{"id":481808,"date":"2025-03-15T14:49:07","date_gmt":"2025-03-15T17:49:07","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=481808"},"modified":"2025-03-15T14:49:07","modified_gmt":"2025-03-15T17:49:07","slug":"nao-foi-uma-acao-de-panico-diz-cientista-que-se-fez-de-cobaia-para-tratar-cancer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/nao-foi-uma-acao-de-panico-diz-cientista-que-se-fez-de-cobaia-para-tratar-cancer\/","title":{"rendered":"&#8216;N\u00e3o foi uma a\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico&#8217;, diz cientista que se fez de cobaia para tratar c\u00e2ncer"},"content":{"rendered":"<div class=\"sc-b4c8ccf3-0 fsXNOt\">\n<h3 class=\"sc-b4c8ccf3-1 ireAxk\"><\/h3>\n<div class=\"sc-b4c8ccf3-4 dxBsro\"><\/div>\n<div class=\"sc-b4c8ccf3-5 ccjAte\">\n<div class=\"nameContainer\">\n<p>Por\u00a0Phillippe Watanabe<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"sc-24c322fd-1 laZqPV\">\n<div class=\"sc-24c322fd-2 dQgbLd\">\n<div class=\"imgWrapper\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-481809 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/virna-620x326.webp\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/virna-620x326.webp 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/virna-300x158.webp 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/virna-768x403.webp 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/virna-93x50.webp 93w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/virna-160x84.webp 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/virna-640x336.webp 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/virna.webp 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/div>\n<div class=\"imgCredits\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o \/ FolhaPress<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"sc-24c322fd-3 giHdVV\">\n<p>Beata Halassy, 54, enfrentava pela terceira vez, em cerca de quatro anos, um c\u00e2ncer de mama, exatamente no mesmo lugar. A ideia de repetir os tratamentos j\u00e1 tentados antes n\u00e3o a animava. Mas, segundo ela, uma inspira\u00e7\u00e3o cient\u00edfica surgiu durante uma ora\u00e7\u00e3o. A virologista, a partir da\u00ed, seguiu um caminho ainda mais incomum para o meio e m\u00e9todo cient\u00edficos: a autoexperimenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\n&#8220;Bem, tenho que dizer que rezei muito porque sou religiosa&#8221;, diz Beata \u00e0 Folha em entrevista no \u00faltimo dia 6, refor\u00e7ando algo que, coincidentemente, j\u00e1 est\u00e1 em seu pr\u00f3prio nome. Apesar de associar a inspira\u00e7\u00e3o \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, ela tamb\u00e9m relaciona a ideia ao seu conhecimento cient\u00edfico.<br \/>\nSegundo a virologista, \u00e9 comum no seu dia a dia de trabalho na Universidade de Zagreb, na Cro\u00e1cia, usar c\u00e9lulas para cultivar v\u00edrus. As c\u00e9lulas vivas oferecidas aos v\u00edrus dentro de frascos pl\u00e1sticos acabam destru\u00eddas depois de alguns dias. &#8220;Vi essa imagem na minha mente. Ent\u00e3o, por que isso n\u00e3o aconteceria no meu corpo? E se selecionarmos os v\u00edrus adequados?&#8221;<br \/>\nFoi assim que come\u00e7ou o processo de autoexperimenta\u00e7\u00e3o de Beata.<br \/>\nA partir da\u00ed, Beata conta que ela e outros colegas virologistas come\u00e7aram a pesquisar sobre v\u00edrus oncol\u00edticos. De forma simplificada, esse tipo de terapia se apoia no funcionamento normal dos v\u00edrus. Escolhe-se um tipo de v\u00edrus adequado que \u00e9 aplicado no c\u00e2ncer. O v\u00edrus infecta as c\u00e9lulas cancer\u00edgenas e as destr\u00f3i. O processo ainda pode acabar por estimular o sistema imune do pr\u00f3prio paciente a combater a doen\u00e7a.<br \/>\nParece simples, mas esse campo de pesquisa oncol\u00f3gica ainda tem desafios. De toda forma, j\u00e1 h\u00e1 v\u00edrus oncol\u00edticos aprovados para tratamento em alguns pa\u00edses. Segundo uma revis\u00e3o de 2023 da revista Nature, naquele momento, j\u00e1 havia quatro drogas baseadas em v\u00edrus oncol\u00edticos, a primeira delas aprovada contra melanoma na Let\u00f4nia, em 2004.<br \/>\nMais recentemente, em 2015, a FDA (ag\u00eancia que regulamenta e fiscaliza alimentos e rem\u00e9dios nos EUA) aprovou o T-VEC, tamb\u00e9m para melanoma recorrente. Por fim, em 2021, o Delytact foi aprovado para uso no Jap\u00e3o contra glioblastoma recorrente (uma forma de c\u00e2ncer cerebral). A revis\u00e3o da Nature tamb\u00e9m apontava mais de 300 estudos em andamento.<br \/>\nApesar de trabalhar com v\u00edrus, o campo de pesquisa oncol\u00f3gico n\u00e3o fazia parte da experi\u00eancia de Beata e sua equipe.<br \/>\nSegundo a pesquisadora, a equipe foi atr\u00e1s de v\u00edrus com os quais tinham familiaridade e que estivessem em teste para c\u00e2ncer de mama em modelo animal, mais especificamente em camundongos. O v\u00edrus tampouco poderia ser patog\u00eanico para humanos &#8211;ou seja, causar doen\u00e7as&#8211; ou geneticamente modificado.<br \/>\n&#8220;Portanto, n\u00e3o liberar\u00edamos algo que n\u00e3o existe na natureza. Somos cientistas respons\u00e1veis&#8221;, diz Beata. &#8220;A decis\u00e3o foi usar esse v\u00edrus do sarampo com o qual adquirimos habilidade durante toda a nossa carreira. Esta \u00e9 uma cepa vacinal que tem sido usada h\u00e1 d\u00e9cadas na vacina\u00e7\u00e3o contra o sarampo na Cro\u00e1cia, na antiga Iugosl\u00e1via e ao redor do mundo.&#8221;<br \/>\nPelos mesmos crit\u00e9rios, o outro v\u00edrus selecionado foi o da estomatite vesicular.<br \/>\nA cientista afirma que, a partir da\u00ed, seguiram caminhos diferentes de outros testes que est\u00e3o em curso &#8211;al\u00e9m do \u00f3bvio fato da autoexperimenta\u00e7\u00e3o. Uma das diferen\u00e7as foi n\u00e3o conseguirem produzir solu\u00e7\u00f5es com grande concentra\u00e7\u00e3o de v\u00edrus. Por isso, fizeram diversas aplica\u00e7\u00f5es.<br \/>\nO C\u00c2NCER<br \/>\nTodo o processo mencionado nesta reportagem ocorria em 2020, durante o primeiro ano da pandemia de Covid-19. Ao mesmo tempo em que fazia a autoexperimenta\u00e7\u00e3o, Beata lidava com projetos relacionados aos Sars-CoV-2.<br \/>\nO c\u00e2ncer de mama apareceu pela primeira vez na vida de Beata em 2016 e foi tratado com uma mastectomia e qu\u00edmio. Ele voltou, em 2018, logo abaixo da sutura da cirurgia anterior, e foi novamente retirado. Em 2020, pela terceira vez, o c\u00e2ncer estava l\u00e1.<br \/>\nBeata conta que o progn\u00f3stico n\u00e3o era dos melhores. Havia infiltra\u00e7\u00e3o do c\u00e2ncer no m\u00fasculo e na pele, e se tratava de um c\u00e2ncer triplo-negativo -quando n\u00e3o possui receptores de estrog\u00eanio e progesterona, e n\u00e3o expressa de modo significativo a prote\u00edna HER2, o que acaba limitando as possibilidades de tratamento; costuma tamb\u00e9m ter maior percentual de reincid\u00eancia.<br \/>\n&#8220;De acordo com a experi\u00eancia da minha oncologista, ela disse que, se o c\u00e2ncer come\u00e7ar a voltar, o progn\u00f3stico \u00e9 ruim. Me parecia que est\u00e1vamos caminhando para uma doen\u00e7a cr\u00f4nica, que exigiria o uso constante de algum medicamento. E esses medicamentos, voc\u00ea sabe, n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis&#8221;, diz Beata. &#8220;Ent\u00e3o, eu estava me perguntando se havia alguma chance naquele est\u00e1gio de ficar completamente saud\u00e1vel novamente.&#8221;<br \/>\nApesar do potencial metast\u00e1tico do c\u00e2ncer, a virologista destaca que n\u00e3o era uma paciente terminal. Ela conta tamb\u00e9m que os m\u00e9dicos n\u00e3o ficaram nada felizes ou encorajaram a ideia de autoexperimenta\u00e7\u00e3o, mas continuaram a acompanhando durante todo o processo.<br \/>\n&#8220;Eu via minha doen\u00e7a como uma situa\u00e7\u00e3o de vida ou morte, mas tenho que dizer que estava em paz com isso&#8221;, afirma Beata. &#8220;N\u00e3o foi uma a\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico. Eu processei e aceitei que todos n\u00f3s vamos morrer. Sabe, estou sem palavras para te contar adequadamente, mas, quando voc\u00ea est\u00e1 saud\u00e1vel e poderoso e tudo mais, voc\u00ea n\u00e3o pensa nisso. Mas, na verdade, percebi que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde e estava completamente em paz com isso. Eu aceitei. Eu n\u00e3o estava sob press\u00e3o por causa disso.&#8221;<br \/>\nA autoexperimenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nNas primeiras duas semanas de aplica\u00e7\u00f5es de v\u00edrus, o c\u00e2ncer come\u00e7ou a crescer.<br \/>\n&#8220;Claro que eu estava com medo. Quer dizer, n\u00e3o com medo, mas tamb\u00e9m questionando. Injet\u00e1vamos esse tumor a cada 3, 4 dias. E n\u00e3o apenas uma \u00fanica inje\u00e7\u00e3o, mas v\u00e1rias, em diferentes partes. Ent\u00e3o eu pensava: &#8216;E se n\u00e3o funcionar? Estou apenas fazendo buracos para que ele se espalhe mais facilmente&#8217;.&#8221;<br \/>\nAp\u00f3s isso, por\u00e9m, o c\u00e2ncer passou a diminuir, chegando a ficar duas vezes e meia menor do que no in\u00edcio, e ganhou caracter\u00edsticas pr\u00f3ximas \u00e0s encontradas depois de quimioterapia pr\u00e9-operat\u00f3ria bem-sucedida, diz a virologista, relatando o que lhe teria sido dito por patologistas.<br \/>\n&#8220;Estou em remiss\u00e3o h\u00e1 mais de quatro anos e meio. Ent\u00e3o, veremos como isso vai progredir. E n\u00e3o estou mais tomando nenhum medicamento, apenas realizando exames regulares&#8221;, afirma a virologista.<br \/>\nQUEST\u00d5ES \u00c9TICAS<br \/>\nAo se pensar em autoexperimenta\u00e7\u00e3o, \u00e9 bem prov\u00e1vel que apare\u00e7am quest\u00f5es \u00e9ticas na cabe\u00e7a de qualquer pessoa. O estudo em quest\u00e3o, por exemplo, n\u00e3o passou por um comit\u00ea de \u00e9tica de pesquisa, como seria o normal em testes cl\u00ednicos.<br \/>\n&#8220;Estou convencida de que n\u00e3o foi anti\u00e9tico. N\u00e3o tenho nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o quanto a isso&#8221;, afirma Beata.<br \/>\nEm resposta a um coment\u00e1rio de um revisor do estudo, Beata e os demais autores afirmaram: &#8220;O principal postulado de qualquer considera\u00e7\u00e3o \u00e9tica -que o paciente deve estar totalmente informado- foi completamente cumprido. N\u00e3o h\u00e1 paciente mais bem informado do que aquele que se autoexperimenta&#8221;.<br \/>\nHouve dificuldade para publicar o relato do autoexperimento. Mais de dez revistas cient\u00edficas rejeitaram a publica\u00e7\u00e3o, que acabou saindo em agosto de 2024.<br \/>\nA reportagem procurou especialistas do campo da bio\u00e9tica para comentar o tema. Segundo eles, n\u00e3o h\u00e1, em linhas gerais, regulamenta\u00e7\u00e3o sobre autoexperimenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nHenderson F\u00fcrst de Oliveira, presidente da Comiss\u00e3o Especial de Bio\u00e9tica e Biodireito da OAB-SP, aponta que, apesar de n\u00e3o haver, na legisla\u00e7\u00e3o brasileira, restri\u00e7\u00f5es, algumas situa\u00e7\u00f5es podem exigir o dever de atua\u00e7\u00e3o de outras pessoas, por exemplo, se houve riscos de contamina\u00e7\u00e3o de terceiros.<br \/>\n&#8220;Internacionalmente tamb\u00e9m h\u00e1 um sil\u00eancio no tema&#8221;, afirma Oliveira.<br \/>\nApesar de n\u00e3o podermos vender \u00f3rg\u00e3os, por exemplo, temos autonomia sobre nossos corpos, afirma Elda Bussinguer, presidenta da Sociedade Brasileira de Bio\u00e9tica.<br \/>\n&#8220;N\u00f3s podemos fazer com nossos corpos o que n\u00f3s quisermos. Estou dentro da minha esfera de liberdade. Eu posso fazer experimentos&#8221;, afirma a especialista em bio\u00e9tica. &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o pode fazer no outro, mas em si pr\u00f3prio n\u00e3o h\u00e1 impedimento \u00e9tico.&#8221;<br \/>\nMas, al\u00e9m da \u00e9tica, h\u00e1 quest\u00f5es que dizem respeito \u00e0 pr\u00f3pria pesquisa em si. Bussinguer destaca que o relato de um caso n\u00e3o significa nenhuma descoberta de cura.<br \/>\nE nisso, a pr\u00f3pria Beata concorda.<br \/>\n&#8220;Temos que nos preocupar em deixar claro que este \u00e9 apenas um caso e isso n\u00e3o significa que funcionar\u00e1 para todo mundo. Precisa ser estudado antes. Mas acho que pode dar ideias de como proceder mais rapidamente no desenvolvimento [dessas terapias].&#8221;<br \/>\nE, tentando impactar nessa \u00e1rea de pesquisa, a virologista diz que o foco do seu laborat\u00f3rio agora \u00e9 outro. Terapias por v\u00edrus oncol\u00edticos.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo a virologista, \u00e9 comum no seu dia a dia de trabalho na Universidade de Zagreb, na Cro\u00e1cia, usar c\u00e9lulas para cultivar v\u00edrus. As c\u00e9lulas vivas oferecidas aos v\u00edrus dentro de frascos pl\u00e1sticos acabam destru\u00eddas depois de alguns dias. &#8220;Vi essa imagem na minha mente. Ent\u00e3o, por que isso n\u00e3o aconteceria no meu corpo? 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