{"id":494889,"date":"2025-07-16T07:18:39","date_gmt":"2025-07-16T10:18:39","guid":{"rendered":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/?p=494889"},"modified":"2025-07-16T07:18:39","modified_gmt":"2025-07-16T10:18:39","slug":"de-ladrao-de-banco-a-chefe-de-faccao-a-ascensao-e-queda-de-ze-de-lessa-a-mente-por-tras-do-bonde-do-maluco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/de-ladrao-de-banco-a-chefe-de-faccao-a-ascensao-e-queda-de-ze-de-lessa-a-mente-por-tras-do-bonde-do-maluco\/","title":{"rendered":"De ladr\u00e3o de banco a chefe de fac\u00e7\u00e3o: A ascens\u00e3o e queda de Z\u00e9 de Lessa, a mente por tr\u00e1s do Bonde do Maluco"},"content":{"rendered":"<div class=\"sc-24c322fd-0 imQYhj\">\n<div class=\"sc-b4c8ccf3-0 fsXNOt\">\n<div class=\"sc-b4c8ccf3-4 dxBsro\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"sc-b4c8ccf3-5 ccjAte\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"nameContainer\">\n<p>Por Ana Clara Pires, do BN<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-494890 size-large\" src=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ze-ladrao-620x326.webp\" alt=\"\" width=\"620\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ze-ladrao-620x326.webp 620w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ze-ladrao-300x158.webp 300w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ze-ladrao-768x403.webp 768w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ze-ladrao-93x50.webp 93w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ze-ladrao-160x84.webp 160w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ze-ladrao-640x336.webp 640w, https:\/\/acaopopular.net\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/ze-ladrao.webp 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"sc-24c322fd-1 laZqPV\" style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"sc-24c322fd-2 dQgbLd\">\n<div class=\"imgCredits\">Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"sc-24c322fd-3 giHdVV\">\n<p><strong>Nas trilhas poeirentas da caatinga baiana, entre mandacarus e aroeiras que desafiam a secura do sert\u00e3o, nasceu o homem que viria a liderar a fac\u00e7\u00e3o mais temida da Bahia. Jos\u00e9 Francisco Lumes, o Z\u00e9 de Lessa, brotou do pequeno povoado de Recife, em Cafarnaum, munic\u00edpio com pouco mais de 2 mil habitantes. Era uma terra silenciosa, silenciosa demais para imaginar que ali surgiria um dos maiores criminosos da hist\u00f3ria do estado.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A origem de seu apelido remonta \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es do interior: possivelmente herdado do pai, Idal\u00e9cio, conhecido como \u201cLessa\u201d. E foi como Z\u00e9 de Lessa que ele se tornou um nome sussurrado com temor nos corredores do sistema penal, nos becos das favelas e nas salas da pol\u00edcia judici\u00e1ria.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ningu\u00e9m sabe dizer com precis\u00e3o quando ele cruzou a linha da legalidade, mas h\u00e1 quem diga que tudo come\u00e7ou com roubos a banco. Em 2015, o delegado Jorge Figueiredo o classificava como o maior assaltante de bancos e carros-fortes da Bahia. J\u00e1 em 2018, os cinco processos encontrados em seu nome estavam relacionados ao tr\u00e1fico de drogas, e descreviam uma quadrilha de \u201cextrema periculosidade\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201c\u00c9 um cara bem tranquilo de conversa, n\u00e3o demonstra ser uma pessoa violenta. \u00c9 bem articulado\u2026 quem bota as armas na Bahia hoje \u00e9 ele\u201d, informou uma fonte policial \u00e0 \u00e9poca. Segundo a investiga\u00e7\u00e3o, as armas vinham do Paraguai, escondidas em caminh\u00f5es de carga.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mas o rosto do crime nem sempre se confunde com o estere\u00f3tipo da brutalidade. Para quem o conheceu, Z\u00e9 de Lessa era educado, discreto, falava baixo. Sua imagem destoava do imp\u00e9rio criminoso que erguera: o Bonde do Maluco (BDM), fac\u00e7\u00e3o nascida sob sua lideran\u00e7a, considerada a mais truculenta do estado. Suas opera\u00e7\u00f5es alcan\u00e7avam o tr\u00e1fico internacional, assaltos cinematogr\u00e1ficos e sequestros meticulosos.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.bahianoticias.com.br\/noticia\/306484-faccoes-criminosas-remodelam-violencia-na-bahia-em-meio-a-disputas-territoriais-aliancas-e-transformacoes-internas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-mrf-link=\"https:\/\/www.bahianoticias.com.br\/noticia\/306484-faccoes-criminosas-remodelam-violencia-na-bahia-em-meio-a-disputas-territoriais-aliancas-e-transformacoes-internas\">A hist\u00f3ria do Bonde do Maluco come\u00e7a antes de Z\u00e9 de Lessa assumir o controle<\/a>. Em 2015, a fac\u00e7\u00e3o Caveira, um dos grupos mais violentos da capital baiana, decidiu criar um bra\u00e7o externo com o objetivo de ampliar sua influ\u00eancia em Salvador e na Regi\u00e3o Metropolitana. Batizaram esse bra\u00e7o de BDM. A meta era clara: tomar \u00e1reas estrat\u00e9gicas como o Sub\u00farbio Ferrovi\u00e1rio e Cajazeiras. No entanto, o projeto sofreu um racha interno de causas ainda obscuras. Foi o suficiente para que o Bonde do Maluco deixasse de ser sat\u00e9lite da Caveira e ganhasse vida pr\u00f3pria, sob a batuta de Z\u00e9 de Lessa, j\u00e1 ent\u00e3o um assaltante com conex\u00f5es fora da Bahia.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Com Lessa, o BDM deixou de ser uma fra\u00e7\u00e3o local e passou a se profissionalizar. Foi ele quem abriu caminho para o alinhamento direto com o Primeiro Comando da Capital (PCC), de S\u00e3o Paulo. O que antes era apenas uma troca comercial com a Caveira, virou alian\u00e7a estrat\u00e9gica entre o BDM e os paulistas. A partir de 2018, o pacto passou a ser monitorado pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a: armas pesadas (fuzis, explosivos, muni\u00e7\u00e3o) come\u00e7aram a circular com mais intensidade. Com apoio financeiro, log\u00edstica e know-how, o Bonde do Maluco cresceu em ritmo acelerado, avan\u00e7ando sobre bairros, comunidades e at\u00e9 sobre fac\u00e7\u00f5es inteiras.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A ascens\u00e3o do BDM coincidiu com o decl\u00ednio da pr\u00f3pria Caveira, sua criadora. A estrutura antiga foi sendo engolida pelo grupo dissidente e tamb\u00e9m sofreu ataques de rivais hist\u00f3ricos, como o Comando da Paz (CP), que por sua vez foi absorvido pelo Comando Vermelho. Era o reflexo da nova ordem do crime baiano, cada vez mais conectado com o eixo Rio\u2013S\u00e3o Paulo.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Enquanto isso, Z\u00e9 de Lessa seguia acumulando poder \u2014 e processos. Preso em 2001 por tr\u00e1fico, percorreu as pris\u00f5es da Regi\u00e3o Metropolitana de Salvador como quem muda de endere\u00e7o. Teve progress\u00e3o de pena para o semiaberto em 2005, mas fugiu. Foi recapturado meses depois e, desde ent\u00e3o, manteve uma rotina de fugas, puni\u00e7\u00f5es disciplinares, e influ\u00eancia crescente, inclusive de dentro da cadeia. Em 2013 e 2014, foram encontrados celulares e chips atribu\u00eddos a ele dentro da penitenci\u00e1ria. Era uma lideran\u00e7a que n\u00e3o se apagava com grades.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em 2014, quase perdeu a vida na pris\u00e3o ap\u00f3s uma tentativa de homic\u00eddio. Foi espancado por outros detentos. A justificativa? Sua posi\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Naquele mesmo ano, conseguiu um feito raro: converteu sua pena em pris\u00e3o domiciliar. A justificativa jur\u00eddica foi um problema m\u00e9dico. Sua m\u00e3o esquerda, atrofiada ap\u00f3s um acidente de carro mal tratado, exigia uma cirurgia delicada. O desembargador Aliomar Britto aceitou os argumentos da defesa com base no princ\u00edpio da dignidade humana.<br \/>\nZ\u00e9 de Lessa foi solto. N\u00e3o fez a cirurgia. Nunca mais voltou.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O advogado Paulo C\u00e9sar Pires, que o defendeu, diz que nunca mais teve contato com o ex-cliente. \u201cTratando-se de assaltante, os m\u00e9dicos n\u00e3o fizeram um trabalho bom na m\u00e3o dele. Aquilo impossibilitava de fazer algumas coisas b\u00e1sicas da vida.\u201d A promessa era de fisioterapia di\u00e1ria, pinos importados de S\u00e3o Paulo, reabilita\u00e7\u00e3o, nada disso ocorreu.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O Minist\u00e9rio P\u00fablico, c\u00e9tico desde o in\u00edcio, tentou impedir a sa\u00edda. A ju\u00edza da 2\u00aa Vara de Execu\u00e7\u00f5es Penais \u00e0 \u00e9poca, Andremara dos Santos, negou o pedido de pris\u00e3o domiciliar. Mas, cinco dias depois, o desembargador da inst\u00e2ncia superior decidiu pela soltura. Z\u00e9 de Lessa sumiu no mundo.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o havia tornozeleiras eletr\u00f4nicas dispon\u00edveis na Bahia em 2014. O sistema, fr\u00e1gil e desarticulado, n\u00e3o p\u00f4de controlar um homem que planejava crimes enquanto se passava por doente.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Da clandestinidade, Z\u00e9 de Lessa comandava a\u00e7\u00f5es de alto impacto. Seu nome apareceu por tr\u00e1s do assalto de R$ 100 milh\u00f5es a uma ag\u00eancia banc\u00e1ria em Bacabal, no Maranh\u00e3o, em 2018. Segundo a SSP-MA, ele orquestrava o crime do Paraguai. Quem executava era seu irm\u00e3o, Edielson Francisco Lumes, o D\u00f3, morto pela pol\u00edcia ap\u00f3s o roubo.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Outro nome de confian\u00e7a era Franklin Costa Ara\u00fajo, seu cunhado, apontado como o principal sequestrador da Bahia. Ex-seguran\u00e7a do Banco do Brasil, Franklin aprendeu a rotina banc\u00e1ria por dentro, e depois a explorou por fora, ao lado do cunhado foragido.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Enquanto isso, Z\u00e9 de Lessa era a carta \u00c1s de Ouro no Baralho do Crime da SSP-BA. O homem mais procurado da Bahia.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em 4 de dezembro de 2019, o cerco se fechou.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Z\u00e9 de Lessa estava escondido em uma fazenda entre Coronel Sapucaia e Aral Moreira, no Mato Grosso do Sul, territ\u00f3rio de fronteira, tr\u00e2nsito livre de armas e drogas. Segundo a Pol\u00edcia Militar, ap\u00f3s uma tentativa de assalto a carro-forte na Rodovia MS-156, agentes localizaram o esconderijo. Houve troca de tiros. Lessa foi morto.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Assim morreu o homem que, por anos, confundiu a justi\u00e7a com relat\u00f3rios m\u00e9dicos, usou a pr\u00f3pria fragilidade f\u00edsica como trunfo jur\u00eddico e transformou a calma do sert\u00e3o em ponto de partida para um reinado de viol\u00eancia.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O legado de Z\u00e9 de Lessa \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o sobre como o crime, quando se organiza, sabe ser paciente, educado e letal.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div class=\"sc-a2085f8e-0 gKIthy\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>\n<div id=\"Div_Feed_Desktop_Mobile_Advision_3\" class=\"sc-c056192d-0 hHMtsr\" style=\"text-align: justify;\" data-google-query-id=\"CKeUl9mSwY4DFQ2DYQYddcoQ-Q\"><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A origem de seu apelido remonta \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es do interior: possivelmente herdado do pai, Idal\u00e9cio, conhecido como \u201cLessa\u201d. 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