{"id":48666,"date":"2014-03-08T17:48:40","date_gmt":"2014-03-08T20:48:40","guid":{"rendered":"http:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=48666"},"modified":"2014-03-08T17:48:40","modified_gmt":"2014-03-08T20:48:40","slug":"cinquenta-anos-depois-do-golpe-livros-trazem-olhar-critico-sobre-feridas-ainda-abertas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/cinquenta-anos-depois-do-golpe-livros-trazem-olhar-critico-sobre-feridas-ainda-abertas\/","title":{"rendered":"Cinquenta anos depois do Golpe, livros trazem olhar cr\u00edtico sobre feridas ainda abertas"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: justify;\"><\/h1>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><em>Per\u00edodo que deixou marcas profundas no Pa\u00eds ainda rende reinterpreta\u00e7\u00f5es<\/em><\/h3>\n<div id=\"bb-md-noticia-tabs\" style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"bb-md-noticia-tabs-1\">\n<div>\n<div>Luiz Zanin Oricchio<\/div>\n<div>\n<p>Como seria f\u00e1cil de prever, a efem\u00e9ride dos 50 anos do Golpe de 1964 constitui ocasi\u00e3o para uma s\u00e9rie de lan\u00e7amentos. N\u00e3o se pode usar propriamente o termo &#8220;comemora\u00e7\u00e3o&#8221; neste caso, mas datas redondas d\u00e3o motivo a balan\u00e7o e reflex\u00e3o sobre eventos hist\u00f3ricos importantes ou traum\u00e1ticos. 1964 foi as duas coisas.<\/p>\n<p>Alguns dos lan\u00e7amentos mais significativos s\u00e3o\u00a0<em>1964: o Golpe<\/em>, de Fl\u00e1vio Tavares (L&amp;PM),<em>Ditadura e Democracia no Brasil &#8211; 1964: 50 anos Depois<\/em>, de Daniel Aar\u00e3o Reis (Zahar) e<em>Ditadura \u00e0 Brasileira: 1964-1985 &#8211; a Democracia Golpeada \u00e0 Esquerda e \u00e0 Direita<\/em>, de Marco Antonio Villa (LeYa).<\/p>\n<p>Entre os relan\u00e7amentos, um destaca-se pela import\u00e2ncia: a tetralogia\u00a0<em>Ditadura (Envergonhada, Escancarada, Derrotada e Encurralada)<\/em>, do jornalista Elio Gaspari. N\u00e3o se trata de reimpress\u00e3o. Doze anos ap\u00f3s a primeira edi\u00e7\u00e3o, Gaspari incorporou bibliografia editada no per\u00edodo e documenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o dispon\u00edvel na \u00e9poca. Essa reedi\u00e7\u00e3o, da Intr\u00ednseca (a primeira foi da Cia das Letras) vem tamb\u00e9m no formato digital. Os e-books t\u00eam a vantagem de remeter a v\u00eddeos e documentos.<\/p>\n<p>Em sua apresenta\u00e7\u00e3o ao volume 1 de\u00a0<em>As Ilus\u00f5es Armadas &#8211; a Ditadura Envergonhada<\/em>, Gaspari nota que a atualiza\u00e7\u00e3o da obra se fazia necess\u00e1ria por dois motivos: a divulga\u00e7\u00e3o das atas de duas reuni\u00f5es do Conselho de Seguran\u00e7a Nacional, em julho de 1968, e a evid\u00eancia de que o golpe contra o governo de Jo\u00e3o Goulart j\u00e1 vinha sendo tramado no gabinete do presidente John Kennedy, desde 1962. Um \u00e1udio registrado em 7 de outubro de 1963, portanto 46 dias antes do seu assassinato em Dallas, mostra Kennedy como um &#8220;campe\u00e3o desse projeto&#8221;. Ou seja, a derrubada do governo brasileiro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.estadao.com.br\/fotos\/castelo1212.jpg\" \/><\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o norte-americana no golpe \u00e9 um dos destaques do livro de Tavares, o \u00fanico que se ocupa exclusivamente da deposi\u00e7\u00e3o de Goulart. Todos os outros \u2013 e Gaspari em quatro volumes \u2013 avan\u00e7am pelo per\u00edodo da ditadura em suas diferentes fases e presidentes \u2013 Castello Branco, Costa e Silva, M\u00e9dici, Geisel e Figueiredo. De uma primeira fase, do golpe em 1964 a 1968, quando se decreta o AI-5 e a ditadura se escancara. Das trevas de1968 at\u00e9 1978, quando os atos institucionais s\u00e3o revogados, vem a Anistia e a transi\u00e7\u00e3o para a democracia, que para alguns se encerra em 1985, com o primeiro governo civil, e para outros se estende at\u00e9 1988, com a Assembleia Constituinte.<\/p>\n<p>Por concentrada, a narrativa de Tavares \u00e9 trepidante. Recria o per\u00edodo tenso vivido pelo Pa\u00eds desde a ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, em 1961, passando pela posse do vice, Goulart, e seu governo atribulado e esgar\u00e7ado por demandas e press\u00f5es \u00e0 esquerda e \u00e0 direita.<\/p>\n<p>Tavares, na \u00e9poca, era colunista do jornal\u00a0<em>\u00daltima Hora\u00a0<\/em>e privava da intimidade de pol\u00edticos e gabinetes de Bras\u00edlia. Foi testemunha dos fatos, o que empresta ao seu relato car\u00e1ter diferenciado.<\/p>\n<p>Tavares destaca como Washington logo entrou no jogo da deposi\u00e7\u00e3o de Jango pelo embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon, e, mais adiante, com colabora\u00e7\u00e3o do seu adido militar, Vernon Walters, que deixou sua miss\u00e3o na It\u00e1lia para conspirar contra o governo brasileiro. Detecta tamb\u00e9m a enxurrada de d\u00f3lares despejada no Brasil ap\u00f3s a reuni\u00e3o entre Kennedy e na Casa Branca em 1962. O dinheiro entrava pelo Royal Bank do Canad\u00e1 e n\u00e3o pelo Bank of America para n\u00e3o despertar suspeitas. De acordo com o autor, mais de 200 candidatos ao Senado, C\u00e2mara Federal e Assembleias Estaduais, considerados amigos dos EUA e inimigos dos comunistas, foram beneficiados com verba generosa. Al\u00e9m disso, financiavam-se institutos como o IP\u00caS e o IBAD, que tinham fun\u00e7\u00e3o de propagar o receio ao &#8220;perigo vermelho&#8221; e preparar o clima do golpe. O fundamental era disseminar o medo, inclusive pelos filmes alarmistas.<\/p>\n<p>H\u00e1 um livro fundamental sobre o assunto, de Denise Assis,\u00a0<em>Propaganda e Cinema a Servi\u00e7o do Golpe: 1962-1964\u00a0<\/em>(Mauad, 2001).<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que o golpe segue uma din\u00e2mica implac\u00e1vel, quando visto em retrospecto. O com\u00edcio da Central do Brasil, de 13 de mar\u00e7o, no Rio, a Marcha da Fam\u00edlia com Deus pela Liberdade, em S\u00e3o Paulo, no dia 19, o clima terr\u00edvel de tens\u00e3o, com o governo apoiado por sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es populares, hostilizado pela classe m\u00e9dia, alguns governadores de Estado, pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e por parte da hierarquia militar. A bomba s\u00f3 precisava de um estopim para explodir e ele veio no dia 25, na forma da rebeli\u00e3o dos marinheiros, liderados por Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, que depois se revelou um agente provocador.<\/p>\n<p>Os militares interpretaram a insurrei\u00e7\u00e3o como insuport\u00e1vel quebra de hierarquia, que serviu de espoleta para o golpe j\u00e1 armado havia muito. Quando o general Olympio Mour\u00e3o Filho come\u00e7ou a descer com suas tropas de Juiz de Fora para o Rio, Goulart ainda pensou que pudesse segurar-se no cargo. Mas seu dispositivo militar foi caindo pe\u00e7a por pe\u00e7a e, avesso \u00e0 resist\u00eancia armada, partiu para o ex\u00edlio. Na v\u00e9spera do golpe, Washington havia enviado \u00e0 costa brasileira uma for\u00e7a-tarefa com a finalidade de apoiar os rebeldes. Chamou-a de Opera\u00e7\u00e3o Brother Sam. Como n\u00e3o foi necess\u00e1ria, j\u00e1 que o governo se desmanchara como castelo de areia, a for\u00e7a-tarefa deu meia-volta e retornou \u00e0 base.<\/p>\n<p>Havia outra alternativa? N\u00e3o se sabe, e a hist\u00f3ria n\u00e3o trabalha sobre hip\u00f3teses. Mas, com tamanho radicalismo, uma polaridade que n\u00e3o comportava meios tons, o clima da Guerra Fria, os caminhos do entendimento pareciam fechados. Como escreve Elio Gaspari, &#8220;Tratava-se de buscar tamanha mudan\u00e7a no poder que, em \u00faltima an\u00e1lise, durante o dia 31 de mar\u00e7o tanto o governo (pela esquerda) como os insurretos (pela direita) precisavam atropelar as institui\u00e7\u00f5es republicanas&#8221;.<\/p>\n<p>Jango ainda tentou um \u00faltimo discurso no Autom\u00f3vel Clube, alternando radicalismo e concilia\u00e7\u00e3o. Era tarde. Precisava escolher um lado e n\u00e3o o fez. Pressionado pelos militares a abandonar a esquerda, negou-se. Alinhar-se radicalmente \u00e0s for\u00e7as populares, tamb\u00e9m lhe era demasiado. &#8220;Esse passo, de natureza revolucion\u00e1ria, Jango n\u00e3o deu&#8221;, comenta Gaspari. Indeciso e abandonado, caiu.<\/p>\n<p>Essa narrativa \u00e9 mais ou menos consensual, porque se at\u00e9m aos fatos, por\u00e9m as interpreta\u00e7\u00f5es divergem em pontos espec\u00edficos e \u00eanfases s\u00e3o colocadas em lugares, pessoas e institui\u00e7\u00f5es diversas. Por exemplo, em Ditadura \u00e0 Brasileira, Villa minimiza a participa\u00e7\u00e3o norte-americana, ao contr\u00e1rio do que se l\u00ea em 1964 &#8211; o\u00a0<em>Golpe<\/em>, de Fl\u00e1vio Tavares, que tamb\u00e9m foi correspondente do Estado. Este ainda acrescenta que o Secret\u00e1rio de Estado, Dean Rusk, chegou a mandar ao novo governo brasileiro a conta de US$ 20 milh\u00f5es pelas despesas com a Opera\u00e7\u00e3o Brother Sam. O embaixador Lincoln Gordon conseguiu convencer Rusk de que n\u00e3o ficava bem para os EUA cobrar pelo apoio a um golpe de Estado, mesmo que este viesse a pretexto de defender a democracia. No entanto, no \u00faltimo cap\u00edtulo do seu livro, Villa garante que &#8220;a participa\u00e7\u00e3o dos EUA nos acontecimentos de 1964 \u00e9 \u00ednfima&#8221;. Sua tese \u00e9 que os radicalismos de direita e de esquerda somaram-se para produzir esse monstrengo hist\u00f3rico e mant\u00ea-lo em p\u00e9.<\/p>\n<p>Quanto durou o per\u00edodo ditatorial \u00e9, tamb\u00e9m, mat\u00e9ria de debate. A cronologia consagrada vai de 1964 a 1985, 21 anos, ou seja, do golpe at\u00e9 quando toma posse o primeiro presidente civil, Jos\u00e9 Sarney, substituindo o eleito pelo Col\u00e9gio Eleitoral, Tancredo Neves, que adoeceu e morreu sem assumir. Mas em seu livro, Daniel Aar\u00e3o Reis entende que a ditadura brasileira durou 15 anos, de 1964 a 1979, seguindo-se um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o at\u00e9 a Constituinte de 1988. Marco Antonio Villa faz um abatimento ainda maior, considerando que o per\u00edodo de 1964-1968 n\u00e3o pode ser considerado ditatorial, mesmo que nele tenha havido uma s\u00e9rie de atos institucionais, cassa\u00e7\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es \u00e0 sociedade civil. Ditadura, para ele, s\u00f3 ap\u00f3s o AI-5.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da cronologia n\u00e3o \u00e9 neutra. De acordo com Aar\u00e3o Reis, considerar ditadura da derrubada do governo Goulart ao momento em que um civil reassume a presid\u00eancia equivale a limitar tanto o golpe como o regime exclusivamente ao \u00e2mbito de responsabilidade militar. Sua tese \u00e9 de que houve um cons\u00f3rcio entre militares e civis que permitiu a vit\u00f3ria do golpe de Estado e o estabelecimento do regime, no qual os militares ocupavam o topo da pir\u00e2mide do poder, mas n\u00e3o eram seus exclusivos benefici\u00e1rios e mantenedores. Em narrativa cr\u00edtica e enxuta, Reis toca nesse ponto inc\u00f4modo, o de que n\u00e3o existem ditaduras sem coniventes e colaboradores, tal como sucedeu na Alemanha nazista, na Fran\u00e7a ocupada ou no fascismo italiano.<\/p>\n<p>Aconteceu tamb\u00e9m aqui no Brasil. E se esse per\u00edodo traum\u00e1tico e recente ainda enseja tanta paix\u00e3o e reinterpreta\u00e7\u00f5es \u00e9 porque deixou fundas marcas no Brasil, feridas abertas ainda hoje, com muitos dos seus protagonistas vivos e atuantes. Caracter\u00edsticas de 1964, como a polariza\u00e7\u00e3o sem tr\u00e9gua e o instinto golpista ainda sobrevivem entre n\u00f3s, com outras roupas. Sente-se nesses livros, por\u00e9m, que a pura paix\u00e3o, ainda que presente em suas p\u00e1ginas, concede espa\u00e7o \u00e0 racionalidade, sem a qual n\u00e3o se compreendem os traumas e nem mesmo a ventura de um pa\u00eds.<\/p>\n<p>Como diz Reis no belo enganche final de sua obra, &#8220;n\u00e3o h\u00e1 como se libertar da ditadura sem pensar nela&#8230; e o pensamento cr\u00edtico pode constituir a melhor defesa da democracia.&#8221; Este poderia ser um ponto de consenso entre autores t\u00e3o divergentes.<\/p>\n<p>Fonte: Estado de S. Paulo<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Per\u00edodo que deixou marcas profundas no Pa\u00eds ainda rende reinterpreta\u00e7\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":48667,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-48666","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/castelo1212.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48666"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48666\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48667"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}