a caatinga, tornava-se meio dela. Aprendeu a escutar o grito calado que precede a chuva, a ler nas pedras o rastro de uma cascavel de sete \u2018ventas\u2019, a descobrir \u00e1gua escondida em veios subterr\u00e2neos mais finos que o pr\u00f3prio tempo. Sua f\u00e9 era um retalho de devo\u00e7\u00f5es, nas promessas a S\u00e3o Pedro, entoadas em aboios apelativos, desejando alcan\u00e7ar trovoadas, nas rezas m\u00edsticas oriundas dos tupinamb\u00e1s, nos santos de barro ou esculpidos em madeira de umburana, no uso do escapul\u00e1rio de senhor do Bonfim, adorava-se tanto o Cristo quanto a Jurema, entidade das ra\u00edzes profundas. Essa espiritualidade m\u00edstica n\u00e3o era sincretismo, era sobreviv\u00eancia po\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na &#8220;ferra&#8221; do gado, onde o ferro em brasa marcava a pele do animal como tatuagem de posse, aprendia-se que hierarquia e respeito s\u00e3o irm\u00e3os. Nas tigelas de barro para a ordenha do leite, o ritmo das m\u00e3os no \u00fabere demostrava intimidade com o pulsar da pr\u00f3pria terra. No aboio, canto sem letra que atravessava l\u00e9guas, codificavam-se mensagens de lamento, saudade ou chamado. Nas cacimbas cavadas \u00e0 punho, guardava-se n\u00e3o s\u00f3 \u00e1gua, mas o juramento de que o sert\u00e3o jamais deixaria de ser promessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ci\u00eancia da resist\u00eancia concedeu aos vaqueiros uma autoridade que o dinheiro n\u00e3o compra, eram os xam\u00e3s do agreste, consultados at\u00e9 por coron\u00e9is em tempos de seca. Sua expertise moldou a geografia econ\u00f4mica do sert\u00e3o, as trilhas abertas por boiadas viraram estradas como a que liga Monte Santo a Uau\u00e1 ou a Cura\u00e7\u00e1. Currais de gado transformaram-se em cidades, e t\u00e9cnicas ancestrais, como o rod\u00edzio de pastos, quintais de forrageiras e o uso de plantas medicinais, hoje s\u00e3o a\u00e7\u00f5es de combate as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, antevendo em s\u00e9culos a no\u00e7\u00e3o de sustentabilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, enquanto o Brasil constru\u00eda suas metr\u00f3poles de concreto e a\u00e7o, o sert\u00e3o erguia do barro seu reino imagin\u00e1rio. Alicerces feitos de rastros, mitos e cicatrizes, onde cada vaqueiro era pedra fundamental. Seu legado n\u00e3o est\u00e1 nos mapas, mas no cheiro do couro cru ao sol, no gemido do berrante ao entardecer, e na teimosia de quem ainda encontra vida onde o mundo imp\u00f5e escassez. E de alpendre em alpendre sert\u00e3o a dentro, a escola da vida deu a maior li\u00e7\u00e3o ao nosso povo: no sert\u00e3o se sobrevive com simplicidade.<\/p>\n<p>Os vaqueiros n\u00e3o foram apenas trabalhadores, mas \u2018agentes civilizat\u00f3rios\u2019 Sua coragem permitiu a ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas in\u00f3spitas, transformando o sert\u00e3o em espa\u00e7o produtivo. Ao longo dos s\u00e9culos, esses homens de couro tornaram-se os arquitetos da mem\u00f3ria sertaneja. Sua luta contra a aridez transcendia a mera sobreviv\u00eancia, era um ato de cria\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, um di\u00e1logo \u00edntimo com a terra que os desafiava. Nas secas c\u00edclicas, quando o gado definhava e o c\u00e9u virava afli\u00e7\u00e3o, o vaqueiro permanecia como guardi\u00e3o de um pacto imemorial. Sua exist\u00eancia ressoava os contra ponto dos sert\u00f5es, devastador e generoso, cruel e maternal, eterno ef\u00eamero. Sua sabedoria o fez aproveitar da caatinga os recursos para salvar seu gado. Encontrar \u00e1guas nas cacimbas de sua pr\u00f3pria inconsci\u00eancia. Curar as doen\u00e7as com as cascas do tempo. Estudar os ventos para seguir as rotas das chuvas espa\u00e7as. Aprender que o sert\u00e3o nunca \u00e9, sempre est\u00e1. E onde hoje h\u00e1 fartura, amanh\u00e3 pode haver falta, e onde o amanh\u00e3 promete trovoada poder\u00e1 haver desgra\u00e7a. Eis que estes homens se acostumaram a grugulhar naquelas paragens, e por elas foram forjados e lapidados diamantes da resist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Legado que resistiu \u00e0 ferrugem dos S\u00e9culos<br \/>\nQuando o vento sopra sobre o sert\u00e3o da Bahia, ainda \u00e9 poss\u00edvel ouvir o eco dos aboios que atravessaram gera\u00e7\u00f5es. Os vaqueiros, n\u00e3o s\u00e3o apenas figuras do passado, s\u00e3o guardi\u00f5es de uma identidade que resiste \u00e0s intemp\u00e9ries do tempo. Suas hist\u00f3rias revivem nos currais de tronco, nas festas de vaquejada, nas preces a S\u00e3o Pedro pedindo chuva, nas rugas dos velhos que ainda lembram o nome de cada res perdida.<br \/>\nHoje a profiss\u00e3o de vaqueiro \u00e9 reconhecida atrav\u00e9s da lei federal n\u00ba 12.870, de 15 de outubro de 2013 e seu valor cultural atrav\u00e9s do decreto estadual n\u00ba 13.150 de 09 de agosto de 2011, como bem cultural de natureza imaterial e patrim\u00f4nio art\u00edstico e cultural da Bahia. Em Uau\u00e1 existem v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es culturais provindas do vaqueiro, a mais tradicional e importante, acontece no dia 22 de junho, a passeata dos Vaqueiros. Estima-se que mais de 900 vaqueiros, vestidos a car\u00e1ter, desfilem das ruas da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Civiliza\u00e7\u00e3o do Couro legou ao Brasil al\u00e9m de estradas e povoados, uma mitologia viva. O vaqueiro, com seu chap\u00e9u de couro e seu destino entrela\u00e7ado ao do gado, \u00e9 o Ulisses do sert\u00e3o, her\u00f3i an\u00f4nimo cuja odisseia n\u00e3o se escreveu em livros, mas na pele queimada pelo sol. Em cada passo dado sobre a caatinga, repousa o murm\u00fario de s\u00e9culos de luta e beleza, um testemunho de que, mesmo na terra mais ingrata, o homem pode fincar ra\u00edzes e florescer. Assim, o sert\u00e3o segue sendo, como diria Guimar\u00e3es Rosa, &#8220;o lugar onde a alma n\u00e3o se esconde&#8221;. E os vaqueiros, seus eternos poetas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uau\u00e1 Bahia, 18 de fevereiro de 2025.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Robson Rodrigues de Souza<br \/>\nMembro da Academia Brasileira<br \/>\nde Letras, Artes e Ci\u00eancias da Caatinga.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>T\u00e3o antigo quanto a pr\u00f3pria ocupa\u00e7\u00e3o colonial portuguesa, o of\u00edcio de vaqueiro remonta aos anos de 1550, quando os primeiros cascos de gado pisaram o solo sul-americano sob o c\u00e9u das Terras Brasilis. No governo de Tom\u00e9 de Souza, o gado era solto nos engen<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":479412,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,6],"tags":[],"class_list":["post-479400","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-municipios"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/vaqueiro1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/479400","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=479400"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/479400\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/479412"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=479400"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=479400"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=479400"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}